Otamar de Carvalho 1
Dou-me a exercício de lhes mostrar a seca; quando e como se processa tão vil despojamento da natureza; a retirada sem ingratidões, tática, dos que renunciam amargurados à fidelidade da convivência telúrica; e emigram, regressam um dia para reelaborar tudo outra vez, os verdes principalmente, a irreprimível amor pelo Ceará. (Eduardo Campos, 1983: 17.)2
Além desta apresentação, este capítulo contempla os seguintes tópicos: Introdução; Dimensões e manifestações das secas; As áreas de ocorrência de secas no Nordeste; Mudanças climáticas, deser- tificação e secas; Impactos das secas; Redes de infraestrutura hídrica e de proteção social; e Consi- derações finais. Uma listagem das referências bibliográficas consultadas e/ou referidas também é apresentada ao final.
Introdução
O enfrentamento das questões subjacentes à escassez (relativa) de água no Nordeste tem sido pautado pela variabilidade climática e, no limite, pela ocorrência de secas na região – anuais ou plurianuais. No presente, e mais ainda no passado, os problemas relacionados a essa problemática foram submetidos a estudos em boa medida resultantes das pressões sociais levadas a público pela imprensa. Giacomo Raja Gabaglia, importante membro da Comissão Científica de Exploração, inte-
1 Economista e Doutor em Economia, é pesquisador da Geoeconomica, Estudos e Pesquisas em Sustentabilidade, empresa sediada no Rio de Janeiro. Agradeço as sugestões oferecidas por Margarida C. L. Mattos. Não lhe cabe, porém, qualquer responsabilidade por eventuais equívocos derivados da incorporação que eu tenha feito de suas sugestões. Igualmente, quero agradecer às pesqui- sadoras da Funceme Margareth Silvia Benicio de Souza Carvalho e Meiry Sakamoto, assim como a Hypérides Pereira de Macedo, pelas informações que me disponibilizaram sobre as ocorrências de secas no Nordeste e no Ceará dos anos de 2000 a 2010. 2 CAMPOS, Eduardo. A viuvez do verde; ensaio. Fortaleza: Edições Imprensa Oficial do Ceará, 1983.
grada por cientistas enviados, em janeiro de , ao Ceará, por D. Pedro II (BRAGA, : -), abre espaço que respalda esta percepção. A tal percepção se seguem também vislumbres sobre os permanentes apoios demandados do governo:
Na hora em que escrevemos [], Pernambuco e Bahia gemem sob os horrores dos resultados desta calamidade, e ainda se deve ter na mente os artigos publicados no Correio Mercantil, do Rio, pelo ilustrado Sr. Dr. Viriato de Medeiros. Queixumes erguidos da imprensa e de longa data têm tornado inseparáveis ao pensamento de qualquer brasileiro – Província do Ceará e calami- tosa falta de chuvas – e, como lei invariável e insuperável de desastres, se admitem as secas em dadas zonas do Norte do Império Americano. Segundo uns, o Ceará é o Jó do Norte, condenado por fenômenos superiores à vontade do homem, e este deve confessar-se vencido pela natureza e dizer: observarei e fugirei. Segundo outros, empregando esta ou aquela medida auxiliar adminis- trativa, se cortaria o mal, mas frequentemente com a condição que o governo se tornasse como que o pai generoso, que abre a bolsa ao filho perdulário, que no ócio e no deleite se esquece do dia de amanhã. (Raja Gabaglia, : -.)
Secas como as de , , e impuseram prejuízos de magnitude e natureza variada sobre os viventes nas áreas semiáridas do Nordeste. Complicaram a vida de milhares e milhares de nordes- tinos residentes no espaço cognominado de Polígono das Secas, instituído como figura oficialmente “protegida” pelos governos da União e dos estados. Antes daquelas secas, por seus impactos para- digmáticos, reconhecidos em todo o país, a mais notada foi a de -. Isto ocorreu não apenas
por seus efeitos sobre os seres humanos mortos, o número de animais dizimados e o destroçamento da frágil economia sertaneja. Assim também foi por causa das descrições e registros efetuados sobre aqueles três anos, em proporção ampla, comparadas às descrições produzidas sobre secas plurianuais anteriores, como a de -. Apesar de intensa, pouco se escreveu sobre aqueles anos de extrema dificuldade. Interessante é notar que essas secas têm sido dadas e tidas como mais comuns ao Ceará
do que a outras províncias das áreas afetadas pelas secas no espaço hoje conhecido como Nordeste do Brasil.
3 Os livros de Rodolfo Teófilo – a “História da Seca de 1877-1880” (1922) e “A Fome” (1979) – contribuíram para a notoriedade dessa seca. Sua temática ainda desperta interesses atualmente, como prova o esforço realizado por Cicinato Ferreira Neto, com o livro “A Tragédia dos Mil Dias: a Seca de 1877-79 no Ceará”, publicado em 2006.
4 Isto parece dever-se ao peso da produção historiográfica do (ou sobre o) Ceará, gerada por pensadores como Giacomo Raja Gabaglia (1877), Viriato de Medeiros (1877), Marco Antonio de Macedo (1878), Thomas Pompeu de Souza Brasil (1909), Gui- lherme Studart (1910), Joaquim Alves (1958) e Thomas Pompeu Sobrinho (1958).
5 Pernambuco legou estudos importantes, dentre os quais cabe referir os “Trabalhos do Congresso Agrícola do Recife”, de outubro de 1878. (1978).
As grandes secas mencionadas, assim como a seca plurianual de - – que afetou até o presente o maior número de pessoas no Semiárido Nordestino –, produziram notáveis e variados impactos. Por sua magnitude exigiram múltiplas respostas por parte dos governos e da sociedade. Ao longo dos mais de anos, que vêm de para cá, houve inúmeras mudanças a respeito da
ocorrência das secas, seja em relação ao avanço do conhecimento dos fatores que a produzem ou em relação aos esforços realizados para atender as populações por elas afetadas.
Na segunda década do século XXI, já se dispõe de informações que permitem relativizar a dureza das palavras do poeta Gonzaga Jr. (o Gonzaguinha), quando diz: “Pobreza, por pobreza/ sou pobre em qualquer lugar,/ a fome é a mesma fome que vem me desesperar”. Isso já não é tanto assim,
porque o Nordeste passou a contar com redes de infraestrutura hídrica e redes sociais de proteção às famílias mais carentes das áreas semiáridas do Nordeste, com base nas quais alguns anos de seca fortes, do ponto de vista meteorológico, são quase despercebidos por boa parte da população. Foi o que ocorreu com a seca de , especialmente no Ceará, como se verá no item .. adiante. Os estudos realizados sobre as secas, nos anos de sua ocorrência, como os produzidos de até , contribuíram para que se dispusesse de uma melhor compreensão dos seus impactos. Neste sentido, foram produzidos os seguintes:
i) Banco do Nordeste do Brasil (BNB). A seca de ; consequência da seca e sugestões para minimizar seus efeitos. Fortaleza: . S. n. t.;
ii) Ministério do Interior-Minter. DNOCS. Frentes de serviço; estudo socioeconômico da população atingida pela seca de . Fortaleza: DNOCS, . p. Il.;
iii) PESSOA, Dirceu & CAVALCANTI, Clóvis. Caráter e efeito da seca nordestina de . Re- cife: Sudene. Assessoria Técnica, . p. Il. (Pesquisa e estudos realizados pelo SIRAC – Serviços Integrados de Assessoria e Consultoria.)
iv) Ministério do Interior-Minter. Sudene. Frentes de serviço; estudo socioeconômico da pop- ulação atingida pela seca de . Recife: . Xerox. p. Il.
v) PESSOA, Dirceu; CAVALCANTI, Clóvis; PANDOLFI, Maria Lia; & GUIMARÃES NETO, Leonardo. A seca nordestina de -. Recife: Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Ceará; Sudene & Fundaj, . p. Il. + Anexos, com mapas climáticos;
6 Em "A Revolução Nordestina-1", Rinaldo dos Santos (1984) informa, com base em documentos do Padre Serafim Leite, que a primeira seca no Nordeste teria ocorrido nos sertões da Bahia, em 1559. Lopes de Andrade informara anteriormente, com base no testemunho do beneditino Loreto do Couto, que o primeiro ano de fome produzida pela seca no Brasil acontecera em 1564. Cf. Lopes de Andrade. "Introdução à sociologia das secas". Prefácio de Gilberto Freyre. Rio de Janeiro: A Noite, 1948, p. 76. (Nota de pé-de-página 2.)
vi) MAGALHÃES, Antonio Rocha & BEZERRA NETO, Eduardo. Orgs. Impactos sociais e econômicos de variações climáticas e respostas governamentais no Brasil. Fortaleza: Imp- rensa Oficial do Ceará, . p.;
vii) CARVALHO, Otamar de. Coord., EGLER, C. A. G. & MATTOS, Margarida M. C. L. Variabili- dade climática e planejamento da ação governamental no Nordeste semiárido – avaliação da seca de . Brasília: SEPLAN-PR & IICA, . p. Il.;
viii) DUARTE, Ricardo. A seca nordestina de -: da crise econômica à calamidade so- cial. Recife: Sudene & Fundaj, . p. Il.; e
ix) ALBUQUERQUE, Roberto Cavalcanti de. Nordeste: uma estratégia para vencer o desafio da seca e acelerar o desenvolvimento. Recife: Sudene, . (Coleção, Sudene anos.). p. Il.
Os estudos referidos desvendaram várias particularidades das secas, em suas múltiplas dimensões. Pôde-se, por exemplo, a partir da pesquisa sobre a “Seca de ”, identificar os segmentos mais frágeis da população afetada pelas secas e a natureza de seus diferentes impactos sobre os traba- lhadores rurais sem terra e os pequenos proprietários. (PESSOA & CAVALCANTI, .) Mostraram também – durante a “Seca de ” – a importância da organização social que começava a ser construída por esses atores sociais. (MAGALHÃES & BEZERRA NETO, Orgs., : -.) (Veja-se o Quadro . adiante.)
As evidências a este respeito vão sendo notadas por conta da diminuição relativa da população rural no Semiárido. Embora importante, essa mudança é grave, pois embute um novo problema: o crescimento urbano nas cidades de todos os portes do Semiárido, pari passu ao crescimento da rurbanização. Com essas mudanças ampliam-se as dimensões e escalas das secas, devendo-se notar
que tais alterações não expressam a ocorrência de menor número de secas menos intensas. As secas vêm há já algum tempo, pelo menos de fins dos anos de para cá, sendo (re)conhecidas como parte integrante do fenômeno das mudanças climáticas. O domínio do processo de causação das secas tem permitido ao Brasil fazer progresso em relação ao estudo dessas mudanças. As contribui- ções mais importantes a este respeito são devidas, em boa medida, aos estudos e pesquisas reali- zados pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), por intermédio do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE), e pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), por meio da Secretaria de Biodiversidade e Florestas e da Secretaria de Mudanças Climáticas e Qualidade Ambiental.
8 Veja-se, sobre o assunto: FREYRE, Gilberto. "Rurbanização: que é?" Recife, [IJNPSO], 1961. (Reeditado, em 1982, pela Ed. Massan- gana, sob o mesmo título.) Para Gilberto Freyre, rurbanização é um “processo de desenvolvimento socioeconômico que combina, como formas e conteúdos de uma só vivência regional (a do Nordeste, por exemplo ou nacional – a do Brasil como um todo) valores e estilos de vida rurais e valores e estilos de vida urbanos. Daí o neologismo rurbano.” (Op. cit., p. 57.)
Quadro 2.1 – A seca como fator de organização social e participação da comunidade
“Pela primeira vez, [durante a ‘Seca de 1987’, no Ceará], as comunidades foram convocadas a participar de diferentes fases do Programa (de Emergência). Desde logo, na fase de eleição das metas localizadas. Com isso, pretendeu-se evitar dois equívocos. De um lado, o de as metas serem preconcebidas pelo Governo e em seguida impostas de cima para baixo, com as impropriedades de quem tem a percepção técnica (intelectual) dos problemas, mas não a percepção vivencial. De outro lado, o equívoco de as metas serem identificadas de baixo para cima, no sentido Comunidade-Governo, e, portanto mescladas por limitações de outra natureza.
A solução consistiu na adoção combinada dos dois métodos, dentro da expectativa de que é possível ultrapassar, pela soma deles, as insuficiências de cada um. Assim, o Governo contribuiu com o ‘Plano de Mudanças’ (1987-1991), que nasceu de amplo debate com os mais diferentes segmentos da sociedade, quer durante a fase política que antecedeu as eleições estaduais, quer em seguida à instalação do governo eleito. Por isso, foi possível fazer do ‘Plano de Mudanças’ o documento matriz ou, como dito antes, balizador das metas do Programa.
As Comunidades, ao apresentarem, através dos Grupos de Ação Comunitária, suas reivindicações, para a preparação do Programa, fizeram-no com o senso do concreto, de que se encontravam na condição insubstituível de sujeito situado no epicentro do problema, na sua múltipla dimensão: (a) climática; (b) econômica; (c) social; e (d) ecológica. Sujeito, portanto, do qual, legitimamente, partiram demandas e para o qual, de modo igualmente legítimo, convergiram resultados.
(...) O principal resultado (da experiência) foi qualitativo: a possibilidade de execução de uma ação emergencial capaz de superar as principais dificuldades desse tipo de ação quer de natureza política, técnica ou financeira; a viabilidade de utilização de toda a máquina do Estado na execução de uma programação adaptada, porém coerente com seus objetivos permanentes; o cumprimento de critérios objetivos, independentes de injunções políticas de curto prazo. Isso foi possível por causa do processo de redemocratização no Brasil, que permitiu a descentralização do poder e a participação do público-meta; e pela emergência, no Estado do Ceará, de governantes oriundos de uma nova classe política ligada a valores urbano-industriais, em detrimento de classe política tradicional, ligada à propriedade de grandes áreas de terra. (...)
O Estado, ao tomar a iniciativa de promover os direitos das comunidades, explicitados através da participação, se expôs às demandas que daí para frente passaram a ser exercitadas por elas, inclusive no tocante à preservação da fidelidade da execução à concepção do Programa e à sua doutrina. As comunidades assumiram a prerrogativa de indicar que obras se lhes afiguravam válidas; exerceram vigilância no sentido de que se realizassem obras, cujos resultados fossem passíveis de fruição social versus realização de obras em médias e grandes propriedades; reivindicaram a manutenção do nível de remuneração da bolsa de trabalho equivalente ao valor do salário mínimo; demandaram a fixação de um calendário de pagamento dessas bolsas.” (Magalhães, Vale, Peixoto & Ramos. “Organização governamental para responder a impactos de variações climáticas”. In: Magalhães & Bezerra Neto. Orgs., 1991: 42-43.)