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Vulnerabilidade e sustentabilidade

No documento t001-aQuestaoDaAguaNoNordeste (páginas 111-115)

Nossa introdução apresentou o conceito de balanço hídrico e mostrou como a relação P/ETP, calcu- lada em termos médios num período longo, denominada índice de aridez, pode ser utilizada para caracterizar o clima de uma região. Entretanto, na região do nordeste brasileiro, os valores de P e ETP apresentam uma enorme variabilidade de ano para ano, denominada de variablidade climática, o que torna necessária a modificação do sistema natural através da construção de grandes obras hídricas, entre estes reservatórios, canais e adutoras, o que permitem o transporte da água no tempo. Desta forma, a água que não é utilizada em um ano úmido pode ser utilizada em um momento de escassez hídrica para aqueles usos beneficiados por estes investimentos. Esta infraestrutura permite, assim, uma maior garantia aos usos da água, reduzindo em parte a vulnerabilidade do sistema quanto à disponibi- lidade de água para os mais diversos usos em um ano de escassez hídrica, e em contrapartida aumen- tando a sua sustentabilidade.

A necessidade de modificar o sistema natural torna-se ainda maior na medida em que a variabilidade natural dos deflúvios naturais é maior. A Figura . abaixo mostra o coeficiente de variação dos deflú- vios anuais (CV ) associados a algumas bacias da Região Nordeste, ou seja, a razão entre o desvio

padrão e a média dos deflúvios anuais. Esta estatística dá uma idéia da variabilidade das séries de vazões anuais, sendo a variabilidade maior para valores altos de CV. Como se pode observar, para o Norte do Nordeste, a grande maioria dos CVs anuais são superiores a ,, alguns atingindo valores maiores do que , , valores considerados altos em comparação com outras regiões do Brasil. Um coefi- ciente de variação de uma série igual a , significa que o seu desvio médio em relação a sua média é  superior a esta média. Além disso, vale notar que a maioria dos rios no Nordeste tem vazão nula durante o período seco, o que mostra claramente a necessidade de modificar o sistema natural para atender às necessidades humanas.

A vulnerabilidade de uma dada bacia hidrográfica com relação ao balanço hídrico refere-se a sua fragili- dade em ofertar água em quantidade suficiente para atender as suas demandas. Por outro lado, a capa- cidade de uma bacia atender as suas demandas durante um período de tempo nos remete ao conceito de sustentabilidade hídrica. Fica evidente que estes conceitos estão intrisicamente relacionados e que dependem das demandas a serem atendidas e dos riscos aceitáveis associados a este atendimento. Os níveis de vulnerabilidade e sustentabilidade podem ser avaliados através do uso de indicadores, avaliados para o cenário atual e projetado (ou tendencial) para um dado horizonte (Brasil,  -

5 Coeficiente de variação (CV) é uma medida de dispersão dos dados históricas, sendo calculada pela razão entre o desvio-padrão e a média de uma série histórica.

Projeto Áridas). Define-se ainda um cenário desejado para o horizonte escolhido, o que nos permite o estabelecimento de medidas necessárias para alcançar o cenário desejado a partir do conhecimento dos cenários atual e projetado.

< 0,30 CV 0,30 - 0,50 0,50 - 0,70 0,70 - 0,90 0,90 - 1,10 1,10 - 1,30 1,30 - 1,50 1,50 - 1,70 > 1,70

Figura 3.5 - Coeficiente de variação dos deflúvios anuais associados a algumas bacias da região Nordeste

No relatório Conjuntura Atual da Agência Nacional de Águas (Brasil, ) é apresentada uma breve análise da situação crítica atual dos recursos hídricos segundo um sistema de indicadores desen- volvido por Maranhão (). Aqui é feito um recorte para região dos indicadores Disponibilidade Hídrica (Figura .), Usos dos Recursos Hídricos (Figura .), Vulnerabilidade (Figura .) e Gestão dos Recursos Hídricos (Figura .) mostrando-se as bacias do Atlântico Nordeste Oriental, Atlântico Nordeste Ocidental, Atlântico Leste, Parnaíba e São Francisco. Estes indicadores são médias ponde- radas dos seguintes subindicadores:

0,85 a 1,00/alta disponibilidade 0,65 a 0,85 0,50 a 0,65 0,10 a 0,50 <0,10/baixa disponibilidade (a) 0,85 a 1,00/baixa vunerabilidade 0,65 a 0,85 0,50 a 0,65 0,10 a 0,50 <0,10/alta vunerabilidade (b) 0,85 a 1,00/baixa vunerabilidade 0,65 a 0,85 0,50 a 0,65 0,10 a 0,50 <0,10/alta vunerabilidade (c) 0,85 a 1,00 0,65 a 0,85 0,50 a 0,65 0,10 a 0,50 <0,10 (d) Adaptado de Brasil, .

Figura 3.6 - Situação atual das dimensões (a) disponibilidade hídrica, (b) usos, (c) vulnerabilidade e(d) agregado

destas três dimensões nas bacias hidrográficas da Região Nordeste.

Disponibilidade Hídrica: D – disponibilidade hídrica alocável = (disponibilidade hídrica total – soma da vazão consumida)/disponibilidade hídrica total, sendo a vazão consumida a diferença entre a vazão de retirada e o retorno. D – relação entre a vazão média de longo termo e a disponibilidade hídrica total.

Usos: U – relação entre somatório das vazões de retirada e vazão média. U – relação entre carga de DBO lançada nos rios e a capacidade de assimilação do corpo d’água, considerando o limite da classe  de enquadramento, conforme Resolução Conama no /.

Vulnerabilidade: V – relação entre área de cobertura vegetal nativa e a área total da bacia. V – relação entre a quantidade de resíduos sólidos com destinação adequada e a quantidade de resíduos sólidos produzida.

Gestão dos Recursos Hídricos: G – suíte institucional – pontuação segundo os seguintes aspectos: órgão gestor independente, constituição de CBH, plano elaborado e aprovado, cobrança e agência de bacia. G – suíte instrumental – existência de plano, outorga, cobrança, enquadramento e sistema de informações. A análise das Figuras .-. mostra que as bacias mais críticas da Região Nordeste em termos de disponi- bilidade, usos e vulnerabilidade (Figura .) são aquelas que, em geral, apresentaram os indicadores mais elevados de gestão (Figura .). Conforme já apontado em Brasil (), isso revela o fortalecimento dos instrumentos da Política Nacional de Recursos Hídricos nas bacias com maior "tensão" pelo uso da água, (Atlantico Nordeste Oriental, Atlantico Leste e metade jusante da bacia do Rio São Francisco), e evidencia tambem o esforço dos estados do Nordeste oriental em se dotar de politicas e instrumentos de gestão.

Muito avançado Avançado Moderado Em implantação

Adaptado de Brasil, 2011.

Ano Re ndime n to (t) Chu va (mm) 200.000 0 400.000 600.000 800.000 1.000.000 1.200.000 1.400.000 1.600.000 200 0 400 600 800 1.000 1.200 1.400 1.600 1.800 2.000 1947 1949 1951 1953 1955 1957 1959 1961 1963 1965 1967 1969 1971 1973 1975 1977 1979 1981 1983 1985 1987 1989 1991 1993 1995 1997 1999 2001 2003 2005 2007 2009 2011 Chuva (mm) Produção (t)

Fonte: FUNCEME, IBGE). Obs: Dados de Chuva em 2011 totalizados até o dia 15/11

Figura 3.8 - Rendimento das culturas de sequeiro em tonelada e a chuva anual média no Estado do Ceará para

o período de 1947 a 2011

A análise acima mostra que alguns setores da sociedade podem se beneficiar com os investimentos em infraestrutura hídrica que propriciam mudanças no regime natural de vazões. Entretanto, alguns setores dependem inteiramente da regularidade natural das precipitações, como por exemplo a agri- cultura de sequeiro. Neste contexto, é esperado que o rendimento na produção de grãos de culturas de sequeiro esteja fortemente relacionado com o regime de precipitações, como mostra a Figura . para o Estado do Ceará. Este setor é, por isso, um dos mais vulneráveis da economia do semiárido, razão pela qual uma série de políticas públicas vem sendo implementada para reduzir o risco desta atividade, assim como para criar alternativas ao seu desenvolvimento. Deve-se ressaltar que os dados de chuva na figura são anuais, não revelando, portanto, como foi a distribuição de veranicos em um

ano particular, fator determinante para um bom ou mal rendimento de uma cultura de sequeiro.

No documento t001-aQuestaoDaAguaNoNordeste (páginas 111-115)