Capítulo 3. – Estudo de Caso: La Strada
3.1. Características da La Strada
3.1.1. As sedes La Strada
A La Strada International é composta por organizações que trabalham em oito países diferentes: Polônia, Bielorrússia, República Tcheca, Ucrânia, Moldávia, Bulgária, Macedônia e Holanda. Todos os membros da ONG possuem o mesmo objetivo: prevenir o tráfico de seres humanos no Centro e Leste europeu. Eles devem trabalhar de acordo com o mesmo programa básico, porém, os serviços oferecidos podem variar dependendo da situação local (LA
Figura 11 – Mapa de países que possuem organizações La Strada
Fonte: LA STRADA (2013b).
A LSI é uma organização que enfatiza a necessidade do acesso aos direitos humanos pelas vítimas do tráfico. O objetivo é o desenvolvimento das habilidades das organizações membros de prestar serviços às pessoas traficadas e aos grupos em risco, capacitando-os, assim, a melhorar a qualidade de suas próprias vidas (LSI, 2012: 5). A organização busca apresentar a questão do tráfico de pessoas chamando a atenção das autoridades, da mídia e da opinião pública. As atividades da LSI estão concentradas na assistência às vítimas do tráfico e na conscientização de mulheres e crianças sobre os perigos desse crime. A equipe da organização se reúne regularmente para trocar experiências (SCHROCK, 2001: 43).
Como forma de atingir suas metas, os membros da LSI devem se informar e se complementar mutuamente, por meio dos três pilares do programa que são: Informação e
Lobby; Prevenção e Educação; Assistência e Apoio. O pilar principal dentro do programa da
organização é a Assistência e Apoio que tem como objetivo fornecer às mulheres e meninas traficadas o suporte e a ajuda de que necessitam para recuperar sua liberdade e retomar o controle sobre suas vidas. Dentro do programa La Strada, foram criadas redes locais, nacionais e internacionais para socorrer as pessoas traficadas (LA STRADA, 2005: 75).
A campanha Informação e Lobbying tem como objetivo colocar o tráfico de pessoas firmemente na agenda política, sensibilizar o público, estimular o debate coletivo e monitorar a implementação de medidas de combate ao tráfico. As atividades de lobby concentram-se na implementação dos padrões dos direitos humanos para auxiliar as pessoas traficadas. Já a campanha de Prevenção e Educação visa capacitar potenciais migrantes, principalmente mulheres, para tomar decisões independentes e informadas. Além de trabalhar diretamente com grupos "em risco", a campanha visa o ambiente social dos grupos de risco, educando profissionais que possam entrar em contato com potenciais vítimas. (Idem: 80-85).
Entre as atividades desenvolvidas, a La Strada International é responsável pelo desenvolvimento de atividades de advocacia e lobbying a nível europeu e internacional e a angariação de fundos para o trabalho internacional. As funções do secretariado internacional incluem apoiar os membros nas áreas de informação, documentação e formação, facilitando a comunicação e cooperação entre os membros, mantendo-os informados sobre as atividades europeias e internacionais. Já as organizações membros da LSI possuem como tarefas a arrecadamento nacional e a implementação de programas nacionais de combate ao tráfico (LSI, 2012: 9).
As várias equipes da La Strada estão em contato constante e consultam-se regularmente. Elas cooperam na assistência aos clientes e na implementação das várias campanhas, trocam informações sobre temas específicos e trabalham juntas em diversos projetos. Cada membro La Strada é responsável pela implementação nacional dos pilares do programa da ONG. Todos as organizações membro consistem em pelo menos um coordenador nacional, que é responsável pela implementação geral do programa e pela campanha de Informação e Lobby, e dois ou três gerentes de projeto que são encarregados pelos outros dois pilares. Além dos funcionários renumerados, todos os membros do La Strada trabalham com voluntários (LA STRADA, 2005: 29).
A cooperação interna entre as organizações da rede LSI seguem as mesmas políticas. Todas se comprometeram com os “Critérios de Afiliação Internacional La Strada”, que incluem a adesão à “Declaração e Princípios da Missão Internacional”. Os critérios de afiliação exigem ainda que os membros estejam ativos e operando a nível nacional independentes de organizações governamentais, políticas ou religiosas. Além disso, as organizações membros da
La Strada devem ser responsáveis pela sua gestão financeiro e fornecer transparência e esclarecimento em relação ao seu próprio trabalho (LSI, 2012: 8).
Apesar de todas as organizações La Strada compartilharem os objetivos, estrutura, programas, princípios, métodos de trabalho e pontos de vista, podem existir desigualdades entre os membros. Essa diferença pode ser notada na organização do trabalho, no número de empregados, na extensão dos serviços prestados como, por exemplo, se eles possuem ou não o seu próprio abrigo ou casa de passagem. Além disso, os obstáculos que os membros enfrentam podem variar de país para país (LA STRADA, 2005: 29).
Entre os vários problemas que enfrentam, podemos incluir a relação que as ONGs possuem com os Estados. Como por exemplo, a percepção das ONGs como organizações antigovernamentais, a falta de relações institucionais entre as agências governamentais e ONGs, a ausência de estruturas nacionais que abordem os direitos das mulheres, a falta de acesso aos direitos sociais, entre outros. Outro obstáculo muito comum em países sede das organizações La Strada é a constante reforma das estruturas do governo que leva mudanças na sociedade, no direcionamento das tarefas, etc. Alguns membros do La Strada têm experiência na questão, porém, outros apenas começaram a se desenvolver (Idem: 30).
A LSI parte da filosofia de que o tráfico reflete a fraca posição social e legal das mulheres em muitos países, por isso, o crime encoraja o engano, a violência, a escravização por dívidas e as ameaças. Dessa forma, o programa La Strada é baseado nos direitos humanos, na abordagem das mulheres migrantes, domésticas e trabalhadoras do comércio sexual que devem ter seus direitos protegidos. O tráfico de pessoas, e principalmente, o de mulheres é um problema complexo, pois englobam diferentes campos e interesses como: migração, crime organizado, trabalho sexual, direitos humanos, violência contra as mulheres, feminização da pobreza, relações econômicas desiguais, etc. (LA STRADA NETWORK, 2004: 1).
A partir desse contexto, um dos objetivos da rede La Strada é demonstrar a importância de melhorar a posição das mulheres e promover seus direitos universais, incluindo o de escolher trabalhar no exterior protegidas de qualquer tipo de violência. A organização considera que uma das necessidades primárias das mulheres é o direito de ser livre para trabalhar com condições adequadas, seja no próprio país ou no exterior (Idem).
Entre as organizações não governamentais, a La Strada se destaca pelo seu foco no tráfico de mulheres na Europa. Durantes os primeiros anos, a organização concentrou-se no tráfico e no trabalho forçado na indústria do sexo, consequentemente, trabalhando com mulheres e meninas. Porém, ao logo dos anos, novas formas de tráfico se tornaram visíveis, como o comércio de trabalhadores domésticos, ampliando a área de trabalho da ONG. A maioria das sedes da LSI trabalha também com mulheres que são traficadas para o trabalho doméstico, para o casamento ou que são forçadas a mendigar. Alguns membros também oferecem aconselhamento a vítimas masculinas de tráfico e migrantes irregulares independente do gênero (LA STRADA, 2013b).