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As sementes crioulas e as práticas extrativistas

CAPÍTULO 3 CARACTERÍSTICAS SOCIOCULTURAIS, ECONÔMICAS,

3.1. O quê, quem e como se dá a reprodução da vida na comunidade Kalunga

3.1.1. As sementes crioulas e as práticas extrativistas

Maicá esclarece que “[...] Semente Crioula é o material cultivado localmente, geração após geração, o que determina a sua adaptação à comunidade onde está sendo cultivado, pelos camponeses que ali habitam” (MAICÁ, 2012, p. 697).

Consideramos que o fato de a semente crioula passar de geração a geração a torna conhecida, própria do agricultor, estabelecendo uma relação de pertencimento, pois o agricultor sabe da sua procedência, seu rendimento, sua adaptação climática, entre outros aspectos do cultivo. Essa consideração não diz respeito a uma visão romântica do processo de produção de alimento, mas, ao contrário, diz respeito a uma visão política sobre a relação

terra-semente-agricultor, sobretudo, pelo pertencimento e pela identidade que se estabelecem quando temos conhecimento da origem da ferramenta e dos objetos com os quais trabalhamos.

Essa dimensão política se coaduna também pela importância que há quando temos o controle e condições de acompanhar a origem, o processo e o produto de nosso trabalho, seja ele material ou imaterial, e pela repercussão que isso causa no fortalecimento de nossa “subjetividade autêntica”.

Lembrando as análises que fizemos no primeiro capítulo deste estudo, a “subjetividade autêntica”, no processo de produção – trabalho no sentido ontológico – é expressão de vida, de criação, de avanço da “consciência para si” (ANTUNES, 2009).

No contexto dos interesses da comercialização de sementes, da agroindústria e do agronegócio, ou dos produtos produzidos para exportação, faz-se a produção de alimentos de larga escala estéril, sem qualquer relação de vínculo com o lugar, com o agricultor. Aliás, tem sim uma relação, mas mercadológica, de acumulação de mercadoria e lucro. Também cabe salientar que, nesse contexto, o trabalho humano é amplamente substituído por máquinas e, quando é utilizado, dá-se sob a exploração extrema da força do trabalho humano e do alheamento total do indivíduo em relação ao processo de produção agrícola ou agropecuário do qual participa.

Quando, no nosso trabalho de pesquisa, questionamos sobre a existência de programas e ou políticas públicas que subsidiam a produção na comunidade do Engenho II, os resultados foram os seguintes:

As sementes, a ajuda depende do prefeito, se ele interessar em distribuir semente ele faz, mas se não também a gente fica sem nada. Diretamente do governo é muito difícil. No ano passado veio via EMBRAPA, mas foi via associação. Então veio semente de milho, feijão, hortaliças, mas o problema é que vem muito e uma vez só. Deveria mandar aos poucos e continuado, no inicio de cada plantação vim um pouco. Eu falei que a gente planta aqui é só no braço a gente não dá conta de plantar muita coisa não. Quem tem dinheiro consegue pagar mais pessoas pra ajudar, os outros só faz o que dá conta. (Lavrador A, outubro de 2013)

Uma coisa que mudou também foi as sementes centenária que elas desapareceram, porque tem essas sementes selecionadas que tem no mercado hoje, elas produz bem mais.

Hoje nós temos aqui das sementes centenárias a gente já perdeu uma quantidade, por exemplo o arroz a gente tinha aqui umas 5 espécie que a gente plantava – hoje parece nos só temos 2 ou 3. Feijão continua ainda uma espécie que é o feijão amarelinho, que é um feijão centenário. A gente ainda tem dele porque a comunidade gosta desse feijão, nunca perdeu o valor. Agora tinha outro o feijão roxão que era muito gostoso também, mas desapareceu. Tinha o feijão um tal de baia roxa, desapareceu. Tinha o feijão mamoninha, desapareceu que era um feijão, tinha um feijão roxinho, sumiu também. Aí veio o carioca, o chamado da serra, então foi ocupando esses espaços. O milho também nos não temos mais o milho centenário. Eu me lembro pequeno e a gente quebrava o milho botava na água e fazia o beiju, cuscus, então tinha aqule milho branco, chamava ele de vibrão, que era

mole pra soltar, mas hoje nós estamos tendo mais na comunidade essas sementes centenárias. Nos temos uma grande produção de milho, mas já não é mais aquelas sementes, são novas que foram aparecendo, selecionadas, compradas no mercado. Como ela é uma semente selecionada, bem tratada lá, ela produz melhor. E a nossa foi pro escanteio. (Lavrador A, outubro de 2013)

A gente aqui todos que planta tem semente selecionada de: arroz, milho, feijão. O arroz aqui pegou um padrão uns trata ele tropeiro, outros como bico roxo, só essa qualidade ainda que se planta, mas não é um arroz daqui. Tinha o arroz cana roxa, desapareceu daqui; brancão, sumiu; tinha o taguari, beira campo, sumiu essas sementes. Esse feijão carioca que não tem preguiça pra dar em qualquer lugar você planta ele se tiver água ele dá. Então foi tomando os espaços. (Lavrador A, outubro de 2013)

O arroz [novato ou ministério ]tem muitos anos que eu planto, que ele tem uma saída danada. E o feijão tem uns 4 anos ele é um feijão branco, chapadeiro, mas bom pra carregar eu não quero perder a semente desse feijão. E o povo gosta dele aqui, as vezes eu vendo dele aqui a 10,00 e o povo compra de lavada. Eu não tenho o feijão amarelinho é porque ele é um feijão muito safado. Se plantar ele de março, viça muito mais não dá Bajé mais cheia e se plantar em janeiro ele viça mais não dá Bajé aí eu larguei de plantar ele. O feijão que eu mais planto é roxinho e um pouco do carioca que a Embrapa arrumou a semente. (Lavrador B, outubro de 2013)

De acordo com os depoimentos, a opção por determinada semente não se dá por uma escolha aleatória do lavrador, mas, talvez, porque, diante das condições de produção existentes, essa semente-mercadoria possibilite melhor rendimento do trabalho e do produto, como demonstra a fala do Lavrador A, por exemplo: “[...] Esse feijão carioca que não tem preguiça pra dar em qualquer lugar você planta ele se tiver água ele dá. Então foi tomando os espaços.” Ou, ainda, porque obteve essa semente gratuitamente, como se refere o último depoimento da página anterior: “[...] O feijão que eu mais planto é roxinho e um pouco do carioca que a Embrapa arrumou a semente”.

O extrativismo foi também um assunto pautado por alguns dos entrevistados, pois há, no cerrado, uma grande diversidade de frutos e outros produtos que podem ser extraídos.

Nas atividades de pesquisa, questionamos aos jovens e adultos das comunidades Engenho II, Prata e Vão do Órfão: o que é que vocês e seus familiares extraem da natureza aqui na comunidade?

Como resultado, obtivemos as seguintes respostas:

Depois de dois cursos que teve é que o pessoal passou a pegar o buriti pra fazer doce, mas tem pequi, caju, cagaita, bauru, mangaba, açaí, buaquari, murici, araçá – para consumo - pequi, buriti, cagaita, jatobá, mangaba – pra vender [ o óleo, o fruto, o doce, a farinha, a geleia, entre outros]. (Entrevista com jovens, outubro de 2013)

Desde quando eu era menino se extrai muito o Buriti, ele é muito usado na comunidade pra doce, suco, pra comer com farinha e rapadura; o coco Macaúba, ele é muito usado, a gente vai longe buscar porque é um coco cheiroso e gostoso. A gente usa ele assado no fogão de lenha, outro coloca ele pra ferventar, ele fica com a carne bem molinha descasca come... a gente usa muito fazer paçoca do coco com

farinha e rapadura, uma delícia. Tem a Mangaba que a gente usa muito, o Jatobá do Campo. o Pequi, só que a comunidade não guarda não, agora é que alguns estão guardando porque tem a geladeira, mas antes [ da energia elétrica] enquanto tinha tava comento, acabou...acabou. Tem a horta medicinal, tem as plantas cosméticos – Baurú (se usa a fruta e o entrecasco); Baba timão, joaninha, cabelo de nego, copaíba (que é o óleo); Quininha rasteira, Quinhinha grande; Pacari, são muitas variedades. Dos rios [se extrai] a areia, não pra comercialização, mas pra uso da comunidade. O turismo tem [produz] a renda com a visita às cachoeiras (Santa Bárbara, Capivara, Ave Maria, Candarú). (Lavrador A, outubro de 2013).

Tem dentro do território uma boa porcentagem de montanha e não se produz nelas. São ricas, por exemplo: são ricas de cajuzinho, mangaba, Jatobá, pequi, a guariroba hoje a gente não fala mais porque ela ta em extinção, ta sumindo. São ricas também em coquinho, coquinho catulé. A parte do cerrado é rica em plantas medicinais tem muito pacari, puxa-puxa, muçambé – é uma madeira muito boa, o pequi. Aí na parte das veredas madeiras brejeiras, que estão nas terras brejadas – o buriti. (Lavrador B, outubro de 2013)

Esses depoimentos evidenciam a riqueza do cerrado, a sabedoria do camponês para identificar o produto e sua utilidade. São informações e lições de vida, que são passadas de geração a geração.

No entanto, é possível percebermos que as famílias precisam de cursos, oficinas que ensinem formas mais adequadas para coleta do fruto e extração de suas substâncias, bem como dos tratamentos posteriores, de modo que se garantam resultados duradouros, qualitativos, para o armazenamento da produção e, inclusive, identificação de suas propriedades, por exemplo, na confecção de rótulos que acompanharão os produtos.

No cerrado, há uma diversidade de plantas medicinais e ornamentais, frutas, entre outros tantos produtos que constituem uma fonte importante de trabalho para a população que vive nesse lugar. Mas, também, para isso acontecer de fato e de direito, é preciso que lutas políticas sejam travadas e a educação cumpra o papel de formar e qualificar o trabalho que pode ser realizado naquele bioma, de forma sustentável.

A esse respeito, Silva & Egito (2005) afirmam:

O imaginário que cerca o Cerrado e seus povos de invisibilidade e isolamento fez com que a natureza desse bioma fosse reduzida à mercadoria, primeiro pelos potenciais exploráveis, depois pela capacidade produtiva de suas terras agricultáveis, encurralando suas populações e agriculturas. Esse olhar mercantil sobre a região ignorou não apenas sua importância ambiental, mas principalmente a riqueza advinda das diversas culturas construídas em relação profunda com o ambiente, que dão a inúmeras comunidades de pescadores, vazanteiros, geraizeiros, extrativistas e outros o sentimento de pertença ao Cerrado. (SILVA & EGITO, 2005, p. 14)

Vê-se, portanto, que, assim como na produção agrícola em geral, as práticas agroextrativistas foram relegadas à própria sorte pelo Estado. Como já dissemos, os depoimentos evidênciam as carências relativas à formação inicial e continuada dos sujeitos do

campo, que teria o papel de ensinar outras formas mais adequadas de colheita do fruto do cerrado, de extração de óleos, bem como para a culinária de doces, bolos, pães, entre outros produtos que possam ser comercializados.

Notadamente, tais carências advêm da falta de políticas públicas que promovam um processo continuado de formação que seja articulado a outros segmentos da comunidade (como a escola ou as Associações Sindicais do Campo), de modo que, efetivamente, a população possa obter a garantia de seus direitos, melhorias das condições de vida e de formas de reprodução da vida.

Urge, então, a denúncia dessa situação entre tantas outras, como a falta de luz elétrica na maior parte do território Kalunga, de maneira que se force o governo a tomar as devidas providências. Lembramo-nos, aqui, da cena do filme “Tapete Vermelho”, dirigido por Luiz Alberto Pereira (2006), cujo personagem principal é interpretado pelo ator Matheus Nachtergalle. No seu desespero para encontrar o filho que se perdeu na cidade de São Paulo, o caminhoneiro que lhe dá uma carona o aconselha: “Bote a boca no trombone; eles [aqueles de posse de alguma fatia de poder] não gostam de barulho [...]”.

Nesse sentido, talvez a comunidade e o território, na totalidade, politicamente organizados e se utilizando da condição de sujeitos coletivos de direitos, possam ir avançando na luta, na busca de superação de suas necessidades e no enfrentamento dos problemas e carências para a produção do sustento no campo.

O que se observa no conjunto do contexto social que caracteriza a produção agrícola na comunidade e no território kalungas é que, se, por um lado, as políticas públicas podem representar uma ação de benefício efetivo para os sujeitos a quem se destinam, por outro, essas políticas não se efetivarão de fato se não houver, como em vários períodos da história, uma coadunação de forças entre os sujeitos coletivos de direitos e o Estado (no sistema capitalista).

A seguir, encontram-se informações e análises sobre os festejos da comunidade Engenho II, objetivando construir um panorama mais completo acerca da realidade social do povo kalunga, na qual se encontram inseridos a escola e o trabalho docente.