3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
3.2 A ANÁLISE TEXTUAL DOS DISCURSOS
3.2.1 Estrutura composicional do texto
3.2.1.2 As Sequências textuais
Nesta seção, apresentamos algumas das principais propostas de classificação tipológica de texto, bem como tratamos do conceito de sequência textual de acordo com Adam (2011), posição teórica adotada neste trabalho.
De acordo com Rodrigues (2014), as propostas tipológicas tiveram sua origem na Grécia antiga com Aristóteles, em “A Poética” (335 a. C.). O autor propõe uma classificação para os gêneros poéticos e musicais com base nas diferenças. Com isso, originam-se as classificações da tragédia, da comédia e outras, principalmente as que focalizam a narrativa.
Rodrigues (2014) cita o trabalho de Ergon Werlich (1975) como um estudo basilar no século XX, o qual vem servindo como referência para diversos outros trabalhos. O autor propõe os seguintes tipos textuais: instrução, argumentação, narração, exposição e descrição. Tal classificação focaliza a organização linguística específica de cada um desses tipos de texto.
No Brasil, muitos estudiosos têm se debruçado sobre o tema e proposto classificações, entres eles: Marcuschi (2002), Koch e Fávero (1987), Travaglia (2002, 2007, 2009), entre outros. Em relação à Travaglia (2002, 2007, 2009),
Rodrigues (2014) observa que o autor objetiva uma teoria que indicasse os pontos em comum presentes em todas as propostas tipológicas e que caminhasse, assim, para um quadro classificatório único. Para Rodrigues (2014, p. 18) “Evidentemente, esse anseio não pode ser atendido [...]”, uma vez que “[...] os critérios usados para classificação variam.”.
Com o objetivo de enfatizar a pluralidade de critérios utilizados para as classificações tipológicas, Rodrigues (2014) destaca ainda a proposta de Charaudeau (2008 [1992]) e a de Marcuschi (2000, 2002, 2008).
De acordo com a autora, Charaudeau (2008 [1992]) afirma que há distinção entre a finalidade de um texto e o seu modo de organização, e que “[...] a recorrência do fenômeno linguístico aponta para a classificação do modo de organização discursivo [...]” (RODRIGUES, 2014, p. 21).
Marcuschi (2002, p. 27), por sua vez, diz que “[...] entre as características básicas dos tipos textuais está o fato deles serem definidos por traços linguísticos predominantemente.”. Rodrigues (2014) observa que “[...] diferente de Charaudeau (2008 [1992]), que se ancora em níveis de análise, como por exemplo, o semântico, a proposta de Marcuschi focaliza marcas linguísticas em uma perspectiva ampla.”.
Por fim, a autora conclui que
[...] os critérios que fundamentam as classificações variam, conforme revelam as propostas mencionadas, uma vez que Aristóteles propôs uma tipologia, a partir das diferenças, Marcuschi (2002) considera a recorrência do fenômeno linguístico, Charaudeau (2008 [1992]) propõe a ordem discursiva, ‘[...] procedimento que contribui para pôr em cena os outros modos de organização do discurso’. (RODRIGUES, 2014, p. 22 – grifo da autora).
A fim de ilustrar as inúmeras propostas de classificação tipológica, Rodrigues (2014) apresenta um quadro-resumo, no qual destaca essas principais propostas bem como seus respectivos autores e designação do objeto, como podemos observar na reprodução desse quadro a seguir.
Quadro 1 - Propostas de classificações tipológicas
Autor Designação do objeto Classificação tipológica
Adam (2011, 1992)
Sequência textual (1) Narrativa
(2) Descrição (3) Argumentação (4) Explicação (5) Diálogo Travaglia (2012)
Tipo (1) Texto descritivo, dissertativo, injuntivo,
narrativo;
(2) Texto argumentativo “stricto sensu” e argumentativo não “stricto sensu”;
(3) Texto preditivo e não preditivo;
(4) Texto do mundo comentado e do mundo narrado;
(5) Texto lírico, épico / narrativo e dramático; (6) Texto humorístico e não humorístico; (7) Texto literário e não literário;
(8) Texto ficcional e factual Charaudeau (2008 [1992]) Modos de organização do discurso (1) Enunciativo (2) Descritivo (3) Narrativo (4) Argumentativo Marcuschi (2002)
Sequência tipológica (1) Narrativa (2) Descritiva (3) Expositiva (4) Injuntiva (5) Argumentativa Werlich (1975)
Tipos textuais (1) Descrição
(2) Narrativa (3) Exposição (4) Argumentação (5) Instrução Groose (1976)
Classes de textos (1) Textos normativos
(2) Texto de contacto
(3) Textos que indicam grupos (4) Textos poéticos
(5) Textos em que predomina a automanifestação (6) Textos predominantemente exortativos
(7) Classes de transição
(8) Textos em que predomina a informação
Longacre e
Levinsohn (1978)
Tipos de discurso (1) Discurso narrativo
(2) Discurso procedural (3) Discurso de conduta (4) Discurso expositivo Vilela e Koch (2001) Sequências textuais ou modos de tratamento do tema (1) Texto argumentativo (2) Texto explicativo (3) Texto descritivo (4) Texto narrativo Bronckart (2007)
Tipos de textos (1) Contar
(2) Conversar (3) Argumentar (4) Teorizar
Fonte: Rodrigues (2014, p. 22) – (Alguns modos de designação do nosso objeto de
É importante destacar o que observa Rodrigues (2014) a respeito dessas propostas, mais precisamente sobre o fato de que há vários pontos em comum entre elas relacionados às nomeações, bem como a ocorrência da categoria narrativa presente em quase todas elas, exceto no trabalho de Groose (1976). Em relação à quantidade de sequências ou tipos, a autora observa também que há uma variação entre três e oito destas. E por último, constata que “A designação das categorias envolve pelo menos um dos seguintes lexemas ou seus derivados: sequência, texto, discurso.” (RODRIGUES, 2014, p. 24).
Nessa direção, de acordo com Passeggi (2014, p. 62 – grifos do autor), no âmbito da linguística textual, “[...] diversos autores identificam um nível de estruturação textual intermediário denominado de ‘sequências textuais’, ‘modos de organização do discurso’ ou ‘modos do discurso’, entre outras denominações.”. O autor cita como exemplo os trabalhos de Adam (1992, 2008a, 2008b), Charaudeau (1992, 2004, 2008) e Smith (2009 [2009]). Para ele, os trabalhos desses autores apresentam noções próximas, mas “[...] não idênticas porquanto inseridas em contextos teóricos diferenciados, encontram-se relativamente estabilizadas quanto à sua conceituação e eventual identificação, divergindo quanto ao seu número, detalhamento e hierarquização.”.
São inúmeras as propostas de classificações tipológicas e igualmente diversos os critérios, teorias e níveis de análise conforme cada dessas propostas. Para Rodrigues (2014, p. 21), isso é resultado da “[...] heterogeneidade dos textos, da amplitude infinita da criatividade humana que supera de modo incomensurável o universo limitado da gramática normativa.”.
Para fins desta pesquisa, trabalhamos a noção de sequência textual conforme proposta por Adam (2011). Essa escolha teórica justifica-se por entendermos que, conforme Silva Neto (2013, p. 95), a proposta de Adam sobre as sequências constitui uma concepção cognitivo-semântica, reforçada por uma perspectiva pragmática e “[...] com as devidas implicações analíticas voltadas para o discurso -, o que sublinha (e revela) seu caráter operatório, na construção de aparato metodológico de pesquisa de texto [...]”.
A noção de sequência textual diz respeito ao modo como os textos se organizam e se estruturam para realizar nossos atos comunicativos. Através da análise das estruturas que compõem um texto identificamos, por exemplo, se
estamos diante de um texto do tipo narrativo, descritivo, argumentativo, etc. (Cf. CAVALCANTE, 2016).
A teoria das sequências, segundo Charaudeau e Maingueneau (2016, p. 444), tem origem em Adam (1992) e “[...] foi elaborada em virtude da grande generalidade das tipologias de texto (Werlich, 1975) surgidas com as gramáticas de texto”. De acordo com Passeggi et al. (2010, p. 263), no contexto da Linguística Textual brasileira, “[...] Adam é, sobretudo, conhecido pelas suas pesquisas sobre as sequências textuais [...]”, e acrescenta ainda que “As sequências constituem, hoje, uma categoria de análise consolidada e regularmente utilizada nas descrições de textos, de grande interesse pelas suas aplicações ao ensino de língua portuguesa e língua estrangeira.”.
Para Adam (2011), as sequências textuais são unidades textuais complexas, compostas de um número limitado de conjuntos de proposições-enunciados: as macroproposições. De acordo com a proposta do autor, todo texto apresenta uma sequência dominante, em relação à qual se organizam as demais sequências dominadas ou inseridas.
De acordo com Cavalcante (2016, p. 62), “Aspectos como extensão, a complexidade e os diferentes propósitos comunicativos indicam que há naturalmente uma inclinação à combinação de sequências textuais, o que torna o texto heterogêneo.”. Ou seja, para a autora, de um modo geral, um mesmo texto apresenta diferentes sequências e esse fenômeno é chamado de heterogeneidade composicional.
Conforme Adam (2011), as proposições-enunciadas, unidades textuais elementares, estão sujeitas a dois grandes tipos de agrupamentos que as mantêm juntas. Para o autor, as unidades textuais frouxamente tipificadas correspondem ao que chama de “período” e as unidades textuais mais complexas, tipificadas, correspondem às “sequências”. O autor explicita ainda que a diferença entre uma sequência mínima e um período complexo não está diretamente relacionada à questão do volume, mas sim à complexidade do todo formado pela organização das proposições-enunciadas. Ou seja, a diferença substancial entre o período e a sequência corresponde ao seu nível de organização interno dado pelo encadeamento dessas proposições.
Diante disso, Adam (2011, p. 204-205) deixa clara a distinção entre essas unidades composicionais de base, os períodos e as sequências, ao dizer que: “[...]
os períodos são unidades que entram diretamente na composição de partes de um plano de texto [...]”, já as sequências são “[...] unidades textuais complexas, compostas de um número limitado de conjuntos de proposições-enunciados: as macroproposições.”.
A macroproposição, por sua vez, é um tipo de período que tem como principal característica o fato de ser uma unidade ligada a outras macroproposições, ocupando assim, posições definidas dentro do todo ordenado da sequência. Cada macroproposição adquire seu sentido em relação às outras, na unidade hierárquica complexa da sequência.
Nessa perspectiva, segundo o autor, uma sequência é uma estrutura que constitui uma “rede relacional hierárquica”, uma grandeza analisável formada por partes ligadas entre si e ligadas ao todo que elas constituem. O autor também as considera como uma “entidade relativamente autônoma, dotada de uma organização interna” que lhe é própria e, portanto, que possui uma relação de dependência- independência com o conjunto mais amplo do qual faz parte (o texto).
Segundo Passeggi et al. (2010, p. 274), das sequências textuais propostas por Adam, “[...] a sequência descritiva aparece como a menos estruturada”, uma vez que “[...] não possui uma organização típica [...]”, compondo-se frequentemente “[...] de um conjunto de operações que se desenvolve conforme um plano de texto”. De acordo com os autores, a descrição não possui, como as demais sequências, uma ordem de organização das proposições-enunciados em macroproposições hierarquizadas. Por último, acrescenta que as proposições descritivas formam ciclos, mais de períodos do que de sequências.
Adam (2011) confere quatro macro-operações que agrupam nove operações descritivas que originam vários tipos de operações descritivas de base. O autor propõe quatro macro-operações de construção da sequência descritiva, as quais são: tematização, aspectualização, relação e expansão por subtematização.
A sequência narrativa, para Adam (2011) compõe-se de uma estrutura hierárquica constituída por cinco macroproposições narrativas de base (Pn) que correspondem aos cinco momentos (m) do aspecto: antes do processo (m1), o início do processo (m2), o curso do processo (m3), o fim do processo (m4) e, por último, depois do processo (m5). Como essa sequência constitui foco de nossa análise, ela será detalhada na próxima seção.
A sequência argumentativa prototípica proposta por Adam (2011) contempla a contra-argumentação e é composta por: tese anterior, dados/fatos, apoio, restrição e conclusão. Conforme Passeggi et al. (2010), essa sequência comporta dois níveis
a) um nível justificativo (P. arg. 1 + P. arg. 2 + P. arg. 3), em que a
estratégia argumentativa é dominada pelos conhecimentos
apresentados;
b) um nível dialógico ou contra-argumentativo (P. arg. 0 e P. arg. 4), em que a argumentação é negociada com um contra-argumentador (auditório) real ou potencial. Nesse nível, a estratégia argumentativa visa a uma transformação dos conhecimentos. (PASSEGGI et al., 2010, p. 291).
Os autores acrescentam ainda que as etapas da argumentação não seguem uma ordem preestabelecida, uma vez que a tese “[...] pode ser formulada de início e retomada, ou não, por uma conclusão que a duplica no final da sequência. Além disso, a tese anterior (P. arg. 0) e os apoios podem estar subentendidos.”. (Cf. PASSEGGI et al., 2010, p. 291-292).
A sequência explicativa é constituída pelas seguintes macroproposições: descrição inicial, problema (questão), explicação (resposta) e ratificação/avaliação. Conforme Passeggi et al.(2010, p. 292) trata-se de
[...] uma estrutura sequencial de base, na qual um primeiro operador [PORQUE?] introduz a primeira macroproposição obrigatória (P. explicativa 1), e o segundo operador [PORQUE] leva à segunda
macroproposição obrigatória (P. explicativa 2). Segue-se,
geralmente, uma terceira macroproposição, que é de ratificação (P. explicativa 3). Esse conjunto é frequentemente precedido por uma descrição inicial destinada a introduzir o objeto problemático (P. explicativa 0), tematizado pela questão POR QUE?, que corresponde à macroproposição P. explicativa 1.
Por fim, a sequência dialogal é composta por: pergunta, resposta e avaliação. Para Passeggi et al. (2010, p. 295), um texto dialogal pode apresentar “sequências fáticas” de abertura e de fechamento que enquadram o núcleo transacional de base.
Silva Neto (2013) observa que para Adam (2011a) esses cinco tipos de base descritos até aqui “[...] correspondem a cinco tipos de relações macrossemânticas memorizadas por impregnação cultural (pela leitura, escuta e produção de textos) e transformadas em esquemas de reconhecimento e de estruturação da informação textual.”. Nesse sentido, Adam (2011) enfatiza que
As asserções narrativas, descritivas, argumentativas e explicativas, factuais ou ficcionais, antes constroem representações esquemáticas do mundo do que se ajustam a ele, e o estabelecimento de uma crença partilhada não é a finalidade última dessas asserções. Seu objetivo último é, como nos [enunciados] diretivos, uma finalidade de ação: fazer partilhar uma crença com a finalidade de induzir um certo comportamento (sonhar, chorar, indignar-se, revoltar-se, agir no mundo etc.). (ADAM, 2011, p. 207).
Silva Neto (2014, p. 56) ressalta a relevância do conceito de sequências textuais no que refere à questão da metodologia do ensino, mais precisamente na transposição didática, quando diz que “[...] é possível assumir que as sequências textuais estão a meio caminho entre os estudos da gramática e os estudos do texto [...]” e que, dessa forma, as sequências podem “[...] ser tomadas como ferramentas conceituais que viabilizariam uma melhor compreensão dos elementos constitutivos dos vários tipos de texto e, por extensão, dos gêneros de discurso.”.