A história de um delito: a sequência narrativa em termos de depoimento
Texto
(2) MARÍLIA SILVA LEMOS CARDOSO. A HISTÓRIA DE UM DELITO: A SEQUÊNCIA NARRATIVA EM TERMOS DE DEPOIMENTO. Dissertação submetida ao Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – PPgEL/UFRN, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Estudos da Linguagem, na área de concentração de Linguística teórica e descritiva.. Orientador: Prof. Dr. João Gomes da Silva Neto. NATAL /RN 2017.
(3) Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Sistema de Bibliotecas - SISBI Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN - Biblioteca Setorial do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes - CCHLA. Cardoso, Marília Silva Lemos. A história de um delito: a sequência narrativa em termos de depoimento / Marília Silva Lemos Cardoso. - 2017. 106f.: il. Dissertação (mestrado) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem. Orientador: Prof. Dr. João Gomes da Silva Neto. 1. Depoimento (testemunhas). 2. Análise textual dos discursos. 3. Sequência textual narrativa. 4. Gênero jurídico. I. Silva Neto, João Gomes da. II. Título. RN/UF/BS-CCHLA. CDU 343.143.
(4) MARÍLIA SILVA LEMOS CARDOSO. A HISTÓRIA DE UM DELITO: A SEQUÊNCIA NARRATIVA EM TERMOS DE DEPOIMENTO. Relatório de Dissertação apresentado ao Programa de Pós-graduação em Estudos da linguagem (PPgEL), Departamento de Letras, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como um dos requisitos para a obtenção do grau de Mestre em Estudos. da. Linguagem.. Avaliado. em. ___/___/____. pela. seguinte. banca. examinadora:. ___________________________________________________________________ Prof. Dr. João Gomes da Silva Neto Presidente / Orientador – UFRN. ___________________________________________________________________ Prof.ª Dr.ª Josilete Alves Moreira de Azevedo Examinadora Interna - UFRN. ___________________________________________________________________ Prof.ª Dr.ª Maria Eliete de Queiroz Examinadora Externa - UERN. ___________________________________________________________________ Prof.ª Dr.ª Maria das Graças Soares Rodrigues Examinadora Interna (Suplente) - UFRN. ___________________________________________________________________ Prof.ª Dr.ª Rosângela Alves dos Santos Bernardino Examinadora Externa (suplente) - UERN.
(5) Dedico esta dissertação ao meu amado esposo Valter Cardoso.
(6) AGRADECIMENTOS. Agradeço, em primeiro lugar, a Deus que me deu todas as condições necessárias para concluir essa importante etapa de minha vida. Aos meus pais, Maria das Graças e Sebastião Lemos, sem os quais não poderia estar onde estou, pois me deram o essencial para que pudesse trilhar o meu caminho com trabalho, esforço, dedicação e honestidade. Agradeço por estas e outras lições que levarei para toda vida. Ao meu esposo Valter Cardoso, presente de Deus em minha vida, companheiro de todas as horas. Apoio fundamental em todos os momentos dessa caminhada, sem o qual não teria conseguido chegar ao fim. Ao professor João Gomes da Silva Neto, pelas lições não só acadêmicas, mas, sobretudo, de vida. Às professoras Josilete Alves Moreira de Azevedo e Maria Eliete de Queiroz que trouxeram contribuições tão valiosas para o aprimoramento deste trabalho. O meu muito obrigada pela atenção e pelo empenho com que fizeram suas observações. Agradeço também a todos os colegas do grupo ATD que sempre estiveram dispostos a colaborar para o enriquecimento deste trabalho..
(7) Lâmpada para os meus pés é tua palavra, e luz para o meu caminho. (Salmos 119: 105).
(8) RESUMO. Neste trabalho, temos o objetivo de investigar como ocorrem as sequências narrativas no gênero termo de depoimento, peça processual que integra o inquérito policial e é destinada ao depoimento da(s) testemunha(s). Nossa fundamentação teórica parte dos pressupostos gerais da Linguística Textual através de autores como Koch (1997; 1999; 2002; 2008; 2009), Koch e Elias (2012; 2013) e Marcuschi (2008; 2012), e mais precisamente da Análise Textual dos Discursos com Adam (2011) no que se refere ao estudo do plano de texto e da sequência textual narrativa. Em relação ao discurso jurídico, respaldamo-nos em Pelágio (2002), Gomes (2011), Nucci (2014) e França (2015). Metodologicamente, é uma pesquisa documental, que apresenta um caráter qualitativo, descritivo e que se orienta pelos métodos do raciocínio indutivo e dedutivo. O corpus é constituído por três termos de depoimento oriundos de uma Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher (DEAM), localizada em Natal, Rio Grande do Norte. Os resultados mostram que o depoimento prestado pela testemunha é composto predominantemente pela sequência narrativa, a qual constitui uma narrativa maior, global, que por sua vez é composta por diversas narrativas menores – as chamadas narrativas encaixadas, as quais atuam no texto em função dessa narrativa de nível global. Os resultados mostram também que as sequências narrativas desempenham um importante papel no gênero termo de depoimento, pois funcionam como principal mecanismo de organização do depoimento da testemunha.. Palavras-chave: Análise Textual dos Discursos. Sequência textual narrativa. Termo de depoimento. Gênero jurídico..
(9) ABSTRACT. In the present work, we aim to investigate how the narrative sequences occur within the genre testimony record, procedural component that integrates the police investigation whilst being intended for the witness testimony. Our theoretical groundings are based on the general propositions of the Text Linguistics with authors as Koch (1997; 1999; 2002; 2008; 2009), Koch e Elias (2012; 2013) and Marcuschi (2008; 2012), and, more specifically, on the Discourse Textual Analysis with Adam (2011) regarding the text plan and narrative sequence studies. In relation to the legal discourse, we use Pelágio (2002), Gomes (2011), Nucci (2014) and França (2015).The methodology consists of a documental research, of qualitative and descriptive nature, as well as guided by the inductive and deductive reasoning. The corpus is represented by three testimonial records obtained from a Women’s Police Station (Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher – DEAM), located at Natal, Rio Grande do Norte. Results indicate that the testimony provided by the witness is predominantly composed by several minor narratives – the so-called embedded narratives, which act upon the text due to a global-level narrative. The results also indicate that the narrative sequences play an important role in the testimonial record genre, because they function as the main mechanism for the organization and arrangement of the witness testimony.. Keywords: Discourse Textual Analysis. Narrative textual sequence. Testimonial record. Legal genre..
(10) LISTA DE SIGLAS. AD. Análise do Discurso. ATD. Análise Textual dos Discursos. CPB. Código Penal Brasileiro. CPP. Código de Processo Penal. CP. Código Penal. DEAM. Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher. LT. Linguística Textual. NE. Narrativa Encaixada. PPgEL. Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem. TD. Termo de Depoimento. UFRN. Universidade Federal do Rio Grande do Norte. UNICAMP. Universidade Estadual de Campinas.
(11) LISTA DE ILUSTRAÇÕES. Figura 1. Esquema 4: Níveis ou planos da análise de discurso................... 41. Figura 2. Esquema 5: Operações de textualização...................................... 42. Figura 3. Esquema 30: Ligações textuais..................................................... 44. Figura 4. Esquema 20: Trama narrativa....................................................... 55. Figura 5. Esquema 19: Relações simétricas................................................ 56. Figura 6. Esquema 18: Limites do processo................................................. 56.
(12) LISTA DE QUADROS. Quadro 1. Propostas de classificações tipológicas......................................... 48. Quadro 2. Plano de texto do Termo de depoimento 1.................................... 68. Quadro 3. Macroproposições da narrativa global........................................... 70. Quadro 4. Macroproposições da narrativa encaixada 1.................................. 73. Quadro 5. Macroproposições da narrativa encaixada 2................................. 75. Quadro 6. Macroproposições da narrativa encaixada 3.................................. 77. Quadro 7. Macroproposições da narrativa encaixada 4................................. 78. Quadro 8. Macroproposições da narrativa encaixada 5.................................. 79. Quadro 9. Síntese das principais ações de W nas narrativas encaixadas...... 81. Quadro 10. Plano de texto do Termo de depoimento 2.................................... 82. Quadro 11. Macroproposições da narrativa global............................................ 84. Quadro 12. Macroproposições da narrativa encaixada 1.................................. 87. Quadro 13. Macroproposições da narrativa encaixada 2.................................. 88. Quadro 14. Macroproposições da narrativa encaixada 3.................................. 89. Quadro 15. Macroproposições da narrativa encaixada 4.................................. 90. Quadro 16. Síntese das principais ações de T nas narrativas encaixadas....... 91. Quadro 17. Plano de texto do Termo de depoimento 3.................................... 92. Quadro 18. Macroproposições da narrativa global............................................ 94. Quadro 19. Macroproposições da narrativa encaixada..................................... 96.
(13) SUMÁRIO. 1. INTRODUÇÃO.......................................................................................... 15. 2. O ESTADO DA ARTE............................................................................... 2.1. O ESTUDO DA NARRATIVA: BREVE PANORAMA ............................... 18. 2.2. O ESTUDO DA SEQUÊNCIA TEXTUAL NARRATIVA............................. 23. 2.3. O GÊNERO TERMO DE DEPOIMENTO.................................................. 30. 3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA................................................................ 36. 3.1. A LINGUÍSTICA TEXTUAL....................................................................... 36. 3.1.1. A Linguística Textual no Brasil.............................................................. 38. 3.2. A ANÁLISE TEXTUAL DOS DISCURSOS................................................ 40. 3.2.1. Estrutura composicional do texto......................................................... 43. 18. 3.2.1.1 Os planos de textos................................................................................... 45. 3.2.1.2 As Sequências textuais ............................................................................ 46. 3.2.1.3 A Sequência textual narrativa.................................................................... 53. 4. METODOLOGIA....................................................................................... 58. 4.1. CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA........................................................ 58. 4.2. CORPUS: APRESENTAÇÃO.................................................................... 60. 4.3. COLETA E PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE.......................................... 63. 5. ANÁLISE .................................................................................................. 67. 5.1. TERMO DE DEPOIMENTO 1................................................................... 67. 5.1.1. Estabelecimento do texto....................................................................... 67. 5.1.2. Apresentação do plano de texto............................................................ 67. 5.1.3. Codificação do depoimento da testemunha......................................... 69. 5.1.4. Identificação, descrição e interpretação das macroproposições narrativas.................................................................................................. 69. 5.1.4.1 Narrativa global......................................................................................... 70 5.1.4.2 Narrativa encaixada 1................................................................................ 72.
(14) 5.1.4.3 Narrativa encaixada 2................................................................................ 75. 5.1.4.4 Narrativa encaixada 3................................................................................ 76. 5.1.4.5 Narrativa encaixada 4................................................................................ 78. 5.1.4.6 Narrativa encaixada 5................................................................................ 79. 5.1.4.7 Síntese das principais ações de W........................................................... 81 5.2. TERMO DE DEPOIMENTO 2................................................................... 82. 5.2.1. Estabelecimento do texto....................................................................... 83. 5.2.2. Apresentação do plano de texto............................................................ 84. 5.2.3. Codificação do depoimento da testemunha......................................... 82. 5.2.4. Identificação, descrição e interpretação das macroproposições narrativas.................................................................................................. 84. 5.2.4.1 Narrativa global......................................................................................... 84 5.2.4.2 Narrativa encaixada 1................................................................................ 86. 5.2.4.3 Narrativa encaixada 2................................................................................ 88. 5.2.4.4 Narrativa encaixada 3................................................................................ 89. 5.2.4.5 Narrativa encaixada 4................................................................................ 90. 5.2.4.6 Síntese das principais ações de T............................................................. 91. 5.3. TERMO DE DEPOIMENTO 3................................................................... 92. 5.3.1. Estabelecimento do texto....................................................................... 92. 5.3.2. Apresentação do plano de texto............................................................ 92. 5.3.3. Codificação do depoimento da testemunha......................................... 93. 5.3.4. Identificação, descrição e interpretação das macroproposições narrativas................................................................................................. 94. 5.3.4.1 Narrativa global......................................................................................... 94 5.3.4.2 Narrativa encaixada................................................................................... 96. 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS...................................................................... 97. REFERÊNCIAS ........................................................................................ 99. ANEXOS.
(15) 15. 1 INTRODUÇÃO. Os diversos textos do âmbito jurídico desempenham um importante papel na sociedade. Apesar disso, esses textos, de um modo geral, são bastante restritos ao seu meio específico de circulação, o que faz com que sejam facilmente citados como ‘textos difíceis de entender’. Diante disso, surge a necessidade de estudos que abordem esses textos a fim de contribuir para sua clarificação e assim torná-los mais acessíveis ao seu leitor, seja ele da área jurídica ou não. Nessa perspectiva, a presente pesquisa trata do estudo sobre a realização das sequências textuais narrativas no gênero jurídico termo de depoimento. O termo de depoimento é uma peça do inquérito policial, na qual a testemunha respondendo a algumas perguntas diz o que sabe e é relevante para um determinado caso. Tudo o que a testemunha diz é registrado pelo escrivão e, no final de seu depoimento, a testemunha toma conhecimento de suas declarações através da leitura feita pelo escrivão o qual assina esse documento juntamente com a testemunha e o Delegado de Polícia. O termo de depoimento constitui, assim, um documento de fundamental importância para a investigação e formulação das hipóteses investigativas. O presente trabalho parte das seguintes questões de pesquisa: . Como ocorrem as sequências textuais narrativas no gênero termo de depoimento?. . Que elementos textuais e discursivos são utilizados nas sequências narrativas no gênero termo de depoimento?. . Qual o papel das sequências narrativas para a composição do gênero termo de depoimento? Para responder a esses questionamentos traçamos metas a serem. alcançadas com a investigação. Por isso, selecionamos os seguintes objetivos: Objetivo geral: . Investigar como ocorrem as sequências narrativas no gênero termo de depoimento. Objetivos específicos:. . Identificar e descrever que elementos textuais e discursivos são utilizados nas sequências narrativas no gênero termo de depoimento..
(16) 16. . Interpretar qual o papel das sequências narrativas para a composição do gênero termo de depoimento. Nossa fundamentação teórica parte dos pressupostos gerais da Linguística. Textual com autores como Koch (1997; 1999; 2002; 2008; 2009;), Koch e Elias (2012; 2013), Marcuschi (2008; 2012), entre outros, e mais precisamente da Análise Textual dos Discursos (ATD) proposta por Adam (2011) no que se refere ao plano de texto e a sequência textual. Além desses, respaldamo-nos também em outros autores no que se refere ao estudo do gênero, tais como Bazerman (2005), Rojo (2005) e Marcuschi (2008). Para tratar do discurso jurídico fundamentamo-nos em Pelágio (2002), Gomes (2011), Nucci (2014) e França (2015). O corpus da pesquisa é composto por três termos de depoimento oriundos de uma Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher, DEAM, localizada em Natal, Rio Grande do Norte, e disponibilizados através do banco de processos do grupo de pesquisa em Análise Textual dos Discursos (ATD) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Em conformidade com o seu local de origem, os documentos aqui analisados abordam a temática da violência contra a mulher. A escolha do tema do trabalho partiu de algumas motivações: em um primeiro momento, a escolha de um gênero do âmbito jurídico, bem como a noção de sequência textual narrativa proposta por Jean Michel Adam, deveu-se ao fato de, enquanto pesquisadora, estar inserida no grupo de pesquisa ATD, do Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem (PPgEL) da UFRN que tem como uma de suas linhas de pesquisa o estudo do discurso jurídico a partir da perspectiva dos postulados de Adam (2011). Em um segundo momento, o fato de haver poucos trabalhos nessa perspectiva de estudo abordando o gênero termo de depoimento. Nessa direção, destaco apenas os trabalhos de Gurpilhares et al. (2012), e de Cardoso e Cardoso (2015), os quais retomamos aqui pela sua pertinência ao estudo que pretendemos desenvolver. A relevância do presente estudo centra-se justamente na abordagem do gênero jurídico termo de depoimento, sob uma perspectiva linguística e discursiva. A partir desse estudo, pretendemos contribuir para a sua melhor compreensão. De acordo com os objetivos propostos, a pesquisa apresenta como categorias de análise as macroproposições narrativas propostas por Adam (2011), as quais estão relacionadas à dimensão estrutural e composicional do texto..
(17) 17. Esta dissertação estrutura-se em seis capítulos. O primeiro corresponde a esta introdução, na qual expomos os principais pontos do trabalho, sobre o que ele trata, em que se fundamenta, seus objetivos gerais e específicos, a origem do seu corpus, e os critérios de escolha para essa temática, bem como a estruturação do trabalho como um todo. No capítulo dois - O estado da arte - trazemos um breve panorama sobre o estudo da narrativa, como também um levantamento de estudos já realizados a partir da perspectiva do estudo da sequência textual narrativa proposta por Adam (2011). Neste capítulo, também focamos no gênero em análise (termo de depoimento) trazendo primeiramente alguns esclarecimentos sobre em que perspectiva teórica esse gênero aqui é concebido e, diante disso, suas principais características, bem como em que contexto geral de pesquisas nosso trabalho se insere. O capítulo três - Fundamentação teórica – trata dos pressupostos teóricos a partir dos quais embasamos nossa pesquisa. No capítulo quatro – Metodologia – apontamos informações sobre a caracterização da pesquisa, a apresentação, coleta e tratamento do corpus, as categorias e os procedimentos de análise e sobre o gênero termo de depoimento. No capítulo cinco - Análise – apresentamos a análise de acordo com os fundamentos teóricos expostos anteriormente. O capítulo seis - Considerações finais - traz os resultados obtidos e as contribuições do estudo para a área em que se insere. Por último, constam as referências de todo material utilizado na pesquisa e os anexos..
(18) 18. 2 O ESTADO DA ARTE. Neste capítulo, apresentamos: um breve histórico sobre o estudo da narrativa e apresentamos também alguns estudos já realizados acerca dessa categoria; além disso, explicitamos algumas características do gênero jurídico termo de depoimento, bem como delimitamos em que perspectiva teórica esse gênero é concebido nessa pesquisa.. 2.1 O ESTUDO DA NARRATIVA: BREVE PANORAMA. Nesta seção, apresentamos uma breve revisão das principais teorias responsáveis pela elaboração do conceito de estrutura narrativa. Com isso, objetivamos mostrar a diversidade de abordagens e enfoques existentes a respeito do estudo da narrativa, bem como situar o nosso estudo a partir desse panorama. Os primeiros estudos da narrativa começaram a partir da Poética de Aristóteles, escrito por volta de 335 a.C. Nessa obra, Aristóteles estuda a epopeia, a tragédia e a comédia para estabelecer os cânones da narrativa clássica. O autor faz uma análise profunda da tragédia, a qual continua como referência para o estudo da narrativa até hoje. Propp ([1928] 1983) retomou os estudos da narrativa através da análise dos contos de fadas russos. Nesse sentido, o autor realiza uma morfologia desses contos de fadas, os quais denomina de contos maravilhosos. Essa morfologia corresponde a uma descrição dos contos a partir das partes que os compõem, das relações destas partes entre si e com o todo. Através de suas análises, o autor concluiu que, muitas vezes, os contos emprestam as mesmas ações a personagens diferentes. Dessa forma, o autor propõe um estudo do conto através das funções das personagens, as quais passam a representar, nessa perspectiva, as partes fundamentais do conto. Propp ([1928] 1983) chega a quatro teses fundamentais: 1) Os elementos constantes permanentes do conto são as funções das personagens, quaisquer que sejam estas personagens e qualquer que seja o modo como são preenchidas estas funções. As funções são as partes constitutivas fundamentais do conto. 2) O número das funções do conto maravilhoso é limitado. 3) A sucessão das funções é sempre.
(19) 19. idêntica. 4) Todos os contos maravilhosos pertencem ao mesmo tipo no que diz respeito à estrutura. Vieira (2001) ressalta que a importância do trabalho de Propp reside no fato de que através das funções propostas por ele podemos construir uma estrutura do conto. Ainda de acordo com Vieira (2001), Propp ([1928] 1983) teria sido o primeiro a chamar a atenção para a forma estrutural do enunciado narrativo. Bremond (1966) propõe como modelo para os enunciados narrativos uma estrutura triádica. Em sua proposta, o processo narrativo apresenta uma situação lógica na qual atuam três papéis básicos: vítima, agressor e ajudante, que se organizam segundo o seguinte encadeamento: Degradação → Melhora → Ajuda. Durante esse processo, se a ajuda é alcançada, ocorre uma melhora e o processo de degradação é evitado. Contudo, se a ajuda não ocorre, não há melhora e o processo de degradação é inevitável. Já Labov e Waletzky (1967) propõem uma estrutura narrativa dividida em cinco momentos. Para chegar a essa proposta, os autores realizaram suas análises a partir de narrativas orais recolhidas de crianças e adultos de culturas diferentes. Para os autores, a narrativa funciona como um método de recapitulação de experiências passadas e apresenta duas funções básicas: de referência e de avaliação. A primeira diz respeito à transmissão de informações que há na narrativa em relação ao lugar, tempo, personagens, etc.; a segunda diz respeito à transmissão ao ouvinte do motivo da narrativa ter sido contada. Os autores centram sua definição de núcleo narrativo sobre a dimensão avaliativa que expressa o ponto central da narrativa, dando destaque, assim, aos eventos mais importantes. Nessa perspectiva, a narrativa vai ter uma superestrutura textual composta de orientação, complicação, ação ou avaliação, resolução, conclusão ou moral. A orientação corresponde ao momento em que são definidas as situações de espaço, tempo e características das personagens; a complicação ocorre quando há uma ação que modifica o estado inicial e dá inicio a narrativa propriamente dita. A narrativa, então, culmina no momento em que uma ação transforma a nova situação provocada pela complicação ou em que uma avaliação da nova situação indica as reações do sujeito do enunciado. O resultado corresponde ao novo estado de coisas que é estabelecido. O final da narrativa se dá no momento em que é elaborada uma moral diante das consequências da estória..
(20) 20. Segundo Todorov (1971), “Uma narrativa ideal começa por uma situação estável que uma força qualquer vem perturbar”, e que dessa mudança de estado resultaria “um estado de desequilíbrio”; o equilíbrio, então, seria reestabelecido pela ação de uma força direcionada em sentido inverso; haveria um segundo equilíbrio que é parecido com o primeiro, mas nunca idêntico. Assim, para ele, há dois tipos de episódios na narrativa: “os que descrevem um estado (de equilíbrio ou de desequilíbrio) e os que descrevem a passagem de um estado a outro” (TODOROV, 1971, p. 124). Após termos revisitado alguns dos principais autores e suas respectivas teorias que firmaram as bases do estudo da narrativa, vejamos agora algumas das principais abordagens sobre a narrativa no âmbito dos estudos da linguagem que têm respaldado diversos estudos no Brasil. Cunha (2015), em seu artigo “Um panorama de abordagens da narrativa nos estudos da linguagem”, tem como objetivo apresentar teorias sobre a narrativa desenvolvidas apenas no interior da Linguística do Texto e do Discurso. De acordo com o autor, ainda que seu trabalho “[...] se restringisse somente às abordagens sobre narrativa produzidas por linguistas [...]” não seria suficiente, pois “[...] a quantidade e a diversidade dessas abordagens levariam apenas à produção de um inventário, que, embora exaustivo, permaneceria inevitavelmente incompleto” (p. 36). Assim, o autor ratifica o objetivo do seu trabalho diante da diversidade de possibilidades existentes para o estudo da narrativa. Segundo Cunha (2015), podemos começar por distinguir duas vertentes teóricas distintas: de um lado, Benveniste (1976) e Weinrich (1973) estudam a narrativa com o auxílio de critérios linguísticos. Do outro lado, Labov (1967), Adam (1992; 1999) e Bronckart (2007) estudam a narrativa com o auxílio de critérios principalmente referenciais. Em conformidade com o que pretendemos investigar na presente pesquisa para saber como se realizam as sequências narrativas, debruçamo-nos um pouco mais na segunda vertente teórica acima mencionada, e mais precisamente na proposta de Adam (1992; 1999). No âmbito dos estudos da narrativa que utilizam critérios linguísticos, conforme a proposta de Cunha (2015), destacam-se Benveniste (1976) e Weinrich (1973). Benveniste (1976) em seu estudo sobre “As relações de tempo no verbo francês” trata de “procurar, numa visão sincrônica do sistema verbal em francês.
(21) 21. moderno, as relações que organizam as diversas formas temporais”. A partir desse estudo, o autor observa que “Os tempos de um verbo francês não se empregam como os membros de um sistema único; distribuem-se em dois sistemas distintos e complementares” (BENVENISTE, 1976, p. 261-262 – grifos do autor). Para o autor, esses sistemas se manifestam em dois planos distintos: o plano da história e o plano do discurso. O plano da história diz respeito à narrativa de acontecimentos passados, e limita-se a língua escrita. O autor cita como exemplos dessas enunciações históricas os romances realistas do século XIX e as obras historiográficas. Já o plano do discurso, diz respeito a “toda enunciação que suponha um locutor e um ouvinte e, no primeiro, a intenção de influenciar, de algum modo, o outro” (BENVENISTE, 1976, p. 261-262). De acordo com o autor, nesse plano do discurso estão todos os discursos orais, como também todos os escritos que reproduzem as características de composição e a finalidade desses discursos orais. Weinrich (1973) parte da constatação de que os morfemas que indicam os tempos verbais são bastante recorrentes, pois ao analisar textos escritos em francês, observa que o tempo dominante ou mais recorrente é o presente ou o passado simples associado ao imperfeito. A partir dessa observação, o autor levanta a hipótese de que os verbos se repartem em dois grupos: o primeiro é constituído pelo presente, passado composto e futuro; o segundo é constituído pelo passado simples, o imperfeito, o mais-que-perfeito e o condicional. Para explicar a recorrência desses tempos verbais distribuídos nesses dois grupos, Weinrich (1973) chega à conclusão de que os tempos verbais do primeiro grupo sinalizam o “mundo comentado” e os tempos do segundo grupo sinalizam o “mundo narrado”. No mundo comentado, o locutor assume uma atitude tensa e indica ao interlocutor que o texto merece uma atenção maior e espera dele, do interlocutor, uma reação. No mundo narrado, o locutor assume uma atitude distensa ou relaxada, porque indica ao auditor que o texto “é ‘somente’ um relato” e que ambos os interlocutores são expectadores de um mundo representado e não os seus atores. As abordagens de Weinrich (1973) e Benveniste (1976) foram alvo de críticas devido a algumas fragilidades apontadas em suas propostas como, por exemplo, a diferenciação entre os tempos do mundo narrado e do mundo comentado, uma vez podemos narrar com tempos do comentário e comentar com tempos da narração..
(22) 22. Para Cunha (2015), críticas como essa contribuíram para que ganhassem cada vez mais espaço as abordagens que estudam a narrativa e os demais tipos ou sequências com base principalmente em critérios referenciais, das quais são autores representativos Labov e Waletzky (1967), Adam (1992; 1999) e Bronckart (2007). Na sequência, veremos um pouco da proposta desses autores que referenciamos. A proposta de Labov e Waletzky (1967) já foi referenciada anteriormente nesta seção, acrescentamos apenas que essa proposta, segundo Cunha (2015, p. 41) é “[...] provavelmente, a mais influente das abordagens já propostas nos estudos da linguagem para o estudo da narrativa.”. Segundo Cunha (2015), Bronckart (2007) ao falar em tipos de discurso desenvolve as propostas de Weinrich (1973) e de Benveniste (1976). Porém, Cunha (2015, p. 48) acrescenta que Bronckart (2007) “encara o problema da heterogeneidade composicional sob um enfoque sociointeracionista, segundo o qual as condutas humanas são ações significantes, por meio das quais se elaboram as capacidades mentais e a consciência dos agentes”. Por isso, para o autor, tal proposta reinterpreta as teorias de Benveniste (1976) e de Weinrich (1973) no quadro da psicologia. Adam (1992) apoia-se em contribuições de Labov e Waletzky (1967) e de estudiosos da cognição para defender sua proposta sobre os esquemas sequenciais prototípicos. Assim, tanto a produção quanto a compreensão da estrutura de um texto envolveria a ativação de conhecimentos desses esquemas, o que possibilitaria ao sujeito identificar o tipo ou os tipos das sequências que produz ou compreende. Em sua proposta sobre os esquemas sequenciais prototípicos, Adam (1992) propõe a existência das sequências narrativa, descritiva, argumentativa, explicativa e dialogal. Cada uma dessas sequências prototípicas é definida como um conjunto de macroproposições hierarquicamente organizadas. E é justamente a partir dessas macroproposições que, segundo o autor, podemos caracterizar os protótipos. Nessa proposta, é dado destaque ao papel da interação na constituição do protótipo da sequência narrativa. Adam (1992) parte do princípio dialógico bakhtiniano de que o discurso é sempre produzido para o outro e observa que a estrutura canônica da narrativa não é homogênea, na medida em que não se compõe apenas de acontecimentos. Algumas macroproposições destinadas a descrever lugares e personagens (Situação inicial) e a justificar ou a explicar porque a história merece ser narrada (Moral) são inseridas na narrativa em função de.
(23) 23. necessidades pragmáticas como a vontade de favorecer a compreensão do outro ou de convencê-lo de determinado ponto de vista. É nesse sentido que Adam (1992) fala de uma orientação argumentativa da narrativa. Ao considerar a dimensão pragmática da narrativa, o autor se afasta um pouco da concepção dos estruturalistas literários em que se apoia para elaborar o protótipo, concepção segundo a qual a narrativa seria imune ou impermeável ao contexto. Como pudemos observar até aqui, a narrativa tem sido estudada sob diferentes enfoques teóricos, os quais compõem um quadro complexo de abordagens. Cunha (2015) enfatiza que essas classificações propostas por ele que dizem respeito às abordagens de caráter linguístico e referencial não constituem oposição entre si, antes apenas expressam a predominância de tais aspectos, linguístico e referencial, em cada uma delas, portanto, não é uma classificação estanque e opositiva. É importante destacarmos também que todos os autores aqui elencados apresentam em comum o fato de terem procurado chegar a uma estrutura básica geral para os enunciados narrativos, o que contribuiu significativamente para o desenvolvimento do tema proposto nesta pesquisa. Diante disso, situamos nosso estudo na perspectiva de Adam (2011) sobre a sequência textual narrativa por considerarmos a sua abordagem mais completa a respeito dessa categoria.. 2.2 O ESTUDO DA SEQUÊNCIA TEXTUAL NARRATIVA. As sequências textuais constituem-se uma das noções utilizadas pela Análise Textual dos Discursos (ATD) para o estudo da dimensão estrutural e composicional do texto, sendo, portanto, uma categoria largamente utilizada para descrição de textos. Nessa direção, a sequência textual narrativa tem sido tema de diversas pesquisas que são desenvolvidas sob os mais diversos enfoques conforme os trabalhos que citamos adiante. No artigo intitulado “Narração esportiva de futebol e composicionalidade: uma proposta de estudo textual-discursiva das sequências textuais”, Santos (2012) apresenta uma análise da composicionalidade de uma narração esportiva de futebol transmitida na televisão. A partir dos estudos do discurso (de perspectiva dialógica).
(24) 24. e da noção de sequência textual, proposta por Adam (2011), investiga o trabalho do locutor/narrador na construção composicional da narração esportiva de futebol, bem como pretende descrever a cena enunciativa em que ocorre a interação em análise e discutir a sua relevância para a compreensão da composicionalidade nesse tipo de narração. Por fim, pretende refletir sobre como a ocorrência e a organização dessas sequências interfere, a priori, na arquitetônica do gênero. O corpus escolhido para análise trata-se de um recorte da narração da última partida da última rodada do Campeonato Brasileiro de 2008, ocorrida em 07 de dezembro de 2008, entre São Paulo e Goiás, transmitida pela Rede Globo de São Paulo. Sobre a questão de “como a ocorrência e a organização dessas sequências interfere, a priori, na arquitetônica do gênero” – Santos (2012) observa que o fato de apresentar muitos traços que se assemelham aos de narrativas orais – heterogeneidade das sequências, linguagem próxima à coloquial, interrupções, hesitações, repetições, referência constante ou não ao outro – torna a narração esportiva de futebol um gênero que tem sua origem na tradição oral, porém mais complexo, até mesmo por pertencer a uma prática discursiva da esfera midiática e, mais especificamente, jornalística. A autora também verifica que há um agenciamento plurissequencial heterogêneo das sequências por parte do narrador/locutor – já que a narração constitui-se de uma mescla de diversas sequências – que revela uma flexibilidade maior do seu discurso, em termos de composicionalidade, por contar com o auxílio da imagem para informar ao telespectador sobre o que acontece na partida. Essa espécie de agenciamento permite ao narrador/locutor ir além do ato de narrar a partida, permitindo-se descrever, explicar fatos, assim como argumentar e dialogar sobre eles durante a narração. A arquitetônica do gênero, definida pelo narrador/locutor em uma narração esportiva de futebol, determina a composicionalidade que esse gênero apresentará. De acordo com a autora, isso ocorre pelo fato de esse narrador ser uma figura central na narração. Constata também que ele apresenta o maior número de turnos, o que justifica a presença de variadas sequências em seu discurso. Em decorrência disso, observou-se que, em geral, a sequência narrativa acaba “exigindo” a presença de outras sequências que a ela se articulam a fim de que o telespectador tenha o máximo de informação relacionada a um determinado lance..
(25) 25. Santos (2012) conclui ao fim de sua análise que o narrador/locutor orquestra não somente o gênero no âmbito das relações interlocutivas e do interdiscurso, mas também no nível textual, articulando proposições e macroproposições, produzindo sequências que nos permitem compreender o todo da narração, bem como a sua finalidade em uma esfera de atividade e em um suporte relativamente recentes. Santos (2012) salienta que outras investigações sobre a narração esportiva de futebol podem ser realizadas a partir da perspectiva da análise textual dos discursos, como estudos comparativos que abordem a questão do estilo dos narradores com base na forma que eles arquitetam as sequências e os atos de discurso ou que procurem analisar a relação entre as sequências e o interdiscurso de modo a investigar de onde enuncia(m) o(s) narrador(es), os comentaristas e os repórteres, por exemplo. Em dissertação intitulada “Um estudo da realização da sequência narrativa no gênero notícia”, Silva (2007) analisa e descreve a realização da sequência narrativa no gênero notícia, segundo o esquema prototípico narrativo de Adam (1992), e verifica as relações existentes entre esse modelo sequencial e a estrutura propriamente dita do gênero. Seu corpus é constituído por 50 notícias, dentre as quais 26 policiais e 24 não policiais retiradas dos sites dos periódicos jornalísticos O Povo e Folha de São Paulo, no período de setembro de 2005 a setembro de 2006, e submetidos à identificação das macroproposições narrativas em sua estrutura textual. A análise realizada por Silva (2007) propõe uma nova classificação das notícias em narrativas e expositivas, de acordo, respectivamente, com a identificação da sequência narrativa em sua estrutura. A partir dessa nova classificação, a autora observa que a sequência narrativa se atualiza predominantemente nas notícias policiais, que apresentaram uma forma de realização recorrente: a ocorrência expressiva da sequência narrativa com todas as suas fases no lead e a constante repetição ou retomada de algumas das macroproposições narrativas no corpo da notícia, como uma extensão do conteúdo já exposto, configurando uma característica do gênero. Silva (2007) destaca, ainda, que a sequência narrativa funciona como um importante mecanismo de organização textual das notícias narrativas, ainda que sua conformação narrativa prototípica tenha sido diferente da delineada por Adam. Já nas notícias não policiais, o rendimento foi baixo. A estrutura composicional.
(26) 26. configura-se como expositiva e, nesse caso, foi analisada sob os pressupostos teóricos de Bronckart (1999). A autora enfatiza a importância da reflexão teórica sobre a realização do protótipo da sequência narrativa de Adam (1992) no gênero notícia e, do ponto de vista. da. aplicabilidade,. e. ressalta. a. relevância. dessa. reflexão. para. a. operacionalização do conceito de sequência textual narrativa no tratamento didático de gêneros não literários, considerados de natureza narrativa, tal como o gênero notícia. Por fim, Silva (2007) enfatiza o fato de que os resultados de sua pesquisa vêm alimentar os estudos sobre gêneros textuais na interface entre a Linguística Textual e a análise de gêneros. Enfatiza também o fato de que esses resultados podem contribuir para propiciar descobertas interessantes sobre o estudo da sequência narrativa, especialmente quanto à sua realização em um gênero que, embora não literário, tem sido considerado como narrativo; e também para demonstrar como a organização dos aspectos estruturais dos gêneros está imbricada às exigências pragmáticas próprias de sua constituição. Ressalta ainda que houve uma preocupação com os aspectos didáticos no tratamento dos gêneros e que, por isso, a pesquisa traz conclusões que podem contribuir para uma reflexão sobre a prática pedagógica e sobre as múltiplas possibilidades de trabalho com os gêneros textuais, especificamente com a notícia. Na dissertação intitulada “Sequência narrativa: narrativa ou script? Um estudo da infraestrutura em produções textuais de 6° ano”, Oliveira (2010) tem como objetivo analisar a infraestrutura de textos produzidos por alunos do 6° ano, verificando a presença da sequência narrativa ou do script, além da construção do texto com as categorias: tempos verbais, organizadores temporais e pronomes. Sua pesquisa tem como base os pressupostos da Linguística Textual, com ênfase no protótipo narrativo de Adam (1992; 2008) e no interacionismo sóciodiscursivo (ISD) de Bronckart (2007), especificamente, no tipo de discurso narração. A pesquisa apresenta um caráter teórico-prático e é delineada em quase experimental com um corpus que se compõe de quarenta e duas (42) produções textuais divididas em produção inicial (PI) e produção final (PF). Essas produções textuais foram recolhidas durante um período de três semanas com atividades que tratavam das categorias citadas anteriormente, em forma de oficinas, à luz das sequências didáticas de Schneuwly e Dolz (2004)..
(27) 27. Os resultados mostram que muitas das produções analisadas foram estruturadas segundo a sequência narrativa de Adam (1992; 2008), outras, porém, apresentaram somente o script, conforme Bronckart (2007), comprometendo a infraestrutura textual de gêneros do narrar. De acordo com a autora, os alunos possuem o conhecimento da estrutura narrativa internalizada, porém não sabem distinguir entre o processo de intriga e o script, o que os faz produzir textos em que apenas enumeram ações e, ao construílos, utilizam-se das categorias elencadas, priorizando os tempos verbais do narrar, apesar de em algumas situações essas construções parecerem equivocadas. Os organizadores temporais, segunda categoria analisada, funcionaram nesses textos como um elemento que auxilia os tempos verbais com as locuções adverbiais que se apresentaram com maior incidência. Na categoria pronomes, as construções apresentaram anáforas que demonstraram o uso de um mecanismo da língua, evitando repetição de elementos no texto, o que constitui para um aluno em processo de desenvolvimento da escrita uma estruturação de ideias. Oliveira (2010) concebe sua pesquisa como uma reflexão teórica sobre a construção do texto narrativo de alunos de 6º ano e espera, com isso, ter contribuído para compreensão da importância da diferenciação entre um texto narrativo e um script. Segundo a autora, a relevância de sua pesquisa está no fato de ajudar ao aluno compreender melhor essas categorias presentes na infraestrutura do texto e que o auxiliam a produzir gêneros do narrar e, também contribuir para o professor, compreender esse processo, valorizando e auxiliando o aluno na construção da produção textual narrativa. Na dissertação “Recursos metadiscursivos de interação em sequência narrativa”, Santos (2011) investiga a manifestação dos recursos metadiscursivos de interação na perspectiva das macrocategorias de engajamento e de posicionamento em textos de sequência narrativa. Sua pesquisa fundamenta-se na base teórica de Hyland (2005) para o conceito de metadiscurso e em sua classificação das macrocategorias; e em Adam (2008) para as macrounidades da organização composicional de um texto com ênfase na sequência narrativa. Santos (2011) discute brevemente os processos referenciais de anáfora, introdução referencial e dêixis, os quais se sobrepõem aos recursos metadiscursivos de interação..
(28) 28. A pesquisa é composta por um corpus de 16 textos com sequência narrativa dominante, a partir do qual foi constatada a presença recorrente dos recursos metadiscursivos de interação. Para a autora, o fenômeno do metadiscurso também se manifesta nos textos narrativos através das macrocategorias de posicionamento e de engajamento, apresentando-se de forma bastante específica e de forma sobreposta às macrocategorias analisadas. Na dissertação “Marcadores discursivos e sequências textuais: uma análise das ações de textualização em programas midiáticos”, Mariano (2014) investiga em que medida os recursos do nível textual são formatados e, de certa forma, formatam as situações de uso. Para isso, analisa as ações de textualização empreendidas pelos participantes do programa midiático “Manos e Minas”, veiculado pela TV Cultura. Com o objetivo específico de demonstrar como um olhar para as ações de textualização empreendidas pelos participantes desse programa midiático pode nos auxiliar na percepção da estruturação composicional dos textos analisados, a autora seleciona os marcadores discursivos e as sequências textuais como unidades de análise. Para tanto, assume a noção de marcadores discursivos (doravante, MDs) na perspectiva textual-interativa e a noção de sequência textual proposta por Adam (2008). O corpus da pesquisa é composto de três amostras do programa de auditório “Manos e Minas”. A partir de suas análises, Mariano (2014) observa que no programa “Manos e Minas” há relações de mútua constitutividade existentes entre (i) o emprego de certas sequências textuais e determinadas situações comunicativas desenhadas para atingir certos objetivos mais gerais do programa e entre (ii) a emergência de algumas sequências textuais e os papéis sociais específicos desempenhados pelos sujeitos dentro da estrutura de participação do programa. Observa também que os MDs nesse programa parecem desempenhar um papel fundamental na estruturação dos microtextos produzidos pelos participantes do programa. De acordo com Mariano (2014), as análises realizadas em sua pesquisa dão visibilidade às inúmeras possibilidades de combinação de tipos e ações textuais, combinações estas que, em geral, são conectadas por meio de MDs. Por fim, conclui que a textualidade constitutiva da produção discursiva analisada é plasmada pelas relações sociais estabelecidas entre os participantes do programa. A interação.
(29) 29. entre os interlocutores no “Manos e Minas” é fortemente marcada por um caráter fático e colaborativo, reforçado pela presença significativa dos MDs interacionais e pelo desenvolvimento de sequências textuais do tipo dialogal. Na tese intitulada “Estrutura composicional em contos de fadas de Marina Colasanti”, Oliveira (2016) parte da hipótese de que os contos de fadas de Marina Colasanti têm regularidade em sua estrutura composicional com planos de texto compostos. por. sequências. narrativas. completas,. constituídas. pelas. cinco. proposições narrativas de base (ADAM, 2011). A partir disso, Oliveira (2016) propõe verificar a estrutura composicional narrativa em contos de fadas de Marina Colasanti. A investigação fundamenta-se nos pressupostos da Linguística Textual e da Análise Textual dos Discursos a partir de autores como Adam (2012; 2011; 2010; 2009; 2005), Adam e Heidmann (2011), que se complementam pelos estudos de plano de texto realizados por Cabral (2013), Galvão (2013), Lourenço e Rodrigues (2013), Silva Neto (2013), Marquesi (2014), Santos e Silva Neto (2014), bem como pelos estudos sobre tipologia textual realizados por Travaglia (2014; 2009; 2007a; 2007c; 1991). A pesquisa classifica-se como descritiva, de base interpretativa e é constituída por um corpus composto por seis contos de fadas de Marina Colasanti, dois publicados no livro “Uma ideia toda azul” e quatro publicados no livro “Doze reis e a moça no labirinto do vento”. Nessa pesquisa é utilizada como categoria de análise as macroproposições narrativas de base. De acordo com Oliveira (2016), o aporte teórico utilizado tornou possível a caracterização da estrutura composicional narrativa de contos de fadas de Marina Colasanti, textos narrativos literários voltados para o público infanto-juvenil, de uma perspectiva diferente das abordagens adotadas em estudos da área da Literatura e/ou da Teoria Literária e que o diferencial de sua pesquisa é justamente o estudo da estrutura composicional pelo viés das sequências textuais narrativas. Por meio da análise empreendida, a autora observa que os planos de texto dos contos de fadas de Marina Colasanti, no que diz respeito às sequências textuais narrativas, apresentam dois níveis de organização, um global e um local. No nível local, a regularidade aparece em alguns aspectos da organização das sequências textuais narrativas, mais especificamente na configuração das personagens femininas, na organização espacial, na temporalidade e nas sequências acionais..
(30) 30. As regularidades sequenciais identificadas tanto no nível global como no nível local corroboram o pressuposto teórico segundo o qual as diferentes unidades textuais podem ser analisadas da forma como são constituídas e da forma como constituem o todo textual, além disso, mostram-se, definitivamente, como uma alternativa para o estudo de textos literários. De acordo com Oliveira (2016), o estudo sobre a estrutura composicional dos contos de fadas de Marina Colasanti poderá, em pesquisas posteriores, ser aprofundado em vários aspectos. Um percurso de pesquisa a ser percorrido envolve a investigação das operações de ligação presentes no texto da autora, mas especificamente, a função dos conectores, dos organizadores textuais e dos marcadores discursivos no balizamento das partes dos planos de texto. Da mesma forma, analisar o agenciamento das sequências textuais na composição dos contos de Colasanti, da perspectiva de Adam (2011), ou as relações entre os tipos na composição do gênero conto de fadas, da perspectiva de Travaglia (2014; 2007b), segundo a autora, pode ampliar suas constatações e, consequentemente, possibilitar o desenvolvimento de mais pesquisas apoiadas no aporte teórico adotado. Por fim, Oliveira (2016) acredita que sua pesquisa traz uma contribuição para a análise de textos concretos e também para o desenvolvimento futuro de atividades que facilitem o processo de formação leitora em crianças e adolescentes, com foco tanto nas formas de organização da narrativa quanto na própria língua e nas normas sociais que a regulamentam. Diante do exposto, acreditamos que um estudo que aborde a sequência narrativa no gênero jurídico termo de depoimento venha a contribuir com os estudos linguísticos e discursivos do texto.. 2.3 O GÊNERO TERMO DE DEPOIMENTO. Ao falar sobre gênero é necessário que façamos alguns esclarecimentos acerca da perspectiva sobre a qual este conceito está sendo abordado. Isso porque desde que este conceito passou a ser pensado ainda na Antiguidade por Aristóteles até os dias de hoje, vários foram os critérios e métodos adotados para que se estabelecesse uma possível classificação..
(31) 31. De um modo geral, existem duas vertentes gerais a respeito do tratamento com os gêneros, as quais se referem à vertente que usa a denominação “gêneros de texto” e a que usa a denominação “gêneros do discurso”. Tais nomenclaturas carregam em si implicações teóricas e metodológicas. A esse respeito Rojo (2005) em seu texto “gêneros do discurso e gêneros textuais: questões teóricas e aplicadas”, explica que. Ambas as vertentes encontravam-se enraizadas em diferentes releituras da herança bakhtiniana, sendo que a primeira – teoria dos gêneros do discurso – centrava-se sobretudo no estudo das situações de produção dos enunciados ou textos e em seus aspectos sócio-históricos e a segunda – teoria dos gêneros de texto - , na descrição da materialidade textual. (ROJO, 2005, p. 185).. De acordo com a autora, Bakhtin e seu círculo eram a referência da primeira vertente. Na segunda, os autores de referência eram, em geral, Bronckart e Adam. Mesmo assim, de acordo com Rojo (2005, p. 185), em algumas ocasiões, em função de uma descrição específica de exemplares de gênero, “[...] ambas as vertentes muitas vezes recorriam a um conjunto de autores comuns, tais como, Charaudeau, Maingueneau, Kerbrat-Orecchioni, Authier-Revuz, Ducrot, Bronckart et al. (1985), Bronckart (1997), Adam (1992).”. Dessa forma, para uma análise que pretenda focar em aspectos propriamente textuais, ou seja, na materialidade linguística do texto, é adequado utilizar a nomenclatura “gênero de texto”. Já para uma análise que pretenda investigar prioritariamente a situação de produção dos enunciados, utiliza-se “gêneros do discurso”. Em decorrência disso, para efeito de análise desta pesquisa, utilizamonos da nomenclatura “gênero de texto”, uma vez que focamos nossa análise em aspectos relativos à estrutura composicional do gênero termo de depoimento. Para Marcuschi (2008, p. 155), quando falamos em gênero textual estamos nos referindo a “[...] textos materializados em situações comunicativas recorrentes.” O autor acrescenta ainda que “Os gêneros textuais são os textos que encontramos em nossa vida diária [...]” e que “[...] os gêneros são entidades empíricas em situações. comunicativas. e. se. expressam. em. designações. diversas. [...]”. (MARCUSCHI, 2008, p. 155). Nessa direção, Bazerman (2005, p. 32) diz que “Podemos chegar a uma compreensão mais profunda de gêneros se os compreendermos como fenômenos.
(32) 32. de reconhecimento psicossocial que são parte de processos de atividades socialmente organizadas.” E acrescenta ainda que os “[...] gêneros são tão somente os tipos que as pessoas reconhecem como sendo usados por elas próprias e pelos outros.”. Como podemos observar, os autores citados compartilham da ideia de que os gêneros carregam em si um caráter social, ou seja, estão essencialmente envolvidos com as atividades sociais que realizamos em nosso dia a dia, e que eles surgem assim em “[...] processos sociais em que pessoas tentam compreender umas às outras suficientemente bem para coordenar atividades e compartilhar significados com vistas a seus propósitos práticos.”. (BAZERMAN, 2005, p. 32). É nessa perspectiva de gênero textual que conceituamos a seguir o gênero termo de depoimento. O termo de depoimento é uma peça do inquérito policial, no qual a testemunha respondendo a algumas perguntas diz o que sabe e o que é relevante para a investigação de um determinado caso. Tudo o que a testemunha diz é registrado pelo escrivão e, no final, a testemunha toma conhecimento de suas declarações através da leitura feita por ele. Depois disso, o termo de depoimento é assinado pela testemunha, pelo(a) Delegado(a) de Polícia e pelo próprio escrivão. A estrutura composicional do gênero termo de depoimento (considerado no estudo na perspectiva dos gêneros textuais) é padronizada e segue um modelo estabelecido pelo Código de Processo Penal (CPP), o qual no artigo 203 descreve que. A testemunha fará, sob palavra de honra, a promessa de dizer a verdade do que souber e lhe for perguntado, devendo declarar seu nome, sua idade, seu estado e sua residência, sua profissão, lugar onde exerce sua atividade, se é parente, e em que grau, de alguma das partes, ou quais suas relações com qualquer delas, e relatar o que souber, explicando sempre as razões de sua ciência ou as circunstâncias pelas quais possa avaliar-se de sua credibilidade.. O início do documento é composto por informações pessoais como nome, idade, local onde o(a) depoente mora, a profissão que exerce e onde exerce, o grau de parentesco com a parte envolvida (que pode ser a vítima ou o indiciado) ou até mesmo que relação o(a) depoente tem com a parte envolvida, para só depois iniciar o depoimento propriamente dito..
(33) 33. Ao pesquisar sobre estudos voltados para o gênero termo de depoimento, pudemos observar que esse gênero não tem sido muito abordado, de um modo geral, em pesquisas relacionadas ao estudo linguístico. Essa constatação nos motivou ainda mais a empreender uma pesquisa que aborde o estudo desse gênero a partir de uma perspectiva linguística. Dessa forma, entendemos que esse estudo justifica sua relevância pelo fato de abordar um gênero que, apesar de desempenhar um importante papel na sociedade, não tem sido muito explorado. Nessa perspectiva, destacamos os trabalhos de Gurpilhares et al. (2012), e de Cardoso e Cardoso (2015), que retomamos aqui pela sua pertinência ao estudo que pretendemos desenvolver a respeito do gênero jurídico termo de depoimento. Gurpilhares et al. (2012) em seu artigo intitulado “Linguística e discurso jurídico – um estudo com o gênero discursivo ‘Declarações e depoimentos’”, têm como objetivo analisar a construção da referência no gênero declarações e depoimentos e avaliar a sua contribuição para a construção do sentido. Como referencial teórico é utilizado, entre outros, Cardoso (2003) sobre a referência, Koch (2006) sobre o processamento anafórico e Pietroforte (2003) sobre a referência a partir do estruturalismo. Trata-se de uma pesquisa qualitativa. O corpus selecionado para esse trabalho consta de quatro declarações. Gurpilhares et al. (2012) ressaltam que por uma questão de espaço e tempo, apresenta somente a análise de uma única declaração. Os autores mostram, em seu trabalho, a diferença entre o termo de declarações e o termo de depoimento. Segundo o Código de Processo Penal Brasileiro, termo de depoimento é aquele em que a pessoa, testemunha, presta o compromisso formal da verdade e que, por isso, poderá responder pelo crime de falso testemunho se o que disser não for a verdade. Termo de declaração é uma espécie de ‘depoimento’, sem o compromisso da verdade; geralmente os investigados de um delito, antes de serem interrogados, prestam declarações, tanto quanto aquelas pessoas que tenham relação de parentesco com o ofendido, assim como os menores impúberes e o próprio ofendido. Após a análise, Gurpilhares et al. (2012) constataram a presença de 20 anáforas elípticas, 19 anáforas diretas e 1 anáfora encapsuladora expressa por um pronome demonstrativo neutro. Quanto às expressões linguísticas que ancoram as anáforas, apareceram em maior número os pronomes retos ocultos, seguindo-se:.
(34) 34. pronomes. oblíquos,. pronomes. relativos,. pronomes. possessivos,. pronomes. demonstrativos (neutros e outros), expressões nominais à sua correspondência com as anáforas elípticas. O maior número de anáforas elípticas deveu-se, de acordo com os pesquisadores, à presença maior de um único referente: o réu. Por fim, os autores enfatizam a importância do estudo desse gênero na escola no sentido de aumentar o repertório do estudante, não só quanto ao tipo textual, mas também quanto ao conteúdo e estrutura. Para eles, muito pouco tem se trabalhado o discurso jurídico em sala de aula e que por isso a sua inclusão no ensino de Língua Portuguesa, especialmente no Curso Médio, é uma contribuição bem-vinda para o ensino e, ainda, que sua pesquisa traz perspectivas para um estudo com outros gêneros. Seguindo essa perspectiva da importância do estudo de gêneros jurídicos em sala de aula, Cardoso e Cardoso (2015), no artigo “Estruturação composicional em autos de depoimento de inquérito policial: uma abordagem para o ensino dos gêneros jurídicos”, apresentam um estudo sobre a estruturação composicional do gênero auto de depoimento1, focando mais especificamente na configuração do plano de texto e na sequência textual dominante com o objetivo de elaborar sequências didáticas para o ensino do gênero auto de depoimento. O corpus foi coletado em uma Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher (DEAM), localizada em Natal, Rio Grande do Norte, e disponibilizado através do grupo de pesquisa ATD da UFRN. A metodologia adota um enfoque multidisciplinar e a fundamentação teórica parte dos pressupostos gerais da linguística textual a partir de autores como Koch (2004), Koch e Elias (2012; 2013), Marcuschi (2008), dentre outros, e mais precisamente da Análise Textual dos Discursos (ATD) proposta por Adam (2011) no que se refere ao plano de texto e a sequência textual. A proposta apoia-se ainda nas orientações dos “Parâmetros Curriculares Nacionais” (PCN) e no texto “Procedimentos de Ensino: Escolher e Decidir”, de Carlini (2004), além de Nucci (2014) no que se refere ao gênero auto de depoimento. Cardoso e Cardoso (2015) apresentam a análise de um auto de depoimento retirado de um inquérito de natureza criminal de violência contra a mulher com foco. 1. A expressão “auto de depoimento” é uma nomenclatura também utilizada para referir-se ao gênero termo de depoimento. Adotamos aqui a nomenclatura termo de depoimento pelo fato de ter sido a expressão utilizada nos documentos oficiais, como no CPP, por exemplo..
(35) 35. nos aspectos composicionais do texto e, de forma mais específica, na configuração do plano de texto e na sequência textual dominante. A partir disso, os autores apresentam uma proposta para o ensino da entrevista, procedimento que compõe basicamente o gênero auto de depoimento. De acordo com os autores, a proposta não objetiva apenas trazer para o aluno o conhecimento de um novo gênero e de como esse se estrutura, mas também mostrar-lhes que, na verdade, o auto de depoimento é composto por um procedimento bastante conhecido por eles mesmos, uma vez que, em seus próprios livros didáticos, a entrevista aparece muitas vezes como tema de unidades (divisão didática e temática do livro) que propõem leituras (de entrevistas), exercícios e até mesmo oficinas de elaboração e de projetos de jornal e/ou revista da escola. Nesse enfoque, os autores apresentam uma sequência didática composta pelas seguintes etapas: descrição, procedimentos de ensino, objetivos de ensino e atribuições do professor. Por último, os pesquisadores elucidam que sua proposta trata-se de uma mescla e uma adaptação de uma série de outras propostas e que esperam que através dela possam contribuir para a atividade do professor em seu exercício, bem como aproximar o aluno de um gênero desconhecido, mas que é composto por um procedimento comum em seu cotidiano, a entrevista. Cardoso e Cardoso (2015) acrescentam ainda que por se tratar de uma proposta de ensino, essa proposta é passível de modificações e adaptações de acordo com a necessidade e a realidade do contexto em que se pretende aplicá-la..
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