Capítulo 1 EMBASAMENTO TEÓRICO
1.2.1. A Motivação na Psicologia
1.2.1.4. As Teorias Cognitivas: os processos internos
A partir da segunda metade do século XX, as teorias cognitivas se desenvolvem na Psicologia ocasionando, como afirma Pintrich e Schunk (1996:50), uma quebra com a tradição behaviorista. O cognitivismo foca as estruturas mentais e, sendo assim, a motivação é compreendida como um processo interno, não observável, a não ser pelos produtos comportamentais que gera. Há, porém, desacordo quanto à importância dos aspectos envolvidos, ou seja, cada teoria prioriza um determinado aspecto cognitivo, como, por
30 exemplo, as expectativas, as atribuições, ou ainda as percepções de competência, valores, afetividade, objetivos, entre outros.
Stipek (2002:10) declara que as teorias cognitivas começaram a ser desenvolvidas quando os pesquisadores da motivação perceberam que as teorias behavioristas eram insatisfatórias para explicar o comportamento humano, começando, a partir de então, a explorar variáveis não observáveis, daí o estudo da cognição e de como ela afeta o comportamento.
Nesse sentido, a motivação é resultado da relação entre cognição e comportamento, considerando que esse último será mais ativado quando o indivíduo precisar buscar a homeostase, ou seja, o equilíbrio interno.
Essas teorias enfatizam que as crenças influenciam diretamente o comportamento, sendo assim, para alterar o comportamento, é preciso alterar aspectos cognitivos. Além da cognição, são de suma importância as emoções envolvidas no processo.
Uma diferença significativa entre as teorias behavioristas e as cognitivas é que essas últimas não consideram o comportamento algo que ocorre apenas em função de uma necessidade e tendo um instigador ou energizador que o inicia. Para os teóricos cognitivistas, o indivíduo é alguém que toma decisões, que reflete para agir e que avalia resultados obtidos.
Stipek (2002:55) considera dentre as teorias cognitivas aquelas de Atkinson (Teoria de expectativa X valor) e Weiner (Teorias das atribuições). Por essa razão, apresentamos os aspectos destacados nessas teorias.
1.2.1.4.1. As Expectativas
Inicialmente trataremos da teoria que enfatiza o papel das expectativas na motivação.
31 A teoria de expectativa X valor, desenvolvida por Atkinson na década de 60, postula, segundo Stipek (2002:11), que o esforço e a persistência em uma tarefa dependem não só de uma expectativa positiva quanto aos resultados, mas também do valor atribuído a ela. Tal valor foi definido por Atkinson como o prazer no sucesso ou esquivamento da falha, os quais definiriam, e por isso seria possível através deles predizer, se a pessoa se engajaria ou evitaria a tarefa.
Para Atkinson (1964), o ser humano lida com duas tendências inatas, inconscientes e estáveis:
1) o motivo para o sucesso (motive for success – MS), o qual impulsiona o indivíduo à ação e o faz persistir diante de dificuldades porque, para ele, é importante o sucesso, o orgulho, o prazer da realização em si, independentemente de estímulos externos. Para Dörnyei (2001:21), essa necessidade se torna parte da personalidade do indivíduo e o acompanhará por toda vida em qualquer situação, inclusive no contexto educacional.
2) o motivo para evitar o fracasso (motive to avoid failure – MAF), o qual, de forma exatamente oposta ao motivo anterior, desestimula o indivíduo a agir, se relaciona com o medo e a vergonha do fracasso e também com a ansiedade. Segundo Dörnyei (2001:21), a vontade de fazer bem, nesse caso, se dá mais para evitar uma conseqüência negativa do que para alcançar uma conseqüência positiva.
Diante de qualquer atividade, ambos os motivos serão considerados. Além deles, são ainda relevantes a probabilidade de sucesso e de fracasso, analisada conscientemente pelo indivíduo, e a carga emocional trazida em função das experiências anteriores e das expectativas de prazer (valor positivo) ou vergonha (valor negativo). A realização ou não da atividade é, então, definida pela diferença entre os aspectos que a
32 impulsionam e os que a bloqueiam. Resultando mais aspectos positivos, haverá ação e resultando mais aspectos negativos, não haverá ação.
Para Dörnyei (2001:20), a motivação nessa perspectiva pode ser explicada como produto de dois fatores: a expectativa de sucesso na tarefa e o valor a ele atribuído pelo indivíduo. Quanto mais o aluno sentir-se capaz de realizar a tarefa e acreditar que o bom resultado lhe é importante, maior será sua motivação.
Considera-se, nesse caso, que a motivação é inata, ou seja, que os seres humanos são naturalmente curiosos, investigadores de seu meio e propensos ao desafio, cabendo reflexão não sobre o que motiva, mas sobre como direcionar, moldar e incentivar a motivação existente em cada indivíduo.
1.2.1.4.2. As Atribuições
Segundo Dörnyei (2001:21), a expectativa se relaciona com o auto questionamento do indivíduo quanto à sua capacidade para desempenhar uma atividade com sucesso e a resposta que ele irá obter será fruto de diversos aspectos, dentre eles o processamento de experiências anteriores que remete à teoria das atribuições de Weiner. Assim como o indivíduo cria expectativas quanto às suas ações, ele atribui causas aos resultados obtidos, dado que atribuir causas é uma tendência humana.
Surgida e muito difundida durante a década de 80, a teoria das atribuições foi desenvolvida por Weiner e, conforme Pintrich e Schunk (1996:149), considera que todo indivíduo, por natureza, busca compreender e dominar o mundo à sua volta e uma das conseqüências disso é que ele sempre tenta determinar causas para os eventos. Nesse sentido, todo resultado obtido com um comportamento, ação ou tarefa, seja de sucesso ou fracasso, é analisado pela pessoa em função de seus determinantes, ou seja, do que o ocasionou. O
33 indivíduo é naturalmente direcionado a dominar cognitivamente a si mesmo e às ocorrências do meio.
Ainda de acordo com Pintrich e Schunk (op. cit.), habilidade e esforço são os determinantes mais comumente apontados pelos indivíduos para os resultados obtidos, seguidos por outros como: o nível de dificuldade da tarefa, sorte, ajuda do professor ou outros (familiares, colegas), disposição, cansaço, saúde e interesse; porém, independentemente das atribuições serem a fatores internos ou externos, o que merece destaque é o fato de que elas são sempre fruto das interpretações individuais, da cognição do indivíduo, as quais são consideradas relativamente previsíveis e estáveis.
Os aspectos apontados como causas para o sucesso ou fracasso em uma atividade são analisados em três dimensões:
1) Dimensão de localização, na qual o determinante é apontado como interno ou externo ao indivíduo;
2) Dimensão de estabilidade, em que a causa é apontada como estável ou instável;
3) Dimensão de controlabilidade, que envolve a noção de determinante controlável ou não controlável pelo indivíduo.
Segundo Dörnyei (2001:22), um fracasso atribuído a fator estável e incontrolável dificulta mais uma nova ocorrência do comportamento do que se for atribuído a fator instável e controlável. Isso ocorre porque a instabilidade indica maiores chances de um resultado diferente do obtido anteriormente e a controlabilidade aumenta o poder do indivíduo sobre o resultado.
Woolfolk (2000, apud Jacob, 2002), ao relacionar as atribuições dos alunos à sua motivação, afirma que é problemático quando alunos atribuem seus fracassos a causas
34 estáveis e incontroláveis, fadando-os a outros fracassos e, conseqüentemente, ao sentimento de incompetência e à desmotivação.
As atribuições são, portanto, consideradas importantes na teoria da motivação em função da conseqüência que elas podem ter na disposição do indivíduo para a ação, ou, no contexto educacional, para o aprendizado (Stipek, 2002:67), e ainda nas suas expectativas, emoções e auto-estima.
O mecanismo atribucional do indivíduo é acionado especialmente em situações novas, diante de resultados inesperados, de resultados negativos e de eventos considerados importantes por ele.
As teorias cognitivas acima descritas atestam a existência de fatores internos determinantes da motiv(ação) humana e, embora priorizem esses fatores, fornecem ainda maior avanço ao apontarem a existência e influência de fatores externos, os quais foram mais desenvolvidos nas teorias sócio-cognitivas.