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4. AUTOGESTÃO E EDUCAÇÃO – DA CONCEPÇÃO INICIAL À

4.2 EDUCAÇÃO PÓS REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA – A AGENDA

4.2.1 AS TEORIAS DO CAPITAL HUMANO E DO CAPITAL SOCIAL

A partir desse pano de fundo geral traçado até o momento sobre as mudanças e disputas ocorridas em torno da educação por parte dos defensores de uma perspectiva de mercado da educação, damos continuidade a nossa análise discutindo duas concepções teóricas utilizadas pelos discursos neoliberais para

legitimar “cientificamente” a defesa e a suposta importância das propostas

educacionais recomendadas pelos organismos internacionais, sendo elas: a teoria do capital humano e a teoria do capital social.

Segundo Motta (2008) e Gentili (2003), no período de predominância da ideologia desenvolvimentista durante os anos de 1950 e 1960, surgiu a teoria do capital humano, popularizada por Theodore Schultz e Garry Becker. A ideia básica da teoria era de que o trabalho, além de um fator de produção é um tipo de capital,

chamado de “capital humano”. Ela entendia que, quanto maior fosse a qualidade do

desenvolvimento desse capital em cada trabalhador, maior seria força produtiva. Em

91“A evolução de um “mercado mundial da educação” não afeta efetivamente da mesma maneira

todos os níveis e todos os domínios do ensino” (LAVAL, 2004, p.116).

92 A esse respeito recomendamos a leitura de A educação para além do capital de István Mészáros

consequência disso, a qualidade do capital humano bem desenvolvido não melhoraria apenas o trabalhador individualmente, mas também se tornaria fator preponderante na geração de riqueza e crescimento econômico dos países, possibilitando o desenvolvimento social.

Nessa perspectiva, o desenvolvimento de uma nação subdesenvolvida se daria em questão de tempo e de capacidade de adequação a alguns fatores. A relação estabelecida era: o progresso técnico gera emprego e exige do trabalhador qualificação cada vez mais específica e permanente. Investindo em qualificação, o trabalhador garante entrada em postos de trabalho qualificados que, por sua vez, aumentam os níveis de renda, produzindo mais riqueza.

Desse modo, conforme aponta Motta (2008), estabeleceu-se o credo de que

as desigualdades sociais – de classes, países ou regiões - eram provenientes de

fatores como a falta ou o investimento na qualificação dos trabalhadores e na modernização da produção, não uma questão estrutural e orgânica do sistema capitalista no seu todo.

Tomando por base essa concepção, a educação passa a receber uma

atenção privilegiada à medida que “potencializa trabalho e, enquanto tal, constitui-se num investimento social ou individual igual ou superior ao capital físico" (Frigotto, 1986, p. 136). Fornecendo maior qualidade ao trabalho, o investimento em educação se tornaria uma forma de redução das desigualdades econômicas e sociais, posto que ela possibilitaria aumentar a produtividade e, consequentemente, produzir melhores condições de vida para os indivíduos, famílias e para a sociedade em geral. Valores tanto econômicos quanto sociais são atribuídos à educação na teoria do capital humano.

Também nessa direção, a instituição escolar - responsável por formar o

contingente incorporado ao mercado – é entendida enquanto lugar estratégico para

contribuir no processo de integração econômica, política, social e cultural da sociedade. A escolaridade era interpretada como questão fundamental na formação e consolidação do capital humano (GENTILI, 2003).

Entretanto, após a conjuntura observada a partir de meados da década de

1970, as condições estruturais – pleno emprego, por exemplo - sobre as quais a

teoria do capital humano foi pensada foram abaladas. A realidade vivenciada de crise em larga escala e em variadas esferas da vida colocou em cheque todo o

arcabouço de argumentações dessa teoria (MOTTA, 2008).

A partir daí, segundo Gentili (2003), nos anos de 1980 e 1990 há um processo de releitura da teoria no qual se desloca a ênfase em relação à função da escola, colocando- a como instituição que capacita para o emprego ou para a empregabilidade. O substrato liberal-democrático anteriormente visto, que desejava formar para a integração social e buscava a superação das necessidades e demandas de caráter coletivo através da educação, entra em decadência e é substituído pela radicalização de pressupostos individualistas e meritocráticos, organizados a partir de uma lógica estritamente privada e guiada pela ênfase nas capacidades individuais. O papel da educação é revalorizado pelo fator econômico.

Na “neoteoria” do Capital Humano, a inserção no mercado de trabalho dependeria da capacidade de cada um “consumir” os conhecimentos considerados

adequados para a garantia desta inserção, cabendo a cada indivíduo buscar as competências necessárias para disputar uma melhor posição no mercado de trabalho.

Mas, já em meados da década de 1990, os ideólogos do capital constataram

que “educar para o desemprego” não seria o bastante. Conforme aponta Motta

(2008, p.7), para eles:

“não basta atribuir à escola a função de atender as demandas do capital, qualificando e modernizando as forças produtivas para aumentar a capacidade competitiva; não basta atribuir à escola a função de atender a demanda do trabalhador de inserção no mercado de trabalho - é preciso 'educar para sobreviver'; é necessário atribuir outras funções à escola.”

Novamente a teoria do Capital Humano é repaginada, dessa vez através da introdução de elementos da teoria do Capital Social de Robert Putnam.

De acordo com Motta (2008), no início dos anos 2000 as políticas econômicas de perspectiva neoliberal encontraram obstáculos para a reprodução de sua legitimidade nas esferas políticas e econômicas. Dentre esses obstáculos, um se destacou: o avanço do pauperismo.

A imagem alardeada de “novo” mundo livre e aberto, cheio de possibilidades

produtivas e de infindáveis formas de acumulação de riquezas - como propagado por

apresentadas pela comunidade científica e por movimentos sociais a respeito da destruição acelerada do meio ambiente.

O pauperismo é visto pelas entidades internacionais como responsável por uma série de dificuldades outras, configuradas como problemas globais que, de uma forma ou outra, dizem respeito a toda humanidade. Questões como o avanço da AIDS, os processos imigratórios, o crescimento populacional, a destruição do meio ambiente são tomados como diretamente ligados à pobreza extrema.

Conforme assinala Motta (2008), esse fator mobiliza os setores políticos e econômicos dominantes a discutirem em vários encontros sobre a possibilidade de, a partir dessa realidade, surgirem processos de ruptura social, sendo necessário, na perspectiva desses setores, forjar novas ações e políticas sociais, evitando conflitos posteriores.

Nas novas políticas sociais e diretrizes de orientação para os países, as bases ideológicas passam a se assentar na premissa da necessidade de se gerar

“capital social”. A tese central é a de que além das reformas econômicas

anteriormente vislumbradas é necessária também a realização de ajustes em outras dimensões, tais como culturais e sociais. A defesa se dá no sentido de incorporar no processo econômico a dimensão humana.

Groppo e Martins (2008) assinalam que a teoria do Capital Social foi adotada

pela ONU e pelo Banco Mundial93, os quais concebem que a superação dos

problemas sociais advindos da pauperização ocorrerá por meio de questões

culturais. Desse modo, é preciso possibilitar o “desenvolvimento humano” aos

pobres, para que eles tenham acesso às oportunidades não fornecidas exclusivamente pelo mercado.

De acordo com Motta (2008), o Banco Mundial, por exemplo, entende que a

sociedade global – e também local ou nacional – deve auxiliar os pobres na

superação dos obstáculos encontrados na vida e que impedem a participação das camadas da população nessa situação nas relações de mercado de forma livre. Além de inseri-los no mercado, a teoria do Capital Social, segundo Groppo e Martins

93 Mueller (2011) aponta que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico

(OCDE) realiza a publicação anual de um documento que trata das perspectivas sobre a educação formal no mundo. Analisando o material de 2009 produzido pela organização, o autor coloca que esse órgão internacional - apesar do momento econômico de crise no qual ele foi escrito - defende que deve existir uma racionalização dos recursos mas, de acordo com Mueller, os investimentos em “capital humano” e “capital social” ainda estão presentes na agenda econômica mundial.

(2008), se apresenta no sentido de fomentar a “capacidade” de grupos, indivíduos

e/ou comunidades locais se articularem na resolução dos problemas sociais mais imediatos.

Mais adiante, veremos que a teoria do Capital Social será vinculada a uma reformulação ocorrida também da própria teoria neoliberal. Por enquanto, destacamos o papel preponderante que as teorias do Capital Humano e do Capital Social receberam nos discursos das organizações internacionais na busca da

legitimação “científica” de suas recomendações políticas, se instituindo como duas

das principais ideologias defendidas pelo capital nas últimas décadas.

Daremos continuidade em nossa análise, investigando como essas teorias e recomendações foram defendidas e colocadas em prática na América Latina e, mais especificamente, no Brasil.