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3. AUTOGESTÃO EM DISPUTA

3.5. AUTOGESTÃO APROPRIADA – ENTRANDO NO CIPOAL

3.5.3 REFLEXÕES SOBRE A IDEOLOGIA NA ATUALIDADE

Apresentadas as duas grandes formas – participacionismo e autogestão

individual - pelas quais a categoria da autogestão aparece defendida pelo capital com conteúdo distinto do apresentado em sua concepção inicial e entendida enquanto manifestação ideológica burguesa, buscaremos aprofundar a respeito do papel da ideologia na sociedade de classes.

Leal (2011) entende que toda dominação de classe é acompanhada por uma série de ideologias que buscam naturalizar a divisão do trabalho construída historicamente, justificando, através do uso destas, atitudes baseadas em interesses particulares as quais se sobrepõem aos interesses coletivos. Todavia, cabe deixar

claro que a ideologia não deve ser vista de maneira simplista como uma ilusão “nem

superstição religiosa de indivíduos mal-orientados”, mas como “uma forma

específica de consciência social, materialmente ancorada e sustentada”

(MÉSZÁROS, 2004, p.65).

Na compreensão de Mészáros, importante pensador marxista contemporâneo, não há a possibilidade de superação da ideologia nas sociedades

de classe. Para ele, a ideologia persiste pelo fato de “ser constituída objetivamente

(e constantemente reconstituída) como consciência prática inevitável das sociedades

de classe” (idem, grifo do autor). Ela é a consciência prática do conflito social. Desse modo, a ideologia se constrói a partir da confrontação de distintos interesses sociais e, por isso, é um fenômeno da sociedade de classes.

Com base na reflexão de Mészáros, podemos falar em função social da

ideologia. E nessa perspectiva, devemos “avaliar o cenário no qual floresce a

ideologia em questão” (SILVA, 2013, p.120). A ideologia surge para que se

(re)organize a vida social e sua análise deve ser realizada e ancorada na própria realidade social.

Falar sobre a função social da ideologia é levar em consideração a “inserção

deste elemento da vida social na complexa articulação das condições objetivas”

(idem), tendo em conta que se trata de um fenômeno que congrega diversos

atributos – a saber:

“sua determinação pela base material, sua intervenção nos conflitos

de cunho social, sua (auto)construção enquanto momento ideal da prática dos homens e a conformação destes de acordo com um

projeto relacionado a essa mesma ideologia” (SILVA, 2013, p.120).

Além disso, ocorrência do fenômeno ideológico se dá com a articulação de vários conjuntos de valores e estratégias rivais que, em disputa, tentam controlar o metabolismo social. Nesse sentido, podemos apontar a existência de tendências

ideológicas que conformam uma espécie de “corpo ideológico” dominante e

hegemônico, assim como podemos discorrer a respeito de uma ideologia crítica da classe trabalhadora, apresentada de forma contrária à burguesa, na tentativa de se

estabelecer enquanto uma “contra- hegemonia”, colocando em seu horizonte a

defendida pela ideologia dominante66.

A partir desse quadro, observamos que a ideologia pode se expressar de diversas maneiras: progressista, revolucionária ou retrógrada; podendo ser também esclarecedora ou ilusória no que diz respeito aos determinantes sociais existentes numa dada época e sociedade (SILVA, 2013).

Temos assim, que as formas ideológicas se colocam como um elemento de regulação, através das quais é expresso o caráter coletivo de uma formação social específica e com as quais se anseia afirmá-lo, gerando moldes que tentam produzir uma conformação que caiba a todos (SILVA, 2012).

Conforme aponta Mészáros, na tentativa de resolver os conflitos sociais

existentes, uma ideologia não tem a necessidade de prover uma imagem “exata” da

realidade ou de uma determinada conjuntura. Ela pode, de acordo com Silva (2013),

apenas selecionar algum ou “alguns traços, aspectos, fatores etc. presentes na

realidade social que tenham afinidade com algum ou alguns dos interesses sociais

em voga” (p.121), ainda que esse processo não seja “consciente”. Desse modo, a ideologia não tem por obrigatoriedade uma preocupação com “o reflexo verdadeiro

das condições objetivas, mas tão somente uma explicação plausível das mesmas”,

através da qual seja possível projetar uma organização da vida social como for desejável (MÉSZÁROS, 2004).

Compreendendo essas questões, é importante que retomemos Mészáros, em sua ampla análise da ideologia burguesa, quando expõe que uma de suas principais características é a adoção de uma perspectiva não conflituosa dos desenvolvimentos sociais. Leal (2011) entende que essa perspectiva de não conflito é levada a cabo, justamente, por uma estratégia que estabelece a individualização dos conflitos existentes, na qual as contradições sociais são interiorizadas pelos indivíduos que a vivenciam como sendo de sua exclusividade. Tal processo é bastante presente nas práticas empresariais que se articulam a um discurso sedutor

para “construir uma ideologia da empresa” (p.98).

Nessa mesma perspectiva, Silva (2005), afirma que a ideologia da empresa colocada no momento é a da empresa flexível, apresentada, em seu discurso, como uma expressão social inevitável da história a qual caminha, na visão do autor, no

66“Ideologia significa aqui um conjunto de crenças que reúne e inspira um grupo ou classe específico a perseguir interesses políticos considerados desejáveis” (EAGLETON, 1997, p.50).

sentido de produzir novas formas de exploração do trabalho, se utilizando desse arcabouço legitimador.

As ideias de busca da pacificação das tensões sociais pelo consenso não conflituoso, de inevitabilidade histórica dos acontecimentos sociais e da noção de

“fim da ideologia”67, colocam-se, nesse período, como alguns dos principais elementos formadores do conteúdo do atual discurso ideológico burguês (SILVA, 2005, MÉSZÁROS, 2004).

Além dessas configurações ideológicas, Alves aponta que

“O toyotismo é uma nova ideologia orgânica da produção capitalista

sob a mundialização do capital, exigindo para o seu pleno

desenvolvimento, uma “reforma intelectual e moral” do mundo do trabalho” (ALVES, 2007, p.4).

Todavia, na compreensão de Giovani Alves, o toyotismo ainda possui uma hegemonia social que não se encontra totalmente afirmada. Para esse pesquisador,

vivemos em um período de transição para “um novo modo de desenvolvimento do capital” (ALVES, 2007, p.5) que ainda não está constituído como tal e nem está garantido sua constituição, a depender da dinâmica estabelecida pela luta de classes. Tanto as políticas neoliberais quanto o complexo midiático-cultural responsável pela sustentação da hegemonia neoliberal, mantém um mecanismo

produtor e construtor de um novo modo de “consentimento social às necessidades

da produção orgânica do capital centradas no toyotismo, que atinge e seduz

ganhadores e perdedores, incluídos e excluídos” (idem).

O que percebemos nesse contexto de tentativa de imposição de uma determinada leitura da realidade ou da manutenção hegemônica de um discurso assentado sobre os valores da burguesia e, consequentemente do toyotismo e do neoliberalismo, conforme discutido pelos diversos autores apresentados, é que o capital tenta, a todo o momento, perpetuar a si mesmo enquanto modo de produção.

Em momentos de crise, nos quais o sistema vigente é questionado e colocado em cheque com maior vigor devido à exacerbação dos conflitos sociais e de classe,

67A ideia de “fim da ideologia” teve seu início em círculos intelectuais do pós-Segunda Guerra Esses

grupos postulavam que a noção de “ideologia” se encontrava obsoleta, fazendo parte de uma época e

filosofia política ligadas a “fórmulas esquerdistas” para mudança social bastante simplórias. A esse respeito consultar Mészáros (2004).

o capital (re)elabora rapidamente fórmulas – inclusive ideológicas - de recomposição de sua hegemonia, em alguma medida enfraquecida. Nessas situações, os

ideólogos da burguesia são conclamados a produzirem “explicações” que auxiliem

no processo de retomada da pacificação dos confrontos, regularizando, do ponto de vista do capital, a ordem social.

Ora, no contexto de crise do fordismo e o aparecimento do modelo assentado na acumulação flexível, discutidos nesse capítulo, qual outra saída restou ao capital senão, em conjunto com outras ações, produzir e reproduzir um arcabouço

ideológico composto de novos – ou apenas reconfigurados – discursos e teorias,

tentando garantir assim, sua continuidade?

Cabe destacar que o processo de legitimação de um poder dominante pode envolver algumas estratégias, dentre as quais se apresentam ao menos seis. Essas estratégias se dariam:

promovendo crenças e valores compatíveis com ele; naturalizando e

universalizando tais crenças de modo a torná-las óbvias e aparentemente inevitáveis; denegrindo ideias que possam desafiá-lo;

excluindo formas rivais de pensamento, mediante talvez alguma lógica não declarada mas sistemática; e obscurecendo a realidade social de modo a favorecê-lo” (EAGLETON, 1997, p.19, grifos do autor).

Mas é importante ressaltar que essa situação não é irreversível.

Relembramos, aqui, Mészáros (2004, p.472) quando afirma que “o poder ideológico

só pode prevalecer graças à vantagem da mistificação” (grifo do autor), em uma

realidade cujas pessoas são levadas a adotar de forma consensual valores e práticas políticas contrárias a seus interesses vitais.

Nessa direção, apesar de certa vantagem, entendemos ser possível “romper

com a hegemonia da ideologia dominante pela articulação vigorosa de uma ideologia

crítica” (idem). Ideologia esta que, atrelada aos interesses da classe trabalhadora, esteja vinculada a ações de unidade teórico-práticas com características emancipatórias.

Ainda utilizando as reflexões de Mészáros e em conjunto com o autor, questionamos:

“Sendo a ideologia a consciência prática inevitável das sociedades

de classe, articulada de modo tal que os membros das forças sociais opostas possam se tornar conscientes de seus conflitos materialmente fundados e lutar por eles, a questão verdadeiramente importante é a seguinte: os indivíduos, equipados com a ideologia da classe a que pertencem, ficarão do lado da causa da emancipação

ou se alinharão contra ela?” (MÉSZÁROS, 2004,p.327).

Colocadas algumas questões referentes à ideologia e seus aspectos no que se refere à dinâmica presente na luta de classes, damos continuidade em nossa pesquisa no sentido de compreender o fenômeno de apropriação da categoria autogestão pelo capital. Analisemos adiante as relações entre a disputa em torno do significado de uma palavra ou termo e a luta de classes.