• Nenhum resultado encontrado

Como vimos na introdução desse trabalho, dentre as TIC, o computador e a rede Internet se destacam como meios ativos que oferecem ao aprendente, o acesso a uma grande quantidade de informações, ao conhecimento humano desenvolvido e acumulado em diferentes áreas, e permite a possibilidade de escolha de temas de acordo com suas necessidades imediatas.

Esse acesso à informação e comunicação de uma forma rápida e a um custo relativamente reduzido, seriam algumas das principais vantagens do uso dessas tecnologias no processo educativo, particulamente para a EA, em relação às técnicas convencionais anteriormente utilizadas nas diferentes tendências pedagógicas de ensino, aqui apresentadas.

A utilização e o desenvolvimento da informática aplicada à educação, baseada em produtos que utilizam a hipermídia como ferramenta de apoio no processo educativo, tem provocado uma série de discussões nos diferentes graus de ensino.

Acreditamos que é possível, e cada vez mais indispensável, que alunos e professores se apropriem dessas ferramentas, tanto em sala de aula presencial como através do ensino a distância, com o objetivo de estabelecer alguns indicativos do que se pode fazer em termos educacionais com as TIC utilizando suas vantagens e procurando superar suas limitações.

Ainda, no que diz respeito à EA no Brasil, procurando minimizar as dificuldades que ela vem enfrentando no mundo, no que diz respeito à necessidade de formação de educadores ambientais e à carência de materiais didáticos, vem crescendo a utilização das TICs, mais especificamente com o uso de softwares educativos e redes eletrônicas (Internet) para a análise e divulgação de projetos e materiais publicados sobre EA.

Uma iniciativa interinstitucional para este fim foi garantida pelo Fundo Nacional do Meio Ambiente - FNMA do Ministério do Meio Ambiente, dos Recursos Hídricos e da Amazônia Legal. Recursos financeiros do FNMA permitiram a organização de livros e dos Anais do III Fórum de Educação Ambiental realizado em São Paulo, em 1994, e que contou com a participação de 1500 educadores ambientais. Esses materiais e os anais do II Fórum estão disponíveis em uma página Web115, com o objetivo de tornar esse espaço um instrumento de interação para ampliar a troca de idéias e experiências sobre

educação ambiental. (Cadernos do III Fórum de EA, 1995).

Outra iniciativa é o Projeto "Avaliando a Educação Ambiental no Brasil:

Materiais impressos" (Trajber & Manzochi, 1996) que resultou na organização

do primeiro Banco de Publicações em Educação Ambiental do país116. O acervo conta com mais de 880 registros de materiais diversificados, dividido em dois sub-bancos: O primeiro, de "Monografias", inclui livros didáticos e paradidáticos, literatura infanto-juvenil, cartilhas, brinquedos/jogos, eventos, catálogos/folders, livros/folhetos e outros. O segundo sub-banco, de "Periódicos", inclui revistas, jornais, boletins e afins. O Banco de Publicações está sendo distribuído em disquetes em Visual Basic, compatíveis com o ambiente Windows.

Também iniciativas pessoais como as do Programa Ambiental A Última Arca de Noé ( http://www.aultimaarcadenoe.com/index1.htm) e do Projeto Vida - Educação Ambiental (http://sites.uol.com.br/projetovida), entre outros, e de

115

Infelizmente, embora a Rede Brasileira de Educação Ambiental (REBEA) venha se reestruturando a partir do encontro realizado em setembro de 2000 no Rio de Janeiro, o endereço eletrônico http://www.usp.br/cecae/redea.html , está desativado, mas a rede pode ser acessada via lista de discussão no endereço eletrônico: [email protected]. A rede também tem um fórum de discussão hospedado na página da RITS – Rede de Informações para o Terceiro Setor - http://www.rits.org.br/ .

116

Após a defesa desta tese foi lançada a publicação Avaliando a Educação Ambiental no Brasil – Materiais Audiovisuais (Trajber & da Costa, 2000), iniciativa do Instituto Ecoar.

algumas ONGs, também se especializaram no uso das TIC para divulgação de informações e de projetos que tratam de questões ambientais. É o caso do WWF Brasil (http://www.wwf.org.br); Fundação Mata Atlântica (http://www.sosmatatlantica.org.br); Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (http://www.funbio.org), entre outros.

Até mesmo ONGs vem desenvolvendo projetos patrocinados por Fundações como “O Boticário”, que patrocina o Projeto “Trilha da Vida”, em Florianópolis, do qual participam pesquisadores da UNIVALI. Também é o caso da RECICLOTECA (http://www.recicloteca.org.br/inicial.htm), um Centro de Informações sobre Reciclagem e Meio Ambiente, criado pela Associação

Ecológica Ecomarapendi e patrocinado pela AmBev (Companhia de Bebidas

das Américas).

O trabalho de Mousinho et al. (2000) no Centro de Informações sobre Reciclagem e Meio Ambiente, com a RECICLOTECA, exemplifica bem o que dissemos quando relata:

“A utilização das TIC oferece uma excelente ferramenta para a proteção ambiental, tanto por facilitar os procedimentos de organização e recuperação das informações através da criação de bases de dados e sistemas de informações especializados, quanto por oferecer um instrumento ágil para a disseminação e intercâmbio de informações ambientais através da Internet.” (Mousinho, Chevalier & Bueno, 2000, p.

126)

As autoras ainda reportam-se ao trabalho de Mansell & Wehn (1998) de que as TIC podem auxiliar na organização dos dados ambientais de forma apropriada para utilização de grupos específicos, possibilitando assim o acesso a informações atualizadas e fornecendo a base para decisões em tempo real que aumentam a eficiência de ações como as de monitoramento ambiental. Ainda, a agilidade e a rapidez na troca de informações entre os produtores e usuários da informação, e o intercâmbio entre pesquisadores através da rede e do correio eletrônico. Indicam ainda algumas aplicações das TIC, como: levantamento, análise e comunicação de informação georeferenciada; quiosques multimídia e sistemas de informação para o público; sistemas de monitoramento e alerta sobre parâmetros (qualidade do ar, água, etc.);

sistemas de respostas a emergências (enchentes, incêndios, riscos industriais, etc.). (Mousinho et. al, 2000, p. 128-9).

Assim sendo, como já dissemos, e, particularmente, neste caso, os exemplos acima indicam que as TIC cada vez mais se firmam como possibilidade de organização de ambientes de aprendizagem capazes de disseminar informações e conhecimentos de um modo barato e eficiente na forma de redes de comunicação.

No entanto, só informação e conhecimento - seja de forma presencial ou à distância -, sem reflexão, participação e compromisso não são suficientes para reverter os sérios problemas sócio-ambientais que enfrentamos, em nível local e global.

Lucena & Salvador (1999, p. 40) comentam que até encontramos na Internet sites educacionais interessantes sob o ponto de vista pedagógico, mas que, necessariamente, não estão compromissados com a estruturação e a formalização do processo de aprendizagem.

Para elas e para nós, esse processo não se configura simplesmente com a troca de mensagens via correio eletrônico, ou navegação aleatória por páginas Web, onde o conteúdo já é pré -determinado ou faz parte de um tipo de apostila virtual - ou seja todo o conteúdo que o professor apresentava em papel é transformado em hipertexto.

Da mesma forma, a participação em chats e listas de discussão, sem a mediação de um moderador ou de determinados participantes, ou com temas e objetivos bem definidos, não garante que ocorra algum tipo de aprendizagem. Nós mesmos participamos de inúmeras listas de discussão nacionais, regionais, em nossa própria instituição ou até em algumas disciplinas e seminários que organizamos, onde a conduta da maior parte das pessoas é de mera recepção de informações. Nossa experiência tem mostrado que raramente um debate de idéias sobre determinado tema consegue encontrar grande número de interlocutores, correndo o risco de transformar -se, simplesmente, em um “bate-boca virtual”.

Não podemos negar que navegar na Internet também não é uma forma de aprendizado, o que é bastante produtivo, mas o que defendemos,

juntamente com as autoras, é que estruturemos Ambientes de Aprendizagem, nos quais esse processo se efetive, não por obra do mero acaso.

Entretanto, fazemos nossas também algumas questões que ficam ainda sem resposta definitiva: como aprender não apenas os conhecimentos específicos de cada disciplina, mas também, desenvolver habilidades cognitivas como a tomada de decisão formulação de hipóteses, análise, síntese e avaliação? Como aprender a interagir, a se comunicar e a cooperar à distância? Como aprender a participar como um cidadão de uma comunidade na sociedade da informação em que vivemos? (Lucena & Salvador, 1999, p. 40).

Lucena & Salvador já encontraram algumas destas respostas modelando e implementando um site para Aprendizagem Cooperativa a Distância (Santos, 1999), desenvolvido em três espaços de cooperação (sala de leitura, Oficina de Aprendizagem e Sala de Aula Virtual), que serviram como base para o desenvolvimento de um novo ambiente o Learn@Web, parceria entre a Kidlink do Brasil e a Edu@Web (Lucena & Soldon, 1998).

No entanto, mesmo apostando na apropriação das TIC e dos Ambientes de Aprendizagem como ferramenta para a educação e a comunicação ambientais, no que se refere às questões ambientais em ní vel local, vemos também a necessidade de uma leitura crítica tanto dos problemas ambientais quanto do uso das TIC, ou seja, umconfronto direto dos aprendentes com essas questões, e isso só nos parece possível através de atividades presenciais. Por isso, adotamos no Projeto EducAdo a estratégia de etapas presenciais e virtuais para garantir essa questão.

Moran (1997) responde a esse nosso questionamento quando lembra que as relações presenciais podem ser modificadas com o uso das TIC, uma vez que o processo educativo pode ser otimizado, segundo ele, pela possibilidade de integração de várias mídias, acessadas em tempo real e assincronicamente, onde as pessoas se comunicam, trocam informações, dados e pesquisas.

Mesmo assim, entendemos que o uso crescente dessas tecnologias em ambientes de aprendizagem virtuais, aliadas a atividades presencias, como por

exemplo, de diagnóstico e Estudo do Meio, exige a construção de um novo "modelo pedagógico". Este modelo, deve propor ações educativas que propiciem aos aprendentes, as competências necessárias para que se apropriem de forma autônoma e cooperativa desse conhecimento e promovam a utilização dessas ferramentas para a formação de redes de informação, cuja cooperação, solidariedade e troca de experiências e conhecim entos entre as pessoas envolvidas, superem algumas das fronteiras físicas, sociais e culturais que até então tornavam a comunicação, a informação e o conhecimento um saber-poder de uma minoria de privilegiados.

Finalmente, o que dissemos até aqui justifica porque, em nossa pesquisa com o Projeto EducAdo, optamos pela organização de um Ambiente de Aprendizagem com atividades presenciais e a distância, usando as TIC como suporte, mais especificamente as páginas Web, como descreveremos nos capítulo 4 e 5, desta nossa viagem.

4. METODOLOGIA DA PESQUISA

Assim como os fundamentos epistemológicos e metodológicos em EA encontram -se em construção, o que se aplica também às suas metodologias. Desde a conferência de Tibilisi (1997) se propõe que a abordagem mais adequada para ela deva ser a interdisciplinar, o que se aproxima daquilo que chamamos de uma visão ecosófica da realidade e do conhecimento.

No entanto, na área de educação costumam -se classificar as pesquisas dentro de três categorias: Empírico-analítica, Fenomenológica-Hermenêutica e Crítico Social. É dentro delas que se enquadram a maioria das pesquisas nessa área, não englobando, em nosso entendimento, essa visão ecosófica, de caráter eminentemente interdisciplinar.

Exemplificando melhor: quando se fala de uma abordagem interdisciplinar para a EA, pergunta-se, sem querer inventar uma quarta categoria, se essas três são suficientes para explicar a complexidade e a diversidade dos aspectos levantados, no capítulo anterior, sobre a EA propriamente dita, e sobre a inserção, na educação da Dimensão Ambiental, construída a partir da fundamentação teórica sobre a aprendizagem, enfocada no capítulo 2.

O que se quer dizer é que, em termos epistemológicos, por exemplo, os princípios de uma abordagem interdisciplinar de EA necessita, fundamentalmente, em primeiro lugar, levar em conta, de início, as representações de mundo, da natureza e da sociedade dos/as aprendentes, respeitando as subjetividades humanas, e onde o conhecimento é construído pelo próprio aprendente, o que se aproximaria de uma abordagem fenomenológica. Em segundo lugar, a EA é também mobilização para a reflexão e ação, ou seja, requer mudanças de representações, de hábitos e valores, uma intervenção sobre a realidade, na qual o conhecimento construído a partir da prática seja capaz de ser utilizado para modificar atitudes e comportamentos individuais e coletivos, o que se configuraria como uma abordagem crítico-dialética.

Outro importante aspecto é a necessidade de um verdadeiro diálogo e articulação interdisciplinar entre as diferentes áreas do conhecimento para a

construção de um referencial filosófico, epistemológico e metodológico comum, que permita o trânsito e a discussão dialógica entre as referidas áreas que comporão a estrutura curricular do curso, o conteúdo pedagógico e as suas práticas. É preciso levar em conta também, o que já dissemos sobre o papel dos conflitos das relações de poder que perpassam às relações sociais e das

tecnologias de poder que atuam sobre a construção da subjetividade (conforme

a leitura de Foucault, feita por Larrosa, in: Silva, 1994).

Sato (2000, p.6) resume muito bem esses aspectos quando apresenta outros princípios gerais para a interdisciplinaridade117, e que foram adotados no Projeto EducAdo. Eles são os seguintes:

“Não considerar somente as relações entre as disciplinas, mas, fundamentalmente, considerar o objetivo do curso em si com as pessoas responsáveis pelas disciplinas;

Reagrupar as disciplinas em torno da proposta pedagógica (processo ensino-aprendizagem);

Considerar a comunicação entre @s professor@s e os alun@s, ao invés da possibilidade de envolvimento d@s alun@s;

Equilibrar as diferentes áreas de conhecimento, na base da heterogeneidade (humanas, exatas, biológicas, etc.); e

Considerar os objetivos do curso, em detrimento do excessivo conteúdo que cada especialista tende a exaltar” (Sato, 2000, p.6).

A autora lembra que este caminho dialógico em busca de um novo paradigma de aproximação entre as diferentes áreas do conheciment o, pode (e deve, para ser realmente dialógico) gera o que chamaríamos de um movimento dialético. Nesse sistema “de confrontação que gera análises, sínteses e muitas

vezes ruptura”, mas são justamente nessas rupturas que podem ser gestadas

“novas sínteses, novos saberes, novos caminhos que possam somar os

fragmentos e reconstruir as relações dos seres humanos e, dessas relações,

117

Michèle Sato também apresenta uma proposta para a transdisciplinaridade que encerra dois movimentos - a visão de algo que perpassa todas as áreas, e a visão de algo deve ir além das estruturas escolares. No entanto, como o Projeto EducAdo é um projeto piloto, ainda não nos aventuramos nesta perspectiva, embora entendamos que é um desafio a ser alcançado, a partir da vivência de uma abordagem interdisciplinar.

evidenciar a indissociabilidade entre a educação, o desenvolvimento e a natureza” (Sato, op. cit. p.6).

Dentre as propostas para a inserção da Dimensão Ambiental na educação formal destacam -se a pesquisa participante e a pesquisa-ação, adotadas em trabalhos como os de Sato (1997), Costa (1999).

Fazendo então um exercício de aproximação entre as duas categorias (fenomenológica e crítico-social) e uma visão ecosófica e interdisciplinar, escolhemos para o Projeto EducAdo a Pesquisa-ação118, por ter, por princípio a intervenção, e onde pesquisador é parte integrante da pesquisa, e os atores e atrizes envolvidos investigam conjuntamente uma determinada situação ou problema com o objetivo de resolvê-lo, ou de promover mudanças sociais.

Para a EA, esse processo de participação e intervenção é essencial uma vez que atua sobre o grau de envolvimento e sensibilização do/da aprendente, para que supere visões simplistas de natureza, e de mero observador dos fenômenos, e se engaje na discussão e defesa da natureza e da vida, o que só se concretiza com a participação efetiva na sua escola, no seu trabalho, na sociedade como um todo.

Dentro de uma visão de que as questões ambientais e a complexidade das relações entre o ambiente natural e o social só podem ser compreendidas a partir de uma abordagem interdisciplinar da EA, é que utilizam -se para a mesma técnicas quanti-qualitativas que levem à reflexão -ação, ou seja, a uma intervenção.

Sendo assim poderíamos classificar nosso trabalho como sendo uma “pesquisa ação”, também aliada ao que Patrício (1995, 1999) chama de

método participante119., na qual a interação entre pesquisador e pesquisados faz todos os/as aprendentes participantes de um mesmo processo holístico-

118

Segundo Thiollent (1985) a pesquisa-ação é “ um tipo de pesquisa com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo.”

119 Zuleica Patrício, do Núcleo TRANSCRIAR-UFSC, apresenta esse método de pesquisa cujo sujeito de

estudo é o ser humano, e que caracteriza-se por momentos de vivência interpessoal, apoiados em diversas técnicas que compõem as “Oficinas de Trabalho”, onde desenvolve-se discussão-reflexão de conteúdos e de formas de interação, originados das expectativas dos participantes, de suas culturas (cr enças, valores, conhecimentos, normas e práticas pessoais e profissionais) e sentimentos expressos no decorrer das Oficinas. Sua base teórica se fundamenta em princípios transpessoais e transculturais, e no qual há momentos de interação pesquisado-pesquisador em que ambos se transformam nessa “prática-teórica”. A isso a autora chama de referencial do Cuidado Holístico-Ecológico.

ecológico, o qual, no entendimento deste pesquisador, aproxima-se de uma visão ecosófica, necessária ao entendimento das questões e da crise ambiental, pensando formas de superá-las ou de minimizar suas causas e seus efeitos.