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2.1 DE DENTRO PARA FORA E DE FORA PARA DENTRO: A VIDA

2.1.1 Identificando outras representações de ambiente

Após essa introdução de como Piaget entende as relações entre o ser humano e o ambiente em que se insere, convém navegarmos em outra direção para, na visita de um outro porto, tentar, agora, esclarecer melhor as inúmeras representações que o termo “meio ou ambiente” apresenta em diferentes áreas do conhecimento.

Sato (1997) lembra que o conhecimento sistemático sobre o ambiente ainda está em plena construção. Justamente por esse fato, a definição desses elementos é controvertida, como procuraremos mostrar a seguir.

No Dicionário Aurélio, ambiente: [do latim ambire]., também é sinônimo de meio. Ainda, ambiente, “é tudo que cerca ou envolve os seres vivos ou as

coisas por todos os lados; Aquilo que cerca ou envolve os seres vivos ou as coisas; ou mesmo um lugar, sítio, espaço, recinto; ambiente mal ventilado. No

entanto, meio [do grego méson] significa equilíbrio entre os extremos. Estas definições, ou a inexistência delas, causam uma confusão semântica que tem levado a muitas discussões entre pesquisadores em EA36.

Para Valenti (1984, in: Revista do Turismo, 2000) o termo provém do francês mileu ambiance, onde milieu designa o lugar onde se encontra ou se movimenta qualquer ser vivo; e ambiance refere-se ao que rodeia este mesmo ser.

Assim, por definição e etimologicamente falando, ambos os termos se complementam, sendo que “meio” (do latim médium ) completa a idéia no sentido de designar algo periférico ao organismo considerado e que o envolve. Portanto, o meio ambiente é uma realidade que envolve o organismo e também o que está em seu entorno. Dessa forma, não está incorreta a utilização conjunta dos dois termos através da expressão meio ambiente ainda que,

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Em meados de abril recebemos por e-mail da Asociación Latinoamericana de Educadores Ambientales: Red "ALADEAMERICA" y de la Federacion de Organizaciones y Juntas Ambientalistas de Venezuela: “FORJA”, uma solicitação de engajamento na campanha para que não se use o termo "meio ambiente" na América Latina, uma vez que, segundo eles, trata-se de um grave erro gramatical e semântico. Repassamos a mesma para diversas listas de discussão em EA da qual fazemos parte (EAlatina, Educação Ambiental (egroups), REBEA, Eapesquisa, REABRI, e listas do Projeto Educ Ado e Seminário de Educação Ambiental do Mestrado) e recebemos uma série de comentários, desautorizando essa discussão semântica, e reafirmando a diversidade de abordagens necessárias em relação ao termo, seja ele, meio ou ambiente.

isoladamente, assumam significados semelhantes, o que os torna da mesma forma utilizáveis isoladas uma da outra, (meio ou ambiente) sem que haja perda de significado.

Na área de Ecologia, até o início do século XX o termo meio ambiente expressava a noção de “meio natural” (biótico e abiótico), como podemos apreender das definições a seguir:

“Trata-se de um conceito central em Ecologia. O meio ou ambiente constitui o marco, animado ou inanimado, em que se desenvolve a vida de um organismo. Este conforma o meio em que vive, e, por sua vez, é conformado por ele”. (Dicionário de Ecologia, 1980)

“É evidente que o meio ambiente se compõe de dois aspectos: a) meio

ambiente abiótico físico e químico, e b) o meio ambiente biótico”.

(Duvigneaud, 1984)

“O conjunto de fatores bióticos (os seres vivos) ou abióticos (físico

químicos) do habitat suscetíveis de terem efeitos diretos ou indiretos sobre os seres vivos e, compreende-se, sobre o homem”. (Touffet, 1982)

"Soma total das condições externas circundantes no interior das quais

um organismo, uma condição, uma comunidade ou um objeto existe. O m.a. não é um termo exclusivo: os organismos podem ser parte do ambiente de outro organismo". (Dicionário de Ecologia e Ciências

Ambientais, 1998)

Outras áreas do conhecimento utilizam a expressão meio ambiente para referir-se ao meio psicológico, urbano, social, o meio geográfico, atmosférico, aquático, subterrâneo. Na Psicologia, por exemplo, encontramos a seguinte definição de meio ambiente:

“O que circunda um indivíduo ou um grupo. A noção de meio ambiente engloba, ao mesmo tempo, o meio cósmico, geográfico, físico e o meio social, com suas instituições, sua cultura, seus valores. Esse conjunto constitui um sistema de forças que exerce sobre o indivíduo e nas quais ele reage de forma particular, segundo os seus interesses e capacidades”. (Silliamy, 1980)

Já para a economia, o meio ambiente é “a soma das condições externas

e influências que afetam a vida, o desenvolvimento e, em última análise, a sobrevivência de um organismo.” (The World Bank, 1978)

Para a área de Direito Ambiental, é “o conjunto de condições, leis,

influências e interações de ordem física, química e biológicas, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas” (Lei 6.938 de 31/08/81). Já a

Constituição Federal de 1988 transformou o meio em bem público e comum ao definir que:

“Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo- se ao Poder público o dever de defendê-lo e à coletividade o de preservá-lo para as futuras gerações”. (CFE, art. 228).

Da área de educação separamos dois conceitos que tentam englobar as diferentes dimensões do termo:

“O lugar determinado ou percebido, onde os elementos naturais e sociais estão em relações dinâmicas e em interação. Essas relações implicam processos de criação cultural e tecnológica e processos históricos e sociais de transformação do meio natural e construído”.

(Reigota, 1995)

"Um espaço (com seus componentes bióticos e abióticos e suas interações) em que um ser vive e se desenvolve trocando energia e interagindo com ele, sendo transformado e transformando-o. No caso dos seres humanos, ao espaço físico soma-se o “espaço" sociocultural. Interagindo com os elementos do seu ambiente, a humanidade provoca tipos de modificação que se transformam com o passar da história. E, ao transformar o ambiente, os seres humanos também mudam sua própria visão a respeito da natureza e do meio em que vive". (BRASIL, PCN,

Temas transversais,1998)

Resumindo essas diferentes representações, poderíamos afirmar que a representação ideal, acerca desse termo, engloba o ambiente natural e o cultural, ou seja, o conjunto de fatores ecológicos (biológicos, físicos, químicos), e também, científicos, tecnológicos, éticos, econômicos, políticos, sociais e culturais. Tratar então do ambiente em que vivemos, da natureza, não é só uma questão de privilégio dos técnicos e cientistas, ou da mídia, mas corporifica-se também, numa uma questão de cidadania (Sato, 1997).

Com relação ainda ao estudo fenomenológico da teoria e da prática em EA, Sato (op. cit., p. 8-10) resgata de Lucie Sauvé (1996), as seis concepções paradigmáticas da representação social de ambiente, as quais podem ser

identificadas nas diferentes abordagens e práticas pedagógicas em EA. As mesmas são resumidas a seguir:

Ambiente como a natureza, para ser apreciado, respeitado e

preservado;

Ambiente como recurso, para ser gerenciado de acordo com os

princípios do desenvolvimento sustentável, no sentido de assegurar os recursos naturais para nós e as futuras gerações37;

Ambiente como um problema a ser resolvido, uma vez que a crise

e degradação ambiental ameaçam o sistema de suporte da vida na biosfera;

Ambiente como um lugar para se viver, para conhecer e aprender

sobre, para planejar para, para cuidar do mesmo, em nosso dia-a- dia, na escola, casas, trabalho e no lazer;

Ambiente como a biosfera (Gaia) onde devemos viver juntos;

Ambiente como projeto comunitário onde o ambiente faz parte da

coletividade humana, o espaço político, centro da análise crítica.

Segundo Sato (op. cit, p.11) o foco central dessas seis concepções complementares, constituem a representação social do ambiente, e podem ser enriquecidas para uma outra concepção, ou pela combinação dos elementos de duas ou mais delas.

A autora entende que numa perspectiva sincrônica, elas coexistem e podem ser identificadas nos diferentes discursos e práticas em EA. Mas também podem ser analisadas diacronicamente, porque são resultantes da evolução histórica desses próprios discursos e práticas ao longo das últimas décadas.

Essa infinidade de concepções, de visões de mundo e de ambiente, nos remetem ao item anterior quando abordamos a biologia do ato de conhecer, na visão de Piaget, relacionando as interações entre o ser humano e o meio, imerso na vida social. Em nosso entendimento, a visão piagetiana pode servir como subsídio para superar uma das grandes limitações das práticas em EA,

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que é a falta de percepção de uma forma global, da rede de inter-relações que se dão entre: ser humano ⇔ sociedade ⇔⇔ ⇔ natureza. (Voltaremos a essa questão nos capítulos 3 e 5).

A própria Sato, em seu trabalho, resgata uma das falas de Sauvé (1996) que pode explicar melhor o que dissemos:

“O ideal seria que a compreensão dos processos educativos considerasse uma dessas visões complementares do ambiente, de uma forma cumulativa, através de uma cuidadosa orquestra de intervenção, ou preferencialmente, utilizando um enfoque pedagógico integrado. Infelizmente, as propostas de EA são restritas em uma dessas concepções, limitando o principal objetivo da educação: o ambiente não é percebido de uma forma global e conseqüentemente, a rede de inter- relação pessoa-sociedade-natureza (que é o centro da EA) é percebido apenas parcialmente”. (Sauvé, 1996, apud Sato, 1997, p. 13).

Assim, segundo a autora, certas teorias e práticas em EA adotam uma visão limitada do ambiente como um recurso econômico, essencialmente utilitarista.

A nosso ver, como no caso das campanhas e projetos de reciclagem, por exemplo, certas práticas podem, numa visão holística, ser um exercício de cidadania, mas dentro da perspectiva que vem sendo adotada por algumas escolas, de recolherem latas de alumínio para “ganhar” equipamentos de informática, não passa de uma “atividade ecologista” equivocada acelerando, de certa forma, o próprio consumo que, inconscientemente, se pretenderia refrear. Por outro lado, uma discussão sobre o gerenciamento desse mesmo material pela comunidade escolar, poderia criar uma inter-relação entre a concepção de “ambiente como recurso” e de “ambiente como projeto

comunitário”.

Por isso, concordamos com Sato e Sauvé (1996), de que é essencial analisar as atividades educativas em EA de uma forma crítica, focalizando a atenção no desenvolvimento e enriquecimento do processo educativo como forma de aprender, refletir e exercer a ação prática de intervenção sobre a realidade dos problemas ambientais, em nível local ou global.