1 UM ESTUDO DE GÊNERO DISCURSIVO: A TIRA
1.3 As tiras da Mafalda: sua criação e trajetória
O criador de Mafalda é o argentino Joaquín Lavado Tejón, o Quino, que começou a publicar desenhos em 1954 na revista Esto Es. Mafalda surgiu quando Quino precisou fazer um trabalho publicitário para uma indústria de eletrodomésticos chamada “Mansfield”. Ele deveria inventar uma história em que aparecessem produtos da marca, sem dizer seu nome, mas com insinuações nos nomes dos personagens que deveriam começar com a letra M. A denominação “Mafalda” inspirou-se num personagem do filme argentino Dar la cara.
Entretanto, realizados por Quino, os desenhos foram arquivados porque os jornais logo perceberam que se tratava de propaganda de uma marca. Somente em 1964, um amigo jornalista do autor pediu-lhe os originais para publicá-los na revista Primera Plana. A história fez tanto sucesso que seis meses depois passou de semanal a diária: “Embora a personagem tenha sido criada em 1963, ela aparece na imprensa da Argentina no dia 29 de setembro de 1964, no semanário Primera Plana e, a princípio, passa a ter publicação semanal.” (LINS,
2002, p. 80). Em janeiro de 1965, as tiras começaram a aparecer no jornal de circulação nacional El Mundo, com publicação diária, e em 1966, se expandiram, sendo publicadas no Uruguai no jornal Época, e num livro editado no Natal de 66 na Argentina, com tiragem de cinco mil exemplares, que se esgotou em dois dias.
Em 1968, as tiras chegaram à Itália e, traduzida para o italiano, passou a ser publicada no jornal Siete Dias. Espanha e Portugal tiveram sua publicação em 1970. Em 1971, as tiras da Mafalda difundiram-se por toda a América Latina e por outros países europeus, como Dinamarca, Suécia, Noruega, Alemanha, Áustria e Finlândia, e, em 1972, chegaram à França. Também em 1972 houve uma divulgação maior da personagem, cuja imagem, de amigos, começou a aparecer em pôsteres, camisetas, agendas, cadernos, cartões de felicitações e também na televisão, em curtas de um minuto e meio cada, passando em 1976 para cinco minutos cada.
Em 1973, Quino deixou de produzir as tiras da Mafalda, porém isso não impediu que continuassem a ser publicadas em muitos países e, surpreendentemente, a difusão aumentou. Em 1976, o Japão conheceu Mafalda e seus amigos por meio da televisão e, em 1977, a pedido da Unicef, eles ilustraram a Declaração dos Direitos da Criança. Em 1979, Mafalda apareceu na Grécia, na Bélgica e no Canadá. Em 1981, foram publicados os primeiros livros de Mafalda no Brasil e na Colômbia. Em 1982, na Suécia, país onde a personagem já era publicada em vários jornais, doze livros, com todas as tiras, foram editados. Em 1985, comemorou-se um ano de êxito de apresentação de curtas de Mafalda na televisão, dublado para os países da França, Bélgica, Luxemburgo e Canadá.
Em 1986, nos Estados Unidos, foi publicado o primeiro livro. Na Espanha, Mafalda foi protagonista da campanha para as primeiras eleições de conselhos escolares, feitas pelo Ministério de Educação e Ciência. Em 1988, Mafalda e Liberdade ilustraram cartaz do Ministério das Relações Exteriores da Argentina, em comemoração ao Dia Universal dos Direitos Humanos. Em 1989, foi comemorado o aniversário de vinte e cinco anos de sua primeira publicação e em 1990 apareceram edições piratas de Mafalda na China (Taiwan).
Segundo Ravoni (1992, apud LINS, 2002, p. 80), “buscando dados em organização cronológica, pode-se traçar o percurso da obra de Quino pelo mundo inteiro”. A trajetória de Mafalda abrange o período entre 1964 a 1973 em três publicações: Primera Plana, El Mundo, Siete Dias Ilustrados. Na verdade, as tiras nunca mais deixaram de ser publicadas, pois foram lançadas publicações como reedições em todo o mundo. “No Brasil, as publicações são em livretos e em cores. Isso comprova o interesse dos leitores pelas questões abordadas por
Quino.” (LINS, 2002, p. 82). Dessa forma, evidencia-se a consagração de Mafalda, juntamente com seu grupo, por tratar de temas que podem ser considerados atuais ainda hoje.
1.3.1 O mundo de Mafalda
Em seu livro O humor em tiras de quadrinhos: uma análise de alinhamentos e enquadres em Mafalda, Lins (2002, p. 72 a 74) dedica o quinto capítulo - “Quino: seu mundo – seus personagens” - à descrição dos personagens que fazem parte do universo de Mafalda. Nesse sentido, as informações que norteiam a seção estão baseadas em tal referência, bem como na carta de apresentação ao jornal Siete Dias e no material encontrado on-line intitulado Los Papas.
Os pais de Mafalda são os primeiros personagens que aparecem nas tiras, já que ela é ainda uma garota muito pequena para viver sozinha e necessita deles. O pai é corretor de seguros e, em casa, gosta de se entreter cuidando das plantas; a mãe é dona de casa. Eles se conheceram quando estudavam na faculdade, que a mãe abandonou para cuidar melhor da filha. O casal enfrenta os problemas inerentes à classe média: um pai nervoso, uma mãe preocupada, que gostam um do outro, dos filhos Mafalda e Guille e do medicamento Nervocalm, mas odeiam o custo de vida, a chegada do final do mês. Particularmente, a mãe odeia pensar no que fazer para comer, além de sopa.
Mafalda, por sua vez, adora os Beatles, a paz, a democracia, os direitos das crianças; odeia sopa, guerra, James Bond e, por estar engajada nos problemas do mundo, tem posição altamente politizada em relação às questões sociais. Guilherme ou “Guille” é o irmão. De acordo com a explicação do pai, o qual adora plantas, Guille teria nascido de uma sementinha e se tornara um bebê, aumentando a família. Ele nasceu em 1968; muito precoce e ciumento, gosta de fazer rabiscos nas paredes e da chupeta.
A menina protagoniza as histórias com mais sete personagens. Um deles é “Felipito”, no Brasil conhecido como Felipe. Com sete anos (idade de 1964), tem pai engenheiro e caracteriza-se como um garoto sonhador, que acompanha o desenrolar do dia a dia com um certo ar de estupefação e medo; é um bom menino, simples, terno e, apesar de cursar uma série adiante de Mafalda, às vezes ela o cuida como se fosse seu filho. Ele adora as historinhas “O cavaleiro solitário, Muriel (com rubor)...”, porém odeia a escola, levantar-se pela manhã e os deveres próprios das crianças.
Outro personagem é Manuel Goreiro ou “Manolito”, menino também de seis anos (em 1964), filho de comerciante, que vê o mundo pela ótica do comércio. Mafalda o conheceu no armazém de seu pai, do qual a família é cliente. Vão juntos ao colégio e, às vezes, ele irrita a menina por ser muito “cabeça dura” e sempre querer ter razão. Adora a caixa registradora, os carros-fortes, os balanços, Rockfeller...; odeia os livros contábeis, os Beatles, os hippies, os descontos, Susanita...
Quanto a Susana Chirusi, conhecida como “Susanita”, embora seja da mesma idade de Mafalda, não tem os mesmos princípios de vida. Por isso, Mafalda não se entende muito bem com ela, por não se afinar com ideais burgueses tradicionais e anseios da elite que Susanita tem como valores. Adora as festas de casamento, o bom nível de vida, as fofocas, Felipe (em segredo); odeia os pobres, “as ideias incômodas”, os divórcios e Manolito.
Miguelito é o último membro a ingressar na turma, muito querido por todos por fazê- los rir em razão das ideias fantásticas que tem. Seu sobrenome é Pitti e é um menino que tem atitude de egocentrismo em relação às coisas do mundo; adora a ele próprio, o jazz e os seus discursos metafísicos inúteis; odeia passar despercebido e ter a idade que tem.
Como última personagem temos Liberdade, que é uma criança descomprometida com a ideologia da escola/instituição e vê a vida como escola. Tem mais idade do que aparenta; adora a cultura, a revolução social, as reivindicações; odeia as pessoas complicadas, pois se considera simples.
Como podemos verificar, Mafalda não é somente um personagem de quadrinhos; talvez seja o personagem da década de 1970 mais importante na sociedade argentina20. Sempre exercendo o ato de contestar, é uma heroína que rejeita o mundo como ele é. Por tratar de assuntos que ainda são pertinentes na sociedade atual, de uma forma lúdica e criativa, própria do gênero tira e apreciado por todas as idades, Mafalda continua conquistando grande número de leitores.
Assim, o trabalho com tiras como as da Mafalda para análise de marcas linguísticas do texto é cada vez mais atraente, tendo em vista o seu uso crescente em jornais, em provas de vestibular, no Enem, em concursos públicos e mesmo em livros didáticos. Este gênero discursivo deve ser visto como um recurso a ser utilizado no universo escolar, como mostramos no tópico que segue.
20 Mafalda consegue resgatar questões sociais, políticas e históricas dessa época, pertinentes ainda hoje; porém,