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Constituintes do interior do quadrinho

No documento 2010LucianeSchifflFarina (páginas 36-40)

1 UM ESTUDO DE GÊNERO DISCURSIVO: A TIRA

1.2 O gênero tira: as diferentes linguagens que o constitui

1.2.1 Características formais da tira

1.2.1.3 Constituintes do interior do quadrinho

É importante chamar a atenção para o que constitui o interior do quadrinho, que são os personagens, o tempo e o espaço.

Os personagens são responsáveis pela ação da narrativa, orientando o leitor sobre o direcionamento da história. Conforme Ramos (2007), parte dos elementos da ação é transmitida pelo rosto do personagem, que, somado aos gestos e à postura do corpo, expressa alegria, tristeza, raiva, medo, agressividade. Além disso, os seres desenhados, apesar de representarem figuras estáticas, indicam que os personagens estão em movimento, seja correndo, seja remando, lutando, conforme observamos na Figura 9, na qual Mafalda está correndo. Nas duas primeiras vinhetas, Mafalda corre para um lado; nas duas últimas, para o outro lado, conforme se depreende pela mudança de direção do rosto dos pais.

Figura 9

Além disso, destacamos que a imagem do personagem possui uma gama de informações e que sua aparência física diz muito ao leitor. Eisner (apud RAMOS, 2007, p. 194) salienta que “a roupa, o cabelo, os detalhes e o formato do rosto, o tamanho do corpo, tudo é informação visual”. Assim, a composição de um personagem passa por algum tipo de estereótipo: um herói de porte atlético, um vilão com feições más, e assim por diante. Tais rótulos facilitam o processo de identificação da figura apresentada, tornando a narrativa mais acessível ao leitor. Como exemplo, a tira da Figura 10 traz um homem idoso, que caminha com o auxílio de uma bengala, deixando transparecer que em virtude do avanço da idade, toda pessoa idosa necessita desse auxílio.

Figura 10

Ao analisar as características formais do gênero tira, observamos que a tira é produzida por meio de uma tipologia narrativa, termo que apresenta interpretações diferentes, de acordo com Eisner (apud RAMOS, 2007). Para Marcuschi (2005, p. 29), “um elemento central na organização de textos narrativos é a sequência temporal”, porque há um elemento anterior e um posterior, ou um antes e um depois, que compõem a sequência mínima de uma estrutura narrativa.

Lendo tal gênero discursivo, podemos apreender situações temporais em seu interior. Por mais que a tira seja desenhada de forma estática, recursos como o de dar movimento ao corpo do personagem sugerem ideia de ação (Fig. 11). Como vemos, no terceiro quadrinho, Manolito, ao receber uma bolada, desequilibra-se e posiciona-se para cair no chão, deixando implícita uma noção de duração temporal, pois, ao vê-lo caindo, inferimos a parte seguinte, a queda. Há na mesma imagem um antes, o menino em pé, e um depois, o menino caído no chão.

Figura 11

Outro recurso da organização da cena narrativa são as linhas cinéticas, que também indicam uma posição do corpo ou parte dele. A cena contém em si ideia de tempo, mesmo que seja de curta duração, como, por exemplo, o mover a cabeça de um lado para o outro,

significa que a ação durou dois segundos. Ao observar a tira da Figura 12, percebemos esse aspecto no segundo quadrinho, que enfoca o rosto de Mafalda.

Figura 12

O tempo interfere no processo narrativo dentro de um só quadrinho ou quando se relaciona, de forma sequencial, a outro, sendo elemento essencial para a narrativa. Segundo Andrade (2008, p. 73), a narrativa que forma as tiras é desenvolvida em tempo cronológico e se constitui em um crescendo. “No caso das tiras estas também são responsáveis pela construção dos sentidos que o autor da HQ deseja transmitir ao seu leitor, ou seja, caso deseje indicar que uma ação é mais lenta, diminui-se o número de vinhetas; para torná-la mais rápida, aumenta-se o número”.

Assim, quanto mais vinhetas há para descrever uma mesma ação, maiores são a sensação e o prolongamento do tempo, como no exemplo da Figura 13; ao contrário, quanto menos vinhetas, ação mais lenta (Fig. 14).

Figura 14

Cagnin (1975, p. 55-57) enumera seis maneiras de como o tempo pode aparecer na linguagem dos quadrinhos: a primeira é a sequência de um antes e um depois, que ocorre quando se omitem elementos de uma sequência por elipse, de modo que, comparando dois momentos, pode-se perceber a sucessão temporal, o que pode ocorrer num só ou entre dois quadrinhos; a segunda é a época histórica, que compreende o período histórico vivido pelo personagem, percebido por signos visuais como roupas, cenário, etc; a terceira, que utiliza recursos para indicar os períodos do dia, como sol ou lua, é chamada de “astronômica”; a meteorológica, marcada pelo clima, evidencia calor, frio e é transmitida pelo cenário ou pelos personagens, constituindo-se na quarta maneira; finalmente, o tempo da narração e o tempo de leitura denominam a quinta e sexta maneiras, sendo a primeira o momento da representação da ação, que se torna presente enquanto é lido, e o tempo de leitura segue numa linearidade de leitura. Segundo Cagnin (1975, p. 57), há três modalidades de tempo: futuro (parte ainda não lida), presente (momento da leitura) e passado (após a leitura)

Certamente, não encontramos as seis em todas as tiras. Os aspectos levantados na primeira e sexta maneiras destacam-se pela relevância para a produção de sentido.

Para Barbieri (apud RAMOS, 2007, p. 199), “há uma relação direta entre os tempos de relato narrativo e o de leitura”. É que cada um tem uma apreciação diferente do texto e, como a parte verbal dos quadrinhos impõe uma duração à vinheta, quanto maior for a quantidade de palavras e frases, mais lento será o ritmo da leitura, e vice-versa. Os diálogos nos balões seriam o que o autor chama de “efeito de duração”. Observamos nas tiras geralmente frases curtas e em número reduzido, tornando curtos o tempo de leitura e o tempo narrativo.

Complementando tal ideia, Silva (2008) afirma que, diferindo da narrativa tradicional, as tiras em quadrinhos são organizadas pelo discurso direto, com o qual os personagens assumem a palavra com o apoio das imagens, que procuram traduzir o cenário e as circunstâncias enunciativas, distinguindo-se dos textos puramente verbais. Essa característica

funcional atrai a atenção do leitor por utilizar estruturas de enunciados simples, mais curtos do que uma narrativa tradicional. Além disso, “em estrutura compacta e condensada, as expressões das personagens são focalizadas para que o leitor se detenha em pontos específicos para os quais o autor sugere um olhar crítico”. (SILVA, 2008). Quanto a esse aspecto, lembramos que, além das informações dadas nos balões e ilustradas nos quadrinhos, há um espaço do não dito e do não visto, que são os implícitos, responsáveis pela leitura crítica do tema abordado, geralmente peculiar na esfera sociocultural dos interlocutores. Fresnault- Deruelle (apud RAMOS, 2007, p. 206) denomina o espaço em branco de um quadrinho para o outro de “hiato”, o qual exige a participação do leitor para o preenchimento de informações, a fim de dar sequência à narrativa.

Assim, além do personagem e do tempo, é importante ressaltar o espaço. De acordo com Cirne (1975, p. 40) “a narrativa dos quadrinhos funda-se sobre a descontinuidade gráfico-espacial”, construída com a mudança de imagem para imagem, intermediada pelas elipses. Isso porque, dependendo do enfoque que se quer mostrar, o quadrinho ou vinheta tem o espaço ocupado por elementos que possibilitam a percepção de aspectos como distância, proporção, afastamento e volume. (CAGNIN, 1975, p. 88).

É imprescindível observar que na cena narrativa o espaço ocupado dentro do quadrinho, além da ilustração, conta também com os balões.

No documento 2010LucianeSchifflFarina (páginas 36-40)