1. Pensamento, conceito e pedagogia
1.2 As três épocas do conceito (ou da imagem)
Na introdução de O que é filosofia? (DELEUZE; GUATTARI, 1997c, p. 21), apresenta-se uma repartição dos conceitos em três épocas: a enciclopédica, a pedagógica e a comercial/empresarial. Como observa Giuseppe Bianco (2002, p. 195), essa divisão replica o esquema conceitual de uma carta enviada a Serge Daney que tratava do cinema (DELEUZE, 1992, p. 88- 103). Nessa carta, Deleuze divide o cinema em três épocas: a enciclopédia da imagem, a pedagogia da imagem e a formação profissional do olho. Tal replicação das épocas da filosofia e do cinema não ocorre por acaso. O pensamento por conceitos e por imagens se desenrolam sobre uma mesma paisagem pré-filosófica, a arte e a filosofia repetem formas de pensar sob a condição de diferenciá-las. Logo, conceito e imagem compartilham um fundo comum que se atualiza em cada caso segundo regras distintas. Isso ocorre, em parte, pois a
filosofia deleuziana desenvolve-se desde o início em torno da questão “do pensamento e das imagens do pensamento que a animam.” (ALLIEZ, 1996, p. 11). Mesmo antes dos livros dedicados à pintura e ao cinema, a imagem ocupa um lugar central no maquinário conceitual da filosofia da diferença, servindo de referência para a discussão da construção conceitual. O cinema ajuda a filosofia a pensar a criação em si mesma, oferecendo em sua curta evolução – o cinema ainda não tem 150 anos, de tal modo que Deleuze mesmo pode acompanhar em vida a maior parte dessa história – elementos para se pensar a própria história do conceito.
O adjetivo enciclopédico, que caracteriza a primeira época, remete a uma concepção do conceito ou da imagem calcada no pensamento representacional e dialético de Hegel e Eisenstein (BIANCO, 2002, p 195 ; VASCONCELLOS, 2008, p. 158), segundo os quais, a totalidade é retomada pelo espírito ou pela consciência a partir de um jogo de oposição e sínteses que fazem as partes remeterem ao todo. Em Hegel, a síntese corre em direção ao Espírito, em Eisenistein em direção à conscientização de classe. O conceito de diferença, nessa concepção, representaria somente um momento do conceito antes do encontro final com a totalidade da consciência. Assim, a diferença é considerada somente como uma fase do conceito, fase que deve ser necessariamente superada para que se atinja a união dos espíritos e das consciências, estado final do conceito.
A definição dada por Deleuze e Guattari acerca do pensamento enciclopédico é obscura, a análise do hegelianismo e da dialética é extremamente complexa e exigiria a retomada da obra Diferença e Repetição. Preferimos pegar um atalho pelo Manual dos cursos
de Lógica Geral, escrito por Kant (1992), no qual se define o pensamento como
conhecimento por conceitos: “no entanto, para Kant o conceito seria uma forma de “representação universal”, enquanto a intuição seria uma forma de “representação singular” (KANT, 1992, p. 51-53; KANT, 2003, p.181 apud GALLO, 2008, p. 6340). O conceito
enciclopédico quer dizer justamente isso: um conceito que divide o mundo em uma série de representações singulares de objetos determinados repartidas em categorias gerais que são elaboradas segundo o princípio de uma consciência ou de uma unidade transcendente.
A segunda época, encarnada pelos filósofos Spinoza, Nietzsche, Guattari e Deleuze e pelos cineastas Alfred Hitchcock e Jean-Luc Godard, caracteriza-se por seu valor pedagógico. Segundo a leitura de Deleuze, Nietzsche e Spinoza se dedicaram, cada um a sua maneira, a construir uma ética avessa tanto à metafísica quanto à moral (DELEUZE, 1962, p. 86-87;
MACHADO, 2009, p. 80), recusando os valores transcendentais impostos à vida. Dessa feita, Spinoza e Nietzche revertem a filosofia transcendental de Descartes, assim como Godard reverte a dialética do cinema clássico:
Para Deleuze, Godard é um antidialético. Seu cinema conjura todo o Um, conjura todo o cinema do ser, procurando reverter, por intermédio da força da plasticidade de suas imagens, uma certa imagem do pensamento, uma imagem dogmática do pensamento, que sacrifica a diferença às identidades, a partir do primado do ser. Godard substitui com seu método do “entre duas imagens” o verbo “é” pela conjunção “e”; com seu cinema, faz do ser, devir. (VASCONCELLOS, 2008, p. 158).
Em que sentido essa imagem do conceito e esse conceito de imagem são pedagógicos41? O valor educativo dessa forma de pensar está na recusa dos valores morais
transcendentes que reduzem o pensamento a uma forma dogmática. O método associativo de Godard42 ensina à filosofia que o seu objetivo é a criação e a experimentação conceitual.
“Nada aprendemos com aquele que nos diz: faça como eu. Nossos únicos mestres são aqueles que nos dizem “faça comigo” e que, em vez de propor gestos a serem reproduzidos, sabem emitir signos a serem desenvolvidos no heterogêneo” (DELEUZE, p. 48, p. 2006). Giuseppe Bianco (2002, p. 191.) toca no essencial ao lembrar um pequeno texto que Deleuze (2004) escreve no qual afirma ter Sartre como um de seus mestres, não em razão de sua influência filosófica – que é esguia em Deleuze –, mas justamente, por ter sido um dos maiores inventores de conceitos da filosofia francesa das décadas de 1940 e 1950. Nesse sentido, um livro de filosofia e um filme não são tão diferentes: os dois consistem na criação de sequências de elementos linguísticos – e visuais – em uma certa relação.
A pedagogia do conceito expõe a “relatividade, absolutilidade e autoposição” do conceito (DELEUZE; GUATTARI, 1997c, p. 34), analisa a história e a geografia específicas de cada filosofia ao mesmo tempo em que estuda a instauração do Plano de imanência que articula os conceitos e os territórios filosóficos. “Uma pedagogia do conceito” analisa “as condições de criação como fatores de momento que permanecem singulares” (DELEUZE, GUATTARI, 1997c, p. 21). Enquanto a imagem tradicional do pensamento tem como finalidade a solução de problemas pré-estabelecidos, a pedagogia da diferença centra-se na 41 Não se preocupou em distinguir as três épocas do conceito e do cinema, pois, como se verá na terceira parte do quarto capítulo, a imagem tem uma potência conceitual e o conceito uma capacidade imagética que exercem um importante papel nas construções filosóficas da pesquisa de currículo influenciada por Deleuze e Guattari. A confusão entre os dois termos expressa a comunidade de pensamento dos dois meios.
42 Há outra lição que o cinema de Godard oferece a filosofia e à educação, trataremos dela na terceira parte do quarto capítulo.
elaboração de novos problemas. Enfim, os novos territórios filosóficos que se tornam parte do Plano de imanência são traçados a partir da criação de problemas que, por sua vez, são condicionados pelos conceitos (SILVA, 2002, p. 49). A filosofia, assim como a arte e a ciência não ensinam somente os conteúdos programáticos, elas nos introduzem no seio do pensamento, revelando sua natureza feminina e genital: pensar é criar e criar é produzir uma diferença em um agenciamento específico.
Por fim, a terceira época do conceito é a comercial do marketing, que propõe o conceito como representação ideal de uma mercadoria que visa criar ou se apropriar da demanda do desejo. No cinema, a época comercial é representada por Hollywood e seus filmes fundamentalmente técnicos e comerciais. Nesse sentido, a maior ameaça do cinema é a televisão que é o “consenso por excelência” e um meio sociotécnico em estado puro. O marketing e a televisão passam a disputar com a filosofia o título de inventores do conceito, entretanto o conceito que vendem nada tem a ver com a função criativa do conceito. “Em vez disso, eles têm uma função meramente social, dialógica, dóxica: eles são a encarnação da sociedade de controle, na qual, segundo Deleuze, bem como segundo Foucault, estamos vivendo.” (BIANCO, 2005, p. 1305). Aqui evidencia-se a unidade da imagem e do conceito, as duas formas de pensamento lutam contra a disseminação generalizada do dogmatismo, da opinião e da ilusão transcendental.
Deleuze e Guattari advertem os leitores que somente a pedagogia do conceito é capaz de nos salvar de “cair nos picos” do conceito enciclopédico ou, ainda pior, cair na desgraça dos conceitos comerciais produzido pelo capitalismo universal. Em O que é filosofia? (DELEUZE; GUATTARI, 1997c), os inimigos da filosofia da diferença são a filosofia representacional e tradicional e o capitalismo, encarnados pelo marketing e pela publicidade. O que todos esses elementos têm em comum? Eles são figuras do pensamento que impõem a forma dominante e dogmática de pensar de nossa sociedade.