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Pensar o desenvolvimento e as transformações socioeconômicas do modo de vida dos grupos sociais na Amazônia, sobretudo, quando relacionados às atividades da pesca enquanto fenômeno investigativo, requer, para além de um entendimento compreensivo da história, encontrar os mecanismos sujeitos a uma análise sobre determinados ângulos diante das transformações político-econômicas do Estado brasileiro.

Pretendemos, neste capítulo, introduzir uma reflexão acerca da formação do Estado brasileiro frente às políticas de modernização da sociedade, abordando quais as suas consequências diante da tomada de decisão em adotar uma perspectiva de desenvolvimento econômico que de fato permitiu tardiamente uma preocupação com as questões ambientais, traduzindo-se como um momento mais recente da nossa sociedade.

Neste sentido, apresentamos uma visão de como estas ações refletiram através das políticas de consolidação nacional dos grandes programas de valorização (econômica) da Amazônia, delineando como estes elementos tencionaram de forma ampla a relação entre os grupos sociais rurais e as formas de uso dos recursos pesqueiros9, as transformações socioprodutivas da atividade regulamentada da pesca, e a consolidação/evolução de uma legislação que regulamentaria o acesso aos recursos pesqueiros.

Os discursos políticos a partir das temáticas sobre desenvolvimento, sustentabilidade, desenvolvimento sustentável, ecodesenvolvimento aparecem enquanto frutos das condições históricas engendradas a partir de determinada situação social, envolvendo as transformações socioeconômicas do mundo, a crise racional do esgotamento não só dos recursos naturais, mas também de uma esgotabilidade do saber técnico-científico que levaram a uma

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A noção de recursos naturais utilizadas aqui implica na condição de pensar a pesca enquanto recurso natural renovável. Para Vieira e Weber (2002) isto implica no fato de que sua reprodução não é forçada ou controlada pelo homem, sendo usados, geridos, mas não produzidos, como a fauna selvagem aquática e terrestre. considerando que recursos renováveis são recursos vivos ou em movimento, onde presença da variável implica a adoção de enfoques centrados na noção de fluxo e variabilidade, não implicaria necessariamente em uma interpretação biofísica, pois a condição de renovabilidade pode ser analisada também como um fenômeno social complexo, enquanto categoria construída mediante a interação social (VIEIRA E WEBER, 2002).

complexificação e insurgência de saberes produzidos como ausentes10 em esferas não dominantes da ordem cultural e econômica da sociedade global.

A simplificação dos discursos economicamente dominantes cunharam, para o cenário amazônico, dimensões estratégicas de desenvolvimento perpassando por vários setores da economia local, digo dimensões econômicas de desenvolvimento ao afirmar que, no campo das contradições sociais, pouco se fez ou se resolveu para solucionar os velhos dilemas desenvolvimentistas entre economia, ambiente e sociedade ao longo da formação do Estado brasileiro.

A relação antagônica entre economia e meio ambiente se traduz na Amazônia como reflexos de um contraditório sistema de compreensão das dimensões de desenvolvimento da sociedade brasileira, onde as esferas de ordem política, ao passo que externalizavam os fatores ambientais e internalizavam por vias do desenvolvimento os fatores econômicos11, sujeitaram grupos sociais, determinados setores de atividades de trabalho fundamentais à economia regional e modos de vida tradicionais.

Nesta perspectiva, compreender a formação do Estado moderno brasileiro e como se introjetam os discursos sobre a questão ambiental nas esferas políticas e econômicas em determinado momento histórico, é um fator crucial para pensarmos do ponto de vista macro e micro-sociológico, as dimensões do subdesenvolvimento, neste caso, a experiência da sociedade brasileira, e a legitimação dos discursos consolidados enquanto estratégia política sob as transformações de determinados setores pertencentes ao modo de vida específico dos grupos sociais da Amazônia.

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Boaventura de Sousa Santos (2006), ao desenvolver a ideia de uma sociologia das ausências retoma uma perspectiva de pensar criticamente as condições interpretativas dos fenômenos sociais globais para além das epistemologias do Norte globalizado, que se legitima enquanto ciência e discurso dominante ao produzir como ausente as experiências sociais e o conhecimento produzido nos países periferizados do sul, que hoje insurgem como uma sociologia das emergências ao se deparar com a crise produzida por um saber racionalizado, esgotado frente à crise social da razão nas sociedades contemporâneas.

As transformações socioeconômicas da atividade pesqueira na Amazônia brasileira são pensadas sob a perspectiva da dinâmica das relações de trabalho instituídas e resultantes dos modelos de desenvolvimento adotadas que intensificaram ao mesmo tempo a sobre- exploração dos recursos pesqueiros, e tornaram latentes os conflitos socioambientais na medida em que o Estado não conseguia ver-se situado diante das contradições sociais causadas pelo projeto de modernidade12 acreditado.

Neste sentido, apresentamos que os modelos de desenvolvimento adotados para a Amazônia brasileira da segunda metade do século XX possibilitaram outras formas de ação e de apropriação dos recursos naturais locais, transformando as relações sociais de produção e as forças produtivas do setor pesqueiro.

2.1 A queda de Ícaro ou a profecia do colapso: Estado, (sub)desenvolvimento e as políticas de uma modernização forçada

A sociedade moderna, a partir de uma perspectiva weberiana, incide sobre o conceito de racionalidade e a maneira como atribui a esta os critérios que demarcam o surgimento do Estado moderno frente à economia capitalista, sua organização empresarial e sua estrutura burocrática. Sua preocupação com a institucionalização da racionalidade, em relação aos fins de organização burocrática da ordem social moderna das sociedades, demarcará um dos critérios de diferenciação e consolidação do Estado moderno.

Para Weber (1991), o Estado racional representa a figura moderna da formação dos Estados nacionais, sendo a única estrutura capaz de dar suporte ao desenvolvimento do capitalismo moderno, tendo como base a composição de uma estrutura administrativa fundamentada na burocracia profissional e no direito racional.

12 Modernidade e Modernização são pensados aqui, inicialmente, de maneiras diferenciadas, mas que dizem

respeito ao mesmo aspecto central, as transformações sociais. Para Berman (1986) a modernidade traduz-se enquanto um tempo histórico, como uma fase, correspondendo a transformações do pensamento das sociedades, seus costumes, hábitos e valores; Modernização se caracterizaria enquanto processo de intensificação das transformações marcadas pela dimensão racional do modo de vida moderno.

O Estado moderno é a estruturação de um espaço público ampliado, com a separação dos possuidores individuais ou grupais de seus instrumentos privados de força, da neutralização ou erradicação da administração particular da justiça, do cerceamento da gerência autônoma e arbitrária da emergência da coisa pública, isto é, da desprivatização dos assuntos de

interesse geral, junto com a ampliação do seu âmbito de

abrangência.(WEBER, 1991 p. 1048)

Desta forma, a racionalidade dos fins e meios demarca a constituição característica da modernidade para Weber, este fato se consolida pela racionalização social da vida instituída e em processo de modificação da compreensão do mundo pelos indivíduos vivendo em sociedade, penetrando em todas as esferas sociais com a ajuda da técnica.

No que concerne ao entendimento da categoria de Modernização e como este aspecto delineia a compreensão das categorias de análise pretendidas aqui sob a interpretação destes fenômenos na sociedade brasileira, Habermas (1990) a considera como um feixe de processos cumulativos que se reforçam mutuamente “através da formação de capital e mobilização de recursos, ao desenvolvimento de forças produtivas e ao aumento da produtividade do trabalho, ao estabelecimento de poderes políticos centralizados e à formação de identidades nacionais, à expansão de direito de participação política, de formas urbanas de vida e de formação escolar formal, refere-se à secularização de valores e normas” (HABERMAS, 1990, p.14)

O processo de modernização do Estado brasileiro, as experiências de transição econômica de uma economia agrário-exportadora para uma economia industrial em ritmo acelerado (ou desenfreado) erigiram o discurso dominante entre o início do século XX até as últimas décadas do mesmo, sobre a priorização dos fatores econômicos como resposta aos problemas sociais, contudo a modernização do Estado no início do século passado é reflexo dos processos de racionalização da sociedade na tentativa de buscar a eficácia do sistema produtivo, da administração pública das instituições políticas.

Neste sentido, a urbanização e a industrialização forjadas, sobretudo a partir da década de 30, apresentavam fenômenos de transformação políticas e econômicas, demarcando segundo Ianni (1999), uma ruptura estrutural na sociedade à qual passava a crise de transição da sociedade brasileira.

O fenômeno das mudanças sociais frente às condições do país fora marcado por uma intervenção cada vez maior do Estado na economia, principalmente no campo das condições estratégicas de desenvolvimento enquanto a consolidação dos ideais de nação. As teorias do planejamento deram suporte às políticas de desenvolvimento que buscavam o crescimento econômico.

A abordagem desta transição histórica é tomada como objeto central dos estudos de Florestan Fernandes em Sociedade de classes e subdesenvolvimento (1969), delineando os temas correlacionados com o desenvolvimento econômico do Brasil e a estratificação social dos indivíduos nas sociedades urbanas industriais.

A questão do subdesenvolvimento como categoria estrutural para compreender a noção de capitalismo dependente frente à estruturação de um regime de classes na América Latina é crucial para empreender como fenômeno investigativo os aspectos daquilo que o autor denominou de revolução burguesa.

Na situação dos países subdesenvolvidos, com frequência a ação do Estado é duplamente contida pela ordem legal que ele encarna. De um lado, os modelos de ordenação e de legitimação do poder político, transplantados dos

países avançados, oferecem margem a sérias ambigüidades e até à

contradições pitorescas no ajustamento da ordem legal às condições reais de existência social. De outro, a escassez de recursos afeta as finanças e deteriora a capacidade de atuação do Estado, conseqüências agravadas pela indisciplina administrativa e pela dissipação improdutiva reinante nos gastos oficiais. (FERNANDES, 1976, p.326).

A consolidação de um projeto de Estado frente às transformações sociais, para Fernandes (1976), resulta do fato de que o modelo de organização econômico-político, estimulado enquanto revolução, não se concretizava em si, na medida em que não conseguiu

servir como propulsor para a aceleração do crescimento econômico, do desenvolvimento social e da mudança cultural com processos irreversíveis de autonomização nacional, de negação e superação do subdesenvolvimento.

Neste sentido, a analogia com o mito grego de Ícaro13 representaria metaforicamente as promessas nãos consolidadas dos modelos de desenvolvimento adotados na constituição do Estado moderno frente às falências institucionais de uma modernização forçada. Para Furtado (1996), o contexto da realidade brasileira associada a interpretação do mito implica dizer que, sua função principal, é orientar, a partir de um plano intuitivo, a construção daquilo que a teoria econômica de Joseph Schumpeter (1883) chamou de visão do processo social, sem o qual o trabalho de análise jamais teria sentido.

Os mitos operam como faróis que iluminam o campo de percepção do cientista social, permitindo-lhe ter uma visão clara de certos problemas e nada a ver de outros, ao mesmo tempo em que lhe proporciona conforto intelectual, pois as discriminações valorativas que realiza surgem no seu espírito como um reflexo da realidade objetiva (FURTADO, 1996, p.8)

Ao passo que o desenvolvimento tardio marcaria as políticas de valorização econômicas e racionalização do aparelho estatal e incorporava as promessas de um voo, guiado pela lógica do crescimento econômico dos Estados nacionais, sobretudo, no pós-guerra com os rearranjos políticos e institucionais. Desta forma, gerando o declínio das promessas diante dos modelos econômicos e dos programas de desenvolvimento adotados, mas também representariam as principais consequências ao subdesenvolvimento periférico de determinadas regiões do país, como na Amazônia.

Ainda na concepção de Furtado (1996), o mito do desenvolvimento econômico se traduz como um destes aspectos, na medida em que aparece como fenômeno investigativo nas

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No Mito, Dédalo fabrica dois pares de asas artificiais formada por grossas camadas de cera amarrando as penas caídas dos pássaros que sobrevoavam o Labirinto, construindo por ele quando presos em seus exílios na ilha de Creta. Desta forma, alçaram voo juntos, deixando o cárcere para trás, porém Ícaro, empolgado com a possibilidade de voar, esqueceu-se da recomendação do pai em não se aproximar em demasia do sol ou do mar. Inebriado pela sensação das alturas, da liberdade e das promessas de um voo, cada vez mais o jovem se acercava do sol até que a cera que fixava as asas começou se derreter e Ícaro despencou dos céus ao mar morrendo afogado.

ciências sociais, procurando evidenciar que os padrões de desenvolvimento adotados pelos países em estado de subdesenvolvimento não se consolidam, pois refletem uma dimensão marginalizada e periférica da revolução industrial dos países hegemônicos de economia capitalista.

Neste sentido, a profecia do colapso, na visão do autor, explica que a permanência deste modelo de desenvolvimento adotado enquanto crença, sobretudo após a segunda guerra mundial, indicaria um estilo de desenvolvimento predador onde a busca dos padrões consumistas e a pressão sobre os recursos renováveis do planeta iriam acarretar uma exclusão social ainda maior, colocando em risco o sistema econômico mundial.

Os obstáculos da herança colonial e suas implicações quanto ao modelo de sociedade e de Estado demarcavam uma revolução ao modelo de sociedade, mas uma revolução dentro da ordem. Neste sentido, as questões políticas de mudança social e cultural da sociedade brasileira são colocadas em debate para pensar, segundo Fernandes (1969), o comportamento irracional das camadas conservadoras da sociedade quanto às pressões revolucionárias do processo de integração nacional, sua ligação com a expansão do capital industrial e intensificação da dependência socioeconômica e cultural, levando, assim, à construção dos fenômenos estudados pelo autor.

Num aspecto mais amplo da análise, para Ruy Mauro Marini (2000), a formação econômica dependente que caracterizava as economias periféricas dos países subdesenvolvidos seria que, ao permanecer em torno do mercado mundial e subordinados aos centros do capitalismo, estas não teriam como constituir de forma consolidada seus mercados internos, perpetuando um modelo colonial de desenvolvimento dependente.

Neste sentido, a América Latina ingressaria na etapa da industrialização a partir das bases criadas pela economia de exportação, ao mesmo tempo em que aprofunda a contradição própria de seu ciclo do capital e seus efeitos sobre a exploração do trabalho. O resultado disso

é o não desenvolvimento de bases tecnológicas e, por consequência, o não surgimento das indústrias mais produtivas e também a necessidade da manutenção da superexploração do trabalho, em seus mais diversificados aspectos e formas de organização (CORREA & CARDEAL, 2005).

Segundo Brito (2001), a sociedade brasileira se encontrava em uma condição diferente, a industrialização tardia significou a imposição de um ordenamento produtivo sobre a estrutura social cercada de elementos sociais tradicionais, que acabaram ativando os elementos organizacionais do capitalismo industrial, intervindo diretamente na economia e redimensionando parcialmente os esquemas políticos tradicionais.

No entendimento das mudanças que se processaram na sociedade brasileira a partir da década de 30 com o rearranjo das forcas políticas e econômicas, Burity (1988) apud Brito (2001) destaca que o papel histórico atribuído pelos teóricos da revolução democrático- burguesa e da modernização da classe burguesa, enquanto classe portadora do voo futuro tal qual o de Ícaro, é, na verdade mais uma construção político-ideológica do que um fato real no caso brasileiro, pelo menos, considerando o autor que não havia um passado feudal a ultrapassar, pois a ordem econômica brasileira já surge de um passado colonial que corresponde à fase de acumulação primitiva do capitalismo, como modo de produção em vias de se tornar dominante e que, a partir do século passado, se insere em uma ordem econômico- social sob a égide do imperialismo. “A nota mais destoante é atinente ao papel central assumido pelo Estado brasileiro na modelagem da ordem capitalista excludente, disciplinando e tutelando a sociedade, de forma a enquadrá-la e torná-la funcional a um esquema de acumulação privada do capital.” (BURITY, 1988 apud BRITO 2001, p. 21)

Neste bojo de transformações, o autor considera que as características mais importantes deste processo indicam elementos importantes de compreensão dos fenômenos de dinâmica e rearranjos político-institucionais. Primeiro, não ocorre de forma igual uma

racionalização dos processos de modernização da sociedade. Segundo, os elementos que demarcam a estrutura organizacional e jurídica do Estado não são absorvidos pela ordem política instituída. Por último, este processo induz ao desenvolvimento de uma economia industrial tendo como base um núcleo tecnocrático solidificado no interior da instância estatal. Neste sentido, a modernização brasileira é marcada por dimensões políticas, econômicas e técnico-burocráticas administrativas, na medida em que absorve e não absorve elementos pertencentes aos padrões de racionalidade do modelo de Estado nacional adotado no processo de modernização dos países desenvolvidos. Assim, no campo político, não se absorve tais elementos, enquanto a estrutura técnico-burocrática desenvolve um modelo de desenvolvimento econômico incontestável, autonomizando a estrutura burocrática que conduziria o processo de voo ao desenvolvimento.

O Estado brasileiro constituído a partir da racionalização dos sistemas políticos buscava a eficácia do sistema produtivo, da administração pública, das instituições políticas. “o aparecimento da sociedade industrial é resultado de um desdobramento histórico que introduziu uma visão de mundo voltada para a objetividade da técnica” (BRITO, 2001, p.17). A configuração dessa estrutura de poder permitiu que se criassem instrumentos políticos eficazes para acelerar o desenvolvimento da economia industrial, rompendo de forma definitiva com a sociedade tradicional.

Com as transformações sociais decorrentes dos processos de refuncionalização político-econômicos da estrutura estatal, insurgem novas abordagens de intervenção direta em setores de desenvolvimento do Estado. Neste contexto, podemos chamar a atenção, segundo Brito (2001), para o fato de que o desenvolvimento marca a separação da instância estatal correspondente à esfera administrativa, que passa por uma reformulação na sua estrutura burocrática e isola-se da esfera política.

Neste sentido, para o autor, a modernização e o capitalismo industrial na sociedade brasileira possuem sua fundamentação no autoritarismo que marca a constituição política do Estado nacional.

A estrutura burocrático-racional-legal não se torna autônoma na medida em que sofre um processo de insulamento, permitindo que as identidades estatais executem ações pautadas pela formalização dos procedimentos legais. Contudo, na base dessa movimentação, estaria o controle de grupos oligárquicos que se impõem hegemonicamente, controlando e direcionando, por meio de uma série de relações, troca de favores, compadrios e nepotismos, desta forma, a ação estatal, em função de seus interesses particulares, dá forma legal a uma atitude autoritária do Estado.

Esta contextualização seria denominada por Octávio Guilherme Velho (1976) de capitalismo autoritário. As condições dos projetos de desenvolvimento baseados nas premissas do modelo de desenvolvimento econômico adotados pelo Brasil possuíam elementos particulares que acabaram desenvolvendo-se em países periféricos a partir de outra realidade, tornando real o mito do desenvolvimento (econômico), sobretudo no mundo rural das comunidades e grupos sociais sujeitos às políticas do governo.

É necessário levar em consideração que os modelos dominantes de desenvolvimento econômico aplicados aos países subdesenvolvidos são assimilados e forjados no âmbito do processo de consolidação de discursos legitimadores de determinados interesses estratégicos.

O planejamento, como forma de racionalizar as ações do governo em longo prazo, passou a ser o norteador das políticas econômicas, gerando no país uma modernização paradoxal ou uma modernização da superfície (BRITO, 2001), enquanto projeto racionalizador das instituições políticas criava ou acreditava em soluções por meio de medidas de desenvolvimento pela ótica econômica que, no entanto, se traduziram apenas do

ponto de vista econômico, não atingindo uma camada mais profunda da realidade brasileira, relacionada com as contradições sociais geradas pelo seu discurso.

O termo modernização da superfície corresponde aos efeitos de racionalização parcial do Estado14 na medida em que não se aprofunda na estrutura social, absorvendo determinados aspectos da sociedade, sobretudo na esfera burocrático-administrativa, em detrimentos das dimensões econômico-políticas, excluíndo grande parte dos grupos sociais subjugados, mantendo uma estrutura arcaica e um processo secular de exclusão social frente

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