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As vantagens do co-manejo

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4.5 A questão do empoderamento dos pescadores

4.5.2 As vantagens do co-manejo

a gestão compartilhada busca a equidade na gestão pesqueira. Visa a empoderar os grupos fracos ou menos privilegiados de uma comunidade para permitir que participem livremente e trabalhem em conjunto na gestão. A co-gestão busca uma participação mais ativa dos pescadores no planejamento e na implementação da gestão pesqueira. A responsabilidade implica que os pescadores tenham uma parte no processo de tomada de decisões e os custos compreendidos em receber os benefícios dessas decisões. O tema da gestão compartilhada é que o envolvimento pessoal dos pescadores na gestão do recurso levará a um compromisso mais forte de aderir à estratégia de gestão e ao uso sustentável do recurso. A reciprocidade de interesses e o compartilhamento da responsabilidade entre os parceiros ajudarão a encurtar a

106 distância entre os gestores e os usuários dos recursos, tornando os objetivos da gestão mais compatíveis, (BERKES, et. al., 2001).

As vantagens de mudanças de gestão de modelos “top down” para modelos com maior participação dos usuários dos recursos naturais já foram documentadas em várias partes do mundo. Existem vários níveis de gestão compartilhada (adaptativa, comunitária, coletiva) embora os focos de cada estratégia difiram em alguns pontos, existam similaridades entre os conceitos dessas formas de gestão. BERKES (2001, p. 273) entende a gestão pesqueira compartilhada como “uma parceria na qual o governo, a comunidade de usuários locais do recurso (pescadores), os agentes externos (organizações não-governamentais, acadêmicas e instituições de pesquisa) e outros atores relacionados com a pesca e os recursos costeiros (proprietários de embarcação, comerciantes de peixes, bancos que concedem empréstimos, estabelecimentos turísticos, etc.) compartilham a responsabilidade e a autoridade por tomar decisões sobre a gestão de uma pescaria”.

Assim, devido a grave situação pelo qual passava a pesca na década de 1990, o modelo top-down de gestão da pesca artesanal do estuário da Lagoa dos Patos, através de um órgão governamental centralizador, foi drasticamente substituído por um modelo participativo. Assim, surgiu em 1996 a possibilidade de uma forma alternativa de manejo dos recursos de propriedade comum, por meio da criação do Fórum da Lagoa dos Patos12. O Fórum foi criado a partir de um esforço inicial da Pastoral do Pescador, juntamente com o Centro de Pesquisas e Gestão dos Recursos Pesqueiros Lagunares e Estuarinos (CEPERG), ligado ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), e das Colônias de pescadores. A região de abrangência do Fórum compreende os municípios de Rio Grande, São José do Norte, São Lourenço do Sul e Pelotas, municípios com tradição pesqueira, situados no entorno do estuário da Lagoa dos Patos/RS. Como uma organização não-governamental de cooperação no âmbito pesqueiro, o Fórum tem como missão principal reunir instituições de governo, entidades da sociedade civil organizada, organizações classistas e pescadores, para buscar novas perspectivas para a pesca e para os

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As instituições que compõem o Fórum são: Colônia de Pescadores Z1 – Rio Grande, Colônia de Pescadores Z2 – São José do Norte, Sindicato dos pescadores de Pelotas (em substituição à Colônia Z3), Colônia de Pescadores Z8 – São Lourenço do Sul, Pastoral dos Pescadores, Sindicato dos pescadores de Rio Grande, IBAMA, PATRAM (Batalhão de Polícia Ambiental do Estado), FURG – Fundação Universidade Federal do Rio Grande, Governo do Estado do Rio Grande do Sul, Ministério Público, Capitania dos Portos – Marinha do Brasil, ONGS ambientalistas, EMATER – Associação Riograndense de Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural dos municípios de RG/SJN/PEL/SLS, Prefeitura de Rio Grande, Prefeitura de Pelotas, APESMI (Associação de Pescadores da Vila São Miguel), MPPA (Movimento dos Pescadores Profissionais Artesanais) e SEAP/PR (Secretária Especial de Aqüicultura e Pesca da Presidência da República).

107 pescadores da região. O Fórum tem como finalidade, ainda, a defesa, preservação e conservação do meio ambiente no setor pesqueiro, bem como a promoção do desenvolvimento econômico, social e do combate à pobreza (ESTATUTO DO FÓRUM DA LAGOA DOS PATOS, 1996, p. 1).

Entre as questões discutidas no Fórum, encontram-se: a obtenção do pagamento do seguro-desemprego para o pescador artesanal no período de defeso; a criação de espaço de discussão sobre os problemas relativos à pesca, tais como a manutenção do estoque pesqueiro, políticas públicas referentes à pesca artesanal e valorização dessa atividade tradicional da região; incentivo à criação da parceria entre IBAMA, Capitania dos Portos (Marinha do Brasil) no que tange à fiscalização da atividade pesqueira; e o retorno para o IBAMA do licenciamento ambiental que em 1999 havia sido transferido para o Ministério da Agricultura e Abastecimento. Com relação ao pagamento do seguro-desemprego TAGLIANI e COSTA (2004, p. 34), observam que “o seguro-desemprego para o pescador artesanal, no Brasil, surgiu com a Lei 8.287 de 20 de dezembro de 1991 garantindo um salário mínimo nacional para cada pescador e só foi regulamentada para o estuário da Lagoa dos Patos sob influência do Fórum da Lagoa dos Patos a partir da instituição do período de defeso em 1999”.

O Fórum representa uma iniciativa no caminho de descentralizar e compartilhar responsabilidade e autoridade na gerência da pesca local. Nesse novo arranjo institucional, baseado no co-manejo, diferentes agentes são envolvidos no manejo da pesca artesanal na região. Entretanto, de acordo com KALIKOSKI (2002), a devolução do poder às comunidades pesqueiras é dificultada pela fraca participação dos pescadores no Fórum e por influências externas em diferentes níveis de governo. Para esta autora, a criação do Fórum tentou minimizar os problemas de ajuste entre as instituições que estão envolvidas com a pesca de pequena escala e as condições de uso do recurso.

Para KALIKOSKI e PINTO DA SILVA (no prelo),

uma estrutura teórica de análise do estabelecimento destes processos de co-gestão foi desenvolvida a partir da identificação de critérios que vêm sendo postulados como fatores chaves para o manejo sustentável de recursos de propriedade comum e para o sucesso no estabelecimento de arranjos de gestão. Tais critérios de análise da gestão compartilhada, comumente são divididos em três categorias: aquelas que lidam com questões de (1) congruência entre instituições e recursos/ecossistemas manejados; (2) tomada de decisão para o uso conjunto e, (3) o papel da ciência no desenvolvimento institucional. Critérios sob categorias 1 e 2 representam funções comumente observadas em exemplos de gestão cooperativa que, independentemente da localização geográfica, cultura ou sistema político, sucederam em administrar recursos de propriedade comum de forma sustentável ao longo do tempo, durante muitas gerações (BERKES, 1989; BERKES e FOLKE, 1998; PINKERTON, 1989; OSTROM, 1990; YOUNG, 1999). Por outro lado, arranjos institucionais falhos ou

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frágeis sofrem da ausência de alguns de tais critérios, (KALIKOSKI e PINTO DA SILVA, no

prelo).

Aqui será abordado o aspecto no que tange a categoria de tomada de decisão para o uso conjunto. Esta categoria foi elaborada para analisar o grau de envolvimento das instituições e comunidades locais como participantes ativos no processo de gestão dos recursos pesqueiros e no processo de catalisar a implementação do processo de gestão compartilhada (ASMUS e KALIKOSKI, 2004). Especificamente, no item que segue, abordar- se-á os mecanismos de representação e participação dos pescadores nas decisões de manejo, analisando o grau de empoderamento desses atores locais no processo de tomada de decisão e a necessidade de fortalecimento dos mesmos no processo co-manejo dos recursos pesqueiros do estuário da Lagoa dos Patos.

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