1.3 Contextualizando o tema sobre Direitos de Propriedade
1.3.1 Categorias de direito de propriedade para os recursos comuns
1.3.1.3 Propriedade comunal
Nesse caso, os recursos são manejados por uma comunidade identificável de usuários interdependentes. Esses usuários excluem a ação de indivíduos externos, ao mesmo tempo em que regulam o uso por membros da comunidade local. Internamente à comunidade, os direitos aos recursos normalmente não são exclusivos ou transferíveis, e sim freqüentemente igualitários em relação ao acesso e ao uso. Algumas pescas interiores, pastagens e áreas florestais têm sido manejadas como propriedades comunais. Os direitos do grupo podem ser
19 legalmente reconhecidos. Em outros casos, tais direitos são reconhecidos de fato, dependendo da negligência benigna do Estado, (FENNY, op. cit., p. 21).
Para POMEROY e RIVERA-GUIEB (2005, p. 13-14):
common property regimes as collective resource management systems have been shown to develop when a group of individuals is highly dependent ona a resource and when the availability of the resource is uncertain or limited (RUNGE, 1992). If the resource problem is repeatedly experienced, such as low or no catch, and if it existes within a single community of users, the fishers are likely to develop a collective institutional arragement to deal with the problem. Institutional arragements are sets of rights the fishers posses in elation to the resource na the rules that define what actions they can take in utilizing the resource. In the face of uncertainty in resource availability, fishers are more willing to group together to trade-off some benefit from individual use of the resource for the collective assurance that the resource will be used in a more equitable ans sustainable manner (GIBBS and BROMLEY, 1992).
Sob regimes de apropriação comunal, a exclusão significa a capacidade de excluir pessoas que não pertençam a um grupo definido. As evidências sugerem que o êxito dos processos de exclusão nos casos de apropriação comunal constitui mais a regra do que a exceção, mas o estresse do crescimento populacional, as mudanças tecnológicas e as mudanças econômicas podem contribuir para a desestruturação dos mecanismos de exclusão adotados, (VIEIRA et. al., 2005).
Uma das principais conclusões extraídas da literatura existente é que o reconhecimento legal dos direitos de propriedade comunal de recursos comuns, como no caso da pesca em zonas costeiras do Japão (ver QUADRO 1), constitui chave do êxito de processos de exclusão em regimes comunais. Todavia, (VIEIRA et. al., 2005), salienta que em muitos lugares do mundo não existe reconhecimento legal para processos de exclusão realizados sob regime de propriedade comunal. Como mostram esses autores, em muito desses casos a exclusão de pessoas externas promovidas por usuários locais tem sido assegurada informalmente, por meio de ameaças e violência furtiva. Um exemplo utilizado por esse autor é a persistência de territórios de pesca da lagosta em comunidades do Maine nos Estados Unidos, territórios estes que não são reconhecidos na regulamentação governamental e que permanecem tecnicamente ilegais. Esse exemplo é considerado significativo pelos pesquisadores de recursos comuns, “porque vem de um país e de uma cultura onde o direito de livre acesso individual persiste como uma crença profundamente enraizada”, VIEIRA, et. al. (2005, p. 59).
RUNGE in BROMLEY (1992), argumenta porque em algumas situações específicas, regimes de propriedade comum são mais adequados:
first, low levels of income imply that formalized private-property institutions involving high transactions and enforcement costs are often outside the village-level budget for resource
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management. Even if a system of private-use rights is affordable, common-property alternatives can be relatively less costly to maintain and enforce and better adapted to local conditions. Since common-property rules are generally enforced locally, abuses of authority, if they occur, may be less widespread than under a centralized program of privatization. A second reason for the survival and utility of common property is that dependence on natural resources makes survival more subject to a variety of unpredictable natural events that are likely to fall unequally in both time and space on the local population. If this inequality is threatening to a sufficiently large proportion of the group, incentives may exist to guarantee access to certain resources held in common rather than to restrict access through exclusive use. By institutionalizing a degree of fairness in the face of random allocation, common-use rights may contribute to social stability at the same time that they promote efficient adaptation to changing resource availability. Common property may be an appropriate institutional adaptation to resource management at the village level for a third reason: the right to be included in a group provides a hedge against individual failure. This hedge will be likely to grow in significance as the overall level of risk to group members increases. In this sense, the combination of relatively high levels of randomness in allocation of natural resources, and resulting uncertainty in individual levels of welfare are all mutually reinforcing explanations for the appropriateness of common-property institutions. A more general reason for continued common-property management is that the opportunity costs associated with changing established practices are high. Despite attempts to break down traditional common-property institutions, these rules are tenacious,(BROMLEY, 1992, p.
33).
QUADRO 1 – As pescarias costeiras no Japão
A pesca costeira no Japão proporciona a autoridade regulatória nos níveis nacional e regional, o poder de tomar decisões principalmente no nível local. Ela implementa medidas de gestão e resolve disputas quanto a direitos sobre o uso de recursos, proporcionando uma garantia dos direitos das aldeias sobre os recursos. Até por volta de 1900, essas funções de gestão nas pescarias costeiras japonesas eram conduzidas por associações de aldeias. O sistema moderno foi criado para formalizar os direitos históricos das aldeias sobre a pesca. Com a implementação da Lei da Pesca de 1901, os territórios marinhos das aldeias que haviam evoluído durante a era feudal foram mapeados, codificados e registrados. Atualizada em 1949, a Lei da Pesca conferiu direitos e licenças apenas para pescadores e colocou a gestão pesqueira em suas mãos, por intermédio de Associações Cooperativas Pesqueiras. Cada cooperativa (ou federação de cooperativas) tem a posse exclusiva das águas costeiras, exceto em áreas de porto e zonas industriais. As cooperativas solicitam licenças do governo e as distribuem entre seus membros, e as pessoas que não são filiadas não podem pescar. As cooperativas controlam muitos aspectos da pesca costeira dentro da jurisdição imediata, implementando e fiscalizando as leis e regulações pesqueiras nacionais, implementando e fiscalizando as leis e regulações pesqueiras nacionais, suplementadas ou complementadas pelas criadas localmente. Por exemplo, o governo nacional estabelece uma captura máxima permitida para as áreas de pesca costeiras e oceânicas, e a demarcação da cota total para as várias cooperativas é feita pela prefeitura (governo local). A cooperativa tem então a responsabilidade de dividir a sua cota entre seus membros. Ela tem uma
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interação intima com os governos nacional, regional e municipal em questões que incluem a criação e implementação de planos de manejo, a aprovação de regulações, projetos pesqueiros, orçamentos, subsídios, licenças e outros direitos. As cooperativas também fazem a comercialização e o processamento, alugam equipamento de pesca, compram suprimentos e prestam uma função educativa.
A tradição marítima do Japão, ao contrario da ocidental, nunca incluiu o idéia de que o mar tem (ou deve ter) acesso aberto. Pelo contrário, um complexo sistema de posse marinha com variações locais desenvolveu-se ao longo de muitas gerações. A propriedade dos recursos marinhos comuns nas águas costeira é bastante comparável, na lei japonesa, à propriedade dos recursos comuns das aldeias.
Fonte: RUDDLE (1987); LIM et. al. (1995) apud BERKES et. al. (2001).