Terceira Parte AS VISITAS
I. As Visitas às Naus
As Visitas às Naus estrangeiras constituem uma medida de controlo da produção e difusão de livros e objectos que, de alguma forma, fogem à ortodoxia ideológica que a Igreja Católica pretende proteger e perpetuar.
Em Espanha, desde 1558 que se vigiava a entrada e circulação de obras que veiculavam ideologias suspeitas e, entre 1559 e 1583, foi elaborado um Índice de Livros Proibidos.
Em Portugal a censura à livre circulação destas obras torna-se sistemática a partir de 1540, entrando em vigor diversas providências para o efeito. O primeiro Índice português data de 1547, colocando o acento tónico nas tendências ideológicas erasmistas e protestantes. Será actualizado em 1551, 1564, 1581 e 1624, representando uma tentativa de compilação sistemática dos livros suspeitos produzidos no estrangeiro e um esforço de construção de um «dique» defensivo a fim de conter as ideologias introduzidas pelo movimento reformista.
«Mas a actividade de censura prévia e dos índices expurgatórios era acompanhada por uma cuidadosa fiscalização das alfândegas e das livrarias.»1.
Para o efeito todos os navios que entrassem nas barras portuguesas, e antes de ter havido contacto entre tripulação, passageiros ou mercadorias e terra, eram inspeccionados por funcionários do Santo Ofício, muitas vezes párocos locais investidos dessa função, acompanhados de um escrivão e um intérprete.
Os visitadores às naus estrangeiras tinham como obrigação revistar as mercadorias, verificar todos os fardos e embrulhos, consultar o manifesto de bordo e interrogar tripulações e passageiros. Para cada navio era elaborado um documento
1 Maria de Fátima M. Dias A. dos Reis, Um Livro de visitas às Naus Estrangeiras: exemplo de Viana do
onde deveria constar um grande número de informações: data de acostagem, nome e tipo da embarcação, nome do mestre, porto de proveniência, carga, consignação, número de tripulantes e passageiros, sua nacionalidade e religião, imagens e livros encontrados a bordo.
Nas palavras de Orlando Romano, constrói-se assim «o que poderíamos chamar um cordão sanitário contra ideias heterodoxas.»2.
Apesar do zelo inquisitorial e da constante actualização dos róis de livros proibidos, eles continuam a entrar no país e muitas das vezes por via marítima. Com o objectivo de fechar cada vez mais o cerco, dá-se um aumento do ritmo das visitações3. Em 1606, é também elaborado o Regimento dos Visitadores que visitam
por parte do Santo Ofício as Naus e Navios que vem aos portos deste Reino, por
ordem do Inquisidor Geral D. Pedro de Castilho.
No Regimento geral da Inquisição de 1613, encontramos também menção às visitações às naus: «Haverá mais em cada um dos logares principaes de cada districto da Inquisição, mormente nos portos de mar, e assim nos logares de África, e nas Ilhas da Madeira, Terceira e S. Miguel, Cabo Verde e S. Thomé, e capitanias do Brazil, um Comissário, e um Escrivão de seu cargo – e nos logares marítimos, haverá um Visitador das vellas estrangeiras, que, com o Escrivão de seu cargo, terá cuidado de saber se trazem livros de hereges, ou outros, defesos pelo catálogo – o qual cumprirá o regimento que lhe for dado pelos Inquisidores.»4
Este aspecto é ainda alvo de desenvolvimento no Regimento de 1640, e no novo Regimento das Visitações às Naus de 1642.
Apesar de não constar qualquer registo acerca do porto de Setúbal nos Livros das Visitações às Naus Estrangeiras5, não podemos concluir pela inexistência
2 Orlando Romano, Aspectos da censura inquisitorial portuguesa (1532-1624), Lisboa, 1968, p. 13. 3 Ver Maria de Fátima M. Dias A. dos Reis, Um Livro de visitas às Naus Estrangeiras…, p. 712-713. 4 Regimento do Santo Officio da Inquisiçam dos Reynos de Portugal…, 1613, cap. II.
dessas visitações. Pelo contrário, elas foram de tal forma importantes que justificaram um livro independente. Infelizmente este livro não se encontra disponível, ou porque está em fase de pré-catalogação ou, hipótese pior, porque não sobreviveu, pelo que não pode ser consultado.
Temos, no entanto, provas de que foram feitas «Visitações às Vellas Estrangeiras» no porto da vila de Setúbal.
Nos copiadores relativos à correspondência do Conselho Geral da Inquisição, encontramos referências ao pagamento, por parte do Santo Ofício, de uma pensão a Balthasar de Vilhena, prior de Santa Maria, «por visitar as naus estrangeiras à entrada»6. Este pagamento, tendo sido feito em Outubro de 1587,
significa que, desde muito cedo, as embarcações chegadas ao porto da vila de Setúbal eram alvo do escrutínio inquisitorial.
Entre a correspondência expedida pelo Tribunal Inquisitorial de Lisboa para o Conselho Geral, encontramos, no ano de 1592, uma nota relativa a «uma cópia do aviso dos livros heréticos que vêm da holanda em pipas»7, lista que havia sido
também enviada ao pároco da Igreja de Santa Maria, para que este ficasse informado acerca dos artigos que deveria procurar.
Em 1603, a Inquisição de Lisboa envia ainda uma carta ao secretário do Conselho Geral, com o intuito de saber junto do vigário da vila de Setúbal, que contas estão por pagar das visitas às Naus Estrangeiras feitas no porto dessa vila8.
Ainda na mesma fonte encontrámos referência a uma provisão passada ao padre André Alvarez, de Setúbal, para que exercesse as funções de escrivão da Visita às Naus de Setúbal, em 16069.
6 IAN/TT, Conselho Geral do Santo Ofício, Livro 367, fl. 14v. 7 IAN/TT, Inquisição de Lisboa, Livro 18, fl. 11v.
8 Idem, fl. 239v.
Tendo na primeira parte deste trabalho analisado o papel e a importância do porto de Setúbal na conjuntura económica e comercial portuguesa da época não será descabido afirmar que as «visitas às naus» vêm confirmar agora a sua importância enquanto porto de entrada e pólo de difusão de livros, o mesmo é dizer, de cultura e de ideias, que poderiam pôr em causa a ideologia e o pensamento religioso reinante, pelo que o porto de Setúbal, à semelhança do que acontece com outros portos do reino, foi objecto de vigilância e escrutínio especiais pelo Santo Ofício.
Só é de lamentar que não tivéssemos podido encontrar o livro das «Visitações às Vellas Estrangeiras» ou tão-só a lista dos livros heréticos que vinham da Holanda em pipas e que permitiriam não só conhecer os livros que tinham procura e circulavam pela Europa como fazer uma incursão pelo que então era considerado heresia.