OS PRESOS DE SETÚBAL
V. Os meandros do processo
2. O libelo, a contradita e a coartada
Após as sessões de interrogatório, é redigido o libelo acusatório onde se enumeram as culpas e delitos do réu, omitindo-se as datas, os locais e os nomes dos denunciantes. Este texto é estruturado de forma que as acusações pareçam mais graves do que são na realidade, com o objectivo de levar o preso a confessar. O réu escolhe um procurador – de entre dois ou três nomes que lhe são dados pelo tribunal – homem que será responsável pela sua defesa, e que estudará o libelo.
Havendo provas de desobediência, o tribunal pede formalmente a pena máxima, perante o que o réu tem duas vias. Uma é confessar as acusações e procurar satisfazer ao máximo os inquisidores com as suas declarações92. Outra é
negar, dizendo que nunca atentou contra a Igreja Católica, que é bom cristão, que vai às romarias e pregações, que vai aos domingos à Missa, que dá esmola aos pobres, etc.
Inicia-se novo período de perguntas e respostas, em que, na maioria dos casos, o réu se vai afundando progressivamente nas suas próprias declarações e contradições.
Muitos chegam a confessar coisas que nunca fizeram, mas alguns mantêm-se firmes e nada confessam. Para estes últimos, os chamados negativos, existem dois meios de defesa: as contraditas e a coarctada.
As contraditas consistem na nomeação de quem se supõe ser o acusador, invocando suspeições de inimizade que explicariam falsas denúncias. Nos autos das contraditas, constam relatos dos conflitos sociais de sempre, um enorme «lavar de roupa suja», que pode sempre ser em vão, se não se acertar na lotaria dos denunciantes.
Na coarctada, o réu procura apresentar um álibi, o que se revela extremamente complicado, quando se desconhece quando, onde e quem foi o autor da denúncia.
Estes dois processos de tentativa de defesa prolongam-se por muito tempo, obtendo certificações e tomando testemunhos, tudo isto enquanto o preso permanece nos cárceres, às suas próprias custas.
O facto de se manter secretos estes dados – o delito de que consta a acusação, os nomes dos denunciantes, as datas e os locais do delito – dificultam em muito, se é que não impossibilitam de todo a construção de uma defesa capaz. As vias de saída desta teia vão-se fechando uma após outra, o desespero vai-se instalando cada vez mais fundo, o pesadelo não tem fim, e adensa-se a cada dia que passa.
Apesar da manifesta dificuldade na construção de uma defesa, encontramos alguns setubalenses dispostos a recorrer aos mecanismos existentes.
Encontramos inclusivamente três processos onde são utilizadas todas as defesas possíveis. Francisco Fernandes Salgado, Artur de Leão e Vicente Cardoso nomeiam testemunhas de defesa, fazem contraditas e apresentam coartadas.
Gráfico 13 - Mecanismos de defesa usados
0 5 10 15 20 25 30 mecanismos proce ssos
testemunhas de defesa contradita coartada nenhum ausentes
As testemunhas de defesa nomeadas pelos réus são o meio de defesa mais utilizado, estando presente em 24 processos.
As testemunhas de defesa são ainda, por norma, cristãos-velhos e de categoria socioprofissional igual ou superior à do acusado.
O melhor exemplo é o de Manuel de Almeida, médico de Palmela, acusado de judaísmo. Entre 24 testemunhas que aponta contam-se nove membros da nobreza, um procurador da Câmara, um escrivão da Alfandega, um familiar do Santo Ofício, um cavaleiro de Sua Majestade e um prior da Igreja da Anunciada.
Verifica-se que algumas das testemunhas de defesa nomeadas não chegam a ser inquiridas. Quando o são, o seu testemunho não tem valor tangível no decurso ou desfecho do processo em causa.
Ficamos com a sensação de que os testemunhos são tomados por mera rotina processual e não porque, das informações recolhidas, o tribunal esteja convencido de que visa a verdade, vindo tais testemunhos a influir na sentença atribuída ao réu.
As contraditas e as coartadas são, na grande maioria dos casos, feitas contra as pessoas que o próprio réu denunciou e que são os prováveis autores das denúncias contra ele próprio.
São, muitas vezes, pessoas presas na mesma altura. Sendo que se pretende atingir precisamente o denunciante, aqui funciona a mesma lógica que orienta a denúncia recíproca.
A contradita invoca rivalidades e inimizades comezinhas, de que é exemplo o caso de Lucrécia Fernandes que contraditou Maria da Silva (senhora de 50 anos) e Jerónimo Cardoso (moço de 28), invocando que os últimos lhe tinham ódio «porque andavam amancebados e ela os repreendera».
Um dos nomes que mais encontramos nas contraditas é o de Duarte Alvares que, após o episódio da petição, se tornou no denunciante mais provável de muitos dos réus de judaísmo.
A coarctada, menos utilizada – ela aparece apenas em 5 processos – baseia- se, na maioria dos casos, no testemunho do próprio réu, que afirma ter estado noutras partes do reino, por alturas do suposto delito.
O primeiro exemplo está no processo de Manuel de Almeida. Este apresenta como álibi o livro de registo dos seus salários na Universidade de Coimbra, prova de que nunca tinha faltado ao trabalho e que o impossibilitava de ter feito uma suposta viagem a casa de seu irmão em Évora.
Francisco Fernandes Salgado nomeia como testemunhas de defesa Manuel Carvalho Vargas, António Freire Dias e Diogo Peixoto; respectivamente, almoxarife, escrivão e feitor das almadravas, que afirmam tê-lo como assalariado em Sesimbra no período em que é acusado de judaizar em Setúbal.
Tal como acontece com as testemunhas de defesa, a contradita e a coarctada, ainda que devidamente provada, surtem pouco efeito. Constituem mais uma formalidade do que uma intervenção efectiva no processo.
Invoquemos, novamente, o exemplo de Manuel de Almeida, cuja lista de testemunhas é a mais longa e ilustre e que prova irrefutavelmente a coarctada. Este réu lança ainda mão de dois outros documentos. O primeiro é o seu diploma de médico, escrito em nome de El-Rei. O segundo é o documento régio dado a seu pai. Ambos os documentos atestam a sua pureza de sangue.
Por ironia da história, este homem acaba por ser o processado setubalense a quem será atribuída a sentença mais pesada.