As “zonas libertadas” são um dos elementos mais importantes da história da Frelimo: por um lado, estas regiões, libertadas do controlo do Estado colonial, materializavam o progresso da luta pela independência, dando-lhe um conteúdo concreto; por outro lado, desempenha-ram um papel decisivo na construção do discurso marxista da liderança, tal como as lutas pelo poder que acabam de ser mencionadas no ponto anterior.
No final da guerra, as “zonas libertadas” ocupavam apenas uma pequena parte do ter-ritório moçambicano, geralmente estimada em cerca de um quinto da área total do país.
Dispersas em três províncias (Cabo Delgado, Niassa e Tete), com uma densidade populacio-nal muito baixa83, as “zonas libertadas” não incluíam nenhum centro urbano. As vilas admi-nistrativas e comerciais mais ameaçadas pela guerrilha foram nalguns casos abandonadas pela administração, para se tornar bases do exército colonial. Foi à volta destas bases e em locais menos expostos às incursões das forças da Frelimo, que o poder colonial reuniu uma grande parte da população, em aldeamentos («aldeias estratégicas»)84. Isto não significa, no entanto,
83 Niassa é a província menos povoada de Moçambique, seguida por Tete. E, das restantes províncias, só Manica é ligeiramente menos povoada do que Cabo Delgado (ver no Anexo II o mapa da densidade populacional).
84 Existiam em 1973, segundo números apresentados por Henriksen, meio milhão de pessoas assentadas em aldeamentos. Henriksen, 1983: 155.
que o resto da população estivesse sob o controlo da Frelimo. Uma parte da população rural das províncias em guerra continuou a viver nas suas terras, sob o controlo da administração portuguesa, ao mesmo tempo que dezenas de milhares de pessoas deixaram Moçambique para procurar refúgio nos países vizinhos, fugindo à guerra. Só nos primeiros dias após a resposta colonial ao primeiro ataque da Frelimo em Cabo Delgado, a Tanzânia recebeu cerca de quinze mil refugiados85. Ao longo da guerra, a fome e os bombardeamentos nas “zonas libertadas”, quando não eram os conflitos internos de natureza política, também provocavam a saída de populações, às vezes grupos inteiros com seus líderes, quer para se entregarem aos Portugueses, quer para se refugiarem na Tanzânia, no Malawi, ou na Zâmbia.
Apesar de todas estas movimentações, uma parte da população permaneceu ao lado da Frelimo, nas “zonas libertadas”, um território livre da autoridade do Estado colonial que a Frelimo assumiu a responsabilidade de administrar. Após o 2º Congresso, a administração das
“zonas libertadas” foi entregue ao exército de guerrilha: o Departamento de Organização do Interior foi abolido e no seu lugar foi estabelecida uma organização político-militar integrada.
É deste período que data a instituição do “poder popular”, segundo a expressão da Frelimo.
Este poder foi organizado numa estrutura piramidal com cinco níveis: círculo, localidade, distrito, província e nação. A população de cada círculo escolhia os seus representantes para formar os comités de círculo. Em seguida, para a formação dos comités dos escalões mais altos eram os membros dos comités imediatamente inferiores que escolhiam entre si os represen-tantes. Mas, a partir do nível do distrito, a direcção dos respectivos comités (de distrito e pro-víncia) era assegurada por quadros militares nomeados pela direcção da Frelimo. A liderança nacional do movimento (o comité central) tinha sido eleita pelo congresso.
Através da reorganização das «zonas libertadas» e nomeadamente da implantação da nova estrutura de poder, ignorando oficialmente o poder e a organização social linhageira, a lide-rança da Frelimo estabelecia na prática os mecanismos para integrar as sociedades rurais no seu projecto nacionalista e revolucionário. As «zonas libertadas» tornaram-se assim uma prefi-guração do futuro Estado independente. Multiplicaram-se, então, as escolas onde eram ensi-nadas às crianças, entre outras matérias, a leitura, a geografia e a história de Moçambique (em português), os centros de saúde onde eram tratados os militares, mas também a população, as campanhas de vacinação, as lojas da Frelimo, onde se fazia a troca dos produtos camponeses por de bens de consumo vindos dos países vizinhos, as machambas colectivas e até mesmo algumas cooperativas embrionárias.
O discurso da Frelimo passou a apontar a transformação em curso nas «zonas libertadas»
como testemunho do engajamento das «massas camponesas» na revolução. O grupo dirigente via uma adesão à revolução que estava a promover lá onde havia apenas, por causa da guerra, uma aceitação circunstancial de mudança na organização social e produtiva, na realidade até 85 Declarações de Samora Machel. Tempo, 201, 28/7/1974.
mais aparente do que real. Além disso, o facto de os camponeses de Cabo Delgado, confron-tados com os abusos de Nkavandame, terem respondido positivamente ao slogan: “Abaixo a exploração do homem pelo homem” e de gritarem todos “Viva a revolução moçambicana” e muitos outros slogans “anti tribalistas, anti-regionalistas, anti-racistas” reforçaram ainda mais o sentimento dos líderes sobre as disposições revolucionárias dos camponeses. Ao mesmo tempo, o seu envolvimento no exército, ou simplesmente a sua participação no transporte de armas e munições, ou a produção de alimentos para os combatentes, eram outros tantos sinais interpretados pelos líderes como a expressão da sua vontade de fazer a revolução. Mas, de facto, como já foi apontado, as motivações dos camponeses que participaram da “luta armada pela libertação nacional” eram simplesmente motivações anticoloniais e anti estatais e não visavam necessariamente transformar a sua organização social.
As “zonas libertadas” e o exército, onde pessoas de todas as regiões do país se engajavam na mesma luta, lugar de confraternização entre os intelectuais urbanos do sul e “o povo”, tornaram-se assim o espaço político no qual se fundou a legitimidade do grupo dirigente, uma legitimidade cuja verdadeira natureza (anticolonial) fica ocultada pelo facto de o discurso político dos líderes ser a única fonte de expressão do significado da luta.
As “zonas libertadas”, como aparecem no discurso que sobrevaloriza transformações so-ciais apenas esboçadas nas circunstâncias particulares da guerra, não são mais do que o imagi-nário dos intelectuais projectado sobre uma realidade que eles não eram capazes de entender de forma diferente.
Independentemente do discurso oficial, a realidade das “zonas libertadas” era bem dife-rente. Em termos de produção, por exemplo, as tão celebradas formas colectivas de produção eram apenas campos onde toda a população de um círculo trabalhava rotativamente – quem se recusasse era acusado de ser um inimigo! – para produzir alimentos para os guerrilheiros e, ao mesmo tempo, constituir reservas que seriam usadas em caso de necessidade (geralmente provocada pela destruição das culturas familiares durante os ataques do exército colonial). A agricultura familiar continuava a ser a principal forma de produção, mas esse aspecto é sempre ignorado no discurso oficial, que insiste na «produção colectiva» e nas «transformações» que teriam ocorrido nas «zonas libertadas».
A fragilidade das «transformações» ocorridas nessas zonas, supostas representar o modelo da futura nação independente, revelou-se imediatamente após o fim da guerra, quando os camponeses começaram a fazer pressão para regressar às suas antigas terras e a tentar resta-belecer o seu antigo modo de organização social. Tal foi o caso, por exemplo, no distrito de Mueda (Cabo Delgado), lugar simbólico por excelência da Frelimo, onde um braço de ferro se estabeleceu entre os camponeses e o poder, com o registo de incidentes violentos. Logo após a independência, os responsáveis da Frelimo decidiram que os habitantes de cada localidade da época da luta armada deveriam se reagrupar numa única «aldeia comunal». Esta decisão foi mal recebida pela população cuja organização linhageira tinha sido mantida durante a
luta armada ao nível do círculo e que queria que essa fosse a referência para a constituição das «aldeias comunais». O conflito também se manifestou noutro aspecto, a propósito da nomeação pela administração distrital dos novos líderes das aldeias, jovens escolhidos entre os que sabiam ler e escrever em português (isto é, aqueles que se podiam adaptar para servir – mas também para beneficiar de – uma burocracia de Estado moderno) em detrimento dos
«velhos», ou seja, dos chefes tradicionais legítimos. Nalguns casos, grupos linhageiros inteiros abandonaram a «aldeia comunal» imposta pela nova administração para construir outra nas suas terras, provocando acções de repressão da parte das autoridades. Estas chegaram ao ponto de queimar algumas dessas aldeias «dissidentes», forçando os habitantes a retornar às «aldeias comunais» inicialmente estabelecidas86.
86 Este fenómeno de “desagregação” das “aldeias comunais” em Mueda e as práticas repressivas do Estado da Frelimo estão bem documentados num relatório de pesquisa do Centro de Estudos Africanos. Ver CEA / Oficina de História, 1986. A “desagregação” nada mais é do que uma manifestação extrema do conflito que colocava as populações rurais contra a política de aldeamento conduzida pelo Estado, uma tentativa dos camponeses de manterem a sua organização linhageira, que o novo poder queria destruir a todo custo.
Segundo o discurso oficial, a organização “tradicional-feudal” teria sido repudiada pelos camponeses e assim deixado de existir desde o tempo da luta armada!