Durante os primeiros anos da sua existência, a Frelimo tinha características que a apro-ximavam muito do modelo seguido pelos movimentos políticos que a tinham precedido.
Assim, a sua organização no terreno era baseada numa rede de comités e branches implan-tados nas áreas de alta concentração de emigrantes moçambicanos. Essas organizações de base foram especialmente numerosas nas regiões do sul da Tanzânia e do Malawi e foram formadas a partir da mobilização de alguns activistas que distribuíam folhetos de propaganda da Frelimo e vendiam cartões de membro. Essa actividade foi também conduzida clandestina-mente, como, aliás, tinha sido anteriormente o caso com a MANU e a UNAMI, no interior de Moçambique, nas regiões próximas das fronteiras onde havia um movimento migratório intenso.
Nos primeiros anos, a acção política da Frelimo nos círculos de emigrantes e marginal-mente dentro do país é muito semelhante à dos movimentos independentistas da Tanzânia e do Malawi nas áreas rurais. Isso manifesta-se nos termos usados para designar as organizações de base, designadas de branches e dirigidas por chairmen, uma cópia exacta dos movimentos desses países; além disso, o uso generalizado da língua inglesa nos documentos internos da Frelimo (relatórios, cartas, etc.) também atesta essa influência. Mas também do ponto de vista social a Frelimo estava então próxima dos movimentos independentistas desses países:
a direcção da rede de base nas áreas rurais da região central e norte do país estava nas mãos de indivíduos pertencentes a uma camada embrionária de pequenos comerciantes rurais e camionistas, assim como de alguns pequenos funcionários do aparelho do Estado colonial, maioritariamente intérpretes e outros auxiliares da administração.
A influência deste grupo dentro da Frelimo foi rapidamente neutralizada pela decisão da direcção, onde estavam sub-representados, de concentrar todos os esforços na luta armada e de intensificar as actividades no interior do território moçambicano. Houve, no entanto, uma excepção no processo de neutralização desses elementos: o planalto de Mueda (Cabo Delgado). Nesta região do interior onde o trabalho político mais se fazia sentir devido à acção de politização dos primeiros activistas da Frelimo, a rede política desenvolvida nos primeiros anos pôde manter a sua autonomia em relação aos militares, o que foi facilitado pelo facto de Lázaro Nkavandame ter sido designado Secretário Provincial quando se juntou à Frelimo em 196358.
Se a Frelimo foi a herdeira do movimento político predominantemente emigrante e rural que se exprimia através da MANU, da UDENAMO ou da UNAMI, também foi desde o início um movimento politicamente mais orientado para a acção no interior de Moçambique e, socialmente, mais influenciado pelos urbanos do sul. Ora, isto é de suma importância na evolução da Frelimo e do seu projecto político.
Ao contrário dos outros movimentos, cuja base social era quase exclusivamente consti-tuída por emigrantes de origem rural (camponeses, pequenos comerciantes e assalariados), a Frelimo contava nas suas fileiras com um grande número de militantes vindos directamente do interior de Moçambique para se juntar a ela, especialmente jovens. Dentre esses militantes do interior, embora a maioria fosse originária das sociedades rurais do norte, houve também – e isso é fundamental – um bom número de urbanos provenientes da camada dos Assimilados do sul. Ao mesmo tempo, a Frelimo pôde contar também com a participação de um pequeno número de jovens intelectuais que tinham ido para a Europa, ou para a América, fazer os seus estudos superiores, entre os quais não apenas havia jovens de origem assimilada, mas também alguns Mestiços e Brancos, também principalmente oriundos da região sul de Moçambique.
58 A organização política de Cabo Delgado, com seus chairmen, só foi desmantelada após a deserção de Nka-vandame, que se entregou às autoridades portuguesas em 1969.
Independentemente da sua origem regional ou social, os militantes do interior estavam menos influenciados do que os emigrantes pelos métodos de luta usados pelas formações políticas dos países vizinhos. Além disso, sabiam bem que a repressão do Estado colonial não deixaria campo para um movimento legal e pacífico. Os que vinham das cidades, espe-cialmente de Maputo, tinham vivido, por exemplo, a onda de detenções que afectou o meio intelectual nacionalista e os Assimilados nos finais de 1961, a violenta repressão policial da greve dos trabalhadores do porto de Maputo, em 1963, e muitos outros episódios que de-monstravam a disposição repressiva do regime português. Outros, vindos das áreas rurais de Cabo Delgado, sabiam do uso do exército para reprimir as reivindicações camponesas em Mueda em Junho de 1960 e conheciam também a acção das autoridades portuguesas contra as iniciativas de organização camponesa autónomas nesta região. Portanto, estavam todos muito motivados para se engajar no combate anticolonial que lhes era proposto pela liderança da Frelimo e eram mais sensíveis do que a maioria dos emigrantes ao apelo para a luta armada contido no seu programa. No entanto, houve também alguns emigrantes “radicalizados”, que tinham pertencido às outras organizações, e que as deixaram definitivamente para se juntarem à Frelimo para participarem na luta armada preconizada por esta última; houve ainda outros que, ficando à margem da luta, participavam através de contribuições financeiras59.
Uma das particularidades da Frelimo em relação às outras organizações, que enfrentavam dificuldades de se reconstituir depois de os seus líderes deixarem a Frelimo, é que a sua força se baseava não só no engajamento de um grande número de militantes vindos do interior, mas também no facto de reunir intelectuais e outros urbanos, sem ligações com o campo, e camponeses oriundos das sociedades rurais do norte. Foi isso que lhe permitiu considerar de forma realista a possibilidade de continuar a luta anticolonial no interior do país pela via da luta armada, servindo os militantes oriundos das sociedades rurais de elementos de ligação para a mobilização das populações rurais do norte. Por outro lado, essa frente social ampla, onde urbanos e rurais, intelectuais, pequenos assalariados e camponeses viviam lado a lado, confirmava o ideal nacionalista do grupo dominante em formação. Este, formado essencialmente por intelectuais e urbanos do sul, foi-se constituindo gradualmente ao redor do presidente Mondlane. Embora representassem apenas uma pequena fracção da sociedade colonial, eles eram, pela sua escolaridade, os detentores do conhecimento moderno e das habilidades necessárias para a organização efectiva do aparelho político. Eram, também, pela sua posição social particular, os portadores da ideia nacional. De facto, os termos do discurso fundador da Frelimo apelavam à união de todos os moçambicanos sem distinção “de origem étnica, condição de fortuna, confissão religiosa ou filosófica e sexual”60. É evidente que a luta
59 Borges Coelho, 1984.
60 Declaração Geral do Primeiro Congresso da Frelimo, Dossier FRELIMO 1: 11-16.
liderada pela Frelimo era fundamentalmente anticolonial no seu conteúdo, mas afirmava-se nacional no seu discurso: graças às alianças formadas dentro da Frelimo entre os diferentes grupos sociais que aí se encontram representados, as reivindicações nacionalistas das camadas urbanas aparecem como sendo as reivindicações de todos os Moçambicanos.
A orientação política “nacionalista” da Frelimo foi acompanhada pela decisão, consagra-da no programa adoptado no seu primeiro congresso, de usar “todos os meios” para obter a independência do país. Por trás desta formulação estava a intenção de recorrer à “luta arma-da”. Isso não foi expresso de maneira directa e clara para não alienar alguns dos potenciais aderentes. De facto, deve-se ressaltar que a orientação preconizada pela CONCP era a de
“acção directa», isto é, da «luta armada» no quadro de uma ampla frente política e social e que o principal redactor do programa e dos estatutos da Frelimo foi Marcelino dos Santos, na altura Secretário-geral da CONCP. Ao mesmo tempo, outras duas organizações perten-centes à CONCP já haviam iniciado a «luta armada»: o MPLA em Angola e o PAIGC na Guiné-Bissau.
O facto de insistir na acção militar não significa que outras formas de luta fossem, por princípio, excluídas, mas é óbvio que a Frelimo não mostrou grande iniciativa nesse sentido.
Basta dizer que o único episódio de luta não armada por ela reivindicado teria sido uma série de greves organizadas em 1963 por militantes clandestinos nos portos de Maputo, Beira e Nacala61. Na realidade, há evidências de que se tratava da recuperação de um movimento completamente autónomo. Primeiro, embora seja verdade trabalhadores do porto de Maputo fizeram greve durante alguns dias em Junho de 1963, antes de serem duramente reprimidos pelas autoridades coloniais, a extensão desse movimento para os outros dois portos não ocor-reu62. Por outro lado, naquela altura, não havia uma rede organizada da Frelimo em Maputo, embora houvesse um certo número de simpatizantes. Finalmente, um desses apoiantes, pro-fissionalmente próximo do meio portuário, que fez parte da primeira rede de Frelimo no sul do país, contradiz formalmente qualquer ligação entre essa greve e supostos organizadores pertencentes à Frelimo63.
Samora Machel justificará mais tarde a escolha das áreas rurais para o desenvolvimento da luta armada, apontando várias razões. Segundo ele, o acesso das forças da Frelimo às zonas rurais, onde vivia a maioria da população moçambicana, era mais fácil e isso não só permitia libertar parte do território e das suas populações do controlo do inimigo, mas também recru-tar novos militantes e assim aumenrecru-tar o número de guerrilheiros. Por outro lado, nas áreas
61!
"#$%&'$()!*+,,-62 Isto é confirmado por Alexandrino José numa pesquisa sobre a greve de 1963 no Porto de Maputo, que não conseguiu encontrar nenhum traço de greves na Beira e em Nacala durante o mesmo período. Ver JOSÉ, 1987.
63 Entrevista de Amaral Matos por Teresa Cruz e Silva (5/4/86).
urbanas a presença colonial era mais forte, o controlo mais eficiente e o acesso mais difícil, o que teria exigido, para se realizar acções de guerrilha urbana, um “trabalho lento e custoso», que apesar da sua «natureza espectacular» se podia mostrar «desastroso» para o movimento64. Na verdade, Machel coloca a questão apenas em termos militares, ignorando outros meios de acção política, incluindo a organização de um movimento clandestino n o seio das camadas sociais urbanas. E, de facto, antes do golpe de 25 de Abril de 1974 em Portugal, as cidades nunca constituíram para a Frelimo uma base privilegiada de luta política.