1.5 Bioética
1.5.1 Aspecto Histórico e Conceitual
A tragédia humana que envolveu os estudos éticos clássicos da Grécia Antiga remonta o seu palco de grave violação da dignidade humana com a II Guerra Mundial, haja vista o terror que se alastrou de âmbito global, emanando reflexos em todas as relações humanas, sejam elas, interpessoais, econômicas, sociais, culturais, políticas, tecnológicas, científicas e muitas outras.
O Pós II Grande Guerra trouxe consigo grandes questões-problemas que até então o mundo, ou mais precisamente, a Ciência, desconhecia, posto que o avanço tecnológico proporcionasse as maiores atrocidades praticado pelo “bicho-homem”
Mesmo que para o mundo científico tal avanço significou uma melhora nas condições de vida e, por que não dizer, no processo morte, para uma grande parcela da população mundial este também trouxe retrocessos; retratando um distanciamento nas relações humanas de ordem valorativa, cultural, social e meio ambiente. Ademais o cerne da questão é “até onde a Ciência pode avançar?”.
Mas a própria Ciência também tenta sanar tais retrocessos; neste contexto surge o embrião da Bioética como tentativa de reaproximação da avançada tecnologia nas áreas biológicas (incluindo o Meio Ambiente), uma vez que sua aplicação envolve diretamente os seres humanos.
A terminologia Bioética foi utilizada pela primeira vez em 1970 pelo Doutor em Bioquímica e pesquisador na área de Oncologia da Universidade de Wisconsin/EUA,
o professor Van Rensselaer Potter. Na visão de Potter, a bioética, em 1970, era baseado na Ética da Terra do Prof. Aldo Leopold, levando-se em consideração seus questionamentos referentes às questões ambientais e a saúde.
Com o livro “Bioethics: bridge to the future” no prelo, sendo publicado em janeiro de 1971, Potter adaptou uma parte do capítulo I deste escrevendo o artigo “Bioethics, the science of survival”, tratando do assunto da seguinte maneira:
Nós temos uma grande necessidade de uma ética da terra, uma ética para a vida selvagem, uma ética de populações, uma ética do consumo, uma ética urbana, uma ética internacional, uma ética geriátrica e assim por diante... Todas elas envolvem a bioética, (...)
Esta nova ética pode ser chamada de ética interdisciplinar, definindo interdisciplinaridade de uma maneira especial para incluir tanto a ciência como as humanidades, mas este termo é rejeitado pois não é auto-evidente. (apud GOLDIM, on line, acessado em Nov. 2010).
Esta primeira idéia de bioética, trazida por Potter, tem como fundamento principal o elo entre os campos da saúde, da sociedade, da ecologia, do mercado, da economia, ou seja, atribui um caráter interdisciplinar denominado pelo próprio criador como Bioética Ponte.
Contudo, esta idéia não agradou a todos como bem disse Warren Leich e Leroy Walters do Instituto Kennedy de Ética da Universidade Georgetown/Washington, DC, os quais limitaram o uso da Bioética para a área das Ciências da Saúde.
A conceituação de Reich lecionava que “Bioética é o estudo sistemático da conduta humana na área das ciências da vida e a atenção à saúde, enquanto que esta conduta é examinada a luz dos princípios e valores morais” (apud GOLDIM, on line, acessado em Nov. 2010)
Já David J. Roy diretor do Centro de Bioética da Universidade de Montreal/Canadá, conceituou bioética como:
Estudo interdisciplinar do conjunto das condições exigidas para uma administração responsável da vida humana, ou da pessoa humana, tendo em vista os progressos rápidos e complexos do saber e das tecnologias biomédicas. (apud KIPPER, et al, 1998, p. 78)
Citado doutrinador foi pioneiro ao tratar da bioética levando-se em consideração os avanços da ciência e da tecnologia na área das ciências da saúde.
Contudo, tal o conceito e a fase da Bioética Ponte ficou ultrapassada quando o próprio Potter resolveu por bem conceitua-la novamente, retomando o contexto de interdisciplinaridade entre os conceito de vida, saúde e ecologia, só que agora com um aspecto global, surgindo assim a Bioética Global.
Nas palavras do próprio criador:
Bioética é a combinação da biologia com conhecimentos humanísticos diversos constituindo uma ciência que estabelece um sistema de prioridades médicas e ambientais para a sobrevivência aceitável (apud GOLDIM, on line, acessado em Nov. 2010)
Como estamos já na década de 80, mais precisamente no ano de 1988, Potter recebera criticas a despeito de sua nova conceituação, vindo de Alastair V. Campbel e Slly Benatar que interpretaram o termo global não como abrangente e multidisciplinar conforme a ideia inicial do pioneiro professor, mas como parte de um processo de globalização de cunho econômico-financeiro-social mundial.
Então em 1998, Potter propõe um novo conceito denominado Bioética Profunda assim definido “Bioética como nova ciência ética que combina humildade, responsabilidade e uma competência interdisciplinar, intercultural e que potencializa o senso de humanidade”.
O primeiro a se utilizar deste conceito foi o Peter J. Whitehouse aplicando à bioética o conceito de Ecologia Profunda de Ame Naess de 1973, tal idéia surgiu como forma de obstar a visão dominante frente a utilização dos recursos naturais, este conceito (de ecologia profunda) surgiu da idéia da Ética da Terra, que fizera parte do primeiro conceito de bioética anteriormente citado. (apud GOLDIM, on line, acessado em Nov. 2010).
O conceito hoje aceito pela ciência para a Bioética remonta os primeiros passos, contudo de forma mais ampla, abrangendo características multi-inter- transdisciplinar, inclusive pluralista. Tal conceito foi utilizado em 2001, pelo Programa Regional de Bioética vinculado à Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS):
Bioética é o uso criativo do diálogo para formular, articular e, na medida do possível, resolver os dilemas que são propostos pela investigação e pela intervenção sobre a vida, a saúde e o meio ambiente. (apud GOLDIM, on line, acessado em Nov. 2010)
De forma geral, a bioética completa a ética prática - que tem como ocupação o agir correto e o fazer o bem, em oposição a ética teórica, que se ocupa de conhecer, definir e explicitar - e ainda abrange os problemas relacionados com a vida e a saúde, configurando-se com uma ética aplicada.
Demonstrado a evolução do conceito, sem alcançar uma definição concreta, posto que isso significaria limitar o seu alcance, sua abrangência científica, cumpre agora tratar dos princípios que regem essa Ciência para que se possa trabalhar os conceitos específicos do tema central proposto por este trabalho, qual seja, a supressão da autonomia da vontade do doador de órgãos post mortem frente a legislação vigente no país.