Os tipos de Aspecto Verbal foram aqui definidos a p artir de alg um as classificações de TRAVAGLIA (1985), que julguei terem in flu ên cia sobre a om issão de com plem entos v erb ais. O a u to r categoriza os aspectos verbais segundo dois critérios: duração e “fa se s” (que inclui fases de desenvolvim ento e com pletam ento).
Parti d a hipótese de que os aspectos durativos Habitual e Indeterm inado - que, de acordo com Travaglia, têm D uração Ilimi ta d a - condicionam a om issão de com plem entos verbais. Um a d u ração é Ilim itada quando se u s limites não são conhecidos nem s u geridos.
O que distingue o H abitual do Indeterm inado é u m outro t r a ço: o de C ontinuidade da duração. Uma d uração é C ontínua q uando in in terru p ta; e D escontínua quando sofre in terru p çõ es em seu tem -
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po de ocorrência. Com b ase nisso, o a u to r descreve o Indeterm inado como C ontínuo, e o H abitual como D escontínuo. Exemplo de om is são em contexto de aspecto Indeterm inado:
(35) ueles fa la m pelo povo...” (D2-39 MIII)
O exemplo acim a não a p re se n ta situação infinita, e sim , sem limites conhecidos ou perceptíveis. Travaglia caracteriza ta is s itu ações como onitem porais, por serem tra ta d a s como “universaliza d a s” ou seja, elas valem p a ra q u alq u er tem po, m esm o que não estejam ocorrendo no m om ento preciso d a enunciação. E ste asp e c to verb al tem ligação e s tre ita com o tra ç o de g e n e ralid ad e: o Indeterm inado é sem pre de c a rá te r genérico. Como frisaram DU BOIS e THOMPSON (1991), predicações generalizantes e aspecto “h ab itu al” estão intim am ente relacionados (suponho que “h a b itu al” neste sentido, in clu a tam bém o Indeterm inado).
C onstituem exem plos de om issões num contexto de aspecto Habitual:
(36) -planta por dois ou três anos” (EF-53 HII)
(37) Uque é que acontece? n ó s p r o d u z im o s ... o nosso produto sai... para os grandes centros...” (DID-37 HII)
É preciso salien tar que, n e s ta s ocorrências, existe a m esm a onitem poralidade p re se n te n o s caso s de aspecto Indeterm inado, especialm ente quando o verbo está no presente do indicativo. A única diferença é que, nos exem plos logo acim a, sugere-se algum limite p ara cada duração em foco, como em (36). Isto d em o n stra que é estreito o liam e que se p a ra os dois aspectos.
Q uanto ao segundo critério, o de “fases” pelo qual Travaglia classifico u os tip o s de a sp e c to , su b d iv id e -se em tr ê s n o çõ e s aspectuais: 1. F ases de Realização; 2. F ases de Desenvolvimento; 3. C om pletam ento.
Alguns dos asp ecto s p o stu lad o s pelo a u to r, en tre ta n to , se interseccionam , o que dificultou, em parte, e sta análise, j á que
levam ao risco de enviesam ento. Na tentativa de evitar a su p erp o sição de fatores, considerei, segundo a s fases de desenvolvim ento, ap en as o aspecto Inceptivo, rep resen tan d o o início d a situação; e o Cursivo, indicando o meio. Não identifiquei, todavia, n e n h u m a o m issã o de c o m p le m e n to s v e rb a is em s itu a ç õ e s de a s p e c to Inceptivo, por isso fui obrigada a excluí-lo d a análise. Exemplo de om issão em situações Cursivas:
(38) “então os menino aprendiam” (D2-45 HII)
No uso acima, a situação é a p resen tad a como não estando nem no início nem no fim, m as em pleno desenvolvimento. É possí vel n o ta r que a form a de im perfeito do indicativo (e tam bém de gerúndio) contribui fortem ente p a ra a ssin a la r a noção de cursivi- dade, em bora não im plique sem pre o aspecto Cursivo, de vez que pode tam bém indicar o u tra s noções aspectuais. E ste foi, de resto, o principal motivo pelo qual reform ulei a hipótese de BRITO (1986) sobre o condicionam ento de um tem p o verbal que expresse hábito, repetição. A om issão é condicionada pelo aspecto, não pelo tempo gram atical, em bora este co n trib u a p a ra a m arcação daquele.
Em vez de considerar o ponto term inal d a situação, que me pareceu não ter im portância p a ra a análise, selecionei, dentro da noção de com pletude, o aspecto Perfectivo, que a p re se n ta a situ a ção como completa. O Imperfectivo, que m o stra a situ ação em u m a de su a s fases de desenvolvimento, foi elim inado por se su p erp o r a outros aspectos já contem plados n e sta pesquisa.
Os term o s perfectivo/im perfectivo, c o n so a n te HOPPER e THOMPSON (1980), são norm alm ente u sad o s de modo b a sta n te impreciso. A perfectividade é u m a propriedade que só emerge do discurso, por isso os a u to re s preferem o p e ra r com a noção de “felicidade” que pode ser avaliada pela sim ples análise do predicado. Uma ação télica é aquela vista de seu ponto final, e é m ais efetiva m ente tra n sfe rid a do que u m a atélica. Por e sse p rism a, o que estam os concebendo como perfectividade está m uito próximo d a idéia de felicidade.
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Exemplo de om issão em situ ação Perfectiva: (39) uentão ela d e ix o u muita coisa” (DID-32 MII)
A situação, em (39), é vista como com pleta, em seu todo, daí ser classificada como perfectiva (télica). O pretérito perfeito é, em parte, responsável por e ssa idéia.
Não parece ser decisiva, porém , a influência do Perfectivo no fenômeno d a om issão, u m a vez que o enunciado acim a poderia p er feitam ente om itir o com plem ento se estivesse em o u tra situação aspectual. Isto se confirm a pelos dados probabilísticos dispostos n a Tabela 7:
Tabela 7: Form as de m anifestação e Aspecto Verbal
Aspecto SN pleno Pronome Omissão
Perfectivo .316 .391 .293
Indeterm inado • U t I344- .4 0 8 .249
Habitual .315 .330 .355
Cursivo .336 .219 .445
A tabela d em o n stra u m a m aior probabilidade de o aspecto Indeterm inado d eterm in ar a form a pronom inal, o que refuta u m a das hipóteses deste trabalho. É tam bém m ais alta a probabilidade de o Perfectivo condicionar os pronom es, em bora o índice esteja m uito próximo do de SNs plenos. Isto significa que o Perfectivo m a nifesta preferencialm ente a s form as realizadas.
Creio que este resu ltad o se explica, de algum modo, pela fre qüente com unhão dos aspectos Perfectivo e Pontual, intim am ente relacionados com o g rau de Afetam ento do Objeto Direto e, conse qüentem ente, com o g rau de transitividade da oração. O aspecto é Pontual q uando a ação do verbo não ap re se n ta n e n h u m a fase de tran sição en tre início e fim. As ações pontuais, segundo H opper e Thom pson, têm m ais efeito sobre se u s pacientes do que as não- p ontuais, ou durativas. Um a oração m ais transitiva, convém reite rar, favorece a realização do Objeto, que é m ais Afetado.
Os índices probabilísticos confirmam a hipótese de condicio nam ento do aspecto H abitual, m as, su rpreendentem ente, apontam o Cursivo como o fator m ais determ inante d a om issão. O Cursivo - saliente-se - p artilh a do traço de duração, ou de não-pontualidade, p resen tes n a s ações h ab itu ais.
Suspeito, até, que o condicionam ento do aspecto H abitual seja m ais significante do que expressam os resultados, e acredito que isto se deva à im precisão dos critérios distintivos dos aspectos ver bais.
TRAVAGLIA (1985:104) d en u n cia a enorm e sem elhança en tre H abitual e Iterativo, por u m lado; e Indeterm inado e Habitual, por outro, a ponto de, m u ita s vezes, se confundirem . De fato, nem sem pre é possível classificar, com ab so lu ta segurança, u m a situ a ção como H abitual, In d eterm in ad a, ou até m esm o Iterativa, ou Cursiva. A tente-se paira os exemplos abaixo:
(40) “então depois aí tem um as MÚsicas que EU não conheço... quer dizer é aquela é a tal história v o c ê s a b e... m a s n u m L E M bra” (D2-39
MIII)
(41) ue mando para o P. o P. eu sei que e le lê porque ele me dá notícias ”
(D2-39 MIII)
Em (40), o fato de haver d u ração co n tín u a em sabe e lembra autoriza a classificação do aspecto como Indeterm inado. E n tre ta n to pergunto se a sim ples pressuposição de u m adjunto adverbial fre q ü e n ta tivo não p e rm itiria tom á-lo como H ab itu al, ou como Iterativo, por exemplo: [É a tal história, às vezes, você sabe, m as não lembra]. O elem ento m arcad o r de d escontinu idade tem que necessariam ente e sta r p resen te no enunciado p a ra que a situação seja assim caracterizada?
Há situações, como em (41), em que o próprio verbo expressa a descontinuidade d a duração, e, n esses casos, não re sta dúvida de que o aspecto é H abitual. Mesmo assim , a pressuposição de um elem ento como “à s vezes” leva a p en sa r n a possibilidade de u m a d u ração d e sc o n tín u a lim itada, e, assim sendo, h av eria asp ecto Iterativo. Razões como essas me conduziram a re u n ir H abitual e
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Iterativo n u m m esm o aspecto verbal, d esconsiderando a distinção lim itado/ilim itado do c a rá te r descontínuo.
Além d esses casos limítrofes, p erm an ece a in d a o problem a d a su p erp o sição de noções a sp e c tu a is. Em (40), por exem plo, se se to m ar a situ a ç ã o como H abitual, j á que ela pode s e r v ista como repetitiva, a in d a assim , penso se r possível classificá-la tam b ém como C ursiva, pois se tr a ta de u m estad o em pleno desenvolvi m ento.
P elas ra z õ e s a q u i e x p o s ta s , su g iro q u e se fa ç a u m a a b s tra ç ã o d a s c a te g o ria s a s p e c tu a is , d a d a s a s in e v itá v e is c ila d a s c la s s ific a tó ria s , e se in v e stig u e m os tra ç o s a s p e c tu a is q u e , de fato, d e te rm in a m a o m issão . Por ora, a d ia n to a p e n a s qu e a m b a s a s n o çõ es tê m em co m u m o c rité rio d a d u ra ç ã o e d a im perfec- tiv id ad e, ou , d izen d o de m odo m a is p re c iso , d a não-pontualida- de e d a n ão-”telicidade"
Tam bém não posso afirm ar, no m om ento, se o aspecto verbal influencia a om issão de ou tro s com plem entos verbais, que não a p e n as a do Objeto Direto.