L ín g u a e L ite r a tu r a , n° 23, p. 171-215, 1997.
A OMISSÃO DE COMPLEMENTOS VERBAIS
Mônica Magalhães Cavalcante*
RESSUMO: O propósito deste trabalho é apontar um conjunto de variáveis pragmáticas, sem ânticas e sintáticas que determ inam a om issão - um a form a de não-realização dos complementos verbais recuperáveis não- anaforicamente. A partir de um a análise de 1669 ocorrências de comple mentos verbais, extraídos de dezenove inquéritos do projeto PORCUFORT (Português Oral Culto de Fortaleza), cheguei à conclusão de que as vari áveis pragmáticas E stado de Ativação e Identijicabilidade são as que mais condicionam este fenôm eno lingüístico, por serem as que refletem mais diretamente a intencionalidade do falante. E sses fatores interagem com vários condicionadores de natureza semântico-sintática, especial mente os que se prendem às relações entre predicados, Junções sem ân ticas efunções sintáticas. O trabalho acrescenta, ainda, a essa s respos tas, um a série de reflexões sobre a transitividade de orações com om is são e sobre os critérios para a distinção entre complementos obrigatórios e complementos facultativos.
P a la v ra s -c h a v e : omissão, complementos verbais, facultatividade.
INTRODUÇÃO
D uas são as form as de não-m anifestação dos com plem entos verbais no discurso: o zero anafórico e a om issão. Neste artigo, in vestigo a hipótese geral de que a om issão - que se distingue do zero anafórico por não a p re s e n ta r o traço de correferencialidade - é con dicionada por fatores pragm áticos, sem ânticos e sintáticos.
(*) P r o fe s s o r a d o D e p a r t a m e n t o d e L e tr a s V e r n á c u la s , U n iv e r s id a d e F e d e r a l do C eará.
De acordo com BRITO (1986), três variáveis determ inam a om issão de um com plem ento verbal:
1) a p resen ça de u m ad ju n to adverbial no enunciado;
2) o uso de u m tem po verbal, como o p resen te ou o pretérito imperfeito do indicativo, que denote hábito, repetição; 3) a existência, n a frase, de algum a inform ação que perm ita
recu p erar o conteúdo do com plem ento omitido.
Tais critérios revelam -se, no en tan to , in su ficien tes p a ra o tratam en to deste complexo fenômeno lingüístico, não som ente por que deixam de lado o nível de análise que sup o n h o m ais im portante p a ra o estudo - o pragm ático j á que se tra ta de um fenômeno em inentem ente discursivo, como tam bém porque desconsideram relações sem ânticas cruciais p a ra a investigação de q u alq u er fato sintático, como as de transitividade e a s de predicado-argum ento.
Neste artigo, tomo por objetivo, exatam ente, indicar, com a evidência de cálculos p ercen tu ais e probabilísticos, que fatores, são d eterm inantes da om issão. P ara tan to , oito variáveis foram cru za d as com três form as de m anifestação dos com plem entos verbais: sintagm as nom inais plenos, pronom es e om issões, a fim de avaliar o peso de influência de cada um dos fatores n a om issibilidade. A p a rtir daí, são discutidos os critérios que com um ente orientam a classificação de com plem entos como obrigatórios ou facultativos.
Os dados analisados n a p esq u isa constam de 1669 ocorrênci as de com plemento verbal, extraídas de dezenove inquéritos do Pro jeto PORCUFORT (Português Oral Culto de Fortaleza), o qual segue
as norm as estabelecidas pelo Projeto NURC/BR. Após codificados, os dados foram subm etidos a cálculos de freqüência e de probabili dade, processados pelo pacote de program as VARNEWS (cf. SCHERRE,
1993; ver tam bém PINTZUK, 1988), que, em bora te n h a sido ideali zado p ara p esquisas variacionistas, m ostrou-se perfeitam ente ad e quado ao tratam en to estatístico necessário a esta investigação.
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A DETERMINAÇÃO PRAGMÁTICA
A verificação do condicionam ento pragm ático p a u to u -se em quatro dim ensões do fluxo inform acional, d esc rita s por DU BOIS e THOMPSON (1991) como categorias que se m anifestam através de certos traç o s g ra m aticais en co n tráv eis n o s sin ta g m a s n o m in ais d as línguas: Identificabilidade, Meios de Identificabilidade, E stado de Ativação e Referencialidade do D iscurso.
D u ran te a conversação, defendem os au to res, falantes e o u vintes negociam p erm an en tem en te v ária s m u d a n ç a s de identifi cação de referentes, de ativação de conceitos e de referencialidade, a p a rtir dos co n h e cim e n to s que p a rtilh a m . Todos os a sp e c to s cognitivos e interativos aí envolvidos se refletem no modo como a s pessoas organizam a s idéias n a m em ória quan d o falam e no modo como as codificam no discurso.
Com b a se nisso, in teressa-m e ex am in ar em que m edida a distribuição do fluxo inform acional condiciona a om issão de com p lem en to s v e rb a is. M as, u m a vez q u e a s d im e n sõ e s do fluxo inform acional se relacionam ap e n as a sin tag m as nom inais reali zados, proponho-m e re p en sá-las a fim de que p ossam aplicar-se, tan to q u an to possível, a SNs om issos.
Referencialidade do discurso
A Referencialidade do D iscurso abrange, segundo Du Bois e Thom pson, d u a s funções básicas: a F unção Referencial e a G ene
ralidade. Por s u a vez, a F unção Referencial do D iscurso se bifurca em funções propriam ente referenciais (em sentido estrito), a que os au to re s cham am de “ra stre a d o ra s” e em funções não-referen- ciais (ou n ão -”ra stre a d o ra s”), como a s de form ar predicados, orien ta r u m evento, ou classificar u m referente.
A função de ra stream en to é a que perm ite aos ouvintes loca lizar os referentes no universo do discurso, criando-os (nas p a la vras dos autores: “abrindo novos arquivos”) ou acrescentan do novas inform ações aos que já foram criados no discurso. O bserve-se o exemplo abaixo:
(1) “é porque... quando se abre um a agência você fornece crédito a toda aquelas pessoa que moram a li., você possibilita aos agricultores... né? nessa cidade pequena cidade mais pobre... terem acesso a crédito p a / fa ze r plantio... né?... c o n s e q ü e n te m e n te c o m o p l a n t i o e le j á v a i
v e n d e r ” (DID-27 Hl)
Em (1), os com plem entos omitidos do verbo vender inform ari am sobre o que e a quem “ele já vai vender” m as não fazem rem is são a n e n h u m a porção do discurso, nem introduzem elem entos aos quais se p o ssa rem eter posteriorm ente. Por isso deve-se dizer que a s om issões de SN com tal característica não abrem novos arq u i vos, isto é, não criam referência, não fornecem meios p a ra que o ouvinte possa, depois, ra stre a r referentes. Não desem penham , pois, função rastread o ra. E ntendo que não exercem nem m esm o função não-rastreadora, de vez que o verbo prescinde de s u a p resença no discurso. O sim ples fato de u m lexema verbal im plicar SNs potenci ais, lu g a re s vazios, n ão é su ficien te p a r a c r ia r re fe rê n c ia ou r a s tr e a r re fe re n te s, nem p a r a com por com o verbo u m único predicado.
Nem todas as om issões se enquadram , porém, no m esm o caso. Há situações em que um SN omisso cum pre a função de ra stre a r um referente, ain d a que não seja possível p recisar exatam ente qual. É o que d em onstra o exemplo a seguir:
(2) ue levava as técnicas até dinâmicas de grupo essa... tudo isto... e isto me facilitava... né? A orientação::... da turma... e e le s g o s ta v a m ...”
(D2-39 MIII)
Neste exemplo, o com plem ento omitido se refere, de algum a forma, a conteúdos lingüísticos precedentes, sem que se possa e s pecificar qual ou quais. Sabe-se apenas que eles (no caso, os alu nos) gostavam de toda u m a situação, referida no discurso de form a g enérica.
Som ente p arte d as om issões desem penham , portanto, u m a função de rastream ento; o u tras, em núm ero b a sta n te significati vo, não podem ser relacionadas nem mesmo à de não-rastream en to ,
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ou seja, não exercem a F unção Referencial do D iscurso. O papel dos SNs om issos no d iscu rso não é, de fato, em geral, a de possibilitar ao ouvinte identificar referentes.
O p arâm etro Referencialidade do D iscurso foi considerado a p en as em relação à seg u n d a função que ele abrange, a de G enera lidade; a Função Referencial do D iscurso, como se rá m ostrado, e stá p re ssu p o sta no p arâm etro Identificabilidade.
A função de G eneralidade envolve a relação en tre o SN e seu conceito. Neste asp ecto , a G eneralidade difere ra d ic alm e n te d a Função Referencial, que diz respeito ap e n as à função do SN no d is curso. Como definem os au to res, en q u an to um sin tag m a nom inal G eneralizante d en o ta u m a classe cujos m em bros são intercam biá- veis, o P articularizante é u sad o p a ra d en o tar en tid ad es não-inter- cambiáveis. Identifiquei, nos dados, om issões de am b as a s espéci es; por exemplo:
(3) *assum iu o {Presidente... oJango... (DID-22 HIII)
(4) "quando fo i parece que... em trinta e quatro - se você tivesse me falado nisso com antecedência eu tinha dado uma lida... p a r a r e c o r d a r
m ais” (DID-22 HIII)
Em (3), foi omitido o conteúdo P articularizante Presidência da República do Brasil, por ele, de algum a forma, j á e sta r “contido” no sujeito P residente Jango, a p a rtir do qual foi criada u m a p re ssu posição. Em (4), porém , como não é possível individualizar o que o falante desejava recordar m ais, considero a om issão como G enera lizante.
Conforme ap o n ta o teste probabilístico, a s om issões são m ais prováveis de ocorrer q u an d o os com plem entos verbais têm co n teú do G eneralizante, o que fica b a s ta n te evidente n a Tabela 1:
Tabela 1: Form as de m anifestação e G eneralidade
Generalidade SN pleno Pronom e Omissão
G eneralizante .304 .253 .4 4 3
Os núm eros perm item confirm ar a hipótese de que o fator G eneralizante condiciona a om issão de com plem entos verbais, além de levarem à conclusão de que os conteúdos P articularizantes te n dem a codificar pronom es e sintagm as nom inais plenos.
Sendo ou não referenciais, os sintagm as om issos têm, real m ente, u m a forte tendência a p o rtar inform ações G eneralizantes. Q uando não-referenciais (ou seja, não-rastreadores), seu conteúdo se restringe à inform ação genérica im plicada no s esq u em as va- lenciais do verbo, como em (5):
(5) upor isso eu eu falo eu j á escrevi eu já:: mediTEI...” (D2-39 MIII) Q uando referenciais, rem etem , em grande parte, a referen tes inespecíficos no universo do discurso, como se vê em (6):
(6) ue pediu... não uma espécie de jogral... mas uma encenação... e e u e n tã o e n c o n tr e i a q u i n e s s a r e v is ta ... (D2-39 MIII)
Nesta situação, o SN omisso rem ete vagam ente a algum tipo de encenação, não exatam ente correferencial com aquela m encio n a d a anteriorm ente, conservando, assim , a genericidade m ais tí pica das omissões.
Identificabilidade
A Identificabilidade é aqui definida como u m a categoria prag- m ático-discursiva de n atu re za cognitiva. Du Bois e Thom pson con cebem um sintagm a nom inal como Identificável sem pre que o fa lante supõe que o referente desse SN pode ser localizado pelo o u vinte no universo do discurso criado pelo texto, m esm o que som en te a p artir do conhecim ento de m undo que am bos partilham . Assim sendo, um sintagm a nom inal pode ser Identificável ou porque re m ete a referentes já p resen tes no universo do discurso, ou porque ap o n ta p a ra algo que existe potencialm ente n a s experiências divi didas pelos p articip an tes d a conversação. Por este processo, a que LYONS (1977) ch am a am plam ente de dêixis, o falante pode criar
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u m a referência, ou seja, pode colocar entidades no universo do d is curso, de ta l form a que p o ssa referir-se a elas su b seq ü en tem en te, por meio d a anáfora.
Du Bois e Thom pson m encionam certos recursos pelos q u ais o falante apresenta um SN como Identificável para o ouvinte, a saber:
a) Prim eira Pessoa; b) S egunda Pessoa; c) Anáfora; d) Referência Proposicional; e) Situação; f ) Fram e; g) Âncora.
E xcetuando-se os casos de Identificabilidade por Âncora, p e n so que os Meios de Identificabilidade, elencados acim a, são re c u r sos que se valem, em ú ltim a análise, d a função dêitica, conform e definida por LYONS (1977). Pelo ponto de vista do autor, se a anáfora p ressu p õ e que o referente j á te n h a lu g ar no universo do discurso, e a dêixis não impõe tal condição, então esta é m ais b ásica que aquela.
O a u to r distingue en tre dêixis propriam ente dita, de n a tu re za situacional, anáfora e dêixis textual, observando que a s d u a s ú ltim as têm sido freq ü en tem en te confundidas. A dêixis te x tu a l emerge d a ligação estreita entre função dêitica e função anafórica que existe nos pronom es, principalm ente os dem onstrativos. Neste caso, o pronom e, em bora rem eta a algum a expressão formal do tex to, não é propriam ente correferencial com ela.
Lyons m enciona, ainda, um su b tipo de dêixis textual, que denom ina “dêixis textual im p u ra ” a qual parece cair em algum lug ar en tre a anáfora e a dêixis, e deve com partir d a s ca racterísti cas de am bas. Neste tipo de dêixis textual, o SN rem ete a segm en tos m aiores ou m enores do texto, sem ser, contudo, correferencial com n ad a. O exemplo (6) en q u a d ra-se perfeitam ente n e sta espécie de referência dêitica.
Seguindo a concepção de Lyons, reúno os Meios de Identifica bilidade por Prim eira Pessoa, S egunda Pessoa e S ituação, pelos tra
-ços que têm em com um , n u m m esm o caso de dêixis situacional. M antenho a Anáfora p a ra os casos de correferencialidade e, sob o rótulo de Identificabilidade por Referência Proposicional, incluo toda espécie de dêixis textual, p u ra ou im pura. Por últim o, deixo a Iden tificabilidade por Fram e p a ra o tipo especial de dêixis que b u sc a um referente no conhecim ento de m undo convencional, ou em q u al q uer conhecim ento específico repartido pelos p articip an tes d a con versação.
Um sintagm a nom inal omitido é Identificável por Situação em in stân cias de uso como:
(7) ...eu se t., não o lance é o seguinte... isso aí é é engraçado /c ê perguntou isso a í” (DID-27 Hl)
Nesta ocorrência, um dos com plem entos do verbo p erg u n tar (correspondente a “a quem se p e rg u n ta ”) foi omitido, m as seu con teúdo referencial é facilm ente recuperável porque rem ete à p ri m eira pessoa do discurso, ou seja, ao falante.
Os sintagm as nom inais elididos que são Identificáveis por Anáfora estão fora dos casos de om issão, ju sta m e n te porque serão sem pre recuperáveis pelo contexto lingüístico; por esta razão ex cluí-os da análise estatística. A om issão, que se define, j á de p rin cípio, como não-anafórica, não pode ser precisada pelas p istas es tritam ente lingüísticas, nem m esm o quando é referencial.
J á a Identificabilidade por Referência Proposicional, por não ter sido considerada, n e sta pesquisa, como um tipo de anáfora, pode ser relacionada à om issão. Exemplo:
(8) “MAS cada posição daquela só dá uma nota (...) aí eu acho complica díssimo (nê?n (DID-27 Hl)
Em (8), o com plem ento omitido de acho é remissivo a toda u m a situação de complicações relacionadas a um determ inado in s tru m en to m usical, m as, n a verdade, não configura u m caso de correferência.
Os com plem entos que trazem referentes Identificáveis por Fram e são tam bém passíveis de om issão, como neste exemplo:
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(9) “tirei o sapato” (DID-44 HIII)
É do conhecim ento de todos os falantes-ouvintes d a língua que, não havendo especificação de outro Locativo de origem, tira-se o sap ato do pé. A inform ação om itida p ressu p õ e um lu g ar co rres pondente ao sujeito do enunciado. E nquadram -se neste mesm o grupo exemplos como [Ele tirava e botava os óculos], [Ela pôs u m a ro u p a m ais leve] etc. Não se tra ta a p e n a s de u m a inform ação prag m ati cam ente irrelevante; trata-se, prim eiram ente, de um favorecim ento sem ântico, de u m conteúdo referencial tom ado como p ressuposto, que condiciona a om issão e que perm ite, pois, classificar ta is Com plem entos Locativos como facultativos.
Ao ativ ar c e n a s cognitivas, m u ita s d a s inform ações n elas contidas são to m ad as como óbvias e, portanto, d esnecessárias, le vando o falante a om itir algum as e a colocar o u tra s em perspectiva. Explicitar os conteúdos previsíveis, m esm o que através de form as pronom inais, seria sobrecarregar a m em ória do ouvinte com refe ren tes sem im portância inform ativa.
São ta n to s os meios de que falantes e ouvintes se utilizam , de forma cooperativa (cf. GRICE, 1975) p a ra identificar u m sintagm a nom inal que os SNs Não-Identificãveis são raros.
No que diz respeito às om issões, em bora h aja sintagm as om is sos Identificáveis, não é possível, a rigor, m a n te r o paralelism o afir m ando que o u tra s om issões são Não-Identificãveis. Se h á om is sões que nem m esm o rastreiam ou criam referentes, então não h á referência, e, n este caso, não h á identificação. Assim sendo, o que cham arei, à falta de outro term o, de om issão “Não-Identificável” é, n a realidade, Não-Referencial. Exemplo:
(10) ^mas...eu geralmente cobro mais barato” (DID-31 MI)
N esta ocorrência, o verbo cobrar ativa um fram e que p re ssu põe, d en tre o u tro s elem entos, “os clientes” que constituem a in form ação om issa do segundo com plem ento verbal. E sse conteúdo, todavia, não é recuperado por u m processo referencial. A inform a ção p re ssu p o sta n ão in stru i o ouvinte a b u s c a r um elem ento p re
sen te no universo do discurso, portanto n en h u m processo de refe rência foi in stau rad o . O ouvinte recupera o sentido, m as não id en tifica n en h u m referente. É p recisam ente por não e sp e ra r que o ouvinte seja capaz de identificar um referente que o falante codifi ca o argum ento do verbo como om issão, e não como pronom e ou zero anafórico, por exemplo. E sta é u m a form a de sinalizar p a ra seu interlocutor que não h á necessidade d e ssa identificação. Processo sem elhante se d á com exemplos do tipo:
(11) “o povo num real num reagiu não... ” (DID-22 HIII)
Neste enunciado, o falante omite a inform ação sobre “a que exatam ente o povo não reagiu” Provavelmente julga, em bora não se dê conta disso, que explicitá-la é correr o risco de ferir os princí pios da Relevância e d a Q uantidade, postulados por GRICE (1975). Pela subm áxim a d a Relação (ou d a Relevância), o ouvinte espera que a contribuição do falante seja apropriada à s necessidades im e d iatas de cada ponto d a conversação. Pela subm áxim a da Q u an tid a de, a expectativa é de que a contribuição do falante seja inform ati va o b astan te, m as não m ais que o necessário, p a ra os propósitos do discurso em andam ento.
Os pesos relativos dos fatores em cada forma, n a Tabela 2, evidenciam, estatisticam ente, a alta probabilidade de ocorrência de o m issão d e te r m in a d a pelo fa to r “N ã o -Id en tificáv e l” (Não- Referencial).
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Tabela 2: Form as de m anifestação e Identificabilidade
Identificabilidade SN pleno Pronom e O m issão N ão-identificável .091 .251 .6 5 8 Ident, por Situação .322 .5 4 9 .129
Ident, por Frame .517 .186 .297
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As om issões tendem a não c u m p rir a F unção Referencial do D iscurso, que é tipicam ente d ese m p e n h ad a por sin tag m as nom i nais, plenos ou não, m as realizados. Se o falante não deseja que o ouvinte recu p ere certo s referen tes, en tão ele o p ta p elas form as o m issas Não-Referenciais.
S eg u n d o DU BOIS e THOMPSON (1991:4), “u m SN Não- Identificável in stru i o d estin atário a a b rir u m arquivo cognitivo p a ra um referente, sem elhante a a b rir u m novo arquivo em u m diretório c o m p u ta c io n a l” A c re sc e n to a is to q u e u m SN o m isso “Não- Identificáver (Não-Referencial), diferentem ente de u m SN realiza do Não-Identificável, não in stru i o ouvinte a a b rir u m novo arquivo, porque esse tipo de om issão não in s ta u ra referência. O que se re cupera, n e ste s casos, é ap e n as u m conteúdo genérico, associado à cena cognitiva focalizada pelo falante.
Se a s form as realizadas são a p re se n ta d a s intencionalm ente como Não-Identificáveis porque o falante p resu m e que o ouvinte não saib a identificar os referentes, a s om issões são a p re se n ta d a s como Não-Referenciais sim plesm ente porque o falante não quer que h aja identificação. E sta explicação condiz com a afirm ação dos au to res de que a Identificabilidade e stá p re sa à intencionalidade do falante, ao que ele tenciona a p re se n ta r como inform ação rele vante no discurso. Por esse raciocínio, defendo que a Identificabili dade é u m meio pelo q ual a intenção do falante determ ina a form a de m anifestação dos com plem entos verbais, por isso o fator Não- Referencial é um dos que m ais condicionam a om issão.
A a lta probabilidade de SNs plenos p a ra referentes Identificá veis por Fram e é explicável pela afirm ação de LYONS (1977) de que este é u m dos principais processos de se criar referência. Os novos referentes portam , em geral, um conteúdo Novo, im portante, re s ponsável pela progressão tem ática, por isso m esm o, devem ser co dificados por um sin tag m a nom inal completo.
Estado de Ativação
De aco rd o com CHAFE (1980), o m odo com o a s p e s s o a s u s a m a língua depende m uito daquilo de q u e e la s têm c o n s c iê n
c ia 1 em diferentes m om entos d a conversação. Depende não ap e n a s do foco de atenção do falante, como tam bém do que ele conside ra que e stá n a consciência do ouvinte. A cad a m om ento, o falante ju lg a que um conceito p articu lar pode e s ta r em um determ inado Estado de Ativação n a consciência do ouvinte, como Ativo, Semiativo ou Inativo.
Um conceito Ativo é definido como sendo aquele que está n a consciência focal de alguém; é um conceito Dado, que pode ser facilmente “localizado” Inform ações D adas são, geralm ente, codi ficadas de form a econôm ica n a língua, enqu an to que a s Novas te n dem a m anifestar sintagm as nom inais plenos (ver, p a ra isso, ta m bém GIVÓN, 1991b). Conceitos Novos são Inativos, e estão corren tem ente n a m em ória de longo termo. Os Sem iativos são os que já haviam sido ativados - ou por terem sido m encionados h á m ais tem po ou por estarem presentes n a situação -, m as que se esvaí ram da consciência focal. Por isso são A cessíveis, precisam ser novam ente ativados pelo ouvinte ao serem m encionados pelo fa lante.
Como a definição de Acessível, Novo e Dado aplica-se ap en as à realização de sintagm as nom inais, faz-se necessário revê-las, a fim de to m á-las capazes de c a p tu ra r a s especificidades dos SNs om issos.
Proponho que os conceitos Semiativos cu b ram tam bém , além daqueles que já haviam sido ativados, os que estão disponíveis no conhecim ento enciclopédico dos p articip an tes do discurso e que podem ser ativados a q ualquer m om ento, u m a vez que são c u ltu ra l m ente com partilhados. Por essa perspectiva, o s ta tu s de Acessível abrigará tam bém a s inform ações sobre os argu m entos que estão lexicalm ente im plicados nos predicados. Exemplo de om issão Aces sível:
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(1) Consoante o autor, o pensamento tem três componentes: a consciência, o
eu e a inform ação. A consciência é um mecanismo do qual o eu se utiliza para ativar pedaços restritos de informação. Compõe-se de foco e periferia.
O foco, central, ativa maximamente uma parcela mínima de informação em um dado momento. A periferia é onde estão situadas muitas outras informa ções que se encontram fora do centro de atenção do falante.
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(12) Uque separar /c ê pode separar em qualquer tempo até quando sai da igreja né?...” (DID-40 HIII)
O argum ento foi omitido, em (12), por conter u m a inform ação p re ssu p o sta2, facilm ente Acessível no conhecim ento cu ltu ral d a s pessoas, a de que alguém se separa “de seu cônjuge” obviam ente. Admito a hipótese de que o conhecim ento de m u ndo se en co n tra arm azenado n a m em ória de longo term o, m as que o verbo e o co n texto lingüístico que criam a pressuposição estão n a m em ória im e diata, e se situ am n a consciência focal de falantes e ouvintes.
Os elem entos om itidos podem ter, ainda, um s ta tu s de Dado, como se percebe pelo seguinte exemplo:
(13) “porque é um inventário... razoável os bens... uma quantidade de bem razoável., mas que os os irmãos / tão brigando um quer um... peda ço outro quer outro sabe?... preferência... por essa casa que é de esqui na o outro então é aquele negócio todin/ num chegaram né?... e o ju iz às v e z/ vai c o n d u z in d o c o n d u z in d o num toma pulso de d e c i d ir né?” (D 2-39 MIII)
Note-se que os conteúdos referenciais dos SNs om issos de conduzindo e de decidir, m esm o não sendo correferenciais com n e n h u m outro elem ento no discurso (são casos de dêixis textual im pura), ficam laten tes no foco de consciência dos participantes, e, por este motivo, devem ser considerados como conteúdos Dados. Creio que som ente a s ocorrências como (13), em que os referentes d as om issões são Identificáveis por Referência Proposicional, a p re sen tam s ta tu s de inform ação Dada.
As reflexões acim a ratificam a idéia de que existem d u a s e s pécies de SN omisso: u m a Referencial, que d esem p en h a a Função Referencial R astread o ra do D iscurso e é, portanto, Identificável: o u tra Não-Referencial, sendo, por isso m esm o, “Não-Identificável”
(2) As informações pragmaticamente pressupostas são consideradas, às vezes, como Dadas, porque o status psicológico do Dado não é ponto pacífico na literatura sobre o assunto (ver, a esse respeito, BROWN & YULE, 1985).
A prim eira, quando Identificável por Referência Proposicional, figu ra como inform ação Dada; q uando Identificável por outros meios, aparece como Acessível. A seg u n d a espécie de om issão é sem pre Acessível.
Os resu ltad o s de probabilidade, exibidos n a Tabela 3, reve lam , claram en te, que a s inform ações Novas levam o falante a codificá-las tipicam ente como SN lexical, raram en te como prono me e n u n c a como om issão, o que se explica pela grande relevância que ap resen tam no discurso:
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Tabela 3: Form as de m anifestação e E stado de Ativação
E stado de A tivação SN p len o Pronom e Omissão
Dado .056 .4 7 9 .465
Novo .8 6 9 .113 .018
A cessív el .130 .117 .753
Note-se que é m uito pouco provável que o Dado se m anifeste como SN pleno, m as a probabilidade de ser codificado como prono me ou como om issão é praticam ente a m esm a. Cham o a atenção p a ra a alta probabilidade do Acessível se m anifestar como omissão. Sobre isso, é bom que se d iscu ta o exemplo abaixo:
(14) uela tem que sair do engradado tem que ir pra escola te m q u e estraN H A R m e s m o te m q u e s e a d a p t a r..." (EF-53 HII)
Em u so s do tipo (14), os com plem entos de estranhare adaptar- se foram om itidos porque, sendo intenção do falante d a r relevo à carga sem ântica dos próprios verbos, ele prefere não ativar n en h u m conceito dos com plem entos verbais n a consciência do ouvinte, por isso ele dá à inform ação ap en as o s ta tu s de Acessível. A genericidade de tais conteúdos Acessíveis (e stran h ar “qu alq u er coisa” e ad ap tar- se a “q ualquer coisa”) perm anece ap e n as p re ssu p o sta no conheci m ento de m undo do ouvinte. Além disso, ou, m elhor dizendo, por este motivo, o falante os a p re se n ta como Não-Referenciais.
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Afirmei, anteriorm ente, que ap e n as a s om issões Identificá veis por Referência Proposicional com portam inform ação D ada e que a s “Não-Identificáveis” são Acessíveis. Agora é preciso obser var que o inverso nem sem pre é verdadeiro: nem sem pre o A cessí vel é, n ec essariam en te, “N ão-Identificável” As om issões A cessí veis podem ser Identificáveis por Fram e, por S ituação e até por
Referência Proposicional. E sta inter-relação en tre os p arâm etro s E stado de Ativação e Identificabilidade reforça a afirm ação de Du Bois e T hom pson de que os critérios definidores d as d u a s categori as são com pletam ente distintos, daí por que elas não podem ser confundidas.
Tenho c o n statad o que os dois parâm etros pragm áticos Estado de Ativação e Identificabilidade têm alta probabilidade de se m ani festarem como om issão porque são os que m ais diretam ente, e em conjunto, refletem a intencionalidade do falante. Tem razão DU BOIS (1985) q u ando s u s te n ta a existência de um padrão sintático prefe rido p a ra a m anifestação dos argum entos no discurso. As inform a ções Novas tendem a se r “em p aco tad as” como SN lexical, enquanto que as D adas são codificadas de form a econômica, como pronom e - e agora, acrescento - ou como om issão. Os resu ltad o s deste estudo não ap e n as confirm am os princípios básicos d a E s tru tu ra de Argu m ento Preferencial, p o stu lad a pelo autor, como tam bém evidenci am a hipótese aqui form ulada de que as inform ações Acessíveis - ainda não consideradas n a s pesq u isas sobre o a ssu n to - têm predo m inantem ente a form a de om issão.
A DETERMINAÇÃO SEMÂNTICA
P ara avaliar a influência dos aspectos sem ânticos sobre a om issão de com plem entos verbais, investigo a hipótese de que o tipo de predicado, a s fu n çõ es sem ân ticas, o traço anim ado e o asp ecto verbal são grupos de fatores d eterm in an tes do fenômeno em an álise.
O tipo de predicado
Todos os verbos do corpus exam inado foram conferidos pelo dicionário de regência verbal, de BORBA et alii (1991), o qual, por s u a vez, se fu n d am en ta nos qu atro predicados básicos p resen tes n a classificação de CHAFE (1979).
Um predicado de Estado, segundo B orba et al., expressa “u m a propriedade, u m a condição ou u m a situação localizadas no sujeito” (p.XIX). Exemplo de om issão n este tipo de predicado:
(15) u/cê tem que saber um pouquinho” (DID-27 Hl)
O com plem ento omisso inform aria sobre “o que se tem que sab e r” Saber, que, neste caso, significa “te r conhecim ento de” tem sujeito Experienciador3 e não expressa m u d an ça de estado; classi fica-se, então, como um verbo de Estado. Se não se verificasse q ual q u er tipo de “m u d an ça” o verbo seria de Processo. Reconheço, po rém , que a distinção entre E stados e Processos, aqui assum ida, rep o u sa sobre critérios ainda fluidos, talvez pela própria im preci são do conceito de “m u d an ça de estad o ”
Um verbo de Processo é, pela visão de Chafe, aquele em que o nom e - com função se m â n tic a de P aciente, E x p erien ciad o r e Beneficiário - muda de estado, condição ou posição. Predicados de Processo perm item a om issão de com plem entos, como se pode per ceber em (16):
(16) aum dia e u f u i.. à noite sóprcL.. voltearp r a ... v e r m e s m o é é muito bonito... (DID-32 MII)
O falante não deseja que o conteúdo do segundo argum ento de ver seja especificado pelo ouvinte, por isso o omite. A relevância deste enunciado incide sobre o Processo de ver.
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(3) Como será dito, um argumento Experienciador é aquele que sofre algo rela cionado a uma disposição mental: sensação, cognição, emoção.
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Os verbos de Ação nem indicam estado nem m u d a n ç a de e s tado, expressam sem pre u m fa ze r, u m a atividade que alguém re a liza; esse alguém é u m nom e Agente. E ste tipo de predicado perm i te a om issão dos com plem entos de que se acom panha, como em:
(17) “ele comprou um apartamento acolá” (D2-45 HII)
Em (17), o verbo comprou ativa um fram e de “c o m p ra /v e n d a ”, que pressu p õ e a inform ação “ao vendedor” om itida no enunciado.
Chafe observa que h á verbos que sim u ltan eam en te denotam processos e ações, j á que, ao m esm o tem po, im plicam u m a m udan ça de estad o e expressam u m a atividade que o sujeito realiza. E s ses verbos - d enom inados de Ação-Processo - especificam, além de um sujeito Agente, u m objeto Paciente (ou ain d a Resultativo, como se verá). Os com plem entos verbais são tam bém , algum as vezes, omitidos nos predicados de Ação-Processo; exemplo:
(18) "Inf essa constituição agora de oitenta e oito Doc. uhn
In f é que e la ::... d e u m u ita a b e r tu r a né?... e /r:” (DID-22 HIII)
O elem ento omitido, em (18), preencheria o terceiro espaço vazio do verbo dar, e conteria a inform ação sobre “a quem ou a que a constituição deu m u ita a b e rtu ra ”
As funções semânticas
As funções sem ân ticas definidas por PEZATTI (1992) e aqui utilizadas p a ra caracterizar os argum entos verbais foram extraí das, consoante a a u to ra , de CHAFE (1979), em s u a m aioria; de LIMA (1985) e de DIK (1981).
E n tid ad es afetan tes são m ais prototipicam ente re p re se n ta d a s pela função se m â n tic a de Agente, que é m ais d iretam en te relacionável à s funções sin táticas de Sujeito e Agente d a Passiva, m as am b as foram excluídas pelo corte metodológico d esta pesquisa.
D entre as entid ad es afetadas, considerarei, em prim eiro lu gar, a rep resen tad a pela função de Experienciador, que, de acordo com PEZATTI (1992) (cf. tam bém LOPES, 1990), constitui a entidade “afetad a” por um processo psicológico de sen sação, em oção ou cognição.
Em bora os Experienciadores se associem freqüentem ente a sujeitos gram aticais, tam bém podem corresponder, algum as vezes, a Objetos Indiretos, como em [Não m e co n sta que ele queira deixar o partido]. Como Experienciadores, os Objetos Indiretos são m uito facilm ente omissíveis, por exemplo:
(19) “naquela época... três candidatos se apresentaram” (DID-22 HIII) Na ocorrência acim a, o Objeto Indireto omitido experiencia a sensação de “ver, perceber” os três candidatos que se apresentaram .
As d u a s entidades m ais tipicam ente afetadas são rep resen ta d a s p e la s fu n çõ es de P a c ie n te e de R esu ltativ o . PEZATTI (1992:106), apoiada em CHAFE (1979), concebe a função de Pacien te como aquela que re p resen ta a entidade afetada “que se move ou sofre m udança de estado, condição ou posição p a ra outro estado, condição ou posição”. As entidades com função de Paciente se reve lam tam bém passíveis de om issão, em certas c irc u n stâ n c ia s de uso, como comprova o exemplo (20):
(20) uisso aí prejudica muito” (D2-45 HII)
O elemento que preencheria o conteúdo sobre o que ou a quem isso aí prejudica muito foi omitido e, por ser afetado pela ação de prejudicar, desem penha a função sem ântica de Paciente. Um fator, de n atu reza pragm ática, m otiva tam bém a om issão deste ele m ento omitido: a baixa relevância d a inform ação suprim ida, n esse trecho da conversação.
J á a função de R esu ltativo rep resen ta a entidade que p a s s a a existir em decorrência d a ação verbal. Assim como a de Pacien te, ela ocorre em predicados de Ação-Processo. O que diferencia a função Resultativa, como o próprio nom e o denuncia, é o fato de que
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a entidade que ela re p resen ta é u m p ro d u to d a ação identificada pelo verbo. A om issão de R esultativos é possível em casos como:
(21) uele talvez não tenha o intelectual porque até o mental porque um doido num trabalha... não produz a li” (D2-39 MU)
Na situ ação em que se d eu o enunciado acim a, o falante quis significar, genericam ente, que um doido não produz n ad a, ou seja, não obtém n a d a como produto de seu trab alh o - daí por que esse conteúdo re p resen taria u m a entidade re su lta n te d a ação do verbo.
A função de Receptivo (que esto u cham ando de Neutro), de acordo com PEZATT1 (1992:107), “é o elem ento que, em bora afetado de algum modo pela ação verbal, não m u d a seu estado ou condição como re su ltad o ” É equivalente - m as não de todo - a dois Objetos descritos por LOPES (1990), que representam , respectivam ente, a entidade que é transferida, de um lugar p a ra outro, ou de um p o s suidor p a ra outro, por u m a ação ou processo; e a entidade que co n s titui o conteúdo de u m a experiência psíquica ou sensorial, ou o conteúdo de u m ato de com unicação. C onsideram os a função de Neutro a que m ais g en u inam ente corresponde a e ssa s descri ções, pois, conforme declara a au to ra, o Objeto tem um “ca ráter pouco m arcado sem anticam ente” (LOPES, 1990:40). Preferimos, pois, neste trabalho, designar esta função como Neutra n u m a alusão à su a baixa carga sem ântica. A om issão d a função N eutra se m o stra possível em situações de uso como (22):
(22) “houve tentativa de transformar o esperanto numa língua., univer- saL.. como não deu certo... o a m e r ic a n o a p r o v e ito u e /tá né?... en trou o inglês em todo canto...” (D2-47 HIII)
O conteúdo genérico do segundo argum ento de aproveitou, que foi omitido, é pouco afetado pela ação do verbo, e não m u d a de con dição. Aqui, o referente inespecífico do SN om isso é Identificável por Referência Proposicional, e, sendo u m a inform ação D ada no d is curso, não carece de explicitação.
As relações entre predicados e argum entos incluem o u tra s funções sem ân ticas que n ão são nem a fetan tes nem afetadas. E ntidades afetantes ou afetadas estão, em geral, m ais estreitam ente relacio n ad as, respectivam ente, à s funções s in tá tic a s Sujeito e Objeto Direto, a que FILLMORE (1977b) cham ou de “elem entos n u cleares” d a sentença, aqueles que são postos em perspectiva. Exis tem , todavia, outros tipos de função sem ântica que, em bora pos sam tam bém exercer o papel de Sujeito ou de Objeto Direto, podem m anifestar-se com outros papéis sintáticos. São elas a s de B enefi ciário, Especificador e Locativo.
Como define Chafe, existe um tipo de situação “benefactiva” em que u m a entidade se beneficia do que é com unicado no resto da oração. E ssa entidade Beneficiária não se com porta nem como um Agente nem como um Experienciador e pode rep resen tar, às vezes, “o elem ento que está em estado de posse, ou que sofre ganho ou perda n a transferência de um objeto” (PEZATTI, 1992:107).
Afirma Chafe que a função de B eneficário é exigida por predicados de Estado, Processo ou Ação-Processo. Observa, en tre tanto, que mesmo predicados simples de Ação e alguns tipos de Ação- Processo podem ter um Beneficiário “facultativo” Haveria, assim , verbos intrinsecam ente benefactivos, como “Tom tem os bilhetes” (cf. CHAFE, 1979:152), em que o Beneficiário seria “Tom”; e outros que se deixariam acom panhar “facultativam ente” pelo Beneficiá rio (“Tom”), em “Maria deu a Tom os bilhetes” (cf. CHAFE, 1979:154).
É de ch am ar a atenção, neste contexto, o em prego do term o “facultativo” n u m a acepção p u ram en te sem ântica, como é, de re s to, toda a análise feita pelo a u to r n e sta obra. Semelhemtes afirm a ções só reforçam a hipótese de que existem , n a e s tru tu ra a rg u m entai dos verbos, elem entos m ais obrigatórios ou m ais facultati vos que outros.
C onstituem exemplos de com plem entos om issos com função Beneficiária casos como (23):
(23) “teoricamente... ele /tá apresentando alguns...dados importante/ algumas... perspectivas...” (DID-37 HII)
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A entidade Beneficiária a quem ele e stá apresentando al guns dados im portantes, algum as perspectivas, om itida do e n u n c ia do, se beneficia d a ação de apresentar algum a coisa. E ssa inform a ção sobre o beneficiário d a ação parece, de fato, m ais dispensável sem anticam ente que o conteúdo daquilo que se a p resen ta
Como descreve Chafe, u m Especificador - a que preferiu c h a m ar de “C om plem ento” - não especifica algo que se en c o n tra em um dado estad o ou que m u d a de estado, como acontece com os o u tros argum entos. S u a especificação é m ais estrita, de vez que ele com pleta o próprio significado do verbo. “Aqui o verbo descreve u m a ação que, por s u a p rópria n atureza, im plica a coexistência de certo conceito nom inal. C an tar, por exemplo, im plica u m a canção; jogar implica u m jogo.” (CHAFE, 1979:162). A especificidade desse a rg u mento, que se m anifesta, sintaticam ente, como Objeto Direto, n a verdade, j á tin h a sido in tu íd a pela gram ática tradicional quando m encionou o “Objeto Direto Interno”
Brito, em s u a descrição de com plem entos verbais, j á salien ta ra que esse tipo de argum ento pode ser sem pre omitido. Penso que é m ais freqüente s u a om issão do que s u a realização com um nome de m esm o radical seguido de adjetivo. Em pregos como “Este garoto m orreu u m a m orte tra n q ü ila ./ Ele viveu u m a vida ag itad a.” (BRITO, 1986:140) não se verificaram nos dados que examinei. Por outro lado, identifiquei exemplos de Especificadores de Objeto Dire to Interno om issos, como em:
(24) ue:: ela também cantou lá” (D2-48 HIII)
O conteúdo do Objeto Direto Interno “canção ou can tig a” não está ap en as implicado no significado lexical do verbo, como os o u tros argu m entos de q u alq u er verbo, m as é m ais previsível do que os outros, porque o verbo lhe impõe u m a lim itação sem ân tica que não vai além do “alcan ce” sem ântico do próprio verbo. É como se este argum ento p u d esse ser previsto pela p rópria morfologia do verbo.
Tem -se, n este caso, um critério estritam en te sem â n tico que dá aos Especificadores do Objeto Direto Intemo um caráter de m aior
facultatividade. Esse favorecim ento sem ântico tem u m a conseqü ên cia p ra g m á tica flagrante: u m elem ento com tão alto g ra u de previsibilidade sem ântica revela-se, n atu ralm en te, re d u n d a n te em term os de inform atividade, o que a c a rre ta a om issão.
Se a intenção do falante é deixar ao ouvinte ap en as o teor genérico d a inform ação lexicalm ente im plicada no verbo, então ele omite o com plem ento (especialm ente porque o conhecim ento lin güístico lhe asseg u ra que a e s tru tu ra sem ântica é b a sta n te favorá vel à omissão). Do contrário, se o propósito é e n tra r em detalhes
sobre a inform ação do argum ento, então ele o realiza.
Chafe dem onstra que os Especificadores (“C om plem entos”) relacionam -se não som ente com verbos de Ação, como cantar, jogar, ler, m as ainda com verbos de Estado, como pesar, custar, medir. Cons ta ta que os Especificadores de Ação são u m a exigência facultativa dos verbos com que se relacionam - e, aqui, m ais u m a vez, o term o “facultativo” é em pregado pelo a u to r dentro de u m a caracterização e strita m e n te sem ântica.
A e ssa facultatividade, Chafe opõe a o b rigatoriedade dos Especificadores de Estado. Exemplos do autor: “O livro p esa u m a libra.”; “O doce c u sta dez centavos.” (1979:163). E sses verbos de E stado são resistentes à om issão de seu s Especificadores, sendo necessário determ inar que contextos favorecem os u so s em que eventualm ente não se realizem . Um d esses contextos seria, se gundo Brito, quando um “pseudo-advérbio” (como muito, pouco, caro, bastante) su p re a informação do com plem ento de m edida, como em “Este barril p esa m uito” A au to ra m enciona, ainda, certas ocor rências em que o muito fica subentendido no enunciado, o que se dá som ente quando um a entonação específica, a ssin a la d a por u m a p ontuação adequada, d en u n cia s u a presença. E exemplifica com: “E ste bebê p esa’!” (BRITO, 1986:68), em que a s a sp a s m arcam a ênfase sobre o verbo, e deixam a en ten d er que “o bebê p esa de m ais” Fato sem elhante ocorre com o enunciado abaixo:
(25) “a idade PESA” (D2-39 MIII)
No u so acim a, a ênfase que recai sobre o verbo ex p ressa o sentido de que a idade p e sa m u ito . De acordo com o ponto de v ista
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d a au to ra , a entonação, fazendo a s vezes do elem ento muito, su p re a inform ação do com plem ento omisso.
PEZATTI (1992:107), b a se a d a em LIMA (1985), define a fu n ção sem ân tica Locativo como aq u ela que “especifica a noção de espaço de que se revestem o estado, o processo ou a ação expressos n a oração” Chafe dem onstra que os quatro tipos básicos de predicado podem relacionar-se com e sta função sem ântica.
S u s te n ta r que os Locativos podem aco m p an h ar-se de q u al q u er tipo de verbo é p re ssu p o r a existência de pelo m enos dois subtipos d e sta função: u m Locativo de c a rá te r estático e outro de n atu re za dinâm ica. Os Locativos dinâm icos, que ocorrem com ver bos de movimento, correspondem , ainda, a d u a s noções: a de ori gem e a de d estin o de u m movimento. VILELA (1992:179) ain d a inclui n a s noções Locativas a de percurso, que exprim iria “o lugar interm ediário em que a entidade sofre o acontecer verbal”
Como salienta BRITO (1986), os verbos de movimento, ou, m ais apropriadam ente, de deslocam ento ativo, não exigem a explicitação de todos os se u s com plem entos Locativos no discurso; alguns po dem ser om itidos. Daí a im portância que têm p a ra este trabalho.
Vilela distribui os verbos de deslocam ento ativo em qu atro grupos, d en tre os q uais destaco:
a) os que denotam um deslocam ento em direção ao espaço do Não-Eu, como ir, sair, afastar-se, partir etc.;
b) os que denotam um deslocam ento em direção ao espaço do EU, como vir, entrar, aproximar-se, chegar etc.
Os verbos do prim eiro grupo são selecionados pelo falante quando ele tom a como ponto de referência um lu g ar que não inclui o espaço em que se encontra, como em: “O Pedro vai à U niversida de.”; “O António já partiu p ara o C anadá.” (cf. VILELA, 1992:186; 190). Nos dois casos, se o falante estivesse n a U niversidade ou no Cana d á , não teria selecionado ir e partir.
Q uanto ao segundo grupo, an alisan d o os seguintes exemplos de Vilela: “Ele veio ontem à c id a d e ./ Ele chegou ontem a P aris.” (1992:191), é possível com preender que a escolha do verbo vir se d á
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em função d a posição do falante; se ele não estivesse n a cidade, com certeza, teria optado por outro verbo, como ir. Vale observar, n este m om ento, que o espaço do destino coincide, no verbo vir, com o espaço dêitico do EU. A conjunção dessas d u a s características afeta diretam ente o discurso, pois a u m e n ta a possibilidade de om issão do Locativo de destino. É como se d u a s forças m otivadoras (plagian do DU BOIS, 1985) en trassem em competição: u m a que, por veicu lar o foco d a inform ação, conduz à realização do sintagm a nom inal - é a força do Locativo de destino; o u tra que, por inform ar sobre o espaço do falante, facilm ente identificável no contexto extralin- güístico, leva à om issão do SN - a força do dêitico EU. A segunda parece ser m ais forte, daí a a lta incidência de ocorrências do tipo: [Ele veio.]; [Ele está se aproxim ando.].
Com relação ao exemplo com chegar, não podem os garantir, contudo, que a posição do falante seja, necessariam ente, “P aris” O enunciado seria possível m esm o que o falante estivesse em o u tra cidade, ou em outro país. Este é u m fator com plicador que põe em xeque a classificação de Vilela. É preciso ad m itir que certos verbos, como chegar; desem barcar e tam bém entrar; a in d a que lexicalm ente apontem p ara o espaço do EU - que já em si m uito am plo - , parecem tom ar como referencial a posição do sujeito. Em o u tra s palavras, tom am por referência não o sujeito d a enunciação, m as o do e n u n ciado.
De toda e ssa análise, fica evidente como a localização do s u jeito d a enunciação, ou do sujeito do enunciado (talvez u m a tra n s posição do Eu), tem precedência sobre o u tra s forças m otivadoras da realização de argum entos Locativos. Dos diversos pontos discuti dos, e sta é u m a d a s observações m ais im portantes no que tange ao estudo d a om issão. O fato de u m verbo A ou B pertencer à categoria dos que, lexicalmente, ap ontam em direção ao espaço dêitico do falante; ou pertencer à categoria dos que indicam u m a direção oposta é su p erad o pela localização do EU.
A om issão n ão se dá, porém , qu an d o se deseja especificar e ssa localização do EU, que pode se r m ais am pla ou m ais restrita. Q uanto m ais específica a inform ação do Locativo, m ais ele tende à realização; q u an to m ais genérica, m ais ten d e a se omitir. Isto rei
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tera a im portância do fator G eneralizante p a ra a om issão de com plem entos verbais.
Q uando a posição do falante coincide, por o utro lado, com o local de origem - que dificilm ente tem relevância inform acional nos verbos de deslocam ento -, aí então o local de origem pode ser facilm ente omitido. Por isso, em m uitos verbos, a função Locativo de origem tem realização facultativa, razão pela qual alg u n s a u to res, como BORBA et al. (1992), deixam de tom á-la por argum ento em verbos como ir. Exemplo:
(26) “euJiiL.. com o M. lá na loja do meninom (D2-45 HII)
Foi om itida, em (26), a inform ação do lu g ar de origem, por irrelevância, j á que não tran sm ite inform ação Nova.
É indiscutível o íntim o relacionam ento en tre Predicado, F u n ção Sem ântica e F unção S intática, de tal modo que o favorecimento de um está, em algum a m edida, im bricado no favorecim ento de outro. Inevitavelm ente, p o r isso, a s d iscu ssõ es sobre u m d esses aspectos resvalam , n atu ralm en te, p a ra os outros.
No to can te aos d ad o s estatístico s referen tes ao Tipo de Pre dicado, os índices a p o n tam p a ra u m a m aior probabilidade de a s om issões ocorrerem em predicados de Ação, conform e ex p ressa a Tabela 4:
Tabela 4: Form as de m anifestação e Tipo de Predicado
Predicados SN pleno Pronom e Omissão
Ação-Processo .345 .263 .3 9 1
Ação .272 .282 .4 4 6
Estado .4 9 2 .330 .178
Processo .229 .4 3 1 .340
Pela tabela, vê-se que tam bém é b a sta n te provável que a om is são se verifique em predicados de Ação-Processo, a p e sa r de, n este caso, a probabilidade de SNs plenos ser p raticam en te a m esm a. Os
de E stado estão m ais altam ente propensos a m an ifestar form as lexicais de com plem entos; os de Processo tendem a realizar prono m es.
Se há, pois, algum a probabilidade de haver om issão de com plem entos em predicados de Estado, isto se deve, com certeza, à interveniência de ou tro s fatores, não a e sta variável em si. Defen do que um predicado de E stado é, por si só, u m a condição favorável à obrigatoriedade de u m com plem ento verbal. Se se asso ciar a isto a circu n stân cia de que E stados e Processos têm baixa transitivida de, então se pode co n sta ta r que um baixo g ra u de transitividade constitui tam bém um critério p a ra a obrigatoriedade de um com plem ento.
C ham o a atenção p a ra a inten sid ad e com que a s relações sem ân tico -sin tá tic a s de tra n sitiv id a d e estã o e n tra n h a d a s n a s motivações e stru tu ra is. Das dez propriedades definidoras d a tra n sitividade, descritas por HOPPER e THOMPSON (1980), nem todas parecem te r o m esm o sta tu s. Presum o que a s propriedades m ais afetas à inter-relação predicado-argum ento, como Cinese, Agenti- vidade, Volitividade, Afetação e Individuação, im prim em m ais tra n sitividade à oração do que as outras. Por isso julgo im portante tê- las em conta n a avaliação da omissibilidade.
Sugiro que essas propriedades possam , inclusive, contribuir p a ra caracterizar os tipos de predicado, não im portando os en u n c i ados em que se dêem. D esta forma, parece ser possível considerar, a priori, o g rau de transitividade dos predicados. N enhum a d as o ra ções de E stad o , por exemplo, in d e p e n d e n te m e n te d a situ a ç ã o d iscu rsiv a em que se encontrem , tem q u alid ad e C inética, nem Sujeito Agentivo, nem Objeto Afetado, em bora possam a p re se n ta r Dois P articipantes. E sta seqüência de raciocínio leva ao q u estio n a m ento sobre o grau de transitividade d as orações contendo com ple m entos om issos: que parâm etros de transitividade são m ais fre qü entes e caracterizadores de orações com om issão? N esta p e s quisa, analiso cinco parâm etros, presen tes n o s grupos de fatores aqui testados: Cinese, Aspecto, Pontualidade, Afetação e Individua ção do Objeto.
Hopper e Thom pson argum entam que só n a s orações cinéticas a s ações podem ser tran sferid as de um participante p a ra outro (nas
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orações estativas, isto n ão ocorre), e que u m a ação deve ter, no mínimo, dois p articip an te s envolvidos p a ra que seja efetivam ente tran sferid a.
O g rau com que u m a ação é tran sferid a p a ra u m paciente está diretam ente ligado à in ten sid ad e com que o Objeto (Direto) é afetado. O g rau de afetam ento do Objeto é de crucial im portância, pois se reflete n a sem ân tica asp e ctu al d a oração, especificam ente no que diz respeito aos asp ecto s télico, perfectivo e pon tu al. As n o ções asp e ctu ais serão tra ta d a s com m ais especificidade qu an d o for discu tida a variável Aspecto Verbal. Q uanto à Individuação, u m a ação pode s e r tr a n s f e r id a com m a is efeito p a r a u m p a c ie n te individuado do que p a ra u m que não é. A Individuação é vista pelos au to res como u m a m edida escalar, e pode se r avaliada por meio d as seguintes propriedades: nom e próprio, h u m an o , anim ado, con creto, singular, contável, referencial e definido.
Com o apoio d esses parâm etros, é possível afirm ar que, se os predicados de E stado ocupam o lugar m ais baixo d a escala de tr a n sitividade, os de Ação-Processo se colocam, provavelm ente, no ex trem o m ais alto, u m a vez que exigem, no m ínimo, Dois P articipan tes; têm Cinese; não ap resen tam , em geral, Agentividade baixa; e os Objetos D iretos têm , geralm ente, função sem ân tica de Paciente ou Resultativo - a s m ais Afetadas.
O alto g rau de transitividade perm ite justificar, sem an tica m ente, a grande probabilidade (que alcança o segundo m aior índi ce) de realizações p len as n este predicado. Isto poderia levar à de dução de que predicados com transitividade m ediana influenciam a om issibilidade. E n tretan to n a d a a sseg u ra que este seja m ais um fator condicionante, de vez que a s om issões são tam bém freqüen tes em Ação-Processo, o m ais transitivo dos predicados.
As conclusões deste trab alh o ratificam e am pliam dois dos princípios estabelecidos por DU BOIS (1985) p a ra a E s tru tu ra de A rgum ento Preferencial: a Restrição do A rgum ento Novo IJnico e su a co ntraparte: a R estrição do A rgum ento Lexical Ünico. De acor do com a Restrição do A rgum ento Novo Único, em orações transiti- vas, som ente um dos dois argum entos ten d e a com portar inform a ção Nova - o Objeto Direto. E, conseqüentem ente, pela R estrição
do A rgum ento Lexical Único, ap e n as esse m esm o argum ento tende a m anifestar-se como SN pleno. Se a s orações m ais tipicam ente tran sitiv as têm , em geral, predicado de Ação-Processo, então é líci to afirm ar que este predicado é o que m ais se conform a à restrição pragm ática do A rgum ento Novo Único em O (Objeto Direto) e, por conseqüência, à co n trap arte gram atical d esta restrição: a do Argu m ento Lexical Único n a posição de Objeto Direto.
Há de parecer estran h o , pois, que, de acordo com os re su lta dos desta pesquisa, ju stam en te os predicados de Ação-Processo, com alta transitividade e Objeto Direto m ais prototípico, tendam a codi ficar principalm ente as om issões. Mas os n ú m ero s não cau sarão su rp re sa se se tiver em conta que o g rau de transitividade é avali ado em função de ap en as dois tipos de com plem ento verbal: o Sujei to e o Objeto Direto. N esta pesquisa, estão sendo levadas em conta to das a s espécies de com plem ento verbal (à exceção do Sujeito, do com plemento de predicados Existenciais e do Predicativo-Com ple mento).
Os dados não refutam , portanto, a hipótese de DU BOIS (1985); ao contrário, dão-lhe nova dim ensão n a m edida em que dem ons tram que u m a Ação-Processo tende a codificar como SN lexical o Objeto Direto, portando informação Nova. Além disso, apontam p ara u m a forte tendência à om issão, não de Objetos Diretos, m as de o u tro s com plem entos verbais. Exemplos:
(27) “o computador lhe mostra uma PAUtazinha assim e v o cê s a i c o lo c a n d o a s n o tin h a s ” (DID-27 Hl)
(28) Ueu poderia substituir esse tubo menor de setenta e cinco” (EF-152
HII)
Nos exemplos acim a, foi omitido o terceiro com plem ento de cad a verbo. D ar ao terceiro com plem ento a forma de om issão é u m a m aneira de salien tar a inform ação Nova, colocando-a em p erspec tiva como Objeto Direto e codificando-a como SN lexical.
Vale re ssa lta r que a inform ação Nova, relevante, de um e n u n ciado pode, m u itas vezes, recair não sobre com plem entos n u c le a res, m as sobre outros com plem entos, que ocupam o terceiro espaço
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vazio, ou sobre o próprio verbo, ou, ain d a com m ais freqüência, so bre ad ju n to s adverbiais.
A in cu rsão nos cam inhos d a E s tru tu ra de A rgum ento Prefe rencial me conduz à reflexão de que a distribuição sin tátic a d as form as de com plem ento no d iscu rso tem , sem dúvida, m otivação m ais forte no fluxo inform acional, m as é pelas relações sem ântico- sin táticas que e ssa distribuição é, por assim dizer, possib ilitad a ou favorecida.
Apresento, a seguir, os dados probabilísticos referentes à ocor rência d as form as de com plem ento verbal em função d a s Funções Sem ânticas (ver Tabela 5 abaixo):
Tabela 5: Form as de m anifestação e Funções S em ânticas
F unções S em ân ticas SN p leno Pronom e Om issão
B eneficiário .155 .232 .612 P acien te .358 .308 .334 Especificador .321 .283 .3 9 6 Locativo .227 .277 .4 9 7 Neutro .4 7 1 .271 .258 R esu ltativo .412 .513 .075
Os resultados indicam que a função sem ântica m ais provável de ser om itida é a de Beneficiário, que, convém revelar, relaciona- se m ais freqüentem ente a Objetos Indiretos. Em segundo e terceiro lugar, aparecem , respectivam ente, as de Locativo e de Especificador. Vale n o tar que são, ju stam en te, a s três funções não-afetadas e que as m ais omissíveis são a s afetadas. Isto sugere que o traço de Afeta ção do complemento é um fator condicionante da omissão.
No que diz respeito à probabilidade de form as realizadas, é a fu n ç ã o N e u tra a m a is p ro v áv el de c o d ific a r SN s le x ic a is. O Resultativo tende a ser codificado m ais como pronom e do que como SN completo, em bora tam bém te n h a grande probabilidade de m an i festar-se como tal.
Creio que os R esultativos possibilitam a in stau raç ão d a re ferência no discurso, veiculando, m u itas vezes, inform ação Nova,
que deve ser codificada como SN pleno, daí por que é m uito pouco provável que e sta função sem ântica m anifeste form as om issas. É o que se com prova por exem plos do tipo:
(29) ugera muito emprego” (D2-39 MIII)
P ara explicar a alta probabilidade de realização d a função Neu tra como SN lexical, é necessário te r em conta o u tro s aspectos, como o tipo de predicado que a exige, a função sin tátic a e o tipo de espaço vazio a que corresponde, bem como o g rau de transitividade d a s orações em que ocorre. O N eutro é b a s ta n te freqüente em predicados de Estado, que, como foi dito, tendem a realizar os com plem entos como SNs lexicais. Tam bém ocorre freqüentem ente em predicados de Ação, quando tem função sin tática de Objeto Direto, ou de Complemento Relativo4, e a p resen ta m aior variação no grau de transitividade. Exemplo de om issão em Objeto Direto Neutro:
(30) nas loja de lá eles num atendem bem com aquela presteza'
(DID-32 MII)
O Objeto Direto omitido é, em parte, afetado pela ação de aten der. Na verdade, re p resen ta m uito m ais o conteúdo d a s ações, ap e n as. Mesmo sendo definido como entidade afetada, nota-se que o g rau de Afetação é m uito baixo. E sta espécie de predicado de Ação me rem ete à observação pertinente de Hopper e T hom pson sobre certas ações que, por não se efetivarem tipicam ente, são m enos transitiv as do que as tradicionais orações intransitivas.
O Neutro em Com plem entos Relativos pode ocorrer no seg u n do ou terceiro espaços vazios do verbo. E sta é, n a realidade, a fu n ção m ais representativa do Complemento Relativo, o que o aproxi m a do Objeto Direto Neutro, e o diferencia do Objeto Indireto. A alta freqüência de realizações lexicais d a função N eutra como
Comple-(4) Adoto, neste caso, a classificação de Rocha Lima (1973), que defende a separação entre Objeto Indireto, propriamente dito, que corresponde a lhe(s), e um outro complemento preposicionado, que denominou de “complemento relativo”
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