4 A CONSTITUIÇÃO DO PROGRAMA CIDADE SANEADA
4.1 ASPECTOS ANTECEDENTES: A DEMANDA REPRIMIDA DO
Para mostrar o status de atenção governamental sobre o esgotamento sanitário da RMR, partimos de uma rápida abordagem acerca do histórico de planejamento no setor, que reporta ao início do século XX, a saber, no ano de 1909, com o advento da criação da Comissão de Saneamento pelo governo estadual, chefiada pelo engenheiro sanitarista Saturnino de Brito. A partir daquele momento começou-se a implantar um sistema completo de esgotamento sanitário na cidade do Recife (PINTO, 2006).
Entre os anos de 1910 e 1918, houve a implementação da primeira etapa do Sistema de Esgotamento Sanitário (SES) Cabanga, situado na cidade do Recife, que contava com 115 km de rede coletora que escoava os efluentes de 86 mil pessoas para uma Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) que, por sua vez, lançava os rejeitos (apenas com tratamento primário) ao mar. Levando-se em consideração que aquele contingente populacional correspondia a aproximadamente 35% da população recifense, na época, a distribuição dos investimentos restritos a uma pequena parcela se traduzia em um baixo nível de atendimento desde os primeiros anos da construção do SES (COMPESA, 2011).
A segunda etapa de implementação do SES Cabanga só veio a ser realizada na década de 1940, acrescendo ao sistema 34 km de rede coletora. No entanto, conforme destacado por Júnior (2012), na década de 1940 o mundo capitalista ressentia-se com graves crises internacionais, inclusive a II Grande Guerra, e ao mesmo tempo, no Brasil, ganhava dinamicidade o processo de crescimento demográfico experimentado pelas cidades brasileiras que redundou, no caso particular da cidade do Recife, em um aumento paulatino da população recifense, que chega a triplicar até década de 1970 (JÚNIOR, 2012).
O cenário de crise internacional, que refletia na economia e, consequentemente, nos investimentos feitos no Brasil, associado ao crescente adensamento populacional na cidade do Recife, tendia para o alargamento da distância entre demanda e oferta dos serviços de esgotamento sanitário local. Isso se verificou com o “retardamento das obras de ampliação do sistema de esgotamento sanitário, ficando claro que a expansão urbana já superava o serviço sanitário existente” (JÚNIOR, 2012. p. 29).
Já na década de 1960, houve uma reforma no SES Cabanga, quando, em 1965, o Departamento de Saneamento do Estado, através do engenheiro Antônio Figueredo Lima, iniciou a construção de uma estação depuradora, instaurando o tratamento dos efluentes coletados.
Ainda na década de 1960, teve início a construção do SES Peixinhos, já com tratamento secundário (atualmente o SES Peixinhos contempla os municípios de Recife e Olinda). Vale a pena lembrar que na década de 1960, em plano nacional, foi assinado o Decreto de criação do Planasa, de onde sucedeu a criação das companhias estaduais de saneamento e que, no ano de 1971, no estado de Pernambuco, os sistemas de saneamento passaram a ser responsabilidade do governo do estado, após a criação da Compesa.
A Compesa é uma empresa de economia mista de direito privado, cujo maior acionista é o governo do estado de Pernambuco. Fui fundada em 1971, pela Lei 6.307/71, com o propósito de ofertar os serviços de água e esgotamento sanitário para o estado e, desde então houve uma grande evolução da cobertura de municípios que concederam os serviços à empresa. Atualmente, a Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa) atende 173 de 185 municípios pernambucanos, além do arquipélago de Fernando de Noronha.
Neste sentido, a companhia passou a ser responsável pela execução da política governamental de abastecimento de água e esgotamento sanitário, assim como das políticas inerentes aos recursos hídricos do Estado de Pernambuco. Considerando que a titularidade destes serviços é municipal, esse trabalho é realizado através das concessões municipais, conforme estabelecido pelo marco regulatório do setor (Lei Federal nº 11.445/2007).
Sua origem remonta ao contexto de institucionalização das CESBs, caracterizado pela necessidade das administrações estaduais de assumirem os serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário como uma orientação para atender ao Planasa, visando à garantia de viabilidade econômico-financeira entre o estado e a União.
Em 1971, havia duas entidades de saneamento no estado pernambucano, a Saneamento Recife e a Saneamento Interior de Pernambuco. Em um primeiro momento, ambas passaram a ser subsidiárias da Compesa, quando em 1974 foram finalmente extintas.
No momento da sua fundação, a Compesa já contava com a existência dos SES Cabanga e Peixinhos, que somavam 19 estações elevatórias, 02 estações de tratamento de esgotos e cerca de 450 km de rede coletora, cobrindo uma área de 22% do território urbano da cidade do Recife. A rede de esgoto atual do recife é originária, essencialmente, dos serviços implantados com esses dois SES.
Nas décadas seguintes, na cidade do Recife, houve a realização de investimentos em sistemas de menor porte, basicamente, sistemas isolados (destacados por numeração na Figura 5). Conforme salientados por Júnior (2012), entre 1986 a 1988, foram implantadas aproximadamente 15.500 ligações de esgotos através de sistemas de coleta condominial e o governo do estado implantou mais 10.500 ligações. Contudo, não houve a criação de
nenhuma estrutura para construção, operação e manutenção desses pequenos sistemas, ficando boa parte destes sob a responsabilidade da Compesa (JÚNIOR, 2012).
Figura 5 - SES construídos isoladamente na cidade do Recife
Fonte: VASCONCELOS, 1995.
Ademais, algumas outras ações foram feitas no sentido de ampliação da cobertura de esgotamento sanitário em ações individuais protagonizadas pelos municípios ou programas gerais implementadas pelo governo do estado na RMR, tais como:
O Plano Diretor de Esgotamento Sanitário da Região Metropolitana do Recife (PDES/RMR) (1980);
O Plano Diretor de Desenvolvimento da Cidade do Recife (1991), que tinha um caráter também metropolitano e vinculava-se ao PDES/RMR;
O Projeto de Modernização do Setor de Saneamento (1993), voltado à análise de viabilidade de concessão privada do setor;
O Plano de Ordenamento do Sistema de Esgotos do Recife (1994), cuja proposta básica era atualizar o Plano Diretor de Esgotos da RMR, que havia sido elaborado pela Compesa na década de 1980;
O Projeto de Qualidade das Águas e Controle da Poluição Hídrica das bacias dos Rios Beberibe, Capibaribe e Jaboatão (PQA) (1997);
O Plano de Gerenciamento da Drenagem em Águas Pluviais e do Esgotamento Sanitário para a Região Metropolitana do Recife (Plano JICA) (2001);
O Modelo de Saneamento Integrado (2002), que preconizava a articulação dos serviços de saneamento com a implantação de outros serviços de urbanização do Recife;
O Programa Estruturador do Recife (2008), com recursos provenientes do PAC, que prometia elevar de 35% para 77% o índice de residências atendidas com saneamento básico na cidade, até o ano de 2010; entre outras ações pontuais.
A despeito de todas essas ações, os índices de esgotamento sanitário permanecem distantes daqueles desejados, quando em 2013 a coleta de esgoto na RMR correspondia a insatisfatórios 28% de coleta e apenas 7% de tratamento do esgoto produzido. Para cidade do Recife, em particular, embora dados do SNIS apontem relativa vantagem da cidade em relação à RMR no que se refere a estes dois índices (36% de coleta e 61% de tratamento), a situação se mostra muito abaixo do desejado (Gráfico 1).
Gráfico 1 - Evolução da cobertura de coleta e tratamento de esgoto na cidade do Recife (2001-2013)
Fonte: SNIS, 2016.
De acordo com um dos dirigentes da Compesa, a quem nominaremos de A1, a PPP do saneamento foi uma medida necessária, sobretudo por considerar a falta de recursos para investir no setor. Para A1,
O setor de saneamento, de forma geral, no país, e, mais particularmente nas regiões com dificuldades sociais, talvez a região Nordeste, Norte e Centro- Oeste, a maior dificuldade de investimentos em esgotamento sanitário é a questão mesmo da ausência de recursos suficientes para a ampliação e a melhoria dos serviços, seja de água, seja de esgoto principalmente, na velocidade que se quer.
Além disso, a qualidade dos serviços se reflete nas estruturas implantadas com os sistemas antigos (já subdimensionados, considerando a verticalização e o adensamento experimentado pela cidade do Recife desde a década de 1940), manifestando-se na poluição ambiental e deterioração das condições de salubridade do sistema hídrico (sobretudo porque Recife é uma cidade anfíbia, cortada por cinco rios) e faixas litorâneas.
Todavia, é notória a presença do tema esgotamento sanitário em ações governamentais (estaduais e municipais) na RMR, ao longo do tempo, o que sugere que a questão há bastante tempo compõe a lista de prioridades dos governos na região. É de fácil suposição que melhorias globais nos sistemas de esgoto na RMR, que se constitui um problema comum, são de interesse coletivo dos municípios. Contudo, mesmo sendo um problema recorrente na agendo pública dos governos e sendo de interesse coletivo, o baixo índice de esgotamento
sanitário na RMR aponta para um baixo êxito das ações implementadas, sendo caracterizada basicamente por uma demanda reprimida.
Tal demanda, por sua vez, associada à inviabilidade do setor público de resolver o problema sozinho, se configura como o principal argumento dos dirigentes da Compesa e do Governo do estado para a contratação da PPP. É, pois, na perspectiva de aprofundar essa questão que ela será melhor discutida na seção que segue.