CAPÍTULO 2. OS SISTEMAS DE ENSINO SUPERIOR
2.3. Instituições de Ensino Superior
2.3.1. Aspectos Conceituais e Normativos e de Organização
Aspectos Conceituais
Conceituar de forma mais abrangente o termo mantida requer a observação de seus inúmeros aspectos. Embora a Portaria Normativa nº 40/2007 tenha apresentado uma definição para o termo mantida, não existe um consenso quanto ao conceito.
Não há referência à terminologia “mantida”, tão solidificada no universo educacional. De qualquer forma, é necessário apresentar um conceito, de modo a contextualizá-la diante do entendimento firmado para a Mantenedora. A fonte, recente, mais adequada é o art. 6º do Decreto nº. 2.306/1997, já revogado, que regulamentando o art. 19 da LDB, assim dispôs: “as instituições de ensino superior do Sistema Federal de Ensino, criadas e mantidas pela iniciativa privada, classificam-se pelo regime jurídico a que se submetem as pessoas físicas ou jurídicas de direito privado que as mantêm e administram”. (BARROSO e FERNANDES, 2007, p. 6)
Quanto à natureza institucional ou administrativa, as instituições podem se organizar como universidades, centros universitários, institutos e faculdades integradas ou estabelecimentos isolados, e quanto à sua dependência administrativa, podem ser públicas (federais, estaduais ou municipais) ou privadas (particulares, confessionais comunitárias ou filantrópicas), conforme o disposto no artigo 19 da Lei nº 9.394/1996. Como observa Gomes, a estrutura do setor é complexa:
Entre as inúmeras distinções constantes na educação superior do Brasil, quando se tem em vista as categorias do público e do privado, uma instituição pode diferenciar-se de outra em vários aspectos formais. Quanto à natureza institucional ou administrativa, as IES podem classificar-se como universidades, centros universitários, faculdades integradas ou estabelecimentos isolados. Quanto à sua dependência administrativa, podem ser públicas (federais, estaduais e municipais) ou privadas, conforme art. 19 Lei nº 9.394 (BRASIL, 1996), de 20 de dezembro de 1996, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Quando privadas, e com relação à constituição jurídica de sua mantenedora, classificam-se como fundações, associações civis ou sociedades civis de direito privado. Quanto aos fins das instituições privadas, elas podem ser lucrativas ou não. Quanto à composição dos membros das instituições (BRASIL, 1996, art. 20), são particulares em sentido estrito, comunitárias, confessionais ou filantrópicas. As IES são laicas quando não atendem à orientação confessional. Quanto à organização acadêmica, podem ofertar cursos, graduações e pós-graduações, possuindo ou não atividades de extensão e pesquisa. (GOMES, 2010, p. 592)
Aspectos Normativos
Nos termos da Constituição Federal de 1988, no Título da Educação, o constituinte autoriza a coexistência de instituições públicas e privadas de ensino.
Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:
III - pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino. (BRASIL, 1988)
O regime jurídico das instituições de ensino superior, sejam elas públicas ou particulares, guarda identidade com a natureza jurídica da sua entidade mantenedora. Quanto à classificação das mantidas, os artigos 19 e 20 da Lei 9.394/96 dispõem:
Art. 19. As instituições de ensino dos diferentes níveis classificam-se nas seguintes categorias administrativas:
I - públicas, assim entendidas as criadas ou incorporadas, mantidas e administradas pelo Poder Público;
II - privadas, assim entendidas as mantidas e administradas por pessoas físicas ou jurídicas de direito privado. (BRASIL, 1996)
De acordo com o Parecer CNE/CES nº 282/2002, proferido pelo conselheiro Lauro Ribas Zimmer, é justamente porque a entidade mantenedora detém personalidade jurídica, em razão das suas atribuições, que a instituição mantida prescinde dela.
Estas características ressaltam a peculiaridade de não haver razão alguma para que a entidade mantida seja dotada de personalidade, em se tratando de ente de
direito privado. Assim, convivem, de um lado a pessoa mantenedora, com sua capacidade para contrair direitos e obrigações, e com sua responsabilidade civil, administrativa e penal, pelos atos que praticar na órbita econômica; de outro lado fica o ente mantido, despersonalizado, embora titular de direitos e obrigações no campo educacional, e impregnado de responsabilidade administrativa nessa matéria. (BRASIL, 2002)
O ingresso (credenciamento) ou a extinção (descredenciamento) de uma instituição no SFES se faz mediante a expedição de ato autorizativo pelo Ministério da Educação. Quando se tratar de instituição pertencente ao Sistema Federal de Ensino Superior, independe da natureza jurídica, da nacionalidade ou da origem do capital da entidade mantenedora. Quanto às instituições dos sistemas estaduais, será mediante ato normativo dos respectivos Conselhos de Educação Estaduais. O ato autorizativo expedido pelo poder público para a sua criação regulariza e legitima a sua existência. A instituição de ensino superior é a projeção física do ato autorizativo; sem ele a instituição se torna irregular.
Organização Acadêmica
As instituições podem se organizar como universidades, centros universitários e instituições não-universitárias (institutos e as faculdades integradas ou isoladas), conforme define o Decreto nº 3.860/2001, que dispunha sobre a organização do ensino superior, a avaliação de cursos e instituições29.
i. Instituições Universitárias
A instituição universitária possui um papel de liderança intelectual, científica, cultural e política no sistema. Pela sua importância são significativos os recursos empregados no ensino superior, tanto pelos governos quanto pelos mercados. Nos termos do artigo 52 da Lei 9.394/1996, as instituições universitárias se caracterizam por sua estrutura multidisciplinar, pelos profissionais que as compõem e pelos modelos de ensino e educação30 que oferecem. No Brasil,
29
Decreto revogado pelo Decreto de nº 5.773 (BRASIL, 2006). 30
Embora não sejam sinônimos, os termos educação e ensino são muitas vezes empregados dessa forma. Ambos são termos muito amplos e podem suscitar entendimentos e conceitos variados. Sem adentrarmos ao mérito destas discussões, de forma genérica, entendemos educação como um composto de hábitos e valores, portanto, possui um
as universidades se caracterizam pela indissociabilidade das atividades de ensino, de pesquisa e de extensão.
Art. 52. As universidades são instituições pluridisciplinares de formação dos quadros profissionais de nível superior, de pesquisa, de extensão e de domínio e cultivo do saber humano, que se caracterizam por:
I - produção intelectual institucionalizada mediante o estudo sistemático dos temas e problemas mais relevantes, tanto do ponto de vista científico e cultural, quanto regional e nacional;
II - um terço do corpo docente, pelo menos, com titulação acadêmica de mestrado ou doutorado;
III - um terço do corpo docente em regime de tempo integral.
IV - Parágrafo único. É facultada a criação de universidades especializadas por campo do saber. (BRASIL, 1996)
A característica primordial das instituições universitárias, e que as distingue das outras, é a sua autonomia. Quanto à autonomia universitária, a Lei nº 4.024/1961 dispunha, em seu artigo 80, que as universidades gozariam de autonomia administrativa, financeira, didática e disciplinar. A norma ainda previa que o Conselho Federal de Educação (CFE) teria a atribuição de aprovar os estatutos das universidades. As instituições devem observar as regras emanadas pelo CFE, para a elaboração dos seus estatutos e regimentos internos. De acordo com a Constituição Federal de 1988, as universidades públicas ou privadas, mantidas por entidades nacionais ou estrangeiras, têm a sua autonomia assegurada constitucionalmente.
Art. 207. As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. (BRASIL, 1988)
Mas a autonomia não se confunde com poder supremo, ilimitado. As instituições dotadas de autonomia universitária gozam do privilégio constitucional para atuar com autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial. Essa condição não lhes permite ir além do ordenamento jurídico. Poderão atuar com liberdade nos limites da lei, observando as diretrizes nacionais e a qualidade de ensino.
A autonomia plena não significa, entretanto, que a Universidade, que dela desfruta, possa esmagar e anular a autonomia limitada de que gozam as unidades integrantes da universidade. A autonomia plena será exercida pela universidade;
contexto mais amplo, corroborando com a formação integral do indivíduo. O ensino se insere num contexto mais restrito, caracterizando-se pela transmissão de conhecimento tornando apto o indivíduo.
a autonomia limitada será exercida pelas unidades que a integram. A autonomia plena não significa o poder de tudo fazer, mas ela mesma está condicionada pelos limites com que a legislação a enclausurou, estabelecendo competências privativas e exclusivas tanto para a universidade como para as suas unidades integrantes. Cada uma delas tem autonomia no campo de suas atividades especificas e exclusivas, competências que não deverão e não poderão ser anuladas pelo poder central da universidade. Tudo se resume, pois, em uma questão de competências, de atribuição e exercício de competência. (FERREIRA, 1995, p. 207)
A autonomia financeira e científica possibilita às instituições universitárias estabelecer diversos critérios e diretrizes, mas, ainda assim, estas instituições não podem se esquivar dos processos regulatórios e avaliativos a que estão sujeitas as instituições. Elas poderão autorizar seus cursos por atos internos, mas terão que submetê-los à avaliação do poder público para obter o reconhecimento, que só se dará por meio da expedição de ato autorizativo. O mesmo procedimento se dará quanto à renovação de reconhecimento de curso. As universidades federais e as particulares necessitam demonstrar o atendimento aos instrumentos de avaliação aprovados pela Comissão Nacional de Avaliação da Educação Superior (CONAES) e aplicados pelo INEP. E a sua regularidade dependerá da portaria com o ato autorizativo expedido pelo ministro da Educação, nos termos da Lei nº 10.861/2004.
ii. Centros Universitários
De acordo com o artigo 11 do Decreto nº 3.860/0131, documento normativo que traçou as características e diretrizes para os centros universitários, eles são instituições pluricurriculares e somente podem ser criados por credenciamento de instituições de ensino superior, já credenciada e em funcionamento (faculdades isoladas ou integradas). O decreto também estendia a autonomia das universidades para criar, organizar e extinguir, em sua sede, cursos e programas de educação superior, assim como remanejar ou ampliar vagas nos cursos, aos centros universitários já credenciados.
Art. 11. Os centros universitários são instituições de ensino superior pluricurriculares, que se caracterizam pela excelência do ensino oferecido, comprovada pelo desempenho de seus cursos nas avaliações coordenadas pelo Ministério da Educação, pela qualificação do seu corpo docente e pelas
31O Decreto nº 3.860/2001 foi revogado pelo Decreto nº 4.914/.2003 (o qual dispunha sobre os centros universitários), que foi revogado pelo Decreto nº 5.786/2006.
condições de trabalho acadêmico, oferecidas à comunidade escolar. (BRASIL, 2001)
Com a edição do Decreto nº 5.786/2006, que também dispõe sobre os centros universitários, foi acrescentado o parágrafo único, elencando os requisitos para a configuração de centro universitário.
Art. 1º Os centros universitários são instituições de ensino superior pluricurriculares, que se caracterizam pela excelência do ensino oferecido, pela qualificação do seu corpo docente e pelas condições de trabalho acadêmico oferecidas à comunidade escolar.
Parágrafo único. Classificam-se como centros universitários as instituições de ensino superior que atendam aos seguintes requisitos:
I - um quinto do corpo docente em regime de tempo integral; e
II - um terço do corpo docente, pelo menos, com titulação acadêmica de mestrado ou doutorado. (BRASIL, 2006)
iii. Instituições não Universitárias – Institutos e Faculdades
As instituições de ensino superior são credenciadas originalmente como faculdade. Em tese, as faculdades isoladas são instituições com currículos em apenas uma área de conhecimento, possuindo direção e regimento interno exclusivo. O modelo curricular das faculdades tem maior preocupação com o ensino, privilegiando menos o desenvolvimento da pesquisa. Este é o tipo de organização institucional mais comum no Brasil, porque as normas não exigem grandes investimentos em pesquisa e na composição do corpo docente. O conceito de faculdades integradas pode ser extraído do artigo 12 do revogado Decreto nº 3.860/ 2001.
Art. 12. Faculdades integradas são instituições com propostas curriculares em mais de uma área de conhecimento, organizadas para atuar com regimento comum e comando unificado. (BRASIL, 2001)
São instituições sem autonomia universitária, portanto, não podem autorizar seus cursos ou majorar as vagas, sem a expedição de ato autorizativo do poder público.