III. METODOLOGIAS DE REFERÊNCIA
1. SITUAÇÃO NACIONAL
1.2. M ETODOLOGIA DGQA (1989)
1.2.1 Aspectos considerados
De seguida apresentam-se os principais aspectos da metodologia em análise, de acordo com os aspectos considerados no capítulo 4 da parte II e a DGQA (1989).
Resíduos abrangidos
Esta metodologia destina-se a RSU, contudo é considerado importante que o município conheça a origem e quantidade dos outros tipos de resíduos que habitualmente recolhe e/ou elimina (DGQA, 1989).
A definição de resíduos em Portugal é apresentada no Decreto-Lei nº 239/97, de 9 de Setembro, que estabelece as regras a que fica sujeita a gestão de resíduos. Estes consistem em quaisquer substâncias ou objectos de que o detentor se desfaz ou tem intenção ou obrigação de se desfazer, nomeadamente os previstos na Portaria nº 209/2004, de 3 de Março.
O referido Decreto-Lei apresenta ainda a definição de RSU. Estes consistem em resíduos domésticos ou outros resíduos semelhantes, em razão da sua natureza ou composição, nomeadamente os provenientes do sector de serviços ou de estabelecimentos comerciais ou industriais e de unidades prestadoras de cuidados de saúde, desde que, em qualquer dos casos, a produção diária não exceda 1100 L por produtor.
Por outro lado, o Decreto-Lei nº 152/2002, de 23 de Maio, que visa regular a instalação, a exploração, o encerramento e a manutenção pós-encerramento de aterros destinados a resíduos também apresenta uma definição de RSU. Estes são definidos como os resíduos
provenientes das habitações bem como outros resíduos que, pela sua natureza ou composição, sejam semelhantes aos resíduos provenientes das habitações.
Uma vez que o principal critério para os resíduos serem classificados como RSU consiste no facto de serem domésticos ou semelhantes a estes poderá concluir-se que:
- estão incluídos os RC&D, os grandes electrodomésticos e outros resíduos volumosos (e.g. colchões, móveis);
- estão incluídos os resíduos resultantes de serviços prestados pelos municípios/SMAUT, ou em seu nome, desde que a sua natureza ou composição seja semelhante às dos resíduos domésticos como, por exemplo, os resíduos da limpeza da via pública, papeleiras e mercados;
- estão incluídos nos RSU resíduos recolhidos por operadores privados, sem ser em nome dos municípios, desde que a sua natureza ou composição sejam semelhantes às dos resíduos domésticos como, por exemplo, a entrega directa na instalação de tratamento de resíduos produzidos numa habitação particular;
- não está excluído nenhum tipo de produtor de resíduos (e.g. industrial) desde que a natureza ou composição dos resíduos produzidos seja semelhante às dos resíduos domésticos;
- claramente não inclui lamas do tratamento de águas residuais, mesmo quando recolhidas pelos municípios/SMAUT;
- inclui todas as fracções de resíduos recolhidas selectivamente desde que estas sejam semelhantes, em natureza e composição, aos resíduos domésticos.
A única diferença existente entre as duas definições de RSU apresentadas assenta no facto da primeira impor um limite de volume/produtor de resíduos, para estes serem classificados como urbanos.
Dimensão espacial da análise
Local, corresponde à área de um município. Dimensão temporal da análise
São consideradas influências sazonais e tipo de ocupação dominante. Tipo de amostragem
Aleatória estratificada, uma vez que o número de unidades de amostragem recolhidas é proporcional ao quantitativo de resíduos produzidos por grupos de circuitos pré-definidos. Nível de amostragem
É a viatura de recolha de resíduos. Unidade de amostragem
Padrões estatísticos
De acordo com informações prestadas pela Prof.ª Ana Silveira, foi com base numa análise estatística efectuada à variabilidade dos resíduos produzidos no município de Lisboa, município para o qual se dispunha de um histórico de dados razoável, que se estipularam os critérios constantes nesta metodologia, para os municípios urbanos. Já para os municípios rurais, devido à ausência de dados históricos necessários à análise estatística, e tendo em consideração a dificuldade que poderia representar para estes municípios a realização de campanhas de quantificação e caracterização, reduziu-se para metade o número de unidades de amostragem.
Tamanho da amostra
Num município urbano devem ser recolhidas 24 unidades de amostragem num ano (DGQA, 1989). Num município rural considera-se suficiente a colheita de resíduos para amostra 10 a 12 vezes por ano, consoante os resíduos são recolhidos em cinco ou seis dias por semana e, seis a oito vezes nos restantes casos (DGQA, 1989).
O número de unidades de amostragem é distribuído de acordo com grupos de circuitos de recolha similares. Esta similaridade é estabelecida tendo em conta o tipo de ocupação das zonas percorridas, a frequência da recolha e os dias da semana em que esta se realiza. Os circuitos podem ser descritos, por exemplo, conforme percorram (DGQA, 1989):
- zonas rurais; - zonas urbanas;
- zonas residenciais (que podem incluir pequeno comércio habitualmente frequentado apenas pelos moradores);
- zonas comerciais (incluem zonas habitacionais, zonas comerciais importantes e alguns serviços);
- zonas com pequenas unidades industriais; - outras zonas com significado no município.
Para cada grupo de circuitos faz-se uma estimativa aproximada da quantidade de resíduos recolhidos, em percentagem da quantidade total recolhida no município; depois proporcionalmente determina-se o número de vezes em que se deve recolher resíduos para amostra em cada um dos grupos (DGQA, 1989).
A soma do número de colheitas a efectuar nos vários grupos será igual ao número total de colheitas a realizar anualmente no município (DGQA, 1989).
Factores influenciadores
Esta metodologia refere que a caracterização dos RSU varia, nomeadamente com o tipo de ocupação dominante na zona de origem e, dentro de cada zona, conforme o período do ano
(e.g. estação do ano, épocas festivas, época de maior actividade para certas indústrias) (DGQA, 1989).
Duração de uma campanha individual de análise de resíduos
Nesta metodologia a duração da campanha individual, tanto de caracterização, como de quantificação de RSU, é de uma semana. Relativamente à calendarização, é referido que a colheita de resíduos para amostra deve ser efectuada durante as terceiras semanas de Janeiro, Abril, Julho e Outubro. Num município rural apenas durante as terceiras semanas de Janeiro e Julho (DGQA, 1989).
Para um município em que, num dado ano, alguma destas semanas incluir dias feriados deve-se optar por realizar a colheita na semana imediatamente anterior ou seguinte (ou seja, respectivamente na segunda ou quarta semana do mês) (DGQA, 1989).
Recolha da amostra
A recolha da amostra é feita num circuito seleccionado que se considere representativo do grupo de circuitos de recolha similares. No planeamento da recolha da amostra deve-se ter presente o seguinte (DGQA, 1989):
- os dias da semana em que se efectuam os circuitos representativos de cada grupo (para não agendar a colheita de resíduos num circuito num dia da semana em que este não se realize);
- procurar que em cada grupo se realize a colheita de resíduos para amostra em dias da semana e em semanas diferentes;
- evitar agendar mais do que uma colheita de resíduos no mesmo dia.
A colheita realiza-se antes da passagem de rotina do veículo de recolha e mediante o despejo de uma série de recipientes depositados ao longo do circuito, para o veículo destinado previamente a esta operação (DGQA, 1989).
A quantidade de resíduos recolhidos para amostra pode variar entre 2 a 3.5 toneladas. Esta quantidade deve ser obtida ao longo de toda a extensão do circuito do seguinte modo (DGQA, 1989):
- se para a recolha de resíduos está prevista a realização de apenas uma volta no circuito, colher o conteúdo de recipientes alternados;
- se está prevista a realização de duas voltas colher o conteúdo de um recipiente por cada quatro recipientes depositados ao longo do circuito;
- se está prevista a realização de três voltas colher o conteúdo de um recipiente por cada seis recipientes depositados ao longo do circuito.
Esta metodologia recomenda a pesagem do veículo antes e depois da colheita dos resíduos, de modo a verificar se a quantidade obtida se afasta ou mantêm no intervalo
Preparação da amostra
Em seguida descreve-se o modo de preparação da amostra, conforme indicado na metodologia em apreço (ver Figura IV.1.1):
- misturar os resíduos com a pá carregadora, efectuando diversos revolvimentos. Seguidamente espalhar os resíduos de forma a constituir um “disco” grosseiro com uma altura até 50 centímetros. Dividir este “disco” em quatro partes, sensivelmente iguais e rejeitar dois quartos opostos. Misturar os quartos restantes. Repetir uma vez esta sequência de operações(DGQA, 1989);
- da quantidade de resíduos restante encher, sem transbordar, os recipientes destinados à determinação da massa volúmica (recipientes numerados), não comprimindo e agitando de vez em quando. O conteúdo destes recipientes representa a amostra de resíduos a analisar (DGQA, 1989).
Triagem e análise das amostras
Esta metodologia aconselha a análise da amostra logo que possível. Caso de trate de um circuito nocturno, deixar os resíduos no veículo até ao momento da análise ou descarregar o veículo no local destinado à mistura dos resíduos e tapá-los com uma cobertura plástica (DGQA, 1989).
Os componentes a considerar na determinação da composição física são papel/cartão, vidro, plástico, metais ferrosos, metais não ferrosos, materiais fermentáveis, têxteis e finos (resíduos de dimensões inferiores a 20 mm) (DGQA, 1989).
Devem ser identificados os recipientes para colocação dos componentes separados, registando em cada um a respectiva tara e o nome do componente a que se destina. Para os componentes materiais fermentáveis, plástico e papel/cartão é aconselhável reservar mais do que um recipiente, atendendo às quantidades previstas. Esta medida evita interromper a operação de separação dos componentes, para efectuar a pesagem e despejo dos recipientes com capacidade esgotada (DGQA, 1989).
Relativamente ao procedimento de triagem, esta metodologia refere os seguintes passos (DGQA, 1989):
- colocar o crivo sobre o oleado a cerca de 80 cm de altura; - despejar aos poucos o conteúdo dos recipientes sobre o crivo;
- separar os resíduos da unidade de amostragem segundo os vários componentes e colocá- los nos recipientes marcados com a respectiva designação;
- sacudir de vez em quando, o crivo para facilitar a passagem dos finos (resíduos com dimensões inferiores a 20 mm) através da malha;
- quando terminada a separação, colocar a fracção finos no respectivo recipiente. Pesar os vários recipientes e anotar os valores no boletim de análise (ver Figura IV.1.2).
Durante a separação dos componentes dos resíduos põem-se por vezes dúvidas relativamente à classe a que pertencem determinados elementos. Assim, sugere-se a colocação das fraldas descartáveis e das ECAL no papel/cartão, a esferovite no plástico, os animais mortos nos materiais fermentáveis e a utilização de um íman para distinguir um metal ferroso de um não ferroso. Nos municípios em que as quantidades das embalagens compósitas se for tornando importante, sugere-se que estas sejam separadas para um recipiente próprio e feita a sua quantificação (DGQA, 1989).
Contaminação e teor de humidade Não são referidos.
Apresentação dos dados
No que diz respeito à campanha de caracterização, os dados a apresentar incluem (DGQA, 1989):
1. Massa volúmica da amostra, por análise, dada pela expressão:
=
V R
P − (20)
em que:
- massa volúmica dos resíduos (kg/m3);
P - soma dos pesos dos recipientes cheios (kg/m3);
R - soma dos pesos dos recipientes vazios (kg/m3);
V - soma dos volumes dos recipientes (m3).
2. Composição física da amostra, por componente, por análise, em percentagem do peso total, através da seguinte expressão:
Ci = A B T K − − x 100 (21) em que:
Ci - peso do componente i em percentagem do peso total da amostra (%);
K - soma do peso dos recipientes contendo o componente i (kg); T - soma do peso desses recipientes vazios (kg);
B - soma dos pesos de todos os recipientes com componentes (kg); A - soma dos pesos de todos os recipientes vazios (kg).
3. Valor médio de massa volúmica dos RSU recolhidos num ano no município, pela expressão:
Y =
G F
em que:
Y - valor médio de massa volúmica dos RSU recolhidos num ano no município (kg/m3);
F - soma dos valores de massa volúmica obtidos nas várias amostras (kg/m3);
G - número de amostras analisadas no ano de campanha.
4. Composição física média dos RSU recolhidos num ano no município, segundo os vários componentes, em percentagem do peso total, pela expressão:
Xi =
G Hi
(23)
em que:
Xi - percentagem média do componente i nos resíduos (%);
Hi - soma das percentagens em que ocorreu o componente i nas várias amostras;
G - número de amostras analisadas no ano de campanha. Aplicação informática
Não inclui aplicação informática. Quantificação
É apresentada uma metodologia específica para a quantificação de resíduos, recomendada caso a quantidade (em peso) de RSU recolhidos anualmente num município não possa ser determinada, de um modo preciso, mediante a pesagem ao longo do ano da totalidade dos resíduos recolhidos (DGQA, 1989).
Neste caso, é recomendada a realização de uma série limitada de pesagens ao longo do ano para, com base nestes valores, estimar a quantidade de resíduos recolhidos anualmente, no município (DGQA, 1989).
No que diz respeito à frequência das pesagens, nos municípios urbanos pesam-se os resíduos recolhidos durante uma semana em cada dois meses. Nos municípios rurais (não constituídos em associação) reduz-se a frequência das pesagens para uma semana em cada estação do ano (DGQA, 1989).
Esta metodologia refere que se devem seleccionar semanas em diferentes períodos do mês (início, meio e final do mês) e evitar semanas com feriados (DGQA, 1989).
Durante as semanas marcadas na calendarização da campanha pesam-se todos os veículos de recolha de resíduos após cada volta, anotando os valores no boletim de pesagens (DGQA, 1989) (ver Figura IV.1.3).
Esta metodologia apresenta ainda a forma de cálculo da quantidade de RSU recolhidos anualmente, pela expressão:
U=
N S
7 Z (21)
em que:
U – quantidade de RSU recolhidos anualmente (t/ano);
S – soma da quantidade de resíduos recolhidos nas semanas de pesagem (t); N – número de semanas com pesagens;
Z – número de dias do ano. Meios materiais e humanos
No que diz respeito à campanha de caracterização, os meios humanos especificados nesta metodologia são os seguintes (DGQA, 1989):
- 1 responsável pela campanha com funções que incluem a preparação da campanha, a coordenação dos meios, a formação dos cantoneiros e as determinações da massa volúmica e da composição física dos resíduos;
- 1 motorista e 2 cantoneiros para a colheita de resíduos para amostra; - 4 cantoneiros para a separação por componentes dos resíduos da amostra.
Relativamente aos meios materiais, na mesma campanha, estes são os seguintes (DGQA, 1989):
- veículo de recolha para a colheita de resíduos para amostra;
- local pavimentado e suficientemente amplo de modo a facilitar a mistura dos resíduos; - local abrigado, arejado e bem iluminado adequado para a operação de separação dos componentes;
- pá carregadora para mistura dos resíduos; - pás para manejo dos resíduos;
- recipientes de capacidade conhecida perfazendo no conjunto cerca de 1 m3, para
determinação da massa volúmica;
- crivo de 2 m x 1 m, em rede metálica, com malha de 20 mm x 20 mm; - oleado grosso de 4 m x 3 m;
- recipientes para colocação dos vários componentes no total de 14; - balança com estrado com capacidade de cerca de 200 kg;
- material de protecção do pessoal compreendendo fatos-macaco, máscaras, luvas grossas e botas de borracha;
No que concerne à campanha de quantificação, os meios humanos e materiais necessários, e indicados em DGQA (1989), são os seguintes:
- 1 responsável pela campanha com funções que incluem a preparação da campanha, a coordenação dos meios, o controlo das pesagens e a estimativa da quantidade de resíduos recolhidos anualmente;
- 1 operador de báscula para efectuar as pesagens e anotar os valores; - 1 báscula para pesagem dos veículos de recolha;
- boletim de pesagens (ver Figura IV.1.3). Saúde e segurança
Não são referidas. Custos
Não são referidos