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CAPÍTULO III – DISCURSO, CULTURA, IDENTIDADE

1 Análise dos dados extraídos dos questionários

1.1 Representações sociais do Brasil

1.1.1 Aspectos culturais representativos do Brasil

Como dissemos anteriormente, a classe temática dos Aspectos culturais é a que contém maior número de unidades temáticas utilizadas pelos informantes para a elaboração de uma imagem do Brasil. Nela se encontram 43,78%do total das unidades temáticas

95 contabilizadas para a amostra. As categorias que compõem essa classe dão conta dos aspectos que embasam uma imagem representativa do Brasil no tocante a sua expressão cultural. As frequências das unidades temáticas registradas nas subcategorias demonstram sua produtividade como representações sociais para o Brasil, como podemos observar na tabela 2 a seguir.

Tabela 2: Classe temática: Aspectos culturais

Categorias % Subcategorias f % Manifestações artísticas Dança 20 46,51 29,05 Música 12 27,90 Samba 11 25,58 Total 43 100 Manifestações populares Carnaval 22 56,41 26,35 Festa 13 33,33 Festivais 4 10,25 Total 39 100 Esportes 27,02 Futebol 33 82,5 Capoeira 7 17,5 Total 40 100 Diversidade e riqueza cultural 10,13 15 Total 15 100 Língua portuguesa 2,7 4 Total 4 100 Vestuário 2,7 4 Total 4 100 Religião Católica 2 3 Total 3 100 Total 100% 148 100

A categoria mais numerosa da classe temática é Manifestações artísticas, com 43 UTs. As subcategorias dança e música são as formas de arte que representam a imagem do país nesse aspecto. Como ritmo em particular, é feita referência ao samba através de 11

96 UTs. Mello (1997) explica que o samba foi eleito o estilo musical para definir a identidade musical brasileira, isso porque representava o mito da origem mestiça do país36. Segundo a

autora, a projeção do samba como ritmo nacional é o resultado de um conjunto de fatores históricos. Dentre eles, o fato de ter-se difundido no Rio de Janeiro, então capital do Brasil, onde o rádio e o mercado fonográfico se desenvolviam rapidamente, o que tornou a cidade espaço de elaboração e de difusão cultural para todo o país. Ao mesmo tempo havia um projeto político do Estado brasileiro objetivando a construção de uma identidade nacional para transformar o samba no ritmo representante da tradição cultural da nação. O período histórico em que isso acontece são os anos 30, e sob o Estado Novo, quando “o aparelho estatal encontra-se associado à expansão da rede das instituições culturais” (ORTIZ, 2003, p. 80). Podemos identificar nesse projeto o exemplo do que Hall (2005, p.52) define como sendo uma estratégia para a construção de uma identidade nacional: trata-se da narração da nação, “[...] tal como é contada e recontada nas histórias e nas literaturas nacionais, na mídia e na cultura popular”.

Os elementos dessa narração, difundindo as experiências vividas e partilhadas pelos indivíduos no grupo, terminam por elevá-las ao status de símbolo de uma nacionalidade. E assim o samba assume a imagem da identidade cultural do Brasil, apesar da ideia cada vez mais difundida da abundante diversidade de sons e ritmos que predominam no país.

A análise das expressões artísticas que compõem a categoria das Manifestações artísticas revela ainda a ausência de outras formas de expressão artística que poderiam constar como representações sociais nos comentários dos informantes. Tal fato denota que a representação social do Brasil em se tratando de arte está mesmo fortemente associada à música e à dança, sendo o samba o único estilo musical citado pelos informantes.

Dando sequência às Manifestações artísticas, está a categoria Manifestações populares, com 39 UTs, na qual estão agrupadas as unidades temáticas referentes aos temas do carnaval, 22 UTs, das festas, 13 UTs, dos festivais, 04 UTs. O carnaval, como manifestação singular, destaca-se como representação social, tendo em vista sua frequência bem superior em relação às subcategorias festas e festivais, termos generalizantes que abarcam a totalidade das manifestações populares. Se consideramos dança, música, festa, carnaval, festival, como fazendo parte de um grande campo semântico, percebemos uma

36 Segundo Mello (1997, p. 16), o samba é resultado de diferentes influências rítmicas e musicais e

97 representação social do país ancorada na cultura da festa, como a que lemos nos comentários dos informantes transcritos a seguir.

Um país onde a música e a dança dão o ritmo à vida cotidiana. Para mim o Brasil está ligado ao samba (música, dança)

Complementando o quadro das categorias mais numerosas da classe temática dos Aspectos culturais, a categoria Esportes aparece como a segunda mais numerosa, 40 UTs, com praticamente a mesma quantidade de unidades que apresenta a categoria das Manifestações artísticas, com 43 UTs, e das Manifestações populares, com 39 UTs. Das 40 UTs, 33 dizem respeito à subcategoria Futebol. Em um trabalho centrado na análise de textos de comentaristas brasileiros de futebol, produzidos durante as copas do mundo de 1994, 1998 e 2002, Marques (2008) constata que a imprensa nacional supervaloriza a atuação brasileira nesse esporte, ao mesmo tempo em que desvaloriza a atuação dos times estrangeiros. Vemos então se repetir a estratégia anteriormente mencionada de edificação de uma identidade nacional, “a narrativa da nação” (HALL, 2005, p.52). A esse respeito, Ortiz (2003, p. 41) comenta que o futebol, como o carnaval, enquanto grandes eventos populares representam momentos de celebração da mestiçagem símbolo da identidade nacional. Como veremos adiante, no item 1.3, a mestiçagem configura também uma forma de representação social dos brasileiros para nossos informantes.

A subcategoria futebol responde por 82,5% das unidades temáticas que compõem a categoria Esportes. Até mesmo nomes de jogadores que fazem parte da seleção brasileira encontram-se citados nos comentários dos informantes. A outra subcategoria dos Esportes é a Capoeira. Considerando que ela possui uma forte conotação cultural, porque ligada a uma herança étnica, podemos afirmar que o futebol predomina de fato como elemento de representação social do país no campo esportivo, como indicam os dados quantitativos. Também para essa categoria marcamos a ausência de citação a outros esportes que poderiam figurar entre os comentários dos informantes, como representações sociais do Brasil nesse campo.

A categoria Diversidade e riqueza cultural foi definida a partir da citação de expressões nos comentários dos informantes como “país muito rico culturalmente”; “mistura de culturas”, “país multicultural”. São unidades temáticas que reforçam a construção de uma representação social do Brasil com base no aspecto cultural.

98 Quantitativamente, a ocorrência elevada de unidades temáticas para essa categoria, 15 UTs, expressa um reconhecimento do Brasil como um país múltiplo culturalmente, estando mesmo a ideia de pluralidade cultural já difundida no meio social, especialmente o acadêmico. No comentário a seguir, a ideia de heterogeneidade cultural é expressa por Berenblum (2003, p. 98) nos seguintes termos

toda cultura é, em si mesma, heterogênea (da mesma forma em que o é toda língua e toda variedade de qualquer língua), o que levaria alguns autores (SMITH, 1994, por exemplo) a afirmarem a impossibilidade de se referir a uma cultura global no singular. Não se trataria de uma cultura comum da qual nos apropriaríamos todos por igual; seu caráter heterogêneo se deveria à diversidade e desigualdade culturais dos diferentes grupos entre si, das diversas nações entre si, dos sujeitos e subjetividades entre si.

As respostas dos informantes ao questionário remetem para essa ideia de heterogeneidade, mas de fato o que é demonstrado com a predominância das categorias presentes na tabela acima é que o conhecimento sobre os aspectos culturais do Brasil se resume àqueles já reconhecidos como estereótipos da nação, como poderemos verificar nos trabalhos de autores citados adiante.

Fechando a classe temática dos aspectos culturais encontram-se referências à Língua portuguesa, com 4 UTs, ao Vestuário, também com 4 UTs, e à Religião católica, com 03 UTs. Quantitativamente, essas categorias não possuem a expressividade das anteriores, pois apresentam uma baixa frequência de unidades temáticas, representando juntas apenas 7,4% do total da classe temática, mas cada uma apresentou no mínimo três UTs, o que é suficiente para sua identificação como uma representação social.

Na categoria Vestuário foram incluídas unidades temáticas que se referem a trajes de banho, com duas ocorrências para o termo “biquíni”. Assim, consideramos que vestuário se associa à subcategoria “praia”, incluída na classe dos Aspectos físicos e naturais, apresentadas adiante. A representação do biquíni como peça representativa do vestuário brasileiro pode estar associada à publicidade produzida para o turismo que apresenta a mulher brasileira quase sempre de biquíni. Pode-se comprovar o uso excessivo dessa imagem da mulher brasileira em trabalho de Alfonso (2006), em que a autora analisa mensagens publicitárias sobre o Brasil. Como exemplo, cita uma campanha em que, para divulgar os estados brasileiros em Paris, o Rio de Janeiro foi apresentado com a “vitrine BUMBUM/BIQUÍNIS”, num cenário de praia (ALFONSO, 2006, p. 121). Também o Rio de Janeiro aparece em nossos dados como a cidade que representa o Brasil no imaginário

99 francês dos estudantes universitários, como constatamos ao categorizar as unidades temáticas da classe dos aspectos físicos e naturais do país, item 1.1.2.

Quanto às categorias Língua portuguesa e Religião católica, interpretamos sua presença como um reconhecimento de símbolos representativos da nação ligada a uma memória da ação “civilizatória” da colonização europeia, particularmente portuguesa, e que instituiu a unidade religiosa e linguística como herança de nossa identidade nacional. Historicamente, como observa Charaudeau (2001, p. 342), e como já discutido aqui sobre o processo de implantação da ideia de identidade nacional,

au XIXe siècle, la formule «une langue, un peuple, une nation» a contribué, à la fois, à la délimitation de territoires nationaux et au déclenchement de conflits pour la défense ou l’appropriation de ces territoires, aidant ainsi à la création d’une «conscience nationale»37.

A língua é considerada símbolo nacional, como atesta nossa constituição no artigo 13 sobre a nacionalidade: “Art. 13. A língua portuguesa é o idioma oficial da República Federativa do Brasil” (BRASIL, 2011). Dessa forma, como afirma Orlandi (2008, p. 184), “a língua, enquanto idioma oficial, está vinculada à idéia de país, de pátria, de povo. E assim quer a tradição, que a língua seja critério para se ter reconhecida uma identidade nacional, cultural”. E ainda que outras línguas sejam reconhecidas como fazendo parte da nossa cultura, não se pode deixar de assinalar que a representação de um país continental com uma população falante de uma única língua revela um traço do processo de homogeneização cultural a que se submete o país. Processo que Mattos e Silva (2010, p. 17) expressa nos seguintes termos:

embora oficialmente ainda seja definido como uma nação monolingue, por não reconhecer-se que com o português, língua majoritária, como se vê, incontestavelmente, convivem cerca de 170 línguas indígenas, as línguas brasileiras autóctones, identificadoras de mais de 180 nações indígenas, com uma população de mais de 220000 índios que sobreviveram e sobrevivem ao processo etnocida e glotocida, que desde o século XVI segue e persegue o avanço da língua portuguesa. Um dos instrumentos da colonização portuguesa no passado é hoje um dos instrumentos de dominação dos segmentos que detêm o poder na sociedade brasileira. O processo quinhentista persiste, a ideologia da homogeneização cultural e linguística também, mudados apenas os senhores.

37no século XIX, a fórmula «uma língua, um povo, uma nação» contribuiu, ao mesmo tempo, para a

delimitação de territórios nacionais e para a deflagração de conflitos pela defesa ou apropriação desses territórios, contribuindo assim para a criação de uma «consciência nacional».

100 Como expressão ainda de homogeneização, junta-se a representação social de uma identidade religiosa da nação como católica. O que revela mais uma vez o processo de “esquecimento”, dessa vez das outras religiões que convivem no território, como as dos imigrantes que professam sua religião de origem, e também principalmente, das religiões trazidas pelos africanos e que estão nas raízes da formação do povo brasileiro. Como fenômeno recente e marcante da religiosidade brasileira, é preciso destacar a presença cada vez mais numerosa de adeptos do protestantismo no Brasil. O que indica que também nesse campo é impossível falar de uma “identidade católica do brasileiro”. Como afirma Chianca (2001, p. 76),

la réligion a également été “reculturée”... Les Brésiliens côtoient, d’une mainière génerale, le païen et le chrétien, la religion catholique et les religions d’origine africaine, telles que le candomblé et la macumba… Il s’est donc produit, dans le domaine religieux, des phénomènes de métissage38.

Reafirmamos em nossa análise dos dados categorizados até aqui, que os participantes da pesquisa reconheceram por meio de 15 UTs da categoria Diversidade e riqueza cultural, a realidade da cultura brasileira como heterogênea, visto ser mesmo já um consenso a ideia da heterogeneidade cultural, mas não expressam essa heterogeneidade por meio dos elementos que são de fato constitutivos dessa cultura heterogênea. Os participantes da pesquisa atem-se, em suas respostas ao questionário, aos já tradicionalmente elementos representativos dessa cultura e que atuam como estereótipos da identidade nacional, como discutiremos ainda a seguir.