CAPÍTULO III – DISCURSO, CULTURA, IDENTIDADE
1 Análise dos dados extraídos dos questionários
1.2 Representações sociais dos brasileiros
1.2.2 Identidade étnica
Agrupamos sob a designação Identidade étnica os termos empregados pelos informantes quando se referem às etnias que indicam estar na base da formação da população brasileira, bem como ao resultado dessa formação que é a mestiçagem. Utilizamos o conceito de etnicidade com base no que explica Cardoso (2000, p.8), ao situá- lo no campo das ciências sociais modernas, para tratar de “nacionalidades inseridas no espaçode um Estado-nação”.
Sendo assim, são duas as categorias que vemos compor essa classe temática da Identidade étnica, Mestiçagem e Etnias formadoras do povo brasileiro, discutidas a seguir.
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Tabela 7: Classe temática: Identidade étnica
Categorias Nº de Uts %
Mestiçagem 16 69,56
Etnias formadoras do povo Brasileiro
07 30,43
Total: 23 100
A categoria mestiçagem é predominante, representando 69,56% da classe temática, mas juntamente com Etnias formadoras do povo brasileiro, remete para a declarada formação do povo brasileiro a partir da multiplicidade de etnias, portanto, de culturas. Somos marcados, como declaram os estudiosos de nossa cultura, pelo processo de miscigenação, e assim somos reconhecidos pelos outros, a exemplo de nossos informantes que utilizaram termos como “mestiçagem”, “mistura”, “sociedade multiétnica”, “morenos”, para se referirem ao resultado do processo de mestiçagem, e aos termos “brancos”, “negros” e “índios” para citar as etnias que participaram desse processo.
Para DaMatta (1986, p. 46), é esse “triângulo racial que impede uma visão histórica e social da nossa formação como sociedade”. Tal forma de representação revela, de fato, o desconhecimento de que somos etnicamente plurais e, portanto, não temos todos o mesmo tom de pele, como faz sugerir a quantidade de 6 UTs para o termo “morenos”. Nesse sentido, observamos mais uma vez uma representação que se estabelece em direção à homogeneização.
O conhecimento histórico dos diversos movimentos imigratórios que ocorreram no país resulta na crítica apropriada à ideia de mestiçagem como até hoje configurada pelo discurso nacional. Como explica Ortiz (2003, p. 43), “a construção de uma identidade nacional mestiça deixa ainda mais difícil o discernimento entre as fronteiras de cor”. De forma que se percebe a necessidade de se repensar a ideia de mestiçagem. Do modo como está posta ela serve para apagar as diferenças, sobrepõe-se a ideia de que nós brasileiros somos todos iguais, de cor morena. Pautando-se por esse padrão a identidade nacional brasileira, fica claro que as diferentes identidades étnicas não tem espaço de expressão nesse conceito. Machado (2003, p. 255) aponta a que serve a ideia de mestiçagem como ela é formulada pelo discurso oficial: “no Brasil, a ideologia da mestiçagem é uma estratégia ambígua que flexibiliza as classificações raciais e disfarça o profundo racismo”. Chauí (2010, p. 27) enfatiza que a ideia de mestiçagem “permite construir a imagem de uma totalidade social homogênea”, servindo perfeitamente bem, portanto, à ideia de nação.
116 Como contraponto à perspectiva hegemônica que parece prevalecer, merece destaque o comentário a seguir de um informante, pela compreensão que demonstra ter da sociedade brasileira
sociedade multiétnica, os brasileiros que conheci na Europa são quase todos brancos, sorridentes, calorosos.
Uma possibilidade de análise desse discurso aponta para o reconhecimento da realidade social estratificada em função das etnias. Um conhecimento possivelmente elaborado nos domínios da academia, não só de uma realidade etnicamente diversa, mas também estratificada. Fica sinalizado por parte do informante, assim demonstrando seu conhecimento acerca da sociedade brasileira, multiétnica, o reconhecimento de uma etnia que contrasta com outras. Emerge a constatação de que há brancos, assim reconhecidos por seus traços físicos e cor da pele, o que se contrapõe ao discurso oficial da mestiçagem que nega a presença de diversas etnias que constituem o povo brasileiro e que dificulta a explicação das diferenças de classe, sociais, culturais, que se estabelecem simultaneamente às diferenças étnicas, tão caras à discussão teórica da pós-modernidade, como a dos estudos culturais. Quando não se reconhece a pluralidade, o que ocorre no senso comum, prevalece a representação social do brasileiro como a que obtemos em nossos dados, a representação social estereotipada como a que vemos no comentário
pessoas de pele ‘morena’ que riem todo o tempo, que dançam o samba na praia com os amigos e um coquetel na mão!
Essa é a síntese da imagem positiva do mulato brasileiro resultante do processo de miscigenação das três raças, uma “categoria que existe de fato e de direito na ideologia social da sociedade e se legitima precisamente por instituir o intermediário e a síntese do opostos como algo positivo” (DAMATTA, 1986, p. 42). A reincidência dessa imagem que tem perpassado diferentes discursos, como vimos, é que faz com que se produza um discurso sobre o que é ser brasileiro. Segundo Orlandi (2008, p.21), nesse caso os discursos históricos somem para dar lugar aos discursos da cultura e assim,
como efeito desse apagamento, a cultura resulta em “exotismo”. Paralelamente, apagam-se as razões políticas, que se apresentam então como um discurso moral, de apreciação: o brasileiro é julgado por suas
117 “qualidades”; ele aparece como superficial e, lógico, folgazão, indolente e sensual.
Através do percurso de categorização dos dados, da discussão e apresentação de pontos de vista de teóricos que tem se preocupado em desvendar o que significa ser brasileiro, pudemos identificar as representações sociais subjacentes à amostra desse trabalho. E se pudemos apreendê-las na materialidade linguística de comentários escritos através de uma Análise de Conteúdo Temática, é porque as representações sociais estão materializadas de fato no discurso, através da língua. Assim se ancoram nos discursos passados para serem objetivadas em discursos do presente, formando as bases para novas representações com as quais vão compartilhar um mesmo espaço e tempo.