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3.1 Aspectos do Debate Agroecológico no Brasil

O debate agroecológico no Brasil e em alguns países tem como uma de suas características mais significativas a enorme diversidade de atores e sujeitos sociais que se dedicam a construção do conhecimento agroecológico. São inúmeros os sujeitos que integram esse “movimento”, entretanto, aqui estão se considerando os atores mais relevantes para o desenvolvimento da agroecologia junto aos agricultores familiares. No dizer de Araújo (2011) o desenvolvimento da agroecologia no Brasil traz no seu contexto histórico elementos de formação de um fórum nacional que articula diversas instituições e segmentos que tem como característica principal a representação dos movimentos sociais do campo, bem como de organizações de agricultores familiares adeptos das iniciativas agroecológicas em várias regiões. Devido a sua grande diversidade de atores, o debate

21 Em resumo, a agroecologia no Brasil foi primeiro um movimento para o desenvolvimento rural e os

aspectos ambientais na agricultura. Isso estimulou a busca de práticas alternativas, agora mais frequentemente chamadas práticas agroecológicas, que foram também relacionadas com a dinâmica da agricultura orgânica (Tradução Livre).

agroecológico consegue congregar inúmeros movimentos com identidades sócio-culturais bastante singulares, que, entretanto, não deixam de possuir objetivos comuns à temática agroecológica.

O desenvolvimento da agroecologia no país tem suas bases também na articulação e emergências de alguns movimentos sociais. Paralelo a esse fator surgem “formas inovadoras de gestão técnica dos ecossistemas, apoiadas em técnicas que valorizam os recursos locais e que garantem autonomia econômica, preservando meio ambiente e saúde de produtores e consumidores” (ARAÚJO, 2011, p. 30).

No dizer de Petersen & Almeida (2004) e Luzzi (2007), a agroecologia enquanto expressão nacional de vários atores e sujeitos sociais dedicados à agricultura familiar se configura como um movimento articulado através de redes no qual os processos locais e regionais estão direcionados para a inovação agroecológica.

Nas últimas décadas, a construção do conhecimento agroecológico no Brasil vem ganhando dimensão, como já discutido anteriormente, entretanto essa maior expressividade deve-se a incorporação de outras temáticas no núcleo do movimento agroecológico. Segundo Luzzi (2007) inicialmente a agroecologia defendia a diversificação de culturas e o uso racional dos recursos naturais, bem como a sua otimização através da produção mais equilibrada e harmoniosa com o meio ambiente. Com isso, foram sendo incorporadas outras questões relevantes e comuns aos movimentos e organizações sociais, seja de ordem técnica e/ou política.

Nesse contexto alguns movimentos sociais como Movimento dos Sem Terras (MST), Quilombolas, Agricultores Familiares, Marchas das Margaridas (2006), Indígenas dentre muitos outros passam a identificar na agroecologia um caminho alternativo para visualização e fortalecimento de suas reivindicações. “Trata-se, ao mesmo tempo, de um projeto concreto e também de uma proposta de transformação simbólica e cultural” (MAFRA, 2004, p. 8). Sendo assim, o desenvolvimento da agroecologia no Brasil não se limitou e não se limita ao diagnóstico de tecnologias alternativas, embora de início o trabalho desenvolvido por diversas Organizações Não Governamentais nessa linha tenha estimulado bastante a construção do conhecimento agroecológico no país.

Nesse sentido, pode-se dizer que a agroecologia no Brasil vai muito além de uma prática, ciência, técnica ou movimento; ela se constitui enquanto uma proposta de transformação política. Entretanto, suas várias dimensões não se encontram isoladas, pelo contrário, estão sempre interligadas e fazem parte de um processo maior de identificação

coletiva de agricultores que se unem em redes territorializantes de modo a se tornarem mais fortes em meio a uma região hegemonizada pela grande lavoura.

3.1.1 As Contribuições do PTA/FASE

Apesar de não ter sido criada com o objetivo em trabalhar com o desenvolvimento de agricultura alternativa ou de base ecológica, a ideia original do Projeto Tecnologias Alternativas (PTA)/Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE) era apoiar a luta dos trabalhadores rurais e sua permanência no campo. Segundo Luzzi (2007) a criação de redes de intercâmbio com a finalidade de facilitar a circulação de informações sobre agricultura alternativa estava sendo disseminada em alguns estados do Brasil. A finalidade dessa ação era a criação de uma rede de articulação para “troca de informação, intercâmbio e ajuda mútua” (LUZZI, op cit., p. 42), com esse procedimento pretendia-se articular diversas organizações de agricultores, movimentos populares, sujeitos e atores sociais empenhados na construção e promoção de tecnologias alternativas para agricultura familiar.

O PTA teve papel importante no crescimento de ONGs dedicadas ao trabalho com tecnologias alternativas na produção familiar. “A terminologia „agroecologia‟ foi introduzida no Brasil fruto de contatos estabelecidos entre a coordenação do PTA/FASE com representantes de outras experiências de agricultura alternativa na América Latina” (LUZZI, op cit, p. 62). Com isso começa a se pensar em alternativas agrícolas opostas ao padrão tecnicista do campo.

A realização do I Encontro Nacional de Agroecologia (ENA) em 2002 no Rio de Janeiro foi um marco referencial no debate do tema no Brasil. A diversidade de atores e sujeitos sociais presentes no encontro possibilitou colocar no centro da discussão o agricultor familiar juntamente com suas iniciativas concretas de promoção da agroecologia. “Ele exprimiu, pela primeira vez em escala nacional, a riqueza e a diversidade das experiências em agroecologia existentes em diferentes partes do Brasil” (Idem, p. 74). O referido evento permitiu a visibilidade das iniciativas agroecológicas que vinham sendo desenvolvidas por vários agricultores, além de estimular a articulação entre os mesmos como forma de fortalecimento e intercâmbio.

Nos anos 2000, a partir de vários debates e realização de eventos nacionais com destaque para o I Encontro Nacional de Agroecologia (ENA), em 2002, no Rio de Janeiro, o qual deliberou pela criação da ANA e pelo fortalecimento das redes regionais e estaduais já existentes. A ANA surge, portanto, num momento de forte mobilização das organizações sociais do campo agroecológico que envolve não só ONGs e pastorais de Igreja Católica, mas também as representações dos

movimentos de luta pela terra, que inclusive integraram a comissão de realização do I ENA (ARAÚJO, 2011, p. 32).

A Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) articula “uma diversidade enorme de organizações não governamentais, movimentos sociais rurais e redes regionais de promoção de agroecologia” (LUZZI, op. cit., p. 75). Essa heterogeneidade de atores e sujeitos sociais que compõem a ANA faz dela uma rede de articulação e mobilização de alguns setores da sociedade envolvidos com a promoção da agroecologia. Em escala nacional essa organização ganha espaço através dos debates com diferentes dimensões do desenvolvimento da agroecologia.

Além da articulação nacional de agroecologia, foram criadas neste mesmo período diversas redes e articulações estaduais e regionais de promoção da agroecologia. Com exceção da Rede Ecovida de Agroecologia e da Articulação do Semi-Árido (ASA), que foram criadas no final da década de 90, as demais foram criadas após o I ENA, destacando-se: ANA-Amazônia, Grupo de Trabalho Amazônico, Articulação Capixaba de Agroecologia, Articulação Mineira de Agroecologia, Rede Cerrado e Rede ATER Nordeste. Algumas redes possuem uma dimensão mais ampla, trabalhando também com outras temáticas e interesses regionais e todas são vinculadas à ANA (Idem.).

Por outro lado a partir de 2003 os agentes sociais empenhados com a promoção e construção do conhecimento agroecológico começaram a planejar anualmente o Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA). Esse evento é promovido por instituições de ensino, pesquisa e extensão rural (públicas e privadas). “Os CBAs são derivados dos Seminários Estaduais de Agroecologia realizados pela Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural – Rio Grande do Sul (EMATER/RS - 1999-2002) e constituem espaços preferenciais para apresentação e debate de trabalhos científicos sobre agroecologia” (Idem, p. 76).

Em 2004 foi aprovada a criação da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA). Esta entidade é uma sociedade sem fins lucrativos, mas com o objetivo de estimular a produção do conhecimento técnico- científico e cultural. No dizer de Luzzi (2007) a influência da ABA na elaboração de políticas públicas a nível federal, estadual e local demonstra a dimensão da construção do conhecimento agroecológico no Brasil, que por sua vez, vem ganhando visibilidade e reconhecimento.

Todo esse processo de construção de redes de articulação na esfera federal, estadual e municipal facilitou a parceria com outras organizações e movimentos sociais. A influência das ONGs dedicadas à promoção da agroecologia e do desenvolvimento rural no Brasil ganhou expressividade com a elaboração de políticas pública, principalmente no âmbito do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA).