Mapa 08 – Perfis Topográficos das Áreas da Pesquisa
2.7 Identidade Territorial Rural e Territorialidades Alternativas
Para proporcionar o desenvolvimento territorial rural em propriedades familiares, ao mesmo tempo preservando seus costumes e tradições, não basta analisar o território sob a ótica da identidade cultural dos agricultores, ou seja, temos que levar em consideração,
como dito anteriormente, a relação que estes agricultores estabelecem com os demais grupos e as atividades que estes desenvolvem em seus territórios de produção. “Por meio da produção de alimentos tradicionais, o produtor rural de pequeno porte pode afastar-se da marginalização social, pois a identidade cultural, presente nos produtos locais e regionais pode emancipá-los economicamente e orientá-los” (ZUIN e ZUIN, 2008, p. 31).
De forma análoga, produtos cultivados por métodos alternativos podem produzir efeito comparável. As estratégias de produção familiar agroecológica adotadas por estes agricultores atribuem ao produto de seu trabalho um valor agregado:
Produzindo alimentos tradicionais o produtor rural resgata e constrói a sua identidade e memória, pois a sua arte é a expressão de sua cultura em torno de suas relações sociais e educativas que vivencia. O reconhecimento dessa arte, pelo mercado consumidor, faz com que esses agricultores sintam-se mais valorizados pelo trabalho realizado, daí a importância de se produzir esse tipo de alimento (Idem, p. 30).
Atualmente existe um interesse bastante amplo em relação às estratégias de produção agroecológica em propriedades familiares. Alguns pesquisadores e estudiosos chegam a referir-se a esse tipo de estratégia como “modismo de mercado”; no entanto, há indícios de que realmente sejam possibilidades de desenvolvimento territorial rural com base em uma identidade cultural, territorial, ambiental e social:
De manera creciente existe un interes y un reconocimiento relativamente extendido en estrategias de desarrollo rural asociadas a bienes y servicios con identidad: servicios de turismo vinculados a la identidad étnica o ecológica; productos orgânicos cuyo valor se basa en su asociación con atributos de salud y/o de respeto a la naturaleza; productos que sugieren la idea de una relación justa entre productores, intermediários y consumidores (fair trade); bienes que se distinguen en el mercado por su origen en procesos que respetan los derechos laborales y los derechos humanos (ethical trade) (Cordon, Siriex y Reardon, 2006); productos que simbolizan nuevas formas de relación entre el consumidor y los alimentos y las comunidades que los generan (Slow Food), etc. (FONTE e RANABOLDO, op. cit., p. 11-12).
A agricultura familiar desenvolvida a partir dos princípios agroecológicos é perpassada por um conjunto de conhecimentos técnicos, práticas e saberes que surtem efeito no processo de conservação ambiental. Essa prática permite ao agricultor e à comunidade rural um vínculo direto com sua história e tradições culturais, além de transmitir seu “saber fazer e saberser” para outras pessoas, pois o consumidor que adquire o produto está também consumindo a cultura local, já que as mercadorias traduzem parte da herança cultural da comunidade ou da região.
Criam-se vínculos afetivos com as características do território de origem dos agricultores, como clima, situação geográfica, solo, história da região, sua situação política, dentre outros elementos de sua essência. Neste caso pode-se constatar uma
proximidade “geográfica” e “social” na agricultura familiar de base agroecológica. A primeira refere-se à história ecológica da comunidade e suas representações coletivas; já a segunda está interligada à estratificação social de compartilhamento de valores e visões comuns. Segundo Fonte e Acampora:
Los productos típicos son tales porque incorporan no solo elementos específicos de la geografía del territorio (las características del suelo y del clima), sino también porque contienen el saber y los conocimientos técnicos elaborados por varias generaciones, por numerosas comunidades de agricultores y de productores en varias partes del mundo. Tal saber se expresa en la diversidad de plantas cultivadas y de animales criados, además que en las técnicas y en los procesos productivos (FONTE e ACAMPORA, 2007-2008, p. 212).
Os exemplos citados podem muito bem ser diagnosticados na região da Mata Pernambucana: as características históricas ligadas ao processo de ocupação da região podem ser verificadas através da evolução da monocultura da cana, da pecuária e mais recentemente do fortalecimento da agricultura familiar. No tocante ao fator ambiental verificam-se processos de degradação ambiental aos quais a região foi submetida durante séculos; e no aspecto cultural observam-se tradições e costumes dos habitantes da região através das expressões culturais próprias que mantiveram-se a despeito das forças destruidoras do sistema de plantação.
Desse ponto de vista, o consumidor que adquire um produto da agricultura familiar de base agroecológica desses territórios não está adquirindo apenas um produto de qualidade e com responsabilidade sócio-ambiental; está também “apostando” na transformação histórica dessa região, apoiando a luta desses agricultores, ou seja, são produtos que incorporam e comunicam uma nova identidade territorial rural.
Características dos territórios agroecológicos incorporam-se, assim, à história da região e dos seus habitantes, contribuindo para suas especificidades geográficas. A estratégia do desenvolvimento territorial rural com base na identidade cultural dos agricultores familiares sob o sistema de cultivo agroecológico pode estimular as comunidades locais e agentes sociais a se inserirem num planejamento que contemple não apenas os aspectos econômicos dos territórios, mas também suas características identitárias.
Atualmente, soma-se a essa re-existência o apoio de inúmeros atores e sujeitos sociais, inseridos na busca por um desenvolvimento territorial rural na região da Mata Pernambucana que contemple não apenas questões econômicas, mas sim a identidade territorial e cultural das comunidades. Nesta perspectiva, verifica-se que o desenvolvimento da agroecologia na agricultura familiar tem como objetivo mais amplo a
integração do agricultor em um processo participativo na dinâmica sócio-territorial da região, isto é, a valorização do trabalho do agricultor familiar e sua importância na dinâmica econômica da região como será debatido adiante.
CAPÍTULO III