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CAPÍTULO 3 – O AMERICANISMO DE MONTEIRO LOBATO

3.6 Aspectos do pragmatismo em Monteiro Lobato

O pragmatismo é uma filosofia tipicamente norte-americana. Para William James (1974), o termo pragmatismo “deriva da mesma palavra grega prágma, que significa ação, do qual vêm as nossas palavras ‘prática’ e ‘prático’. Foi introduzido pela primeira vez em filosofia por Charles Peirce, em 1878”. (JAMES, 1974, p. 10)

Segundo James (1974), o princípio do pragmatismo de Peirce consiste na teoria de que,

Para atingir uma clareza perfeita em nossos pensamentos em relação a um objeto, pois, precisamos apenas considerar quais os efeitos concebíveis de natureza prática que o objeto pode envolver - que sensações devemos esperar daí, e que reações devemos preparar. Nossa concepção desses efeitos, seja imediata, seja remota, é, então, para nós, o todo de nossa concepção do objeto, na medida em que essa concepção tenha afinal uma significação positiva. (JAMES, 1974, p. 10)

Os pragmatistas trabalham sempre com fatos e coisas concretas, buscam a verdade descoberta em casos particulares, generalizando-a para todos os casos.

... observa como a verdade opera em casos particulares, e generaliza. A verdade, para ele, torna-se uma classificação para todos os tipos de valores definitivos de trabalho em experiência. Para o racionalista, não passa de uma pura abstração, de cujo simples nome devemos diferir. Quando o pragmatista empreende a tarefa de mostrar em detalhes por que exatamente devemos discordar, o racionalista mostra-se incapaz de reconhecer os dados concretos dos quais a sua própria abstração deriva. Acusa-nos de negar a verdade; ao passo que temos somente procurado traçar exatamente por que as pessoas a seguem e sempre devem segui-la.” (JAMES, 1974, p. 18)

Segundo James (1974, p. 13), “o método pragmático significa: A atitude de olhar além das primeiras coisas, dos princípios, das ‘categorias': das supostas necessidades; e de procurar pelas últimas coisas, frutos, consequências, fatos.” No método pragmático, as teorias são flexibilizadas, tudo depende de qual perspectiva se olha determinado objeto. “O pragmatismo relaxa todas as nossas teorias, flexiona-as e põe-nas a trabalhar. Não sendo nada essencialmente novo, se harmoniza com muitas tendências filosóficas antigas.” O pragmatismo não possui “quaisquer preconceitos, quaisquer dogmas obstrutivos, quaisquer cânones rígidos do que contará como prova. É completamente maleável. Acolherá qualquer hipótese, considerará qualquer evidência”. Para os pragmáticos, o que é verdade hoje, amanhã pode ser considerado falso, buscam a utilidade como finalidade. Assim, a prática realizada mostrará a verdade concebida.

Diferentemente das sociedades europeias, a norte-americana valoriza mais a ciência prática e suas “vantagens” no sentido de alcançar os objetivos mais rapidamente do que a ciência puramente teórica. Por isso, a sociedade norte-americana é marcada pelo Pragmatismo, que lhe é intrínseco. James (1974) cita o seguinte caso demonstrando como o pragmatismo pode se relacionar harmonicamente com as diversas teorias, pois, segundo ele, perpassam o meio prático.

Como o jovem pragmatista italiano Papini disse muito bem, situa-se no meio de nossas teorias, como um corredor em um hotel. Inúmeros quartos dão para ele. Em um, pode-se encontrar um homem escrevendo um volume

ateístico; no próximo, alguém de joelhos rezando por fé e força; em um terceiro, um químico investigando as propriedades de um corpo. Em um quarto, um sistema de metafísica idealística está sendo excogitado; em um quinto a impossibilidade da metafísica está sendo demonstrada. Todos, porém, abrem para o corredor, e todos devem passar pelo mesmo se quiserem ter um meio prático de entrar e sair de seus respectivos aposentos. (JAMES, 1974, p. 13)

O método filosófico do personagem Mr. Slang consistia em refletir as questões, por si próprio e buscar conclusões em suas próprias experiências. Seu método de análise possui semelhanças com o método pragmático.

Meu método de trabalho mental consiste em refletir, concluir de mim para mim, chegar a idéias que sejam produtos lógicos de todas as observações e conclusões anteriores da minha vida. Depois, a titulo esportivo, trato de conhecer as idéias dos outros. Meu método é rude no começo, porque bem pensar corresponde a trabalho rijo; mas deliciosos ao cabo, quando vejo abrolhar da arvore lindos frutos. Método inglês. O método brasileiro parece- me muito mais cômodo: comprar por 200 réis tais frutos já elaborados. (MONTEIRO LOBATO, 1964, p. 9)

Lobato ressalta que o brasileiro não pensa por si, mas importa soluções de outros países. “O hábito brasileiro de aceitar, por comodismo ou preguiça, ideias alheias, não me parece que esteja fazendo grande coisa deste país...” (MONTEIRO LOBATO, 1964, p. 10) Segundo Mr. Slang,

O brasileiro anda muito afastado do regime de pensar por si, de meditar sobre uma ideia até que a tenha madura no cérebro e articulada com todas as mais ideias que o povoam. Seria impossível um Newton por aqui – o homem que descobriu uma grande lei da força de refletir sobre a mecânica dos astros. Ao invés de pensar, vocês leem – leem coisas que, por mal pensadas, vão contribuir para a formação da maçaroca. (MONTEIRO LOBATO, 1964, p. 13)

A maçaroca é formada pelo carretel econômico, o carretel financeiro e o carretel monetário, que estão embolados um ao outro, mas que qualquer caixeiro de venda poderia solucionar este problema. Lobato sugere que os assuntos sobre a economia brasileira devam ser compreendidos separadamente.

São três problemas diversos que o “amor ao embrulho” dos nossos entendidos embaralha. Embora na vida dos negócios suas questões se entrelacem, economia, finança e moeda são coisas distintas. Cada qual com o seu campo, cada qual com sua função, cada qual sujeita ás suas leis. Misturá-las é criar o caos. Mas desde o momento em que separamos da maçaroca as três linhas de cores diversas, já o problema em causa se simplifica enormemente. Tão enormemente que qualquer caixeiro de venda suportará com galhardia um exame. Se eu fosse presidente da República resolveria a eterna balburdia financeira, econômica e monetária no

Ministério da Fazenda, ao invés de “technical experts”, isto é malabaristas da terminologia e pais da maçaroca, um simples caixeiro de venda. (MONTEIRO LOBATO, 1964, 14)

O pragmatismo é utilizado ao propor soluções às questões econômicas, financeiras e monetárias, buscando maneiras bem simples e objetivas. Para tanto, ele mostra como um simples caixeiro de vendas responderia às questões com simples raciocínios, resolvendo problemas aparentemente de difíceis soluções, com sua experiência de vida. Esse modo de encarar as questões de forma simples, buscando as soluções para os problemas, em si próprio, está relacionado com a filosofia pragmática.

Lobato chega a chamar seu personagem de pragmatista, por estar sempre pensando nas resultantes das ações e não as intenções, admirando sua maneira de pensar. Veja o diálogo:

─ Que importam ao país intenções? Só valem as resultantes positivas. ─ Sempre pragmatista o meu Mr. Slang! Creia que admiro a frieza desse seu cérebro britânico, nós aqui, mais ardorosos, queremos, além dos resultados, as intenções. (MONTEIRO LOBATO, 1964, p. 61)

O pragmatismo de Mr. Slang foi exaltado por Lobato, sua maneira de pensar e solucionar os problemas de forma rápida e eficiente. Assim, o pragmatismo seria significativo para pensar os problemas brasileiros, sendo a teoria mais cabível para progredirmos rapidamente, já que assim, estaríamos voltados para as consequências positivas de nossas ações.