CAPÍTULO 1 A CONSTRUÇÃO HISTÓRICO-SOCIAL DA ADOLESCÊNCIA
6.2 Aspectos emocionais: vivências e significados
Além da perda das relações sociais, algumas das adolescentes estudadas sentem ainda mais a mudança de vida com a chegada da criança, devido à necessidade de trabalhar para se manter ou ajudar no orçamento doméstico e voltar
a estudar torna-se um sonho mais distante ainda, pois, muitas vezes, o trabalho é árduo por falta de qualificação, levando ao desgaste, distanciando cada vez mais a adolescente do retorno à escola.
Observa-se que a mudança de vida para a adolescente, após a reincidência de uma gravidez não programada, acontece de forma radical; no primeiro momento abandona os estudos e, assim, surge a interferência em sua relação social. Após o nascimento da criança, as obrigações de estar sempre ao lado do filho, amamentando, ou prestando cuidados e ainda ter que cuidar do outro filho menor, afasta ainda mais a adolescente de seu convívio social, interrompendo o vínculo afetivo com seus amigos, pois os filhos impedem que essas jovens exerçam atividades peculiares à sua idade como vinha acontecendo anteriormente à gestação.
Esse isolamento do grupo de amigos é natural, uma vez que esses continuam vivendo seus sonhos de adolescentes e caminhando para o desenvolver da idade adulta. Entretanto, as mães adolescentes precisam assumir abruptamente esse papel e, com a reincidência, esse papel fica ainda mais complexo, o que acarreta responsabilidades dobradas, independente do querer tê-las.
Ser mãe, ter um filho na adolescência, ter um segundo filho na adolescência e ainda ter mais um, dois ou três filhos na adolescência, não significa que a jovem se tornou adulta. É uma situação difícil e como se pode observar, gera conflitos, insegurança, medo da rejeição e da falta de apoio familiar e social, deixando a adolescente em conflito com o seu núcleo de convívio e consigo mesma.
Engravidei do meu primeiro filho com catorze anos e ele nasceu quando eu tinha 15 anos, não tive apoio de meus familiares, não queria engravidar naquele momento, meu segundo filho fiquei um pouquinho triste e custei a acreditar, passei por muitas dificuldades financeiras. Tenho dez irmãos, o mais velho tem vinte e nove anos e o mais novo seis anos, a nossa vida é muito difícil, parei os estudos, sempre tenho que trabalhar fora, fazer uns bicos para poder comer (Angélica).
Mais uma vez engravidei sem esperar, estava com dezoito anos. A família te olha de um jeito que parece que você não tem responsabilidade. Me sinto mal às vezes. O namorado não assume, os amigos somem, estou me sentido muito sozinha, pareço uma velha cuidando de casa e quatro filhos. Gostaria de voltar a estudar (Hortência).
Engravidei novamente aos dezessete anos, não esperava, namorar é bom, mas cuidar de criança é muito trabalhoso, não tenho tempo para mim, meu companheiro não liga muito para mim, sai muito, nem dá satisfação, e eu tenho que cuidar de tudo, se eu pudesse queria voltar atrás, estudar, passear e me cuidar mais (Palma).
O terceiro filho não esperava mesmo, foi muito vacilo, estava com vinte anos, até os seis meses de gravidez não conseguia aceitar, eu já tinha voltado a trabalhar fora “numa fábrica”, tinha convênio médico para mim e as crianças e tinha voltado a estudar, estava fazendo o supletivo à noite ia terminar a 8ª série, mas tive que parar tudo. Meu sonho é fazer um curso técnico de enfermagem. Sou católica e meus filhos são batizados, mas tenho pouco tempo para freqüentar a igreja. A terceira gravidez é a mais complicada, porque agora a gente vê que não dá para sair de casa mesmo, queria trabalhar, estava fazendo diária, mas falto muito por causa da doença dos filhos e minha patroa fica chateada (Rosa).
Observa-se, nas falas acima, que os estudos são importantes para as mães, mas foram percebidos só agora, quando as mesmas relatam sentir necessidade de estudar. A educação infantil e o ensino fundamental são duas etapas extremamente importantes para o desenvolvimento integral do ser humano. Os estímulos que uma criança recebe nos primeiros anos de vida definem seu sucesso escolar e seu desenvolvimento (BRASIL, 2005). O Departamento de Políticas de Educação Infantil e Ensino Fundamental do MEC analisa que a gestão democrática da escola, os materiais didáticos pedagógicos e a formação do professor são fatores determinantes para a qualidade social da educação que forma indivíduos críticos e criativos para o pleno exercício da cidadania (BRASIL, 2005).
O ensino fundamental é composto por oito anos de estudo, sendo a idade fixada para o ingresso da criança de sete anos e sua conclusão esperada para a idade de 14 anos. A idade de ingresso das mulheres estudadas no ensino fundamental foi variável. As questões familiares e sociais interferiram no ingresso e a gravidez na adolescência na sua continuidade. Constatados nesta pesquisa que somente Rosa e Margarida tiveram oito anos de estudo cada, as outras tiveram sete, seis e cinco anos de estudo.
Assim, as mulheres apresentam, de maneira geral, baixa escolaridade, sendo possível observar atraso na progressão normal durante sua freqüência à escola por curto período. Tal fato aponta o fracasso escolar que elas tiveram e pode ter sido reflexo de rendimento insatisfatório que se agravou com a descoberta da gravidez na adolescência, conforme se pode ler nos trechos a seguir.
[...] fazia a 5ª série, mas tinha o temperamento rebelde demais, aí não dava certo, eu preferia namorar do que aplicar nos estudos, aí[...] engravidei[...] , pelo menos não tinha que estudar matemática [...] (Primavera).
Estudar pra mim era um pé no saco, nunca gostei de estudar, comecei a estudar na hora certa, fiz a 5ª série e fiquei grávida, nunca tive paciência de estudar[...] (Angélica).
Observa-se em suas falas que elas atribuem o seu fracasso a si próprias, pelo desinteresse pelos estudos, não questionando a qualidade da escola ou dos professores, o difícil acesso à escola, a desagregação familiar, o trabalho infantil, embora esse, ocorrido no
âmbito familiar, e a desestruturação da rede estadual de ensino identificada por meio de greves dos professores ocorridas durante o período letivo. Esses e outros fatores podem ter contribuído para o desinteresse pelos estudos apresentados por elas.
As mulheres, quando narram o abandono escolar, na ocasião da gravidez, demonstram arrependimento por não terem se dedicado mais aos estudos e relacionam a situação atual de suas vidas com a falta de qualificação o que lhes impede de ter melhores possibilidades de trabalho e, conseqüentemente, mobilidade social. Entretanto, apesar do fracasso escolar que elas vivenciaram em suas trajetórias de vida, e a gravidez ser a principal razão da evasão escolar e a maternidade o ponto de dificuldade na continuidade dos estudos, observa-se que ser mãe entre elas pode ser considerado como sucesso de um projeto de vida, em algum momento, estabelecido por ela.
Rosa acredita que lhe faltou juízo por ter engravidado cedo e caso isso não tivesse ocorrido poderia ter continuado a estudar e hoje estaria trabalhando, ou seja, com outra perspectiva de vida. Ela se sente presa dentro do contexto da maternidade, fato que lhe impossibilitou outras realizações pessoais: “Faltou juízo, se eu tivesse estudado, não teria tido tanto filho, e hoje não seria uma simples dona de casa cheia de crianças para cuidar”.
É importante, entretanto, que não se reduza o abandono escolar dessas jovens mães somente ao fato de terem engravidado ou de serem mães, mas o fracasso e o abandono escolar provocado pela gravidez podem estar relacionados com o contexto de desvantagem social em que elas estão inseridas, como também à falta de apoio para que elas pudessem continuar a estudar, pois, como já se pôde observar, o fracasso escolar já era uma realidade antes da ocorrência da primeira gravidez. Percebe-se que as entrevistadas não visualizam a oportunidade de mudanças futuras, a volta aos estudos, a conquista de novas oportunidades de trabalho, pois vivem distantes, dependentes de sua condição atual, e demonstram essa concepção através de suas angústias e sentimentos.
Sentimento é definido como o ato ou efeito de sentir, ligado à sensibilidade, à disposição afetiva em relação às coisas de ordem moral ou intelectual e pode ser descrito como afeto, amor, tristeza, pesar entre outros (FERREIRA, 1993).
As mulheres deste estudo, que foram mães na adolescência, pelo tempo que vivenciam a maternidade, já têm definido o seu papel materno, pois, mesmo ainda muito jovens têm mais de dois filhos e hoje não contam mais com a mesma rede de apoio que podem ter tido disponível na primeira gravidez. Observa-se alguns sentimentos de angústia e perdas. Apesar do desejo que elas apresentaram de ser mães, a vivência da maternidade, em situações tão adversas e após passar o encanto inicial, é ressignificada por várias delas e sentimentos contraditórios são expressos, mostrando a realização do desejo de ser mãe, mas, ao mesmo tempo, percebendo o ônus que carregam por viverem em condições adversas e em um contexto de vida de exclusão social.
Minha vida piorou [...], ficou tudo mais difícil [...]. Queria que tudo fosse diferente, mas agora tenho minha família e tenho que agüentar as pontas (Rosa).
Fiquei meio rancorosa, amarga como dizem as pessoas [...] sem aquele encanto que era antes, meu companheiro sai como se eu não estivesse ali [...] me ignora, mas eu sou gente [...] tenho meus sentimentos (Palma).
As falas evidenciam sentimentos de grande insatisfação com o rumo que suas vidas tomaram, de sofrimento, violência e solidão. Esse sofrimento está relacionado à falta de afetividade e de apoio a que essas mulheres estão sujeitas, assumindo toda a responsabilidade dos cuidados com os filhos, responsabilidade essa que muitas vezes é um peso em suas vidas tão jovens. Esses sentimentos mostram a contradição dessas gravidezes, cuja maioria não foi planejada, mas não foram caracterizadas como indesejáveis.
A maternidade na adolescência ocorreu no momento em que essas mulheres poderiam estar realizando outros projetos de vida, entretanto, o contexto desfavorável de inserção precoce no trabalho doméstico, o desinteresse pelos estudos, o fracasso escolar e a falta de oportunidade de ascensão não favoreceram o desenvolvimento individual das jovens mães. Dessa forma, apesar de os sentimentos negativos, que apresentam em relação à maternidade não planejada, assumem o papel de mães e esposas, restringindo seu espaço social ao contexto doméstico. Assim, a maternidade que, no momento de sua ocorrência representou sua passagem para uma posição de mulher adulta, responsável, com papel definido na sociedade em que estão inseridas, na atualidade representa obstáculo à mobilidade social, visto que as impede de retornar aos estudos, bem como sua inserção no mercado de trabalho.
Como se pode observar, a jovem interrompe uma fase de sua vida onde os sonhos e a ilusão eram predominantes e passa a viver a realidade de cuidar e ser responsável pela educação de uma criança.
Considera-se que, para a adolescente, principalmente quando tem mais de um filho nessa fase, essas mudanças acontecem, com maior intensidade, tendo em vista o despreparo propiciado pela pouca idade e maturidade emocional e a maternidade é uma imposição decorrente dos fatos e não uma opção responsável e consciente.
Nota-se que a adolescente poderá ser adequadamente compreendida se se conhecer a realidade em que vive junto à sua família. Pois a criança transforma a vida não só da adolescente mas também altera os hábitos da vida familiar, onde se estabelece inversão de papéis, na qual a adolescente passa da posição de filha para
realizar a função de mãe. A família sente todas essas mudanças decorrentes do nascimento da criança, inclusive com o aumento da preocupação de cuidar de uma criança e continuar cuidando da jovem mãe. Observa-se nas falas das adolescentes grande preocupação com os fatores relacionados à mudança de vida, ao abandono dos estudos e ao aumento da responsabilidade.
Engravidei novamente aos dezoito anos, na troca de medicação. A gravidez acaba com as amizades, larguei os estudos, estou desempregada, estou preocupada com minha saúde, não me sinto muito bem, todo dia acordo meio zonza e tenho dores de cabeças muito fortes, aí eu falo[...] vou no médico, mas aí começa a correria, filhos pra cuidar, roupa pra lavar, vem a hora do almoço, aí o dia vai passando, tomo um remédio e o dia acaba (Angélica).
Engravidei novamente aos dezessete anos, meu companheiro ficou contente, temos muito conflito, minha mãe ajuda sempre que pode, sinto muito a morte do meu pai, meu companheiro diz que minhas amizades atrapalham o relacionamento, larguei meus estudos, me sinto sozinha, a responsabilidade dobra, não quero ter mais filho, a minha relação é muito instável, tenho até medo de pegar uma doença, pretendo colocar um DIU (Palma).
Engravidei novamente aos quinze anos, não havia planejado outra gravidez, mas não estava usando nenhum método, fiquei triste e o pai do bebê também não gostou, não queria que eu engravidasse, depois que o bebê nasceu nos separamos, ele vive desempregado, eu larguei a escola, o trabalho, as amizades e agora só tenho muita responsabilidade. O momento mais difícil da minha vida foram as minhas gravidezes, foi muita ingenuidade ter engravidado tão nova com apenas treze anos (Violeta).
Pode-se observar e detectar, através das falas das adolescentes, que a gravidez na adolescência e, conseqüentemente, a incidência de nova gravidez precoce leva realmente à interrupção das relações sociais, pois quando a jovem interrompe o estudo e o trabalho deixa de crescer seu grupo de iguais e perde assim elemento de apoio afetivo muito importante em sua vida.