CAPÍTULO 1 A CONSTRUÇÃO HISTÓRICO-SOCIAL DA ADOLESCÊNCIA
1.2 Juventude e adolescência: categorias justapostas?
O uso das categorias adolescência e juventude em diferentes estudos e aliações, aqui mencionados, introduz um elemento de ambigüidade. Faz-se necessário discutir mais detalhadamente em que medida haveria justaposição entre elas, ou pelo menos destacar alguns aspectos que permitam avaliar a aproximação ou distinção dessas categorias em diferentes áreas do conhecimento ou da pesquisa.
A princípio, tal como colocado por Sposito (1997), observa-se que o uso do termo adolescência ou juventude tem a ver com a matriz disciplinar na qual o estudo se insere. Há assim, como já foi mencionado, associação entre as matrizes disciplinares da sociologia e o uso da categoria juventude. Tal associação está presente desde o início do desenvolvimento de tais campos de produção de conhecimento ao longo deste último século, tal como demonstram os estudos de Coates (1993, p.113).
Menos clara é a apropriação feita desses conceitos por estudos na área da saúde, na qual se encontram trabalhos filiados a diversas matrizes disciplinares, bem como por estudos que adotam perspectivas interdisciplinares, associando
abordagens psicológicas, sociológicas, demográficas, biomédicas ou
epidemiológicas. No Brasil, por exemplo, o discurso referente à saúde dos jovens é bastante recente. A formulação de políticas públicas de saúde e a reflexão sobre esse tema têm se referido mais tradicionalmente a adolescentes como público-
notório, tanto no âmbito da prestação de serviços, quanto no universo da produção acadêmica específica (CANNON; BOTTINI, 1998; ARILHA; CALAZANS, 1998; TAKIUTI, 1997).
A Organização Mundial de Saúde (OMS,1996), que antes considerava o período da adolescência a faixa etária entre 10 e 19 anos, propôs, mais recentemente como população jovem a ampla faixa de 10 a 24 anos. A OMS recomenda, porém, para efeitos práticos de análise, divisão dessa categoria em três subgrupos: 10-14 anos, 15-19 anos e 20-24 anos, chamando a atenção para o pouco rigor no uso das expressões adolescentes e jovens. Assim, vários autores referem-se, em seus estudos, às faixas de 10-19 anos como adolescentes e de 15- 24 anos como jovens (SUÁREZ, 1985; MADEIRA, 1986; SPOSITO, 1997).
Percebe-se, no entanto, que é mais fácil delimitar faixas etárias e a elas referir-se como adolescência e juventude do que compreender os conteúdos e as características desses dois momentos do ciclo da vida nos diversos estudos das diferentes áreas do conhecimento. Marcondes (1979), por exemplo, caracteriza a adolescência como “um conjunto de manifestações biopsicossociais que se localizam entre a infância e a maturidade”, diferenciando-a da puberdade, que seria o componente “bio” da adolescência.
Lapassade diferencia a crise da adolescência, que teria como base a crise da puberdade – de ordem psicológica e de caráter individual -, da crise da juventude, que teria, por sua vez, a adolescência como base, mas seria de caráter coletivo, de problematização da ordem social em função de dificuldades de adequação às normas da sociedade (LAPASSALE, 1968, p.42 apud ABRAMO, 1994, p.91). Da mesma forma, Foracchi considera a crise juvenil posterior àquela que se dá na adolescência, caracterizada como momento de conflito com a ordem social adulta (FORACCHI, 1972, p.57 apud ABRAMO, 1994, p.93).
Como se observa nos conceitos anteriores, as referências etárias nos estudos mencionados não são sempre claras, em virtude da dificuldade de demarcação dos limites entre uma e outra etapa ou momento da vida. Diferenças entre perspectivas teóricas e matrizes disciplinares introduzem uma complicação adicional. Porém, como salienta Abramo (1994), é possível identificar alguns aspectos básicos e genéricos que caracterizam ambas as circunstâncias no curso da vida.
Parece haver consenso quanto à condição de transitoriedade. Tanto a juventude como a adolescência são vistas como momentos de transição da
heteronomia e dependência da infância à autonomia e independência da vida adulta (ABRAMO, 1994; SPOSITO, 1997). As formas de conceber essa passagem são diversas, havendo a implicação de muitas dimensões da vida nessa “transição”.
Galland (1991), por exemplo, que formula a noção de transição com base na experiência dos operários do início do século, propõe o “modelo da instalação”, através da união de três fatores: a saída da família de origem, a entrada na vida profissional e a formação de um novo núcleo familiar (GALLAND, 1991, p.27 apud SPOSITO, 1997, p.49). Já a proposta de Chamboredon identifica etapas múltiplas e desconexas na passagem para a vida adulta, que ocorreriam em função de dois processos presentes na atualidade: o de descristalização e o de latência. O primeiro refere-se à dissociação das várias dimensões existentes na vida adulta, que
possibilitam o exercício de algumas funções sem que se impliquem,
necessariamente, todas, como no caso da sexualidade, cujo exercício não envolve a formação de um novo núcleo familiar. O segundo processo implica a separação entre a posse da habilitação profissional, e o não ingresso imediato no mercado de trabalho (CHAMBOREDON, 1985, p.72 apud SPOSITO, 1997, p.95; PERALVA, 1997).
Essa condição de transitoriedade está presente nas várias concepções de juventude que a consideram fase “pré-funcional”, de preparação para a vida social posterior, e implica marginalidade, “uma condição de relatividade de direitos e deveres, de responsabilidades e independência” (ABRAMO, 1994, p.11). Tais particularidades imprimem outra característica a essa fase – a ambigüidade – associada à indefinição de seus limites, de início e de término, de possibilidades e impossibilidades. Por isso, também, a condição juvenil é percebida como marcada por grande negatividade – “o que não se é mais e ainda não se chegou a ser” (SALEM, 1986, p.38 apud ABRAMO, 1994, p.11) – e indeterminação – “este estado incerto que vem da coexistência, da imbricação e também da distância entre o universo infantil e o universo adulto” (MORIN, 1986, p.47 apud ABRAMO, 1994, p.11).
Para a psicologia, essa fase de transição é o momento privilegiado de elaboração de identidade própria, e é nesse sentido que a discussão sobre a adolescência é enfatizada nessa disciplina: como momento de experimentação, de reelaboração de modelos de comportamentos e identidades. Considera-se que, da vivência desse processo, decorrem os conflitos entre os adolescentes e as
instituições responsáveis por sua socialização, prioritariamente a família e a escola (PERALVA, 1997).
É assim que se coloca uma outra concepção estruturante sobre a condição juvenil: a de crise potencial (ABRAMO, 1994, p.13). Como se pôde observar, estão aqui presentes as três dimensões de crise da transição apontadas pelos autores: a crise da puberdade, a crise da adolescência e a crise da juventude.
Como pode ser depreendido do que foi exposto, os autores de diferentes disciplinas desenvolvem suas concepções sobre juventude e adolescência como fases de grande agitação, tensão e turbulência, associadas às transformações relativas às dimensões corporal, subjetiva e cotidiana e aos choques com a ordem social. Em decorrência do forte conteúdo social dessas dimensões, as marcas da idade referentes a cada um desses momentos – adolescência e juventude – são dificilmente passíveis de definição fixa e universal.