São muitas as ilações que podemos retirar das observações gerais atrás formuladas em relação às características dos processos de integração e às políticas que lhes estão associadas. Em particular, é possível identificar três aspectos fundamentais que decorrem da lógica dos processos de integração (e que, aos olhos dos decisores políticos, se apresentam muitas vezes como dilemas).
O primeiro consiste no facto da transparência dos processos de admissão de imigrantes e de concessão de estatuto legal e de residência constituir uma condição-chave para a eficácia das políticas de integração. As expectativas de residência no longo prazo e a forma de lidar com essas expectativas dever-se-ão traduzir num estatuto consentâneo perante a lei e num conjunto de oportunidades de participação ao nível da formulação e implementação das políticas, especialmente as que afectam directamente os imigrantes. Tal como referido, as políticas de âmbito local neste domínio político-legal dependem em grande medida das políticas de imigração, integração e naturalização ao nível nacional. Porém, esta dependência não é absoluta. Em primeiro lugar, os decisores políticos dispõem de alguma margem de manobra na implementação das políticas e regras de nível nacional. Por outro lado, podem criar mecanismos alternativos de participação, fomentando por essa via formas de inclusão e cidadania à escala local.
A EUROPA E OS SEUS IMIGRANTES NO SÉCULO XXI 54
Em segundo lugar, as políticas de integração deverão ser abrangentes no que diz respeito aos domínios e dimensões que cobrem, o que significa que não deverão limitar-se a traduzir as preocupações da maioria, devendo reflectir também os interesses e aspirações dos próprios imigrantes. Deverá ser dada prioridade aos domínios económico e social, na consciência de que, no longo prazo, as políticas nos domínios político e cultural são também indispensáveis para a integração. As formas assumidas por estas políticas poderão depender na prática dos quadros institucionais vigente em cada sociedade e cidade de acolhimento, bem como da disponibilidade política para a introdução de mudanças no sentido de tornar esses quadros institucionais progressivamente mais inclusivos.
Em terceiro lugar, as políticas locais de integração deverão empregar estratégias e tácticas assentes na mobilização de diferentes parceiros a diferentes níveis. Deverão conjugar aspectos de activação “de cima para baixo” com a mobilização “de baixo para cima”. Deverão conceber o processo de integração de uma forma aberta e inclusiva, no quadro das regras em vigor nas sociedades liberais democráticas, e, consequentemente, permitir a emergência de uma sociedade mais diversa mas também mais coesa.
As observações anteriores acerca da lógica do processo de integração permitem ainda extrair conclusões em relação à existência de alguns aspectos fundamentais, ou dilemas, adicionais. O primeiro consiste no facto da formulação e implementação das políticas exigirem não só um conhecimento científico rigoroso da lógica dos processos de integração, como também uma concepção política adequada do que é que torna as políticas desejáveis e aceites. O que é necessário é uma abordagem equilibrada que, sem camuflar os problemas a resolver, saliente acima de tudo os interesses comuns de todas as partes. Este tipo de abordagem tem muitas vantagens: permite não só evitar a emergência de crises que se tornariam inevitáveis caso os problemas fossem sistematicamente ignorados, como também restabelecer e promover o tipo de coesão no seio dos estados e das cidades que permite colher os frutos potenciais da imigração. O acolhimento dos imigrantes e a sua participação activa são condições essenciais para esta abordagem, a qual tem como consequência a emergência de novas formas de diversidade negociada. Todos os actores têm um papel a desempenhar em relação a esta questão, mas a responsabilidade fundamental cabe aos decisores políticos.
A EUROPA E OS SEUS IMIGRANTES NO SÉCULO XXI 56
R
eferênciasb
ibliográficasAlexander, M. Comparing local policies towards migrants as
an expression of Host-Stranger relations. PhD Thesis,
Universiteit van Amsterdam, 2003.
Bauböck, R., ed. From Aliens to Citizens: Redefining the
Status of Immigrants in Europe. Aldershot: Averbury,
1994.
Canatan, K., C.H. Oudijk, and A. Ljamai.
De maatschappelijke rol van de Rotterdamse moskeeën.
Rotterdam: COS, June 2003.
Crul, M. "Turkish and Moroccan Sibling Support and School Achievement Levels: An optimistic View."
Netherlands Journal of Social Sciences 35, no. 2 (1999):
110-128.
Crul, M. "Success breeds success. Moroccan and Turkish student mentors in the Netherlands."
International Journal for the advancement of Counselling
24 (2002): 275-287.
Crul, M. and H.Vermeulen. "The second genaration in Europe, Introduction." International Migration Review 37, no. 3 (2003): 965-986. (Special Issue of the IMR on "The future of the second generation: the integration of migrant youth in six European Countries," edited by Crul and Vermeulen).
D'Amato, J. and B. Gerber, eds. Herausforderung
Integration. Städtische Migtationspolitik in der Schweiz und in Europa. Zurich: Seismo Verlag, 2005.
Doomernik, J. Turkse moskeeën en maatschappelijke
participatie. De institutionalisering van de Turkse islam in Nederland en de Duitse Bondsrepubliek. Amsterdam:
Instituut voor Sociale Geografie, 1991.
European Commission. Communication on a Community
Immigration Policy. November 22, 2000.
European Commission. Communication on Immigration,
Integration and Employment. June 3, 2003.
Groenendijk, C.A. and P.E. Minderhoud. "De Nederlandse invloed op nieuwe Europese regels betreffende migratie en asyl." In Immigratie en asiel in
Europa. Een lange weg naar gemeenschappelijkheid,
edited by W.A.brusse, D. Broeders, and R. Griffith, 137-162. Utrecht: Lemma BV, 1991.
Guiraudon,V. "Citizenship rights for Non-Citizens: France, Germany and the Netherlands." In Challenge
to the Nation-State: Immigration in Western Europe and the United States, edited by C. Joppke. Oxford:
Oxford University Press, 1998.
Hansen, R. and P.Weil. Towards a European Nationality.
Citizenship, Immigration and Nationality Law in the EU. Houndmills/New York: Palgrave, 2001.
Heitmeyer,W., J. Müller, and H. Schröder. Verlockender
Fundamentalismus.Türkische Jugendliche in Deutschland.
Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1997.
Karakasoglu,Y. and S. Koray. Islam and Islamic
organizations in the Federal Republic of Germany. A short summary of study of the Zentrum für Türkeistudien on Islamic organizations in Germany. Birmingham: Centre
for the Study of Islam and Christian-Muslim Relations, 1996.
Landman, N. Van mat tot minaret. De institutionalisering
van de islam in Nederland. Amsterdam:VU-uitgeverij,
1992.
Moore, D. Ethnicité et Politique de la Ville en France et en
Grande-Bretagne. Paris: L'Harmattan, 2001.
Niessen, J. Five years of EU migration and asylum
policymaking under the Amsterdam and Tampere mandates. Brussels: Migration Policy Group, 2004.
Oezbek,Y. and S. Koray. Muslim voices. A stranger within? Section on Germany, Part I and II. Essen: Zentrum für Türkeistudien, 1998.
Ögelman, N. Documenting and Explaining the Persistence of Homeland Politics Among Germany's Turks. International Migration Review 37, no. 1 (2003): 163-193.
Penninx, R., K. Kraal, M. Martiniello, and S.Vertovec.
Citizenship in European Cities: Immigrants, Local Politics and Integration policies. Aldershot: Ashgate, 2004.
Penninx, R. and j. Roosblad, eds. Trade Unions,
Immigration, and Immigrants in Europe. 1960-1993. A Comparative Study of the Attitudes and Actions of Trade Unions in Seven West European Countries. New
York/Oxford: Berghahn Books, 2000.
Rath, J., R. Penninx, K. Groenendijk, and A. Meyer.
Western Europe and its Islam. Leiden/Boston/Köln:
Brill, 2001.
Rogers A. and J.Tillie. Multicultural Policies and Modes of
Citizenship in European Cities. Aldershot: Ashgate,
2001.
Spencer, S. "The Challenges of Integration for the EU." Migration Information Source.Washington, DC: Migration Policy Institute, October 1, 2003, http://www.migrationinformation.org
Sunier,Th Islam in beweging.Turkse jongeren en islamitische
OS PROCESSOS DE INTEGRAÇÃO DOS IMIGRANTES 57 Sunier,Th. "Niederländisch-Islamische
Staatsbürgerschaft? Ansichten über Islam, Bürgerschaft und Bürgerrechte unter türkische Jugendlichen in der Niederlanden, "Der
Fundamentalismus-verdacht. Plädoyer für eine Neuorientierung der Forschung im Umgang mit allochtonen Jugendlichen, edited by W.D. Bukow and
M. Ottersbach, 85-97. Opladen: Leske und Budrich, 1999.
Vermeulen, H. ed. Immigrant policy for a multicultural
society. A comparative study of integration, language and religious policy in five Western European countries.
Brussels/Amsterdam: MPG/IMES, 1997.
Vermeulen, H. and R. Penninx, eds. Het democratisch
ongeduld. De emancipatie en integratie van zes
doelgroepen van het minderhedenbeleid. Amsterdam: Het Spinhuis, 1994.
Vermeulen, H. and R. Penninx, eds. Immigrant
Integration:The Dutch Case. Amsterdam: Het
Spinhuis, 2000.
Vermeulen, H. and B. Slijper. Multiculturalism in Canada,
Australië en de Verenigde Staten. Ideologie en Beleid,
1950-2000. Amsterdam: Aksant, 2003.
Weil, P. "Access to Citizenship: A Comparison of Twenty-Five Nationality Laws." In: From Migrants to
Citizens: Membership in a Changing World, edited by
A. Aleinikoff and D. Klusmeyer.Washington, DC: Carnegie Endowment for International Peace, 2000.
Zolberg, A. and A.J. Clarkin, eds. Sharing Integration
Experiences: Innovative Community Practices on Two Continents. New York: International Center for
Migration, Ethnicity and Citizenship, New School University, 2003.
Cidadania
T.Alexander Aleinikoff
A
o longo das últimas décadas, tem-se assistido a um notável ressurgimento do interesse pela questão da cidadania por parte dos decisores políticos, académicos e público em geral. Uma parte importante desse debate tem sido suscitada pelos desafios colocados pela imigração em grande escala. Para qualquer país, a chegada e instalação de um grande número de novos residentes coloca diversas questões importantes em matéria de cidadania.Para os estados liberais democráticos modernos, a cidadania consiste fundamentalmente num estatuto legal que denota e proporciona a pertença a um determinado estado. Enquanto estatuto legal, a cidadania implica um conjunto significativo de direitos e deveres, os quais estabelecem hoje em dia o fundamento formal da igualdade entre todos os cidadãos. A imigração em grande escala constitui um desafio para os estados, na medida em que dá origem à presença nos respectivos territórios de populações constituídas por membros “parciais” da sociedade dotados de direitos e deveres também eles “parciais”.
As migrações tornam as sociedades mais diversas do ponto de vista cultural e social. Permitem a vinda de novos talentos e novas energias, o alargamento dos horizontes criativos de todos os membros e a expansão da força de trabalho local; contudo, as migrações podem constituir também uma fonte de tensões e ansiedades. As políticas de cidadania podem constituir um instrumento importante para promover a inclusão harmoniosa dos novos membros. Qualquer política eficaz de cidadania deverá procurar conjugar um conjunto complexo de factores e ter em conta questões tão fundamentais quanto as que dizem respeito à pertença, ao empenho e à integração política e social. Nos estados liberais democráticos, as políticas de cidadania deverão ainda pautar-se pelas normas de justiça e equidade, as quais assumem uma importância crucial para os ideais liberais democráticos contemporâneos. Este capítulo aborda quatro conjuntos de questões relacionadas com a cidadania: o acesso à cidadania, a questão da dupla nacionalidade, a integração política e os direitos económicos e sociais. Em cada uma das secções, é apresentado um conjunto de recomendações em matéria de políticas.