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CAPÍTULO III: ACERCA DA ARTE EGÍPCIA

3.1 ASPECTOS GERAIS

Ao redor dos museus de todo o mundo as coleções de arte egípcia sempre estão entre as mais procuradas pelos visitantes, admirados, sobretudo, por suas características muito particulares que, por isso mesmo, as tornam fascinantes para os observadores modernos. Na visão Cyril Aldred, é exatamente a sua “humanidade” que nos atrai e impressiona ao longo dos tempos, já que a figura humana era o tema primordial em relevos, pinturas e esculturas egípcias.396

396

BRANCAGLION JUNIOR, Antonio. Manual de Arte e Arqueologia do Egito Antigo. Rio de Janeiro: Sociedade Amigos do Museu Nacional, 2003, p.3.

117 O ambiente natural não tem o mesmo destaque de homens e deuses em cena, servindo, em muitos contextos, como pano de fundo para o desenrolar das ações dos protagonistas mencionados. Homens, animais ou objetos estão inseridos numa ordem solidamente estabelecida e coesa de representação inerente ao pensamento egípcio, que se refletiu na concepção harmônica das grades de composição empregadas para organizar o que seria então retratado e eternizado nas paredes de templos, palácios e tumbas.

Fosse um pequeno amuleto para fins apotropaicos ou um gigantesco relevo parietal, a arte se fez notavelmente presente nos mais diversos contextos da vida dos egípcios antigos. Não existe em língua egípcia antiga uma palavra para designar “arte”’, o próximo disso seria o termo

Hmt,

geralmente traduzido como “artesanato” pelos filólogos.397

Todavia, Ciro Cardoso afirma que isto não nos impede de verificar o fenômeno artístico no antigo Egito como “subsetor específico e reconhecido do social”, mesmo que os três principais elementos construídos histórico-socialmente que o definem - o artista, o público e os gêneros - não estejam todos presentes concomitantemente.398

No começo da era dinástica, desenvolveu-se no duplo país uma arte que podemos chamar de “canônica”, pois estabeleceu um padrão oficial para as representações em duas e três dimensões, com regras bastante estritas para realização das composições, e cujos princípios básicos diferem totalmente das convenções artísticas ocidentais. Para John Baines, o aspecto mais significativo desta fase, que intitulo como embrionária, foi a sua formulação iconográfica de ideologia e cosmologia.399 No núcleo deste novo sistema estava

a figurava politicamente (e religiosamente, acréscimo meu) dominante do rei.400

Apesar das variações de um reinado a outro, a manutenção das características fundamentais da arte egípcia canônica foi visível ao longo da história faraônica.401 Existe um traço comum em praticamente todos os exemplares que restaram do Reino Antigo ao período Greco-romano, garantido

397

BAINES, John. Op. cit., 1994, p. 84.

398

CARDOSO, Ciro. Arte e ofícios no antigo Egito. Material cedido pelo autor, p. 3.

399

BAINES, John. Op. cit., 1994, p. 77.

400

Idem, ibidem.

401

118 pelo cânone, que inclui as radicalizações e inovações amarnianas, o que nos permite reconhecê-los como sendo egípcios de imediato.

É preciso ressaltar que também existiu no antigo Egito uma modalidade de arte que podemos classificar como “popular”, de caráter não oficial, cujos poucos exemplares demonstram maior liberdade em sua concepção, já que não estavam presos às regras canônicas. Infelizmente, foram feitos com materiais pouco duráveis, o que nos impede de conhecê-los melhor.

O mesmo pode ser dito acerca daqueles que hoje seriam considerados como “artistas”, mas socialmente indistintos dentro do grupo de trabalhadores do ramo artesanal egípcio. Sabemos pouco a respeito de tais indivíduos nada individualizados que deram vida às composições egípcias em todas as suas modalidades.

Foram os gregos os primeiros a encarar a arte representacional como uma área “separada da criatividade humana”.402

Ou seja, não foi socialmente estabelecida uma distinção entre artista e artesão, sendo o primeiro encarado como um trabalhador tal qual carpinteiros, por exemplo.403

Muito embora os anais estatais desde períodos iniciais mencionassem com alguma frequência composições artísticas produzidas ao longo dos reinados, os nomes daqueles que as confeccionaram nunca as acompanhavam. As obras eram anônimas, assinadas em casos raríssimos, pois a originalidade ou a individualidade daqueles que executavam as composições eram aspectos prescindíveis em arte egípcia. O cargo era mais importante que o indivíduo que o exercia, e o “resultado global” era o que de fato interessava, não o particular.404 Pintores ou escultores egípcios, portanto, não eram independentes, não podiam expressar sua criatividade livremente, como os artistas renascentistas, pois, acima de tudo, eram parte das instituições real, estatal ou templária.405

402

SCHÄFER, Heinrich. Principles of Egyptian Art. Tradução e notas de BAINES, John. Oxford: Griffiith Institute, 1986, p. 64

403

Idem, ibidem, p. 4.

404 VALBELLE, Dominic. “O Artesão”. O Homem Egípcio. In: DONADONI, Sergio (org.). O

Homem Egípcio. Lisboa: Presença, 1994, pp. 56-57.

405 Cf. ARNOLD, Dorothea. “The Workshop of the Sculptor Thutmose.” In: Arnold, Dorothea.

119 Gay Robins destaca que certamente os artesãos egípcios eram submetidos a treinamentos supervisionados por um mestre. O artesão deveria aprender como desenhar objetos diversos e retratar as figuras humanas por meio de esboços em superfícies que poderiam ser facilmente encontradas e de baixo custo, como lascas de pedra calcária ou fragmentos de cerâmica. Algumas dessas peças, inclusive, chegaram até nós com as devidas correções do mestre.406 Era este último quem liderava seu grupo de artesãos e muito provavelmente concebia o design original, além de supervisionar cada estágio da produção, adicionando seu toque pessoal no fim.407

Ao longo da história faraônica, contudo, alguns homens saíram do anonimato, como Imhotep, arquiteto de Djoser, no Reino Antigo, que chegou a ser divinizado, posteriormente408; na Décima Oitava Dinastia, os construtores do templo de Lúxor, Suti e Hor, supramencionados nos hinos da nova teologia solar; e Men, principal escultor de Amenhotep III, que executou seus trabalhos sob o comando do vizir Amenhotep, filho de Apu, também deificado.

No reinado de Akhenaton, dois nomes merecem destaque como escultores preferidos do rei: Bak, encarregado pelo estilo artístico inicial, andrógino e, posteriormente, Tutmés, que possuía uma grande oficina ao lado de sua casa, no centro da cidade de Amarna, onde foram encontrados belos bustos da família real, incluindo o famoso busto de Nefertíti. Além de conhecido, Tutmés é um dos poucos artesãos egípcios cujo estilo refinado pode ser facilmente identificado por seus traços distintivos.

Os textos costumam insistir que Akhenaton era quem “pessoalmente” instruía seus escultores e muito embora Baines e Montserrat acreditem que este tipo de declaração seja meramente retórica, pois encontra precedentes desde o Reino Antigo, é bem provável que o monarca tenha acompanhado de perto a implantação dos novos estilos e proporções amarnianos que sancionou.409

406

ROBINS, Gay. O. cit., 1986, p. 9.

407

Idem, ibidem, p. 7.

408

SCHÄFER, Heinrich. Op. cit., 1986, p. 63.

409

120 No antigo Egito, o público para o qual estes trabalhos de arte estavam direcionados era bastante específico: a família real e a elite.410 Esta classe dominante, que, segundo Cardoso, praticamente “se confundia” com o aparelho de Estado em seus cargos mais altos, surgiu inicialmente no contexto regional e precedeu, inclusive, a unificação do país.411

De acordo com John Baines, em quase todos os períodos a elite se constituiu como:

Grupo altamente interligado de poucas centenas de pessoas. Seus integrantes eram todos do sexo masculino e eles eram os pais da geração seguinte da elite. Embora nenhuma regra exigisse que suas posições fossem herdadas, os filhos dos membros da elite tinham, no conjunto, uma possibilidade maior de atingirem os altos cargos que os outros. O núcleo da elite, contando suas famílias, chegava a duas ou três mil pessoas. Havia, talvez, cinco mil pessoas adicionais que soubessem ler e escrever, as quais, com suas famílias levariam a classe governante e administrativa a menos de 50.000 pessoas, das quais talvez uma em cada oito fossem funcionários alfabetizados. Eles podem ter constituído de três a cinco por cento da população, que, no Reino Antigo, talvez atingisse a cifra de 1,5 milhão de pessoas.412

A definição acima nos indica que a elite no Egito, além de minoritária, em todas as fases históricas configurou-se como um grupo coeso e que nos deixou a maioria dos textos e representações que se conservaram da cultura faraônica. Sabemos muito pouco acerca das práticas artísticas e religiosas fora da esfera que envolvia o rei e a realeza. Por isso mesmo, a disparidade absoluta que imperava na sociedade egípcia antiga, na qual a maioria da população vivia com poucos recursos e repleta de adversidades, obrigava este grupo dominante a criar mecanismos que assegurassem seu status elevado.413

Uma das características mais notáveis da arte egípcia canônica é sua “unidade originária radical” com a escrita hieroglífica.414 Tal unidade “não era

410

CARDOSO, Ciro. Arte e ofícios no antigo Egito. Material cedido pelo autor, p. 4.

411

Idem. Amarna e o surgimento de um novo setor da elite egípcia. Material cedido pelo autor, p. 1.

412

BAINES, John. Op. cit., 2002, p. 162. Há autores, como Leonard Lesko, que são mais otimistas quanto ao número de pessoas letradas no Egito. Seja como foi, a parcela ainda sim era ínfima e minoritária.

413

Algumas observações foram feitas em CHAPOT, Gisela. Op. cit., 2007, p. 69.

414

CARDOSO, Ciro. A relação entre textos e imagens no antigo Oriente Próximo. Material cedido pelo autor, 1998, pp. 4-5. Cf. FISCHER, Henry George. L’écriture et l’art Égypte

121 típica do sistema egípcio de códigos semioticamente integrados; mas sim de um sistema egípcio específico conhecido como canônico”. 415

Somente aqueles que recebessem a formação como escriba, os quais se tornavam aptos a ler e escrever, estariam capacitados a compreender por completo o significado das representações imagéticas, que se fundiam com hieróglifos na maioria dos casos. Tal “monopólio dos códigos” era uma forma de controle social por parte do grupo dominante, bem observada por Cardoso, que relegava à maioria da população, como destacamos anteriormente, um papel subalterno na base da pirâmide social egípcia.416 Logo, era esta pequena elite, formada por funcionários régios, sacerdotes, militares e artesãos especializados, que tinha acesso aos materiais e riquezas necessários para idealização e produção dos trabalhos de arte egípcia. Esta, portanto, legitimava e reforçava o status quo deste pequeno grupo dominante no Egito, a parte mais “visível” da sociedade egípcia, sem dúvida alguma.

Todavia, Cardoso explica que, em determinados períodos da história faraônica, este grupo minoritário se tornou “maior e mais complexo”, como entre os séculos XVI-XIV, momento de formação e consolidação de um império egípcio dentro e fora do Oriente Próximo.417 Nas palavras do autor, momento em que nasceram: “novos setores em função da criação de um exército e marinha permanentes, do controle estatal de recursos mais abundantes (...) e, por fim, de novas necessidades administrativas suscitadas pela criação de um império asiático e africano”.418

As relações do surgimento de novos grupos com o episódio amarniano é o ponto que nos interessa nesta discussão, já que o faraó Akhenaton obteve claramente apoio maciço do grupo, sendo, inclusive retratado no material imagético do período com alguma constância, o que era algo raro em arte egípcia. Geralmente o monarca não era representado junto com outros

415

Idem, ibidem, p. 4.

416

CARDOSO, Ciro. Op. cit., 1998. Um estudo completo sobre o sistema canônico foi feito por DAVIS, Whitney. The Canonical Tradition in Ancient Egyptian Art. Cambridge: Cambridge University Press, 1989.

417

CARDOSO, Ciro. Amarna e o surgimento de um novo setor da elite egípcia. Material cedido pelo autor, p. 2.

418

122 humanos e cenas de “vida na corte” não são nada comuns, antes do período amarniano.419

Neste projeto formulado por Ciro Cardoso, o autor reuniu opiniões distintas acerca do tema: a de John Wilson, que, na década de 50, sugeriu que houve uma total “substituição da elite tradicional por outra nova, desprovida de privilégios”, ou seja, de homens de família pouco importantes que teriam apoiado Akhenaton e assim galgado posições em seu reinado.420 A presença de inúmeros funcionários vigentes durante os reinados de Amenhotep III e seu filho inviabiliza a ideia radical de Wilson, assim rebatida por Aldred na década de 70, mas com certa ênfase exagerada na permanência dos funcionários antigos, como observou Cardoso.421

A hipótese que Ciro Cardoso considera mais aceitável foi sugerida por Vinogradov, que não se restringe ao reinado de Akhenaton, mas contempla um longo período que compreende os séculos XVI, XV e XIV a.C.422 Para o referido autor, “os interesses dos reis egípcios, que haviam entrementes consolidado o seu poder, coincidiam com os do novo estrato de funcionários que apoiava a dinastia”.423

Ou seja, um grupo que disputou com a elite tradicional os recursos do Egito imperial, apoiado no faraó num longo processo que chegou ao ápice durante o reinado de Akhenaton. Ciro Cardoso salienta que inscrições encontradas em tumbas destes particulares possuem “marcas textuais do tipo eu era nada e o rei me fez”, algo que não aparece nas inscrições daqueles funcionários filhos ou reminiscentes do reinado anterior.424

Embora as fontes em todos os períodos históricos nos transmitam a sensação de que o faraó tomava decisões a bel prazer, como ser supremo, absoluto, sem qualquer tipo de apoio, Spence nos lembra que, no caso específico de Akhenaton, o rei não poderia “efetuar e manter as mudanças que fez sem seus cortesãos”.425

419

SPENCE, Kate. Op. cit., 2007, p. 269.

420

CARDOSO, Ciro. Amarna e o surgimento de um novo setor da elite egípcia. Material cedido pelo autor, p. 2. 421 Idem, ibidem. 422 Idem, ibidem. 423

Apud CARDOSO, Ciro. Amarna e o surgimento de um novo setor da elite egípcia. Material cedido pelo autor, p. 3. O tema será retomado em outros momentos da tese.

424

Idem, ibidem, p. 5.

425

123