3.1 Relatos da observação participante
3.1.3 Aspectos gerais do funcionamento do seminário teológico
Tendo começado com nossas visitas de observação participante no segundo semestre de 2003 prosseguimos até o primeiro semestre de 2006. Estivemos presentes semanalmente no seminário teológico, às vezes passando o dia inteiro, toda uma tarde ou uma parte da noite no local. Acompanhamos a vida dos estudantes de teologia, dos padres formadores e da vida em geral no contexto institucional: missas, aulas, refeições, momentos de espiritualidade, jornadas de estudos, festas, comemorações do aniversário do instituto teológico, assembléias, sessões de recados, reuniões de formadores, convivências, tardes de trabalho doméstico, jogos olímpicos, reuniões formais e informais de seminaristas, formaturas, despedida e recepção de novos formadores, etc. Assim, tivemos ocasião de acompanhar a vida cotidiana e também momentos especiais da vida do seminário, verificando
o funcionamento de diversos dispositivos político-pedagógicos em funcionamento no estabelecimento.
De um modo geral, podemos afirmar que o funcionamento cotidiano do seminário teológico não difere muito do seminário filosófico ou de um seminário Menor. Um dia típico no seminário teológico começa com o levantar às 06:00h da manhã, às 06:30h é celebrada a missa da comunidade do seminário, que costuma durar aproximadamente 45 minutos, em seguida há o café da manhã. As aulas começam às 08:10h, com intervalo de meia hora entre 10:00h e 10:30h. O almoço acontece às 12:00h. A tarde é “livre” e entre 13:30h e 17:00h os seminaristas podem aproveitar o tempo para os estudos e trabalhos acadêmicos. A missa ocorre às 17:00h e em seguida vem o jantar. A noite é “livre” e deve ser dedicada aos estudos.
Na segunda-feira, excepcionalmente, a manhã começa com a reza da oração dos salmos da Liturgia das Horas, chamada oração de “Laudes”. Nesse dia, o horário das 13:30h até as 16:30h é dedicado ao trabalho doméstico: os seminaristas realizam diversos serviços de faxina e de jardinagem no seminário. É a tarde dedicada ao “trabalho”. Depois do “trabalho”, celebra-se a missa, às 17:30h. Logo em seguida à missa, a comunidade se reúne no anfiteatro para uma rápida sessão de recados por parte dos padres formadores. Nesse momento são combinadas algumas atividades da semana que se inicia. Depois há o jantar no refeitório comunitário. A noite é “livre” para as atividades pessoais dos seminaristas, que devem se dedicar ao estudo.
Além dos trabalhos de faxina e jardinagem, os seminaristas se dividem em equipes encarregadas de lavar a louça do café da manhã, do almoço e do jantar, além de limpar o refeitório. As refeições são preparadas por cozinheiras, e lavadeiras cuidam das roupas de todos. Freqüentemente, os seminaristas também ajudam a passar roupas, quando as lavadeiras não dão conta do grande volume de peças.
Na quinta-feira às 20:00h acontece uma hora de adoração ao Santíssimo Sacramento, na capela do seminário, sendo encerrada com uma bênção eucarística solene. Na sexta-feira, após o almoço, que ocorre às 12:00h, os seminaristas ficam livres para irem para o estágio pastoral de fim de semana. Eles então viajam para as comunidades que lhes foram designadas para “fazer pastoral”. Nas comunidades paroquiais, eles vão desenvolver diversas experiências pastorais sob a orientação e supervisão do pároco responsável pela comunidade: catequese, grupos de coroinhas, de adolescentes, de jovens, formação para catequistas, visita aos doentes, acompanhamento de grupos específicos, assessoria ao pároco em suas tarefas sacramentais, ajudando na celebração da missa, de casamentos e de batizados. O seminarista pode também ficar encarregado de animar e coordenar uma comunidade dentro de uma grande paróquia, auxiliando o pároco em sua tarefa de pastor, inclusive presidindo celebrações da palavra nos domingos e distribuindo a comunhão aos fiéis. Não é incomum o caso do seminarista teólogo conhecido como “mini-padre”, nesse caso. O seminarista deve retornar para o seminário no domingo à noite e deverá estar presente na oração da manhã da segunda-feira.
Os dias ordinários no seminário teológico são realmente poucos: há diversas festas litúrgicas que ocorrem durante o ano e modificam a rotina da comunidade. Costuma acontecer uma tarde de espiritualidade por mês, quando um padre de fora vem dar uma palestra sobre temas específicos, promovendo um tempo de oração pessoal seguida de partilha coletiva e encerrando-se com a celebração da missa. Há tardes de “convivência” por turmas de teólogos e por grupos diocesanos, uma por semestre letivo, assim é freqüente que determinado grupo esteja ausente da comunidade de vez em quando. Normalmente, a “convivência” é realizada numa chácara fora da cidade, para onde os seminaristas vão para se confraternizar, jogar futebol, tomar banho de piscina e comer churrasco. O seminário promove também uma semana inteira de retiro por ano, geralmente em outra cidade, numa “casa de retiro” com um
pregador também convidado especialmente para a ocasião, que normalmente é alguém de fora e pode ser indicado pelos próprios seminaristas.
No tempo da Quaresma, da Páscoa e do Advento, os seminaristas prepararam e vivenciam momentos extras de espiritualidade, de oração, de celebração e de festa: promovem momentos penitenciais na Quaresma, celebram a “Páscoa Judaica” realizando leituras bíblicas, comendo pão sem fermento com ervas amargas acompanhadas de carneiro assado, vestindo roupas típicas e sentados no chão, tudo num ambiente especialmente decorado.
Também são comemorados mensalmente os aniversários dos membros da comunidade, com bolo depois do jantar. O almoço da quinta-feira é especial, correspondendo ao almoço de domingo, dia no qual a comunidade está dispersa nas suas atividades pastorais.
Como são várias as dioceses que enviam seminaristas para estudar teologia na instituição, a visita de padres formadores ou dos bispos diocesanos acontece esporadicamente e sem calendário. Então o grupo de seminaristas daquela diocese que está sendo visitada fica à disposição para entrevistas, conversas, orientações, prestação de contas, celebração eucarística, saída para jantar e outras atividades. O seminário teológico também é utilizado como local para a realização de reuniões ordinárias dos bispos respectivos, já sejam reuniões para tratar da formação dos seminaristas ou outras voltadas para assuntos pastorais mais gerais. Ainda existem atividades acadêmicas como a jornada de estudos anual, com duração de uma semana, sempre dedicada a um tema indicado e escolhido através de votação, pelos seminaristas estudantes, implicando tarefas e atividades em horários diversos. Todos esses eventos que incidem na rotina, apesar de positivos, causam no seminarista a sensação de que seu tempo “é todo picado” e que entre uma atividade e outra, quase não há tempo útil para estudar, por exemplo. De fato, a jornada acadêmica se encerra na sexta-feira com o almoço; depois o seminarista somente voltará a se ocupar com os estudos na segunda-feira à noite.
Muitos levam material didático para a pastoral, onde também preparam trabalhos escritos e estudam para as diversas provas escolares.
Os formandos ainda compõem ainda equipes de liturgia, encarregadas de preparar cerimônias, celebrações e outras atividades religiosas. Outras equipes se ocupam dos eventos festivos e esportivos da comunidade. Todas essas reuniões demandam tempo. Os seminaristas brincam, entre bem-humorados e irônicos, dizendo que “quando Jesus voltar, se ele não nos encontrar unidos, pelo menos vai nos encontrar reunidos”. Tipicamente, o seminário padece de um excesso de reuniões que tomam tempo e nem sempre são tão produtivas. Parece que o importante mesmo é preencher o tempo e manter todos ocupados. As assembléias comunitárias ocorrem pelo menos duas vezes por semestre, uma de planejamento no início e outra de avaliação no final. Elas tomam toda uma tarde e constituem um capítulo especial, como veremos adiante.
As celebrações litúrgicas, tais como oração de “Laudes”, adoração e eucaristia são esmeradamente preparadas. Os seminaristas teólogos têm uma grande preocupação em aprender todos os detalhes dos rituais, estudando e praticando as diversas regras e normas litúrgicas oficiais. Nisso são zelosos guardiões da ortodoxia, pois também são treinados e cobrados pelos padres formadores na observância cuidadosa das prescrições rituais. Há intensos debates sobre rubricas, uso de adornos e paramentos litúrgicos, o que pode e o que não pode, entre os formandos. Orientações ou práticas desencontradas nas celebrações presididas pelos padres formadores ou outros celebrantes convidados são motivo de comentário e de discussão. O sacerdote é sobretudo presidente da celebração da eucaristia, assim não é de admirar que se dedique tanta atenção às normas litúrgicas. Também é verdade que o pontificado de João Paulo II foi bastante claro e incisivo quanto às regras litúrgicas e à cobrança de sua correta observação.
No seminário teológico há uma sirene que toca automaticamente no horário de despertar, no início da aula, na hora do almoço e na hora da missa da tarde. A sirene é o toque de arregimentação dos membros do seminário para as atividades comunitárias oficiais: momentos da missa, da oração e da refeição. Aqui, tanto quanto no seminário filosófico, a sirene pode ser considerada símbolo da tutela institucional sobre os seminaristas. Os seminaristas filósofos aboliram a campainha, mas os teólogos nem a problematizam, sequer.
Os seminaristas têm acesso à Internet, jornais, revistas, televisão a cabo, a filmes em DVD ou vídeo cassete. Recebem notícias locais, nacionais e internacionais. No corredor que leva ao refeitório da comunidade há um quadro mural no qual são fixadas as principais notícias da semana, com destaque para reportagens de jornais de circulação nacional, envolvendo temática religiosa e figuras eclesiásticas.
O dia e o horário reservado para saídas do seminário teológico é a quarta-feira à tarde. Aí os seminaristas podem “ir para a cidade” ou “ir ao centro”, como dizem. Vão ao supermercado, à farmácia, ao “shopping”, ao centro comercial onde adquirem produtos de uso pessoal que não são fornecidos pelo seminário. A saída não é obrigatória e todos devem estar de volta para a missa das 17:30h. Todos os seminaristas têm a chave do seu quarto individual, além das da porta e do portão principais e, apesar do horário estipulado, eles são muito mais autônomos que os seus colegas filósofos: normalmente, eles saem quando precisam e desejam, exceto nos horários de aulas, nos quais são controlados pela lista de chamada do professor.
As férias dos seminaristas costumam ocorrer nos meses de julho, dezembro e janeiro, coincidindo com as férias acadêmicas, que tendem a marcar o ritmo de funcionamento do seminário teológico. Parece que se não há vida acadêmica, também não há outras atividades formativas na instituição. No período de férias, os seminaristas passam um tempo com seus familiares e outro tempo é dedicado a atividades pastorais ou formativas
organizadas por suas próprias dioceses de origem. As férias são muito esperadas por eles, pois constituem um tempo de liberdade do seminário, da vida acadêmica e dos padres formadores.
Verificamos que quando algum reitor novato no estabelecimento deseja impor rigidez nos horários de saída, costuma encontrar forte resistência dos seminaristas teólogos, que defendem ciosamente sua autonomia e os espaços conquistados anteriormente. Nesse sentido, os seminaristas teólogos são mais capazes de fazer frente à autoridade de plantão, com base na sua condição de seminarista oficial da diocese e também de adulto. Eles costumam sair para caminhar no bosque próximo do estabelecimento, ir ao cinema, a uma padaria próxima tomar um lanche, refrigerante (inclusive cerveja), passear numa pista de caminhadas muito movimentada na cidade, ir ao supermercado, etc; saem com freqüência à noite. Quando ficam no seminário durante o fim de semana, caso precisem estudar para uma prova ou preparar trabalhos escolares, estando livres, costumam sair à noite para espairecer. Os padres formadores também costumam se ausentar do seminário no fim de semana, ocupados com paróquias ou outras atividades pastorais em suas dioceses de origem.
As relações entre os seminaristas parecem menos tensas do que no seminário filosófico. Os seminaristas teólogos vivem em número menor numa casa maior e se sentem mais seguros quanto ao vínculo com suas dioceses. Parecem mais tranqüilos e decididos no plano vocacional. Os relacionamentos são mais formais, parece haver mais tolerância entre os teólogos, que se mostram mais independentes, individualistas e autônomos uns com os outros. A regra parece ser que cada um deve cuidar de si e não atrapalhar os outros no caminho até a ordenação sacerdotal. As rixas, as “picuinhas”, tendem a ser menores e mais discretas. As panelinhas persistem, aglutinando amigos e pares de longa data. Há seminaristas que têm casos amorosos com colegas de casa ou de fora, com todos os sofrimentos e tensões que eles implicam. Há poucos que têm relacionamento de namoro fixo com moças da cidade. O seminarista “ecônomo” que ajuda o padre reitor na administração, ficando responsável pelo
veículo da casa e pelas compras no seminário tende a tornar-se um sujeito poderoso e dominante cujas graças e benefícios podem ser comprados com subserviência e adulação. Tudo isso é sigiloso, embora os seminaristas saibam de tudo sobre todos, mas cuidando para esconder as informações dos padres formadores o melhor possível. Esse submundo é propício para ameaças veladas, chantagem emocional, perseguições, paranóia e culpa causadoras de grandes desgastes emocionais.
3.1.4 A EQUIPE DE PADRES FORMADORES: REITOR, DIRETOR ESPIRITUAL E