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A equipe de padres formadores: reitor, diretor espiritual e diretor de estudos

3.1 Relatos da observação participante

3.1.4 A equipe de padres formadores: reitor, diretor espiritual e diretor de estudos

Durante o tempo em que estivemos realizando essas visitas de observação e as entrevistas (ano de 2003 a meados de 2006), tivemos a ocasião de presenciar o trabalho de três reitores e de dois diretores espirituais diferentes. Apenas o padre diretor de estudos permaneceu o mesmo o tempo todo.

O primeiro reitor era considerado pelos seminaristas mais frio e distante, “alguém que não atrapalha ninguém e que não quer problemas”; embora fosse considerado uma boa pessoa e “mão-aberta”, era um formador bastante ausente, estando freqüentemente fora do seminário, ocupado com outras atividades da sua diocese. Ele era rigoroso com o dia de chegada dos seminaristas no início do ano letivo e despediu um deles porque o rapaz se atrasou um dia. Também colocou um alarme espalhado pelo seminário, que soava quando alguém entrasse ou saísse de um dos pavilhões que constituem o estabelecimento. Dizia que era para evitar a invasão de ladrões e ativava o alarme às 11:30h da noite. Os seminaristas não gostaram desse limite para sua liberdade de ir e vir dentro e fora do seminário. Diziam que o alarme não era para os ladrões, mas para controlá-los e enquadrá-los no horário. Os teólogos começaram a sabotar o alarme, fazendo-o disparar propositalmente várias vezes na noite. O

alarme era ligado e desligado a partir de uma central localizada no escritório do padre reitor. Toda vez, ele tinha que ir verificar o que estava acontecendo, o que causou o disparo do alarme, coisa que era muito cansativa. Por fim, decidiu-se que o alarme seria ligado apenas nos fins de semana, quando poucas pessoas ficavam na casa. Esse padre reitor deixou o cargo para assumir outra função em sua diocese, depois de alguns anos de serviço no seminário teológico. Ele não tinha preparação específica para formador, além de ter sido formador no seminário menor de sua diocese. Durante seu mandato, era freqüente o conflito com a dimensão acadêmica, com o diretor de estudos do curso de teologia: quando não havia aulas no calendário do seminário, os seminaristas queriam ir para casa ou para a pastoral, já que não havia outra atividade formativa programada. O padre diretor de estudos, por exemplo, concedia uma “ponte”, emendando feriados com outros dias, então os seminaristas não queriam voltar ao seminário senão na véspera do próximo dia letivo. O reitor começou a vetar esse tipo de prática, exigindo a presença deles no seminário. Houve inclusive uma altercação pública entre o padre reitor e o padre diretor de estudos, para júbilo maior dos seminaristas amotinados! Esse conflito demonstra que também no seminário teológico, na ausência de um verdadeiro e intencional projeto político-pedagógico-místico, a dimensão acadêmica, por ser a melhor estruturada e avaliada, acaba recobrindo o vazio do processo formativo. Quanto mais a dimensão acadêmica se autonomiza do processo formativo do seminário, mais a descoberto suas lacunas se evidenciam. Daí se pode perguntar: qual é o trabalho dos padres formadores? Onde está o projeto formativo do seminário teológico? O que os padres formadores estão fazendo afinal?

Por outro lado, se o papa já disse tudo sobre a formação sacerdotal (JOÃO PAULO II, 1992), cujas orientações eclesiásticas romanas foram aplicadas no Brasil (CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL, 1995), adaptando as diretrizes pontifícias para a realidade nacional, parece que basta seguir as coordenadas que tais

documentos ordenam. Quando há um projeto pronto vindo da cúpula romana e da episcopal nacional, parece ser possível economizar um projeto regional e local de formação do clero. Seguindo o projeto oficial da Igreja, seria quase desnecessária a formulação de um projeto político-pedagógico-místico próprio.

O segundo reitor, que exerceu o cargo entre agosto de 2003 e dezembro de 2004, também veio sem preparação prévia para ocupar o cargo no seminário teológico. Ele havia sido auxiliar na equipe de formação do seminário filosófico e acolheu, entre surpreso e perplexo, o pedido do bispo para que assumisse a função de reitor no seminário. Esse segundo reitor ficou no cargo durante um ano e meio e depois, nas férias de dezembro, abandonou o ministério sacerdotal e deixou tanto o seminário teológico quanto sua diocese. Tal fato foi chocante, causando surpresa geral. Curiosamente, estabeleceu-se um silêncio completo em torno desse reitor: ninguém comentava o fato, como se ele houvesse simplesmente evaporado no ar.

Durante seu mandato, o segundo reitor começou imediatamente uma série de obras de manutenção, reforma e consertos gerais nas instalações físicas do seminário teológico. Isso se repetiu também com o terceiro reitor. Talvez seja mais fácil e visível fazer obras de carpintaria que beneficiem os seminaristas e que demonstrem um serviço concretamente realizado. Parece-nos típico esse comportamento dos padres formadores, o que também acontecia com os diversos reitores que acompanhamos no seminário filosófico. Parece haver uma necessidade de negar a gestão anterior, corrigir seu descaso, como se nada houvesse sido feito até a chegada do novo reitor, ou então reformar, modificar, remodelar e reequipar ambientes, numa tentativa de transformar e ao mesmo tempo apagar os vestígios do reitor anterior4.

4COMBLIN, J. O povo de Deus. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2002. 412p.

O que Comblin (2002, p. 398-399) afirma do pároco, podemos aplicar também ao reitor, que por direito, goza de “jurisdição universal” no seminário: “Não é raro acontecer a seguinte situação: chega um novo vigário, despede

O dinheiro vindo das dioceses para manter o seminário teológico é escasso, mas sempre parece haver dinheiro para obras de infra-estrutura, para reformas e novas construções. O mesmo já não se pode dizer quanto aos investimentos no pessoal que trabalha no seminário: funcionários em geral e, mais particularmente, os professores do curso de teologia. O investimento em pessoal fica relegado para um futuro no qual o seminário esteja melhor aparelhado, momento que nunca parece chegar. Realmente, é válido o ditado latino: “Ecclesia semper reformanda” (Igreja sempre a ser reformada, atualizada) mesmo que seja em seus aspectos físicos.

O segundo reitor modificou o cardápio, procurando oferecer uma alimentação mais natural e vegetariana para os seminaristas, inclusive diminuindo a quantidade de comida. Isso desagradou os seminaristas. Ele reformou algumas alas do seminário e comprou mobília nova, além de jogar fora muitos móveis velhos e deteriorados pelo tempo e pelo uso. Quis ainda policiar e controlar as entradas e saídas dos seminaristas, enquadrando-os no horário e foi firmemente enfrentado pelos teólogos em algumas assembléias, que continuaram a sair quando precisavam e queriam. Contudo, ele era muito presente na casa, participando dos momentos comunitários. Os seminaristas o achavam sempre um pouco triste e com um certo ar de desgosto. Ficavam irritados porque o reitor costumava passear pela casa nos horários de trabalho, procurando verificar se eles estavam de fato cumprindo suas tarefas. Mais tarde, ele começou a tomar medidas impopulares: deixou de apresentar durante alguns meses o balancete financeiro mensal que o reitor anterior sempre fixava no mural que fica no corredor do refeitório comunitário e comunicou à comunidade que havia um buraco nas contas, um défict orçamentário e que seria preciso economizar. Cortou coisas do cardápio, não permitiu mais que o veículo do seminário levasse os teólogos até a rodoviária nas sextas-feiras, quando eles viajam para a pastoral, nem que fosse usada para as convivências, para economizar as pessoas que colaboravam com o vigário anterior, desmonta as obras existentes, rejeita o planejamento que tinha sido feito, proclama que até hoje pouco se fez na paróquia, que tudo está para ser feito, mas que com ele as coisas funcionarão. Começa tudo de novo por achar que o que havia sido feito estava errado.”

gasolina. É óbvio que medidas impopulares que revogam ou cortam privilégios são sempre mal recebidas e atraem a cólera dos seminaristas.

No ano de 2003, a vida fraterna e o espírito comunitário foram pontuados com diversos momentos importantes que serviram para unir os laços de amizade entre os membros da comunidade. Houve a “noite da pizza” logo no início do semestre, atividades de esporte e lazer nas tardes de quarta-feira, assembléias de avaliação periódicas, finais de semana dedicados a palestras de formação encerradas com missa e seguidas de convivência (um foi no início do primeiro semestre e o outro aconteceu no início do segundo semestre), celebrou- se missa e confraternização por ocasião das comemorações dos vinte anos de ordenação sacerdotal do padre reitor, a despedida do antigo reitor e acolhida do novo, a festa da padroeira do seminário e o aniversário de 20 anos da instituição também foram devidamente celebrados; aconteceram confraternizações por turmas, homenagens mensais aos aniversariantes, a Festa Junina por ocasião do encerramento do primeiro semestre, houve Jogos Olímpicos Inter-Seminários, envolvendo as casas de filosofia e teologia, além da participação dos formandos e dos padres formadores em celebrações nas quais alguns seminaristas receberam os ministérios de leitor e acólito, outros foram ordenados diáconos e alguns presbíteros, houve ainda diversos momentos espontâneos entre os seminaristas teólogos.

A saída do segundo reitor do seminário foi sentida como um alívio pelos seminaristas. Nesse meio tempo, o padre diretor espiritual do seminário foi nomeado bispo e, depois de certa hesitação, ele resolveu aceitar o ministério episcopal. Esse diretor espiritual havia sido um diretor de estudos rigoroso com os alunos durante um certo período de tempo. Mais tarde, depois de passar um ano se preparando através de alguns cursos e retiros espirituais, tornou-se o diretor espiritual do seminário teológico. Quando ele foi ordenado bispo diocesano, um novo diretor espiritual veio substituí-lo em 2004: um padre que já havia

sido reitor do seminário menor, considerado um homem muito bom, muito santo e dedicado a uma profunda vida de oração. Ele foi muito bem aceito pelos seminaristas, que se inspiravam com seu estilo de vida simples e espiritual. Esse novo diretor espiritual também acabou sendo nomeado para o episcopado e deixou o seminário teológico.

O terceiro reitor chegou em janeiro de 2005 e veio com um preparo melhor para ocupar o cargo no seminário teológico: ele também havia sido reitor do seminário menor em sua diocese; por um breve período de tempo também foi reitor (não muito bem sucedido) no seminário filosófico. Participou e coordenou diversos cursos de capacitação para formadores junto a organismos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Inevitavelmente, começou sua gestão com novas obras de reforma e melhoria da infra-estrutura e mobiliário do seminário teológico, para não ser exceção à regra dos reitores “empreiteiros”. Ele manteve as contas do seminário em dia e logo também começou a cobrar o cumprimento rigoroso dos horários da casa, enfrentando uma resistência nem sempre tão velada dos seminaristas teólogos. Nas assembléias, dizia que “o seminário não era mesmo uma democracia e que lugar onde todo mundo manda, vira bagunça”. Esse reitor passou a buscar seminaristas que estavam em seus quartos, ao invés de estarem presentes nas atividades comunitárias, atitude que era considerada demasiado vexatória e autoritária pelos seminaristas. Apesar de tudo, a avaliação dos seminaristas era positiva quanto a ele, que estava cuidando de implementar muitas reuniões por grupos diocesanos e por turmas para discutir temas atuais da formação sacerdotal.

As relações dos seminaristas com a equipe de padres formadores continuam sendo formais e distantes. Manter distância dos formadores dá segurança, pois evita o risco de que os padres vejam erros ou defeitos passíveis de reprimenda ou correção. Os formadores convivem constantemente com os seminaristas: como professores na sala de aula, nas

refeições, nos momentos de oração, como presidentes das celebrações eucarísticas. Os padres normalmente procuram ser simpáticos, próximos e dialogantes com os estudantes de teólogia. De um modo geral, o clima institucional parece bem menos carregado e opressivo no seminário teológico que no filosófico. Cremos que isso se deve a diversos fatores. Um deles seria que o período filosófico se constituiria num tempo de provação intensa para o candidato ao sacerdócio. Quando ele já passou pelo crivo da filosofia e dos formadores, chega ao curso teológico e, de certa forma, é considerado “aprovado” e espera-se que sua opção vocacional pelo sacerdócio já seja mais clara, madura, consistente, e de preferência, definitiva. Portanto, a vigilância pode ser mais flexível por parte da autoridade. De um lado, uma casa maior, com muito mais espaço de circulação, com amplos jardins e com menos habitantes também pode aliviar as tensões. Por outro lado, os seminaristas que se decidem pelo curso teológico e pelo projeto de vida sacerdotal já estão há longos anos em processo de formação e começam a se resignar, cansam de lutar para modificar as coisas. Entendem que “não adianta dar murro em ponta de faca”, como eles dizem. Vencidos pelo cansaço de anos de resistência a práticas mais ou menos opressivas, eles vão se rendendo e começam a esperar pela redenção libertadora da ordenação sacerdotal, na esperança de então poder fazer alguma coisa diferente.

Mas inevitavelmente as relações de poder continuam agonísticas em surdina e, de vez em quando, as forças se crispam abertamente em enfrentamentos da autoridade pelos seminaristas, sobretudo no cenário pedagógico e acadêmico, espaço objetivo de grandes embates. A equipe de formadores continua soberana no seminário teológico, dotada de amplos poderes e de arbítrio, encarregada de observar, supervisionar e selecionar os candidatos considerados aptos para receber a ordenação sacerdotal. Os relatórios semestrais emitidos pelo reitor continuam operantes, embora não pareçam mais tão intimidadores quanto no seminário filosófico (BENELLI, 2006a, 2006d).