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Aspectos gerais e requisitos

No documento GUILHERME GUERBACH CRIMES CONTRA A HONRA (páginas 28-35)

Tal como ocorre em relação ao crime de calúnia, que vimos há pouco, a difamação também protege a honra objetiva, a reputação dos indivíduos. Difamar significa atentar contra a boa fama; levar ao conhecimento de terceiros fatos desabonadores praticados por outra pessoa.

Conforme Adalberto Aranha:

„Difamar‟ tem sua origem etimológica no termo latino diffamare, significando literalmente „falar mal de alguém‟. Das derivações „difamador‟ ou „difamante‟, significando o que difama, e „difamatória‟ representando o conter uma difamação. Em sentido vulgar tem como significado „tirar a boa fama‟ ou „desacreditar publicamente‟, como indicam os dicionaristas.27

Esse delito vem capitulado no artigo 139 do Código Penal:

Difamação

Art. 139 - Difamar alguém, imputando-lhe fato ofensivo à sua reputação: Pena - detenção, de três meses a um ano, e multa.

(...)

Segundo definição de Júlio Fabbrini Mirabete, difamação é:

...a imputação a alguém de fato ofensivo a sua reputação. Distingue-se da calúnia porque nesta o fato imputado é previsto como crime, devendo ser falsa a imputação, em regra, o que não ocorre quanto à difamação.28

Já Frederico Abrahão de Oliveira:

A difamação é crime mesmo quando o fato imputado é verdadeiro, o que não ocorre com a calúnia. Ainda estabelecendo paralelos com a calúnia, observamos que, assim como esta, a difamação trata da ofensa à honra objetiva da vítima porque atinge o conceito, a estima que o indivíduo desfruta em seu meio. Na difamação, o fato narrado não é criminoso, enquanto que na calúnia, necessariamente, deverá sê-lo.29

De fato, é unânime o entendimento segundo o qual o fato imputado na difamação também seja determinado, no entanto, não se exige aqui que este seja falso, e nem que constitua um crime. Além disso, o fato imputado não pode ser de conhecimento dos que dela foram informados pelo difamador.

Por fim, “é essencial que o fato seja determinado e que esta determinação seja objetiva, posto que a imputação vaga, imprecisa, mais se enquadra no crime de injúria.” (STF - RTJ 89/366)

Quanto à exceção da verdade nos crimes de difamação, preceitua o parágrafo único do artigo 139 que esta somente será admitida “se o ofendido é funcionário público e a ofensa é relativa ao exercício de suas funções.”

Para mais, o Superior Tribunal de Justiça já assentou que, no sentido da doutrina penalista, o funcionário público deve necessariamente estar no exercício de função pública no momento do ajuizamento da exceção, caso contrário, esse perde o direito a se utilizar da prerrogativa legal:

PENAL. EXCEÇÃO DA VERDADE. DIFAMAÇÃO. REJEIÇÃO. FUNÇÃO PÚBLICA. AFASTAMENTO PELO EXCEPTO.

Revela-se inadmissível, no presente caso, o processamento da exceção da verdade, porquanto o excepto não mais exerce qualquer função pública o que, na lição de abalizada doutrina (v.g.,Heleno Cláudio Fragoso; Magalhães Noronha; Nelson Hungria; Adalberto José Q. T. de Camargo Aranha e Luis Régis Prado), retira a justificativa para a medida, excepcional, no caso do delito de difamação. Agravo regimental desprovido.

28

MIRABETE, Julio Fabbrini. Manual de Direito Penal: Volume 1. São Paulo: Atlas, 2005, p. 160.

STJ - AgRg nos EDcl na ExVerd 52 DF - Rel. Félix Fisher - Julgado em: 04/03/2008.

O Código Penal não pune a difamação contra os mortos, como o faz em relação ao crime de calúnia. No entanto, a Lei de Imprensa (Lei nº 5.260/67) protege a honra dos mortos em seu artigo 24:

Art. 24. São puníveis, nos termos dos arts. 20 a 22, a calúnia, difamação e injúria contra a memória dos mortos.

Tal como ocorre com a calúnia (e com qualquer outro crime), a difamação também pode ser classificada em seus mais variados aspectos. É o que faremos a seguir, ressaltando, porém , que a classificação é idêntica à realizada quando tratamos do crime de calúnia.

Para a caracterização do crime de difamação também são necessários três requisitos distintos e cumulativos:

a) imputação de fato determinado;

b) que o fato seja ofensivo à reputação alheia, verdadeiro ou não; e

c) a comunicação do fato a terceiro.

Passamos agora à classificação doutrinária do crime de difamação, adiantando que pouco ou nada difere da classificação anteriormente apresentada em relação ao crime de calúnia.

3.2.2. Classificação

a) quanto ao agente: trata-se de crime comum.

c) quanto ao momento da consumação: é crime instantâneo de efeitos permanentes.

d) quanto ao resultado: é crime formal,

e) quanto à execução: novamente há duas situações a serem consideradas: se praticado por forma oral, é delito unissubsistente; caso praticado de forma escrita ou filmada, é plurissubsistente, admitindo-se, portanto, a forma tentada.

f) quanto ao concurso de agentes: é crime unilateral, pois para o seu cometimento basta a conduta de uma só pessoa, embora o concurso de agentes também seja perfeitamente possível.

g) quanto ao tipo de dolo: também se requer o dolo específico. Conforme precedentes do Superior Tribunal de Justiça e do Tribunal Regional Federal da 5ª Região:

PENAL. AÇÃO PENAL ORIGINÁRIA. CRIMES CONTRA A HONRA. DIFAMAÇÃO. ART.139 DO CÓDIGO PENAL. DOLO ESPECÍFICO. AUSÊNCIA. JUSTA CAUSA.INEXISTÊNCIA. DENÚNCIA REJEITADA.

1. Para a configuração do crime de difamação é mister a existênciade dolo específico (animus difamanddi), consistente no desejo demacular a honra do ofendido.

2. Inexistindo justa causa para a ação penal, ante a ausência doelemento subjetivo do tipo, há de ser rejeitada a denúncia.

3. Denúncia rejeitada. Voto vencido do relator no sentido de que oexame da atipicidade subjetiva deve ser melhor apurado no curso daação penal. (grifo) STJ - APn 603 PR - Rel. Min. João Otávio de Noronha - Julgado em: 12/05/2011.

PENAL. DIFAMAÇÃO. OFÍCIO DO PRESIDENTE DA OAB/RN. ALEGAÇÃO DE FAVORECIMENTO DE CANDIDATO EM CONCURSO PÚBLICO. ELEMENTO SUBJETIVO DO TIPO CONFIGURADO. DOLO DE DIFAMAR. CRIME CONSUMADO. FIXAÇÃO DA PENA. - Denúncia de irregularidades sobre a inscrição de candidato a concurso público pelo Presidente da OAB/RN, no sentido de que a inscrição foi obtida mediante favorecimento. - Presente o dolo de difamar se o agente ultrapassa o limite da narrativa e da argumentação sobre fatos, elementos e circunstâncias, personalizando a interpretação de forma a imputar ao ofendido fato específico e desabonador de sua conduta. - Apelação provida. Substituição da pena privativa de liberdade por pena pecuniária - art. 44 do CP.

TRF 5ª Região - ACR 3517 RN - Rel. Ridalvo Costa - Julgado em: 19/05/2004

3.2.3. Algumas questões polêmicas

Em relação aos sujeitos passivos, não há a divergência de entendimentos a respeito da possibilidade de os inimputáveis serem sujeitos passivos do crime de difamação, diferentemente (como vimos) do que ocorre em relação à possibilidade desses serem sujeitos passivos do crime de calúnia.

Conforme Nelson Hungria:

Apesar de inimputáveis, os incapazes podem ser expostos à aversão ou irrissão pública, e seria iníquo deixar-se impune o injuriador ou difamador, como se a inimputabilidade, no dizer de Altavila, fosse uma culpa que se tivesse de expirar com a perda da tutela penal.30

E Cezar Roberto Bittencourt:

Os inimputáveis também podem ser sujeitos passivos do crime de difamação, isto é, podem ser difamados, desde que tenham capacidade suficiente para entede]r que estão sendo ofendidos em sua honra pessoal. Essa capacidade, evidentemente, não se confunde nem com a capacidade civil, nem com a capacidade penal, uma vez que o próprio imputável pode tê-la. Honra é um valor social e moral do ser humano, bem jurídico imaterial inerente à personalidade e, por isso, qualquer indivíduo é titular desse bem, imputável ou inimputável.31

Embora haja quem entenda (Magalhães Noronha) que nos crimes de calúnia contra inimputáveis a ofensa se qualifique como difamação, e não calúnia.32

30

HUNGRIA, Nélson. Comentários ao Código Penal, 3ª ed., Rio de Janeiro, Revista Forense, vol. VIII, 1956.

31 BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de direito penal: parte especial. 5. ed., rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2006, p. 354.

32 HUNGRIA, Nélson. Comentários ao Código Penal, 3ª ed., Rio de Janeiro, Revista Forense, vol. VIII, 1956, p. 119.

Já quanto às pessoas jurídicas, conforme Frederico Abrahão, é crescente o número de juristas que afirmam que seria possível que as mesmas figurassem como sujeitos passivos do delito de difamação.

As razões dessas constatações parecem evidentes: é indiscutível que as pessoas jurídicas são conhecidas e respeitadas no meio social de acordo com a sua reputação e boa fama e, a partir do momento em que alguém atenta contra esses atributos, está verificada a lesão.

Há precedente do Supremo Tribunal Federal, da relatoria do ex-ministro Francisco Rezek, onde se reconheceu a possibilidade do „alguém‟ constante do tipo penal da difamação abranger também as pessoas jurídicas (RT 640/265).

E também, decisão recente proferida em sede de recurso em habeas corpus, na qual o Min. Marco Aurélio de Mello afirma a possibilidade de a pessoa jurídica ser sujeito passivo no crime de difamação:

LEGITIMIDADE - QUEIXA-CRIME - CALÚNIA - PESSOA JURÍDICA - SÓCIO-GERENTE.

A pessoa jurídica pode ser vítima de difamação, mas não de injúria e calúnia. A imputação da prática de crime a pessoa jurídica gera a legitimidade do sócio-gerente para a queixa-crime por calúnia.

QUEIXA-CRIME - RECEBIMENTO - ESPECIFICAÇÃO DO CRIME. O pronunciamento judicial de recebimento da queixa-crime há de conter, necessariamente, a especificação do crime. AÇÃO PENAL PRIVADA - INDIVISIBILIDADE. A iniciativa da vítima deve direcionar-se à condenação dos envolvidos, estendendo-se a todos os autores do crime a renúncia ao exercício do direito de queixa em relação a um deles. QUEIXA-CRIME - ERRONIA NA DEFINIÇÃO DO QUEIXA-CRIME. A exigência de classificação do delito na queixa-crime não obstaculiza a incidência do disposto nos artigos 383 e 384 do Código de Processo Penal. QUEIXA-CRIME - ATUAÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO - NARRATIVA - AUSÊNCIA DE JUSTA CAUSA. O fato de o integrante do Ministério Público, em entrevista jornalística, informar o direcionamento de investigações, considerada suspeita de prática criminosa, cinge-se à narrativa de atuação em favor da sociedade, longe ficando de configurar o crime de calúnia.

STF – RHC 83091 DF – Rel. Min. Marco Aurélio de Mello – Julgado em: 04/08/2003

Contudo, essa foi uma decisão que também encontra oposição na jurisprudência do mesmo tribunal, que também já afirmou a impossibilidade de a pessoa jurídica ser sujeito passivo de quaisquer dos crimes contra a honra, nos termos da seguinte decisão:

Perante nossa lei, só a pessoa física pode ser ofendida, pois, no Código Penal, os crimes contra a honra são crimes contra a pessoa, quando se trata de caluniar, difamar ou injuriar alguém.

STF - RT 445/477.

E também do precedente do Superior Tribunal de Justiça, já mencionado neste trabalho (AgRg no Ag 672522 PR).

Desse modo, podemos perceber que a possibilidade de a pessoa jurídica ser sujeito passivo de crime de difamação ainda é uma questão em aberto tanto na doutrina como na jurisprudência brasileira.

Outra questão que se coloca é a relativa à propalação ou divulgação da ofensa caluniosa. Isto é, quando tratamos do delito de calúnia, vimos que há dispositivo legal específico que incrimina quem dá maior publicidade à ofensa. Contudo, não há dispositivo que preveja a mesma situação em relação aos crimes de difamação, e isso abre espaço para a dúvida: quem propala ou divulga a difamação também poderia ser incriminado?

A primeira corrente doutrinária, encabeçada por Magalhães Noronha33 defende que o fato não seria crime, tendo em vista que o silêncio da lei a respeito do crime de difamação, em contraposição à expressa menção feita em relação ao crime de calúnia, dá a entender que o legislador não pretendeu incriminar essa conduta quanto ao crime de difamação.

Já com entendimento contrário, no sentido da tipicidade da propalação ou divulgação da difamação, podemos citar o professor Damásio de Jesus, que argumenta que o crime existe porque quem propala ou divulga uma imputação difamante comete nova difamação, e por ela teria que responder.

Com o devido respeito a entendimentos diversos, dentre esses posicionamentos o mais adequado nos parece o exposto por Magalhães Noronha. Isto é, em direito penal não podemos conceder interpretação extensiva a um dispositivo incriminador; nem aplicá-lo analogicamente.

33

Além disso, um dos métodos de interpretação de textos normativos é o que busca a vontade do legislador e, nesse caso, tendo em vista a expressa previsão em um crime, e a omissão (que nos parece deliberada) em outro, indica que a vontade do legislador foi a de não incriminar essas condutas em relação ao crime de difamação. Caso contrário, faria constar no crime de difamação, ou inseriria uma previsão genérica nas disposições comuns, aplicáveis aos três delitos.

No documento GUILHERME GUERBACH CRIMES CONTRA A HONRA (páginas 28-35)

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