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O procedimento nos delitos contra a honra

No documento GUILHERME GUERBACH CRIMES CONTRA A HONRA (páginas 46-51)

4. DISPOSIÇÕES COMUNS AOS CRIMES CONTRA A HONRA HONRA

4.5. O procedimento nos delitos contra a honra

Quando se trata da persecutio criminis nos crimes contra a honra, o Código de Processo Penal estabelece um procedimento especial que, por ser especial, evidentemente foge à regra geral do procedimento ordinário, e é disciplinado em vários no terceiro capítulo do Título II de suas disposições, nos artigos 519 a 523.

A primeira observação que deve ser feita é a de que quando não haja forma estabelecida em lei especial, aplicar-se-á as disposições constantes dos capítulos I e II dos procedimentos especial, nos termos do artigo 519 do Código de Processo Penal:

Art. 519. No processo por crime de calúnia ou injúria, para o qual não haja outra forma estabelecida em lei especial, observar-se-á o disposto nos Capítulos I e III, Titulo I, deste Livro, com as modificações constantes dos artigos seguintes.

Porém, esse dispositivo deve ser interpretado de maneira que se considere aplicável apenas as disposições processuais penais do Capítulo II dos procedimentos especiais, haja vista que o Capítulo I foi integralmente revogado pela lei 11.101/05.

Mas é nas disposições dos artigos 520 a 522 que se encontram as maiores peculiaridades do procedimento penal nos crimes contra a honra:

Art. 520. Antes de receber a queixa, o juiz oferecerá às partes oportunidade para se reconciliarem, fazendo-as comparecer em juízo e ouvindo-as, separadamente, sem a presença dos seus advogados, não se lavrando termo. Art. 521. Se depois de ouvir o querelante e o querelado, o juiz achar provável a reconciliação, promoverá entendimento entre eles, na sua presença.

Art. 522. No caso de reconciliação, depois de assinado pelo querelante o termo da desistência, a queixa será arquivada.

De fato, o legislador previu uma espécie de audiência de conciliação antes de efetivamente receber a queixa-crime. Caso a conciliação seja frutífera, e as partes envolvidas se resolvam amigavelmente, o autor (querelante) deverá assinar um termo de desistência da queixa.

A partir da assinatura desse termo, o réu (querelado) poderá considerar extinta a sua punibilidade, devendo ser sumariamente absolvido pelo juiz, nos termos do artigo 397, IV, do Código de Processo Penal.

Por outro lado, se não houver a conciliação, o juiz decidirá se receberá ou não a queixa. Caso a receba, mandará citar o querelado, e o processo passará a se desenvolver normalmente, como no rito ordinário, desde que não haja o oferecimento de exceção, por parte do réu.

Como já se adiantou, a possibilidade de exceção da verdade é outra característica do procedimento penal dos crimes contra a honra, e vem instituída no artigo 523 do Código de Processo Penal:

Art. 523. Quando for oferecida a exceção da verdade ou da notoriedade do fato imputado, o querelante poderá contestar a exceção no prazo de dois dias, podendo ser inquiridas as testemunhas arroladas na queixa, ou outras indicadas naquele prazo, em substituição às primeiras, ou para completar o máximo legal.

O oferecimento da exceção da verdade ou da notoriedade do fato imputado deve ocorrer na apresentação da defesa prévia. Esse instrumento processual, como já dissemos neste trabalho, é o meio que o processo penal disponibiliza ao querelado para provar a veracidade da informação que se reputa desonrosa.

Na hipótese de oferecimento da exceção, abre-se a oportunidade de o querelante contestá-la, no curtíssimo prazo de dois dias.

Sendo julgada procedente a exceção, o magistrado deverá absolver o querelado por atipicidade da conduta. Do contrário, na hipótese de a exceção ser julgada improcedente, a persecução penal tomará novamente o seu curso ordinário, seguindo-se a oitiva de testemunhas.

Em que pese esses comentários, o fato é que esses crimes (com exceção da injúria racial, que tem a pena máxima cominada de 03 anos) estão sujeitos aos Juizados Especiais Criminais, por serem crimes de menor potencial ofensivo, e portanto, serão processados segundo o rito sumaríssimo que a Lei 9.099/95 instituiu.

CONCLUSÃO

Do que examinamos no primeiro capítulo desse trabalho, podemos seguramente concluir que os direitos da personalidade são tutelados tanto constitucional, quanto civil e penalmente, embora no campo penal essa proteção seja um pouco mais restrita, alcançando apenas a honra, que é apenas uma das várias espécies de direitos da personalidade conhecidas no direito brasileiro.

No segundo capítulo, quando tratamos exclusivamente da honra, que é o bem jurídico tutelado pelo Direito Penal, pudemos perceber que mesmo sendo um bem imaterial ou, um patrimônio moral dos indivíduos, a honra sempre gozou de proteção normativa, desde o século II a.C., no Código de Manu da Índia.

Desse milenar legislação, passou para a Lei das XII Tábuas, para o Direito Romano, para o Direito francês e, finalmente, para a grande maioria dos ordenamentos jurídicos mundiais, marcando presença no direito brasileiro desde o Código Criminal de 1830 e em todos os períodos históricos do ordenamento jurídico nacional.

No capítulo terceiro, no qual adentramos o tema principal deste trabalho e tratamos individualmente da cada uma das três espécies de crimes contra a honra (calúnia, difamação e injúria) podemos tirar várias conclusões.

Com relação ao delito de calúnia, que como visto é a falsa imputação a um sujeito de um fato descrito como crime, coloca-se a primeira questão da possibilidade ou não de os inimputáveis figurarem como sujeitos passivos desse delito. Vimos que alguma parte da doutrina penal recusa essa possibilidade tendo em vista que, como os inimputáveis não podem cometer crimes, não poderiam eles serem acusados de tê-los praticado.

No entanto, parece-nos que esse entendimento não é o melhor e, na linda do que doutrina Damásio de Jesus, trata-se de uma premissa falsa, pois os inimputáveis podem cometer crimes, sem que sejam considerados culpados. Em relação à possibilidade de as pessoas jurídicas figurarem como sujeitos passivos desse delito, achamos possível, desde que a imputação diga respeito aos crimes que podem ser praticados pelos entes coletivos.

Já quanto ao delito de difamação, que é atenta contra a boa-fama das pessoas, mediante a imputação de fatos de desabonadores de seu imagem no seio social,

vimos que é pacífico o entendimento de que os inimputáveis podem figurar como sujeito passivo desse delito.

Com relação às pessoas jurídicas, essa unanimidade não existe, havendo os que defendem essa possibilidade, como o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, Francisco Rezek, e o atual ministro da Corte Suprema, Marco Aurélio de Mello, mas prevalecendo o entendimento no Supremo e no Superior Tribunal de Justiça no sentido da impossibilidade dessa sujeição passiva, tendo em vista que o capítulo do Código Penal trata dos crimes contra as pessoas naturais, e não das pessoas jurídicas.

Quando examinamos o delito de injúria, que protege o „amor próprio‟ do indivíduo e, portanto, sua honra subjetiva, vimos que esse se materializa em xingamentos, insultos e depreciações pessoais, não sendo necessária a imputação de fato determinado ao indivíduo, bastando palavras ofensivas genéricas.

Vimos que esse delito comporta duas variantes: a injúria real, que é a injúria na qual se atinge materialmente o corpo da vítima, visando atingí-la em seu íntimo, como no caso de um tapa desferido no rosto de alguém; e, ainda, a injúria racial, instituída pela Lei nº 10.741/03, que é uma ofensa injuriosa que tem como pano de fundo critérios raciais, religiosos e etc.

Por fim, no quarto e último capítulo examinamos as disposições legais comuns aplicáveis aos delitos contra a honra, tais como as hipóteses de retratação e exclusão do crime, e destacamos as ações penais adequadas, pontuando que a regra é que a ação penal seja condicionada à representação ou requisição, conforme o caso, havendo algumas exceções, como os casos em de injúria real do qual decorram lesões corporais graves.

De todo o exposto, podemos concluir que, de um modo geral, o Código Penal vem cumprindo seu papel na tutela de um bem jurídico tão importante quanto à honra, só nos parecendo equivocada a posição de não se reconhecer as pessoas jurídicas como sujeitos passivos do crime de difamação, o que seria um avanço, pois é fato incontestável que as pessoas jurídicas têm um reputação no seio social e essa deve também ser tutelada pelo Direito.

No documento GUILHERME GUERBACH CRIMES CONTRA A HONRA (páginas 46-51)

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