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Os aspectos históricos do eixo propriamente dito serão abordados nesse subitem, através de marcos selecionados. Os diversos tipos de marcos descritos a seguir deverão ser entendidos como referências culturais e históricas que se fazem presentes no eixo nos dias de hoje; não pretendemos aqui limitar os aspectos históricos deste eixo a apenas estes marcos, nem mesmo esgotar informações a respeito de cada um deles, mas sim apenas retomá-los no âmbito de sua importância na consolidação do território do eixo. A divisão de setores segue aquela indicada no croquis apresentado em 2.1.

Setor 1

Identificam-se no setor 1 dois grandes marcos no que tange à sua constituição histórica e morfológica: o Velódromo e a Praça Roosevelt.

O setor 1 tem seu desenho estabelecido como o conhecemos hoje apenas em 1930, o que demonstraremos através dos mapas históricos a seguir, demarcando em vermelho os pontos de interesse para essa pesquisa.

Figura 14. À esquerda, planta de 1890 ("Planta da Capital do Estado de São Paulo e Seus Arrabaldes").

À direita, planta de 1895 ("Planta da Cidade de São Paulo").

Fonte: PASSOS & EMIDIO, 2009, p. 33 e 35, com marcação nossa em vermelho.

Em 1890 representa-se a Igreja da Consolação, sendo esta um indicativo do futuro local da Praça Roosevelt. Neste mapa também é importante notar o Ribeirão Saracura, determinante para os futuros arruamentos, que serão feitos em função de seu traçado. A Rua de Santo Antônio já se faz presente, paralela ao Ribeirão.

Em 1895, por sua vez, observa-se pela primeira vez registrada em mapa a Rua Augusta, tendo por limite a Rua Caio Prado; por uma década este será o limite da Augusta. A Rua Martinho Prado aparece pela primeira vez com este nome, já com um traçado através do qual se identifica de modo um pouco mais claro a forma da futura Praça Roosevelt.

Figura 15. À esquerda, planta de 1901 ("Planta da Cidade de São Paulo com as Redes dos Esgotos").

À direita, planta de 1905 ("Planta Geral da Cidade de São Paulo").

Fonte: PASSOS & EMIDIO, 2009, p. 47 e 50, com marcação nossa em vermelho.

O Velódromo aparece pela primeira vez em mapas em 1901, reaparecendo no mapa de 1905.

No ano de 1905 a Rua Augusta aparece estendida até a Rua Martinho Prado, o que pode ser lido como um indicativo da importância que o Velódromo adquiria como atividade de lazer em São Paulo. Também em 1905 observa-se a representação da Rua Frei Caneca, terminando na então denominada Rua L.

Augusta – pela leitura de mapas atuais, entendemos hoje ser a Rua Marquês de Paranaguá. Está configurado, portanto, o terreno do Colégio Des Oiseaux,

verificável na planta de 1913, na sequência, o que coincide com relatos históricos do início de suas atividades.

Figura 16. À esquerda, planta de 1913 ("Planta da Cidade de São Paulo").

À direita, planta de 1924 ("Planta da Cidade de São Paulo mostrando todos os arrabaldes e terrenos arruados").

Fonte: PASSOS & EMIDIO, 2009, p. 58 e 85, com marcação nossa em vermelho.

Em 1913 o Velódromo é registrado pela última vez, o que de fato coincide com demais registros históricos como veremos mais adiante ao tratar especificamente do Velódromo. Muitos são os novos registros nesse mapa:

- a Rua Augusta aparece em projeção, cruzando a Rua Martinho Prado e chegando até a Rua Major Quedinho.

- a Rua Frei Caneca é entendida até a Rua Caio Prado, seu limite atual;

- a Rua Marquês de Paranaguá avança até a Rua Santo Antônio;

- o SPAC (Clube Atlético São Paulo) e o Colégio Des Oiseaux são registrados pela primeira vez;

- surge a Rua Olinda, definindo o perímetro atual da Praça Roosevelt.

Em 1924, apesar de não se apresentarem muitas mudanças em relação a 1913, uma é essencial: a Rua Nestor Pestana aparece traçada no mapa, indicando a demolição do Velódromo.

Em ambos os mapas, observamos o antigo Ribeirão Saracura ainda como limitador dos arruamentos.

Figura 17. À esquerda, planta de 1929 ("Planta da Cidade de São Paulo – Folha I").

À direita, planta de 1930 ("Mapa Topográfico do Município de São Paulo, Folha 51").

Fonte: PASSOS & EMIDIO, 2009, p. 111 e 119, com marcação nossa em vermelho.

Em 1929 observamos um arruamento distinto da malha ao redor – a Rua Avanhandava aparece pela primeira vez traçada, de certo modo seguindo a topografia desenhada nas margens do Ribeirão Saracura. No traçado propriamente dito do Ribeirão, configura-se a Avenida Anhangabaú, futura Avenida Nove de Julho.

Também aparece traçada a Rua Álvaro de Carvalho, hoje uma bifurcação, por assim dizer, do eixo da Rua Augusta.

É em 1930 (mapa conhecido por Sara Brasil, a empresa que o executou, sendo o primeiro levantamento cadastral realizado da cidade de São Paulo) que é mapeada a Rua Martins Fontes, consolidando o trecho inicial dos arruamentos do eixo em estudo, como o conhecemos hoje.

É interessante destacar a ligação constatada na pesquisa entre o Velódromo e o Club Athletico Paulistano (CAP); suas histórias se misturam, e reforçam o deslocamento das centralidades da cidade ao longo do eixo da Rua Augusta. O Velódromo, concebido inicialmente para o ciclismo, na realidade, foi a primeira sede do CAP. Retomaremos brevemente à história dessas instituições, levando em conta a ênfase da pesquisa em compreender a transformação dos espaços no eixo em estudo.

Consta na bibliografia que conta a história do CAP, que o Velódromo é construído em 1857 por Conselheiro Antônio Prado, tendo por função a prática e competições de ciclismo, um hábito importado da Europa. Há, no entanto, controvérsias em relação a esta data, pois há referencias à existência do Velódromo em mapas apenas a partir de 1901.

Em 1900, à procura de uma sede para os treinos de futebol, esporte introduzido pelos ingleses que chegavam ao Brasil para trabalhar em companhias instaladas na cidade, o recém-fundado clube passa a alugar de Dona Veridiana o Velódromo, "[...] por 250 mil réis mensais, um pouco da influencia do neto Antônio e muito do espírito de colaboração [...]" (DIMAND, 1970, p. 13).

Conjecturamos que a confusão de datas de início das operações do Velódromo se dê pela própria história do CAP, que ali inicia suas operações em 1900.

Em 1901 o Velódromo passa por sua primeira reforma, com a construção de um campo de futebol no centro da pista de ciclismo.

Descrições nos mostram a realidade cotidiana da cidade à época:

Era muito comum a presença de senhoras no Velódromo com seus trajes baseados nos figurinos franceses. As saias arrastando pelo chão, os chapéus de abas, as sombrinhas bordadas, apertadas nos espartilhos, soltavam gritinhos de entusiasmo tanto quanto a etiqueta e o espartilho permitissem. Sozinhas as mais jovens não podiam nem ir às compras. Imaginem ao futebol. Por isso as mães estavam sempre de guarda, para protegê-las de olhares mais indiscretos.

Mesmo assim, dizem que muitos noivados e casamentos nasceram nas tardes de domingo no Velódromo. Os rapazes com seus fraques, colarinho em pé, gravata plastrão, a indispensável flor na lapela e os bigodões retorcidos tratados com cosméticos, driblavam o controle das mães. E ai começavam os namoros.

A luz elétrica começava a aparecer e se pensava que já não havia muita coisa para se descobrir. [...] E o automóvel surgiu com toda a sua força. Antônio Prado Junior, e os irmãos Dumont – Luis e o Santos Dumont, dos aviões – fizeram num domingo o passeio triunfal. As pessoas saiam na janela para ver 'a máquina elétrica' barulhenta andando a 20 quilometros por hora. Era o progresso que chegava. (DIMAND, 1970, p. 18).

Em 1905 o clube entra em uma pequena crise em função da saída de alguns sócios para a Associação Atlética das Palmeiras e nova reforma é feita no Velódromo, no intuito de diversificar os esportes oferecidos. Nos serviços estão incluídos pintura das arquibancadas, construção de duas quadras de tênis e "uma parede para pelota" (DIMAND, 1970, p. 22). Antônio Prado, filho de Dona Veridiana, prefeito da cidade é na época da diretoria do CAP. O futebol, no entanto, não perde

sua força e o campo do Velódromo recebe seu primeiro jogo internacional em 2 de fevereiro de 1910, o time inglês Corinthians em jogo contra o próprio Paulistano.

Após alguns anos de crescimento (de 60 idealizadores a 166 membros, entre 1900 e 1903), reformas absorviam muito da receita do clube e, associado a isto, o aluguel de 250 mil réis em 1900 passou para 400 mil réis em 1907, trazendo fase de crise no clube. Finalmente, em 1915 o Velódromo foi desapropriado para a abertura da Rua Nestor Pestana.

Com a desapropriação, o clube busca outro local para se instalar, encontrando no Jardim América lugar para sua nova sede, o que investigaremos ao tratarmos da consolidação do que denominamos setor 6 do eixo.

Figura 18. Vista do Velódromo (1857-1915), década de 1910.

Fonte: BRANDÃO, 2000, p. 29.

A construção da Praça Roosevelt, outro marco do setor 1 juntamente ao Velódromo, é do final da década de 1960, mas é delimitada como território desde 1913, conforme mapas históricos apresentados. Em 1905 aparece nos mapas sua primeira nomenclatura como Largo da Consolação, e em 1913 surge a Rua Olinda, delimitando o território como o conhecemos hoje.

Podemos entender a história da Praça Roosevelt tendo em vista o referencial de três períodos. Final da década de 1960, período de transição, e a partir de 2012.

De certo modo, essa organização temporal também se refletiu na própria Rua Augusta, particularmente no seu trecho entre o Centro e a Avenida Paulista.

De autoria do arquiteto Roberto Coelho Cardoso, conforme consta na Revista Acrópole, v.32, o projeto da Praça Roosevelt é elaborado no final da década de 1960, em resposta a um programa solicitado pela Prefeitura, que além de

estacionamentos previa outros usos como supermercado distrital, áreas de recreação, casa de lanches, etc.

Segundo a equipe de projeto, dois pontos de partida foram os principais, que se notam claramente: o sistema de pistas existente e a topografia original da praça.

Não sendo possível remanejar níveis das Ruas Olinda e Martinho Prado, optou-se por um plano gerador a meio nível dessas ruas, e desse plano foram criados os demais.

A retícula de 6 x 17 metros adequou-se ao viário e gerou uma figura pentagonal, que foi aproveitada fortemente no projeto, criando-se a identidade da Praça. A equipe fala em termos de "topografia de concreto", conforme consta na Revista Acrópole, v.32, nº380 de dezembro 1970, à época de sua inauguração.

No período que indicamos como de transição, acompanhando de modo geral a decadência do Centro, a Praça deteriora-se e diversos são os relatos de insegurança, decorrentes do abandono desse espaço público. Diversos projetos foram pensados, alguns realizados, porém, como ações pontuais que não resolviam substancialmente os problemas.

Em 2012 inicia-se a implantação de um projeto de realização da Emurb3, e autoria do arq. Rubens Reis. O projeto nasce em 2005 e sofre revisões em função de acalorados debates com a comunidade até sua versão final de 2009.

O projeto contempla ações no entorno da Praça e daí vem a denominação Polo Roosevelt, que tem o objetivo de intensificar a presença de pedestres na região como um todo, e não só na praça. As ações no entorno incluem restauro de um edifício tombado, alargamento de passeios, dentro outros.

O ponto mais forte do projeto é a demolição de três dos níveis projetados, incluindo o pentágono, a forma mais simbólica da Praça. Os subsolos se mantêm como parte do programa e serão reformulados – a Praça já foi reinaugurada, mas com os subsolos em obras, ao menos até o período da pesquisa.

Foi motivo de grande crítica essa reforma, particularmente por parte das companhias de teatro que se estabeleceram desde a década de 1990 nas bordas da Praça. Muitos argumentaram que a pretensa renovação da Praça promoveu uma grande valorização imobiliária, inviabilizando a permanência daqueles que por       

3 Para referências a esse projeto, ver

http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/upload/desenvolvimento_urbano/sp_urbanismo/arq uivos/ouc/ouc_apresentacao_78_roceouc.pdf

longos anos lutaram pela retomada da vida urbana na Praça, através da apropriação pela arte. De fato é discutível se a reforma da Praça com a demolição do emblemático pentágono de fato contribuiu para sua efetiva melhora, ou se o publico que a frequenta é o mesmo que sempre a frequentou.

Figura 19. Fotografias que mostram a sequência da transformação do espaço, de estacionamento à Praça, parte de exposição realizada na Praça Roosevelt em 2013.

Fonte: ACFM, 24.03.2013.

Figura 20. Folder em comemoração aos 40 anos da Praça Roosevelt, parte de exposição realizada no local em 2013.

Fonte: ACFM, 24.03.2013.

Figura 21. Folder da exposição "Arquitetura da Desconstrução" realizada no local em 2013.

Fonte: ACFM, 24.03.2013.

Figura 22. Foto de trecho da exposição "Arquitetura da Desconstrução" realizada no local em 2013, mostrando a demolição do emblemático pentágono.

Fonte: ACFM, 24.03.2013.

Setores 2 e 3

A Rua Augusta organiza-se historicamente em dois grandes trechos, o lado Centro e o lado Jardins, tendo por divisa a Avenida Paulista. Faz sentido nesse momento de reconhecimento histórico do eixo na pesquisa agrupar os setores 2 e 3, e na sequencia os setores 4 e 5.

A história da Rua Augusta, como vimos parcialmente no setor 1, remonta ao ano de 1895, quando aparece pela primeira vez em mapas. A Augusta toma forma a partir do arruamento de chácaras, conforme descreve em detalhes Pissardo (2013).

Muitas das ruas traçadas no mapa abaixo continuam a existir nos dias de hoje e são facilmente identificáveis, como a Avenida Paulista e a Rua Bela Cintra, lado centro.

Observamos no mapa abaixo que, mesmo em seu período embrionário, a Rua Augusta já aparece em projeção para além da Avenida Paulista.

Figura 23. Chácara do Capão. Em vermelho a Rua Augusta, demarcação por ACFM. Data não identificada na fonte.

Fonte: PISSARDO, 2013, p. 27, com demarcação da autora.

Nesse momento embrionário da Rua Augusta conforma-se um daqueles que elegemos como um marco do setor 2, o terreno do antigo Colégio Des Oiseaux - o

território conformado à época de sua fundação permanece o mesmo até os dias de hoje.

A história do terreno desse colégio nos leva a Dona Veridiana, proprietária de uma das chácaras que dá origem ao território da Rua Augusta. Casada com Martinho Prado, morava em sua fazenda em Mogi Mirim, eventualmente passando temporadas em sua chácara em São Paulo. Em 1897, separa-se de seu marido e passa a administrar as terras em São Paulo, fixando-se em São Paulo – em 1884 constrói em sua chácara em Higienópolis um palacete ao estilo francês, hoje de propriedade do Iate Clube de Santos. Seus três filhos Antônio, Martinico e Eduardo cuidam de negócios na cidade, e Veridiana é articuladora de contatos para favorecê-los, tocando também alguns negócios próprios.

Veridiana cede um de seus lotes, à esquina da Rua Augusta com a Rua Caio Prado, ao casal Flavio de Mendonça Uchoa e Evangelina Prado Uchoa. O casal constrói um palacete em 1902, encomendado a Victor Dubugras, que apenas alguns anos depois, em 1907, é leiloado para pagamentos de dívidas.

O terreno no mesmo ano é comprado pelas irmãs da congregação de Santo Agostinho, vindo a ser implantado no local colégio Des Oiseaux – então um dos principais colégios para damas da cidade; o colégio funciona até a década de 1960, quando as freiras migram para o Colégio Madre Alix. Interessante destacar que o pórtico de entrada à Rua Caio Prado existe até os dias de hoje.

Sua implantação, à época, acaba por atrair outros colégios à região, como a Escola Alemã, na Rua Olinda; nos anos 1970, acompanhando os deslocamentos de centralidades que vimos no capítulo 1, a escola migra para o Morumbi, acompanhando seu público.

Esse terreno, vazio como se encontra hoje, é objeto de disputa entre a sociedade civil e investidores privados; é do desejo da sociedade em geral o estabelecimento de um parque no local, considerando, por exemplo, que há um considerável maciço verde tombado. Porém, a recente notícia de que esse terreno foi vendido para incorporadoras, nos leva a crer que essa quadra passe a ser inteiramente privada, seguindo modelos de ocupação e construção comuns em outros pontos da cidade. É, no entanto, um assunto em aberto.

Outro marco do trecho, a Subestação AES Eletropaulo, tem origem em algo muito característico da Rua Augusta: a presença dos bondes. É um marco o ano de 1910 quando, por reivindicação popular, o bonde elétrico 45 'Rua Augusta' é

inaugurado, com percurso da Rua Martinho Prado à Avenida Paulista. Podemos entender a inauguração desse bonde como um marco do início da valorização comercial da Rua Augusta.

Destacamos que em 1912 a Light inaugura uma casa de transformadores e armazenamento de bondes, para estacioná-los quando não estão em funcionamento. Pissardo (2013, p. 38 e 39) identifica que nesse local hoje funciona a referida Subestação, que conserva algumas características do prédio original. É, portanto, um marco histórico do setor 2, apesar de um pouco descaracterizado de seu projeto original, presente até os dias de hoje.

Figura 24. Antiga estação de bondes elétricos (1921), atual subestação AES Eletropaulo (2013, foto do autor).

Fonte: PISSARDO, 2013, p. 38 e 39.

A Rua Augusta, desse modo, torna-se cada vez mais referência urbana do ponto de vista comercial, não apenas localmente, mas para toda cidade. Em um intervalo de menos de 40 anos de seus primeiros traçados consolida-se como polo comercial na cidade.

As décadas entre 1940 e 1960 representam para a Rua Augusta seu ápice, o ponto principal de comércio de luxo na cidade. Há citações a grandes congestionamentos, e diversas são as soluções propostas – de proibição de estacionamento a modificações no trânsito. É dessa época também a construção do de muitos dos edifícios de uso misto que vemos hoje no local.

A partir da primeira metade da década de 1950, a Rua Augusta passa a receber empreendimentos de maior altura e com um número maior de apartamentos. [...] Desde o início, esses grandes prédios residenciais têm, em sua grande maioria, o piso térreo reservado para o comércio e outros serviços, nos moldes de outros prédios construídos na mesma época no centro de São Paulo. Essa característica comum aos edifícios vai facilitar a instalação de estabelecimentos comerciais, ajudando na construção da zona comercial que a rua vai abrigar na década de 50. (PISSARDO, 2013, p. 94).

Contextualiza-se nesse período, do auge do sucesso comercial da Rua Augusta, a construção do Edifício Nicolau Schiesser, projeto de Rino Levi, o qual reconhecemos como marco histórico do setor 2.

Conforme nos relata Nascimento (2014) O edifício foi construído por Rino Levi, entre os anos de 1934 e 35, por encomenda do próprio Nicolau Schiesser, que nomeia o prédio. Engenheiro industrial, veio da Suíça para trabalhar no projeto e edificação das tecelagens das Indústrias Francisco Matarazzo, enriqueceu com essa atividade e acabou investindo em edifícios residenciais, como é o caso desse na Augusta.

A partir da década de 1970, contudo, observa-se o abandono da Rua Augusta, por motivos diversos, dentre os quais destacamos o lançamento do Shopping Iguatemi em 1968, que levou consigo a clientela da Augusta, acompanhando o movimento das elites na cidade. Nota-se então, particularmente no lado Centro da Augusta, a presença maciça de prostíbulos, comércio ilegal e cortiços.

O edifício começa a ser descaracterizado na década de 1980, acompanhando a própria desvalorização da Rua Augusta. Nascimento (2014) coloca que tais acréscimos são um desrespeito à obra do arquiteto:

Este tipo de intervenção pode ser até mais danosa que uma demolição. Enquanto a demolição remove a obra por completo deixando apenas a saudade, a descaracterização influi diretamente na obra assinada pelo arquiteto. É como se rabiscassem um

“bigodão” na Mona Lisa ou se construíssemos um “puxadinho” no Museu do Ipiranga.

Na década de 1990 a Rua Augusta começa novamente a ter atenção da mídia, por ter se transformado em um polo de cultura alternativa, quando por exemplo parte dessa rua passa a ser denominada Baixo Augusta – um primeiro momento de renovação.

O que vemos atualmente é um segundo momento de renovação da Rua Augusta: diversos imóveis têm sido demolidos, e lotes unidos, para a incorporação de novos edifícios. O edifício Nicolau Schiesser é um desses edifícios, demolido recentemente, junto com outros edifícios anônimos da Augusta, para a incorporação de novos empreendimentos.

É daquele primeiro momento de renovação aquele que reconhecemos como marco do Setor 3, o Cinema Itaú. Ele se estabelece como parte de outras

intervenções culturais na augusta na década de 1990 que se voltam a um público interessado em atividades culturais alternativas, seja através do teatro (muitos deles tendo se estabelecido na Praça Roosevelt) ou do cinema.

Segundo informações levantadas por Pissardo (2013, p. 150 a 153), o prédio no qual se instala hoje, entre as Ruas Luis Coelho e Antônio Carlos, abrigou em 1947 o Cinema Majestic, inaugurado na época de ouro da Rua Augusta. Ao longo

Segundo informações levantadas por Pissardo (2013, p. 150 a 153), o prédio no qual se instala hoje, entre as Ruas Luis Coelho e Antônio Carlos, abrigou em 1947 o Cinema Majestic, inaugurado na época de ouro da Rua Augusta. Ao longo