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O EIXO DA RUA AUGUSTA, DO CENTRO À MARGINAL PINHEIROS

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Academic year: 2022

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ANA CAROLINA FERREIRA MENDES

TRANSFORMAÇÕES RECENTES NA PAISAGEM CONSTRUÍDA DA CIDADE DE SÃO PAULO.

O EIXO DA RUA AUGUSTA, DO CENTRO À MARGINAL PINHEIROS.

São Paulo 2014

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TRANSFORMAÇÕES RECENTES NA PAISAGEM CONSTRUÍDA DA CIDADE DE SÃO PAULO.

O EIXO DA RUA AUGUSTA, DO CENTRO À MARGINAL PINHEIROS.

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Arquitetura e Urbanismo.

Orientador: Prof. Dr. José Geraldo Simões Junior

São Paulo 2014

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M538a Mendes, Ana Carolina Ferreira.

Transformações recentes na paisagem construída da cidade de São Paulo: o eixo da rua Augusta, do Centro à Marginal Pinheiros / Ana Carolina Ferreira Mendes. – 2014.

183 f. : il. ; 30 cm.

Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2014.

Referências bibliográficas: f. 179-183.

1. Rua Augusta. 2. Avenida Cidade Jardim. 3.

Morfologia Urbana. 4. Transformação da paisagem construída. I. Título.

CDD 711.4098161

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TRANSFORMAÇÕES RECENTES NA PAISAGEM CONSTRUÍDA DA CIDADE DE SÃO PAULO.

O EIXO DA RUA AUGUSTA, DO CENTRO À MARGINAL PINHEIROS.

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Arquitetura e Urbanismo.

Aprovado em

BANCA EXAMINADORA

___________________________________________________________________

Prof. Dr. José Geraldo Simões Junior – Orientador Universidade Presbiteriana Mackenzie

___________________________________________________________________

Profa. Dra. Ruth Verde Zein Universidade Presbiteriana Mackenzie

__________________________________________________________________________________ 

Prof. Dr. Candido Malta Campos Filho Universidade de São Paulo

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A meus pais.

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Ao professor José Geraldo Simões Junior, meu orientador, com seu olhar sempre otimista, pela preciosa orientação.

Aos professores do Stricto Sensu pelas oportunas correções de rotas do percurso.

Ao escritório Biselli + Katchborian pelo constante incentivo a essa pesquisa.

Aos novos amigos que fiz ao longo do Mestrado, pelos debates enriquecedores.

À meus pais, pelo apoio incondicional.

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A pesquisa tem por objetivo o levantamento, análise e crítica das transformações recentes na paisagem construída pelas quais São Paulo tem passado, especificamente em um eixo selecionado de seu quadrante sudoeste, historicamente dos mais valorizados da cidade. O eixo selecionado para estudo liga a região central à Marginal Pinheiros, iniciando-se na Rua Martins Fontes, continuando pela Rua Augusta, Rua Colômbia, Avenida Europa e finalmente culminando na Avenida Cidade Jardim. Diversas são as morfologias urbanas presentes ao longo desse eixo, que se formou e se consolidou ao longo do século XX, e importantes são as mutações que as transformações recentes têm trazido a esses tecidos pré- existentes. Tais transformações revelam-se resultado da legislação construtiva que as viabiliza, bem como da ação da sociedade que de diversos modos as incentiva, seja através da incorporação de determinado produto imobiliário, ou do modo de vida escolhido pelos cidadãos. A paisagem construída tem passado por mutações em todo o eixo da Rua Augusta, especificamente nos trechos Baixo Augusta e Cidade Jardim, através de intensa verticalização e homogeneização da linguagem e produtos arquitetônicos oferecidos, quando comparada à paisagem pré-existente.

Palavras-chave: Rua Augusta, Avenida Cidade Jardim, Morfologia Urbana, Transformação da Paisagem Construída.

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The research aims to survey, analyze and criticize the recent transformations taking place in São Paulo urban landscape, specifically in a selected axis located in the southwestern area of the city, historically it's most valued location. The selected axis connects Downtown and Marginal Pinheiros, starting in Martins Fontes St., continuing through Augusta St., Colômbia St., Europa Avenue and, finally, reaches Cidade Jardim Avenue. Several urban morphologies take place all over this axis, formed and consolidated during the 20th century, and important mutations are happening in this pre-existing urban fabric. Such transformations reveal themselves as a result of the constructive laws, and also of the society action which in several ways happens to encourage, through the products of the real estate market or the way of life citizens chose. The built landscape throughout the Augusta St. axis is now changing, specifically in sections Baixo Augusta and Cidade Jardim, through intense verticalization and homogenization of architectural language and products offered, compared to the pre-existing landscape.

Key-words: Augusta Street, Cidade Jardim Avenue, Urban Morphology, Urban Landscape Transformation.

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Introdução...p. 08 1 Eixo Rua Augusta – Avenida Cidade Jardim e a escala urbana...p. 16 1.1 O eixo da Rua Augusta e as centralidades rumo ao sudoeste...p. 17 2 Eixo Rua Augusta – Avenida Cidade Jardim e a escala local...p. 38 2.1 Aspectos metodológicos...p. 39 2.2 Aspectos históricos...p. 42 2.3 Aspectos atuais...p. 79

2.3.1 Setor 1 - Rua Martins Fontes e Rua Augusta, da Avenida São Luis à Rua Caio Prado...p. 85

2.3.2 Setor 2 - Rua Augusta, da Rua Caio Prado à Rua Matias Aires...p. 88 2.3.3 Setor 3 – Rua Augusta, da Rua Matias Aires à Avenida Paulista...p. 91 2.3.4 Setor 4 – Rua Augusta, da Avenida Paulista à Alameda Tietê...p. 94 2.3.5 Setor 5 – Rua Augusta, da Alameda Tietê à Rua Estados Unidos...p. 97 2.3.6 Setor 6 – Rua Colômbia e Avenida Europa, da Rua Estados Unidos à Rua Itália...p. 100

2.3.7 Setor 7 – Avenida Cidade Jardim, da Rua Itália à Marginal

Pinheiros...p. 104 3 Análise da paisagem construída atual...p. 107 3.1 Transformações recentes no trecho Baixo Augusta...p. 111 3.1.1 Lançamentos imobiliários... p. 114 3.1.2 Paisagem construída atual, uma aproximação gráfica...p. 118

3.1.3 Processo de transformação da paisagem...p. 124 3.2 Transformações recentes no trecho Cidade Jardim...p. 132 3.2.1 Lançamentos imobiliários...p. 135 3.2.2 Paisagem construída atual, uma aproximação gráfica...p.144

3.2.3 Processo de transformação da paisagem...p. 150 3.3 Transformações das paisagens em uma leitura comparativa...p. 153 Considerações Finais...p. 173 Bibliografia...p. 179

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Introdução

Apresentação

Como as transformações arquitetônicas recentes tem se concretizado em territórios historicamente consolidados na cidade de São Paulo? Essa é a questão principal da presente dissertação, que se propõe a investigar as mutações ocorridas na paisagem construída no eixo da Rua Augusta, entre os anos de 2006 e 2014.

O eixo proposto para estudo configura-se como um dos vetores de ligação entre o Centro e a Marginal Pinheiros, representando com grande diversidade de tipos de ocupação o crescimento da cidade ao longo dos séculos XX e XXI. É de se notar que mais dois eixos promovem essa conexão – Avenida Rebouças e Avenida Nove de Julho – nenhum deles, porém, com tamanha diversidade (de morfologias de quadra, tipo de ocupação do lote e usos) e abrangência temporal como o eixo que se inicia na Rua Martins Fontes, passando pelas Ruas Augusta, Colômbia e Avenidas Europa e Cidade Jardim.

O eixo da Rua Augusta, pode-se dizer, fica ao longo das décadas de certo modo protegido das decorrências negativas dos grandes fluxos viários, pois estes são absorvidos tanto pela Avenida Rebouças, como pela Avenida Nove de Julho. É também fundamental lembrar que o desenvolvimento dos bairros-jardim, residenciais de baixa densidade, contribuiu para a manutenção de certa escala local a este eixo da cidade.

É possível a leitura da continuidade do eixo da Rua Augusta para além da Marginal Pinheiros. Observamos, no entanto, que do outro lado do rio diversas outras dinâmicas atuam na formação e consolidação das morfologias urbanas - do mercado imobiliário à influência de outras regiões da cidade, mais a oeste - nos levando a crer que o trecho selecionado entre o Centro e a Marginal Pinheiros já é representativo da sucessão de centralidades que diversos autores elegem, e portanto, suficiente para o presente estudo.

A pesquisa pretende incluir-se na escala entre a arquitetura e o urbanismo, no âmbito do desenho urbano, ao investigar como o território do eixo insere-se na lógica de crescimento da cidade, em um momento seguinte o compreendendo como unidade territorial possível de ser estudada em si mesma e, finalmente, observando como novos empreendimentos recentes se inserem na trama consolidada e repleta

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de palimpsestos que verdadeiramente caracterizam o eixo. A escala é a do desenho urbano.

Teremos por ponto de partida a condição da cidade como palimpsesto, como sobreposição de tempos e histórias, e a necessidade do ato projetual ter por premissa essa condição. Nesse sentido, abordaremos a cidade existente e as relações que ali continuamente se reestabelecem como um bem cultural, um patrimônio a ser levado em conta ao ser transformado.

A transitoriedade dos fatos, estabelecida claramente na contemporaneidade, parece atingir em cheio a construção dos espaços das cidades, e o eixo da Rua Augusta inclui-se nesse raciocínio. Harvey (2003, p. 65) destaca a efemeridade da vida pós-moderna, quando descreve que o capitalismo, para manter seus mercados, se viu forçado a sucessivamente produzir desejos. A própria força do mercado imobiliário tem se mostrado em muitos casos impactante nos locais nos quais se inserem, no sentido de ignorar pré-existências; bairros inteiros, pouco a pouco, se descaracterizam em nome do novo.

No campo da arquitetura e do projeto urbano, considero o pós- modernismo no sentido amplo como uma ruptura com a idéia modernista de que o planejamento e o desenvolvimento devem concentrar-se em planos urbanos de larga escala, de alcance metropolitano, tecnologicamente racionais e eficientes [...]. O pós- modernismo cultiva, em vez disso, um conceito do tecido urbano como algo necessariamente fragmentado, um 'palimpsesto' de formas passadas superpostas umas às outras e uma 'colagem' de usos correntes, muitos dos quais podem ser efêmeros. (HARVEY, 2003, p. 69).

Wenders (1994, p. 184) com seu olhar externo à arquitetura, porém sensível à paisagem e à imagem, também destaca o valor do convencional, do pequeno, das coisas modestas:

O que é pequeno desaparece. Em nossa época, só o que é grande parece poder sobreviver. As pequenas coisas modestas desaparecem, bem como as pequenas imagens modestas ou os pequenos filmes modestos. Esta perda de tudo o que é pequeno e modesto é um triste processo, do qual hoje somos testemunhas dentro da indústria cinematográfica. E para as cidades, esta mesma perda das pequenas coisas modestas é ainda mais manifesta e, sem dúvida, de maior relevância.

É dentro desse contexto de valorização do pequeno, do modesto, do cotidiano e do não monumental que teremos nosso olhar na análise da paisagem desse eixo, considerando que é essa arquitetura, e não apenas aquela dos grandes ícones tecnológicos ou arquitetônicos, que conforma o tecido de nossas cidades.

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Venturi, Brown e Izenour (2003, p. 25) abordam a paisagem urbana por outro viés, mais radical, e enfatizam a oposição pós-modernismo/ modernismo na construção das cidades, afirmando que os arquitetos têm muito mais a aprender com a paisagem comercial e popular existente do que com os edifícios monumentais e cidades planejadas e ideais.

O corredor comercial [...], desafia o arquiteto a assumir um ponto de vista positivo e não arrogante ou depreciativo. [...] A arquitetura moderna tem sido de tudo, menos tolerante: os arquitetos preferiram mudar o entorno existente em vez de realçar o que já existe.

Podemos dizer que a relação que se estabelece entre a presente pesquisa e esses autores indicados logo acima diz respeito mais aos seus preceitos do que propriamente ao seu estudo sobre o simbolismo na arquitetura; seguindo o olhar dos autores, o interesse da pesquisa recai sobre as paisagens construídas, compreendendo os objetos que a compõem enquanto constroem a paisagem como um todo, e não unicamente como obras isoladas.

O plano de fundo nessa pesquisa é a valorização da arquitetura convencional, aquela que constrói massivamente a paisagem da cidade, e que particularmente analisaremos nesse pequeno trecho de cidade, o eixo da Rua Augusta. Venturi, Brown e Izenour (2003, p. 160 e 161) inclusive, alertam para a postura do arquiteto nesse contexto:

Em geral, o mundo não pode esperar que o arquiteto construa sua utopia, e a preocupação maior do arquiteto não deveria centrar-se no que deveria ser, mas no que é – e em como ajudar a melhorá-lo agora. Trata-se de um papel mais humilde para os arquitetos do que o movimento moderno gostaria de aceitar; porém, é artisticamente mais promissor.

Objetivos

O objetivo geral da presente pesquisa é investigar como a sucessão de centralidades rumo ao Sudoeste, apontada por diversos autores como Frúgoli Junior (2000) e Villaça (2001) se coloca como paisagem construída no eixo da Rua Augusta.

O objetivo específico, por sua vez, é levantar as transformações recentes no eixo da Rua Augusta, entre os anos de 2006 e 2014 (reformas, demolições e construções), e seu impacto nas paisagens pré-existentes, principalmente do ponto de vista morfológico.

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Após uma análise geral do eixo, temos por meta estudar dois trechos nos quais os novos empreendimentos do mercado imobiliário marcadamente têm promovido mutações na morfologia urbana e paisagem pré-existentes; são eles o trecho do Baixo Augusta e da Avenida Cidade Jardim, nas proximidades da Marginal Pinheiros. Interessa-nos na aproximação desses dois setores analisar os edifícios produzidos, do ponto de vista de sua linguagem e composição do produto, bem como sua inserção na paisagem existente, no lote e em relação à rua.

Balanço bibliográfico

O deslocamento das centralidades no vetor sudoeste da cidade de São Paulo, plano de fundo dessa pesquisa, é objeto de estudo de alguns autores. Elencamos dois principais, a partir dos quais se desdobra o entendimento do eixo da Rua Augusta no contexto da cidade.

Frúgoli Junior (2000) estuda especificamente o caso de São Paulo, compreendendo tal deslocamento do ponto de vista dos deslocamentos dos centros financeiros, do Centro para a região da Paulista, e em um segundo momento para a região da Berrini.

Villaça (2001) aborda o tema a partir da tese de que a diferenciação da ocupação dos territórios urbanos, e o consequente valor de uso que adquirem de acordo com sua localização, são resultado dos deslocamentos possíveis e viabilizados pelas classes dominantes; tais deslocamentos se referem às mercadorias, ao capital, e consequentemente aos consumidores. Nessa relação, na visão do autor, está o cerne da segregação espacial das cidades. Apesar de seu estudo ter abrangência nacional, ao analisar outras cidades além de São Paulo, sua visão será de interesse no entendimento das dinâmicas que consolidaram o eixo da Rua Augusta ao longo das décadas.

Há também trabalhos elaborados a respeito dos trechos de cidade permeados pelo eixo - seja sobre os bairros que o eixo cruza, seja sobre alguns dos edifícios que o margeiam.

Pissardo (2013), por exemplo, estuda especificamente a história da Rua Augusta, focando no trecho do Centro à Avenida Paulista, tendo por base o acervo histórico de jornais – é na verdade o único trabalho de caráter histórico que localizamos especificamente sobre a Rua Augusta. Stinco (2005), por sua vez, relata com riqueza de detalhes a história do Conjunto Nacional.

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Wolff (2001) e Bacelli (1982) elaboram trabalhos históricos especificamente sobre os bairros-jardim, particularmente o Jardim América, com vasta documentação iconográfica. Dimand (1970) e Brandão (2000) elaboraram pesquisas acerca da história do Club Athlético Paulistano, uma das primeiras ocupações do Jardim América, cuja história remete às primeiras ocupações do eixo Augusta.

Todas estas são pesquisas relevantes elaboradas sobre trechos do eixo da Rua Augusta, e são de fundamental importância para o entendimento dos processos que conformaram seu território.

A coletânea de Passos & Emidio (2009) é uma importante referência bibliográfica do ponto de vista iconográfico, ao reunir mapas do final do século XIX até o ano do IV Centenário da cidade de São Paulo.

Nas fontes pesquisadas, entretanto, não foi localizado nenhum trabalho sobre a leitura do eixo da Rua Augusta como unidade territorial, compreendida do ponto de vista de sua paisagem construída. Buscaremos entendê-lo, a partir da bibliografia selecionada, como um fio condutor possível para a compreensão do desdobramento das centralidades em São Paulo.

A transformação das paisagens urbanas especificamente no caso de São Paulo, por sua vez, também é um tema estudado por alguns autores, dentre eles destacamos Lefèvre (2006) e Macedo (2012).

Ambos são resultado de extensas pesquisas de caráter histórico e iconográfico, que redesenham a paisagem ao longo de décadas, respectivamente nas Avenidas São Luiz e Higienópolis. Através de sobreposição de mapas históricos, levantamento, junto aos órgãos responsáveis, dos projetos de edificações construídas (e mesmo as eventualmente demolidas) e redesenho de paisagens em cortes e fachadas, os autores logram em identificar as camadas do palimpsesto que conformam essas duas importantes avenidas da cidade.

São também importantes para a presente pesquisa os estudos de Hepner (2010), autor que investiga questões ligadas à transformação da paisagem de São Paulo, porém, menos do ponto de vista histórico como os dois autores acima, e mais do ponto de vista do desenho urbano promovido pela ação do mercado imobiliário, voltando-se ao trecho de mais recente ocupação da Marginal Pinheiros.

No caso da pesquisa do eixo da Rua Augusta, seremos mais restritos no tempo pesquisado, levando em conta aspectos históricos de formação do território

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do eixo, porém, focando na paisagem que vemos construída hoje no local e as transformações recentes que a tem alterado, entre os anos de 2006 e 2014.

De qualquer modo, as três pesquisas indicadas acima são referenciais para o presente estudo, no sentido de buscarem compreender a passagem do tempo nas paisagens urbanas através de mapas, imagens e redesenhos.

Trata-se, portanto, de um trecho de cidade já pesquisado pontualmente, e nossa pesquisa pretende se colocar unificando tais conhecimentos previamente adquiridos e consolidados, ao analisar a paisagem construída resultante da sucessão de fatos e marcos históricos.

Do ponto de vista das análises morfológicas que pretendemos realizar, duas são as referências principais: Kohlsdorf (1996) e Bentley et al. (1985).

A primeira referência apresenta diversas técnicas gráficas para reconhecimento de um território, algumas levantadas a partir de outros autores, para finalmente elaborar sua própria. Dentre as expostas pela autora nos interessa a caracterização morfológica.

Bentley et al. (1985) por sua vez pretende ser um manual prático para projetos, apresentando seus sete conceitos na escala do desenho urbano. São eles:

permeabilidade, variedade, legibilidade, versatilidade, imagem apropriada, riqueza perceptiva e personalização. Estes conceitos estarão presentes ao longo as análises do eixo da Rua Augusta, particularmente a permeabilidade e a variedade.

Do ponto de vista da crítica das novas paisagens urbanas que se tem construído, dois autores não arquitetos são elencados como principais.

Caldeira (2000), antropóloga, é uma autora de leitura bastante atual e relevante para essa pesquisa, particularmente na crítica aos movimentos recente do mercado imobiliário no eixo da Rua Augusta. A autora estuda o crime a violência na transformação dos espaços urbanos, elegendo a construção de muros como seu símbolo. Lipovetsky (2005) é filósofo e estuda a evolução do luxo na história da moda, destacando como a ideia de luxo passa a ser entendido como bem de consumo, e referência na construção da identidade e diferenciação de grupos sociais. Será importante à pesquisa no entendimento da composição dos novos produtos do mercado imobiliário.

Metodologia

Quatro métodos se estabelecem na produção da presente pesquisa.

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Um deles é revisão da bibliografia selecionada, acima indicada, elaborada por autores que já estudaram os temas aqui propostos – deslocamento de centralidades em São Paulo, transformação e análises morfológicas da paisagem urbana. Tal método permeia toda a pesquisa, no enfrentamento do território do eixo da Rua Augusta, em um diálogo no qual teoria e prática interferem uma na outra.

O segundo método estabelecido é a leitura e demarcação de mapas, tanto históricos, para o entendimento da formação do território do eixo da Rua Augusta, quanto atuais, afim de entender as transformações recentes que tem ocorrido.

Os mapas históricos foram obtidos em fonte secundária, a partir de pequenos recortes em mapas reunidos por Passos & Emidio (2009), bem como em fonte primária, nos mapas Sara Brasil (1930), Vasp (1954) e Gegran (1974), disponíveis no acervo da FAU-USP.

Os mapas atuais foram realizados através da comparação entre o Mapa Digital da Cidade (2006), as imagens do Google Street View (2011) e levantamento fotográfico no local, proveniente de diversas visitas ao longo de todo eixo e entorno imediato, realizadas no 2° semestre de 2013 e 1° semestre de 2014. De 2006 para os dias atuais, muito se transformou nesse eixo. O que temos a partir dessa comparação é uma radiografia atualizada dos lotes que fazem frente ao eixo da Rua Augusta, demarcando tudo o que ali foi reformado, demolido ou construído.

O terceiro método estabelecido é o levantamento de todos os lançamentos imobiliários realizados ao longo do eixo, com destaque para os trechos Baixo Augusta e Avenida Cidade Jardim, nas proximidades da Marginal Pinheiros.

Levantamos todo o material disponível na internet, focando no entendimento do produto oferecido e sua inserção no lote em relação à rua.

O quarto método estabelecido é o desenho sobre a base iconográfica produzida, buscando entender na paisagem atual do eixo a relação entre cheios e vazios, entre os novos lotes e os lotes existentes, a permeabilidade no nível do térreo e as linhas de coroamento das fachadas urbanas.

O método estabelecido visa identificar a consolidação do eixo da Rua Augusta e identificar as transformações recentes nele construídas, criticando-as com embasamento gráfico e teórico.

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Organização dos capítulos

No Capítulo 1 o objetivo é compreender a inserção histórica do eixo na cidade, como representativo do desenvolvimento do quadrante Sudoeste da cidade de São Paulo. Para tanto, nos debruçaremos sobre autores que já pesquisaram o deslocamento do desenvolvimento urbano de São Paulo rumo ao Sudoeste, e como este está ligado ao deslocamento territorial das elites.

No Capítulo 2 o território do eixo da Rua Augusta, entendido como unidade possível de leitura, é o foco. A partir de uma organização em setores, o eixo será abordado em dois tempos: o tempo histórico e o tempo presente.

No tempo histórico, procura-se resgatar as diversas camadas que conformam o verdadeiro palimpsesto que é o eixo, através da sucessão de mapas existentes e da história de marcos territoriais selecionados.

No tempo presente analisaremos as transformações recentes que tem ocorrido no eixo, especificamente entre os anos de 2006 e 2014, particularmente do ponto de vista morfológico. A análise textual será embasada em mapas elaborados pela autora, que retratam tais transformações, a partir da comparação entre três fontes: Mapa Digital da Cidade (2006), Google Street View (2011) e observação do local atualmente.

No Capítulo 3 o objetivo é nos aproximar dos trechos de transformações recentes mais intensas, com maior número de lançamentos imobiliários, selecionados a partir dos levantamentos realizados no Capítulo 2: Baixo Augusta, entre as Ruas Dona Antonia de Queirós e Peixoto Gomide, e Avenida Cidade Jardim, entre as Ruas Mario Ferraz e Franz Schubert. Tendo por instrumentos plantas, cortes e fachadas, estudaremos os impactos dos novos lançamentos nos respectivos locais.

O território recortado parece ser um bom trecho para entender o desenvolvimento da cidade, seja do ponto de vista histórico (entendendo-o como um fio condutor dos deslocamentos das centralidades na própria cidade) ou do ponto de vista contemporâneo, ao nos depararmos com intervenções recentes em um local consolidado. Desse modo, podemos colocar a questão de fundo da pesquisa: a possibilidade da construção de uma cidade que dialogue de modo mais qualificado com sua própria história.

 

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1

Eixo Rua Augusta – Avenida Cidade Jardim e a escala urbana

Figura 1. Vista aérea, a partir da Avenida Europa, em direção à Avenida Paulista.

A data da foto não consta na fonte consultada.

Fonte: Acervo Cia. City.

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1.1 O eixo da Rua Augusta e as centralidades rumo ao sudoeste

O eixo da Rua Augusta é entendido na presente pesquisa como aquele que se inicia na Rua Martins Fontes, passando pelas Rua Augusta, Rua Colômbia, Avenida Colômbia e, por fim, na Avenida Cidade Jardim. Procuraremos inseri-lo, ao longo desse capítulo 1, no âmbito geral da história da cidade de São Paulo, particularmente no que diz respeito à identificação de sua representatividade no território que muitos autores denominam quadrante sudoeste da cidade, para a perfeita compreensão do desenvolvimento deste eixo no processo de transformação da cidade como um todo.

É recorrente na literatura sobre a história de São Paulo, ao menos naquela selecionada para a pesquisa, o entendimento sobre o deslocamento das centralidades urbanas (econômicas, políticas, territoriais) como decorrente do deslocamento das elites.

Frúgoli Júnior (2000) discorre sobre o quadrante sudoeste da cidade de São Paulo, sob o ponto de vista das forças articuladoras e de negociação que o levou este setor da cidade a se desenvolver de maneira mais intensa que outros locais da cidade. O autor foca no estudo daquelas que ele elege como centralidades principais: Centro histórico, Avenida Paulista e Avenida Berrini, sendo esta última um tipo de modelo de ocupação para outras similares que se desenvolveram posteriormente.

No entanto, o que nos interessa na perspectiva histórica desse quadrante da cidade, assunto que discorreremos a seguir, são os impactos dessa sucessão de centralidades na paisagem construída do eixo da Rua Augusta.

Primeiro momento de inflexão: do Centro Velho ao Centro Novo

O território da Rua Augusta, trecho inicial do eixo em estudo, é um território que veio a se desenvolver depois de ultrapassada a barreira do Vale do Anhangabaú no final do século XIX; faz-se necessária uma breve descrição sobre este primeiro momento de inflexão para a compreensão da formação do eixo da Rua Augusta.

Villaça (2001, p. 262) nos relata que por volta do ano de 1870, as elites paulistanas concentravam-se em cinco locais, ainda não denominados bairros:

Glória, Carmo, Liberdade (ao norte do centro original, cuja referência era o Pátio do

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Colégio) Luz (ao sul) e Santa Efigênia (à oeste). A Rua Quinze de Novembro era, então, a espinha dorsal da cidade.

Segundo o mesmo autor, na década de 1870, dois eram os caminhos para possível expansão da cidade, a partir do Triângulo Histórico: à leste (além Tamanduateí) ou à oeste (além Anhangabaú). Em ambos os sentidos teriam de ser enfrentadas dificuldades: para o leste, era necessário "[...] vencer a ampla e inundável Várzea do Carmo e ainda cruzar a estrada de ferro." (VILLAÇA, 2001, p.193), para o oeste, era necessário ultrapassar o vale do córrego do Anhangabaú, mais estreito que o Tamanduateí a leste, e menos alagável.

Simões Junior (2004) associa a constituição da Companhia Cantareira e Esgotos, que inicia a construção de um grande reservatório de água na Consolação, e a inauguração do sistema de esgotos na cidade em 1883 à possibilidade de crescimento da cidade. Antes arcaico, através de chafarizes, o abastecimento domiciliar de água passa a ser um sistema moderno, do qual cada vez mais a cidade pode usufruir e, dada a localização desse reservatório, "[...] a expansão dos novos arruamentos podia tomar o rumo do espigão da Paulista, próximo à região do Pacaembu. Esse seria o local escolhido para a implantação do loteamento de Higienópolis." (SIMÕES JUNIOR, 2004, p. 59).

Dessa forma, todas as inovações processadas no sistema de abastecimento de água na cidade nesses últimos vinte anos do século XIX vão trazer profundas alterações não só no modo de vida da população, mas sobretudo na lógica de expansão urbana.

(SIMÕES JUNIOR, 2004, p. 58).

A expansão a oeste era, portanto, mais vantajosa do ponto de vista dos incorporadores (em especial da Cia City como veremos mais à frente), e assim as classes de mais alta renda para lá se direcionaram; as de mais baixa renda e fábricas deslocaram-se para o leste.

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Figura 2. Os primeiros loteamentos rumo ao Oeste. As marcações cor marrom são do autor da fonte. Norte aproximado, sem identificação de escala.

Fonte: SIMÕES JUNIOR, 2004, p. 59, com marcação em vermelho da autora. 

Nas décadas de 1870 e 1880 os sítios elevados valorizam-se, por sua salubridade e paisagem. Nessa época instalam-se nas proximidades da Paulista os primeiros hospitais, e junto vinham as recomendações de clima saudável. "Não sem razão, o segundo grande loteamento aberto para a aristocracia paulista chamou-se Higienópolis, e localizava-se precisamente nos contrafortes da futura avenida Paulista." (VILLACA, 2001, p. 193 e 194).

O cruzamento do Vale do Anhangabaú se dá com a inauguração do Viaduto do Chá em 1892. São marcos da ultrapassagem do Anhangabaú, e consequente expansão do Centro Velho rumo ao Centro Novo: a inauguração do Teatro Municipal, em 1911, a mudança da Mappin Stores da XV de Novembro para a Praça Ramos de Azevedo, em 1939, e a inauguração da Biblioteca Municipal, também nos anos 30.1

      

1 Conforme visto em VILLAÇA (2001, p. 264) e em FRÚGOLI JÚNIOR (2000, P. 50 e 51).

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Figura 3. A transposição do Vale do Anhangabaú e o caminho rumo ao novo bairro de Higienópolis. As marcações cor marrom são do autor da fonte. Norte aproximado, sem

identificação de escala.

Fonte: SIMÕES JUNIOR, 2004, p. 77, com marcação em vermelho da autora. 

Rolnik (1997, p. 108) também destaca o papel da construção do Viaduto do Chá rumo ao sudoeste:

Sua instalação viabilizaria os mais importantes empreendimentos imobiliários do final do século XIX: Higienópolis e Paulista. Neles se envolveram proprietários de terras, investidores potenciais, engenheiros e políticos, contando o fato de que a região da Consolação era um reduto de coronéis, figuras de grande prestígio político com o advento da República.

Há de ser lembrado, conforma ilustração a seguir, que outros loteamentos ocuparam a porção oeste da cidade, mas claramente esta era menos atraente que a sudoeste, de sítios ondulados e mais altos. "A aristocracia paulista fez então uma deflexão à esquerda e, através da Vila Buarque e Higienópolis, chegou à Avenida Paulista, aberta em 1892." (VILLAÇA, 2001, p. 195). Um dos caminhos rumo a Paulista, como também se observa na imagem, é a Rua Augusta, o trecho inicial da presente pesquisa.

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Figura 4. Formação do centro principal de São Paulo. Observar o encaminhamento das elites sentido Rua Augusta. Norte aproximado, sem escada identificada.

Fonte: VILLAÇA, 2001, p. 195, com marcação em vermelho da autora.

As posições [...] aqui expostas evidenciam, quanto à gestão Prestes Maia, os primórdios de um crescimento metropolitano e, ao mesmo tempo, a reafirmação da importância do Centro, que, nesse período, além de expandir-se efetivamente do Triângulo para além do Anhangabaú, passou a ser ponto nodal do complexo sistema viário da cidade. (FRÚGOLI JÚNIOR, 2000, p. 55).

Segundo momento de inflexão: da região central para a Paulista

Na área além Anhangabaú, como vimos, forma-se o Centro Novo; Villaça (2001, p. 264) destaca que o centro da cidade é bipartido, processo este que se inicia com a área do Triângulo sendo abandonada pelas burguesias e culmina na década de 1950, quando definitivamente fica para as camadas populares.

Frúgoli Júnior (2000) estende um pouco este período, indicando que até a década de 1960, ainda era possível a leitura de um único centro metropolitano, formado pelo Centro Novo e pelo Centro Tradicional, e que o grande momento de caracterização de uma nova subcentralidade na Paulista se dá com o Milagre Brasileiro (1968-1973). De qualquer modo, é possível ler esse momento como um movimento de abandono do Centro em direção a novas centralidades, caracterizando o que denominamos aqui um segundo momento de inflexão na leitura do eixo em estudo.

Teve início então a clara ocupação do quadrante sudoeste da capital pelos bairros das camadas de mais alta renda, num caminhamento

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que permanece até hoje e se firmou como um elemento básico na definição de toda a estrutura territorial da metrópole. As bordas do quadrante sudoeste foram ocupadas tanto pela alta renda como pela classe média, formando bairros como Perdizes, Ipiranga, Cerqueira Cesar, Pacaembu, Alto da Lapa, Bosque da Saúde, etc. (VILLAÇA, 2001, p. 196).

A década de 1960, portanto, marca uma nova transformação na cidade, quando se faz a leitura de um único centro decadente (Centro Novo e Centro Tradicional), e a formação de um novo centro – a região da Paulista e Rua Augusta.

Iniciou-se então uma fuga dos escritórios centrais das grandes empresas para áreas de maior prestigio, tanto na região da Paulista, como também nas residências senhoriais de determinados corredores de serviços metropolitanos, nas Avenidas Brigadeiro Luis Antonio, Rebouças, Nove de Julho, Brasil e Faria Lima. (FRÚGOLI JÚNIOR, 2000, p. 130).

Ao longo das décadas de 1960 e 1970 a Avenida Paulista se firmou como um novo centro financeiro e de serviços da cidade, o qual na década de 1980 foi compartilhado com o eixo da Avenida Faria Lima, que estudaremos na sequência.

Apesar de muitos autores destacarem o papel de sítios altos, com boas vistas panorâmicas na escolha dos loteamentos – Villaça (2001) cita, por exemplo, Richard Morse, Pierre Monbeig e Caio Prado Jr. - o mesmo autor deixa claro que esta não é a única característica que fez a ocupação da Paulista vingar, lançando sua tese de que é o tempo de deslocamento que direciona o crescimento das cidades.

Destacamos dois aspectos do argumento do autor que direcionam o entendimento de sua tese.

Em primeiro lugar, o autor ressalta que as classes de alta renda ao atingirem o ponto culminante entre as bacias do Tietê e Pinheiros, não ocupou toda a extensão desses terrenos altos, hoje Domingos de Morais e avenida Dr. Arnaldo. Em segundo lugar, o autor nos lembra que o loteamento de classe alta sucessivo à Paulista foi o Jardim América, seguido nas décadas seguintes pelo Jardim Europa, Alto de Pinheiros e City Butantã, todos estes territórios nos vales.

A tese do papel determinante do sítio natural cai então por terra, mas não a do controle do tempo de deslocamento, isto é, de acessibilidade ao centro. Os casos desses loteamentos são excepcionalmente importantes para a compreensão da conceituação de uma estrutura territorial urbana, da inter-relação entre seus elementos e de como seu processo de produção é comandado pela classe dominante, tendo em vista manter o controle - em seu benefício - dos tempos de deslocamentos espaciais. (VILLAÇA, 2001, p. 197).

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Frúgoli Junior (2000, p. 61), no entanto, nos alerta que:

O processo de crescente popularização do Centro, a partir de meados dos anos 60, foi concomitante ao início da evasão de empresas e bancos para outros subcentros, à deterioração de parte de seus equipamentos urbanos e ao declínio de seu valor imobiliário.

Deve-se observar que se está frisando a concomitância de ambos os processos, não a determinação do primeiro sobre o segundo, a fim de se evitar o velho jargão ideológico que sustenta que é a presença maciça de classes populares a responsável pela deterioração de determinados espaços da cidade. Considero, antes de tudo, a lógica do desenvolvimento urbano rumo a outras regiões da cidade – fruto de decisões tanto do poder público, como da iniciativa privada – o principal fator de deterioração, o que gera queda na qualidade dos serviços públicos e das edificações das áreas abandonadas por tais investimentos.

Apesar de Frúgoli Júnior (2000) apontar a Paulista como uma nova centralidade, Villaça (2001), afirma que a nova região formada pela Avenida Paulista e pela Rua Augusta não representam para a área metropolitana na década de 1990 (época na qual elabora sua pesquisa) o que o Centro velho da década de 1950 representava para a área metropolitana de então. Fundamenta sua afirmação esclarecendo que

[...] a característica fundamental de um centro principal é a diversificação do seu comércio e serviços. O centro que surgiu na década de 1960 na região Paulista-Augusta era especializado; a avenida Paulista, em cinemas, escritórios e bancos e a Augusta, num limitado leque de butiques. (VILLAÇA, 2001, p. 265).

  Frúgoli Júnior (2000, p. 113 a 121) descreve que ao mesmo tempo em que a ocupação de torres comerciais amplia o significado simbólico da Paulista, a expansão ao sudoeste continua a se desdobrar. Dos casarões das elites do final do início do século XX, às torres residenciais da década de 1950 e comerciais da década de 1960, quando a avenida de fato passa a constituir uma centralidade na metrópole, a Paulista sempre foi território valorizado. "De toda forma, tal condição até então [até a década de 1980] 'permanente' de prestigio da Paulista, ainda que assentado em cada época em grupos sociais e configurações urbanas distintas, não poderia durar indefinidamente." (FRÚGOLI JUNIOR, 2000, p. 133).

Terceiro momento de inflexão: da Paulista para a Faria Lima

Prosseguindo a sequência territorial da constituição deste eixo no contexto da cidade, identificamos como um terceiro momento de inflexão o deslocamento de centralidade da região da Avenida Paulista para a Avenida Faria Lima.

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Dois são os símbolos desse momento: o planejamento e construção dos bairros-jardim e a inauguração do shopping Iguatemi. Pode-se dizer que um vem em decorrência do outro, pois os bairros-jardim, tanto o Jardim América (o primeiro a se consolidar) como o Jardim Europa, eram moradia do público alvo do shopping Iguatemi.

Bacelli (1982, p. 21) esclarece que a partir de 1915, para além do Jardim América,

São Paulo passa a apresentar uma configuração com setores mais diferenciados e áreas funcionais bem definidas: encontramos uma zona comercial no velho centro, paralelamente a um comércio atacadita nas vertentes do Tamanduateí; uma zona com industrialização concentrada nos bairros do Brás, Moóca e Belenzinho; e uma zona de características residenciais definidas, iniciada nos Campos Elíseos, subindo por Higienópolis, atingindo o espigão da Avenida Paulista e descendo em direção ao novo Jardim América.

O autor também destaca que nessa época, mais precisamente a partir de 1912 quando a City inicia oficialmente seu funcionamento no Brasil (BACELLI, 1982, p. 33) é clara a intenção da City em adquirir terrenos localizados no quadrante sudoeste da cidade, como se vê no mapa a seguir.

Figura 5. Propriedades da Companhia City em São Paulo, 1912. Norte aproximado, sem escala identificada.

Fonte: BACELLI, 1982, p. 39, com demarcação em vermelho da autora.

Deve-se atentar, contudo, que nem todos esses terrenos adquiridos foram projetados como bairros-jardim. Muitos eram adquiridos já loteados com os padrões da cidade, e revendidos. Um exemplo desse tipo de negócio dentro do eixo em

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estudo é a Vila América, trecho de algumas quadras localizado entre a Avenida Paulista e o futuro Jardim América.

A consolidação do Jardim América, que se dá entre os anos de 1915 e 1945, coincide com intensa metropolização da cidade.

É o início da fase dos 'slogans' ufanistas como 'São Paulo não pode parar'. [...] Esse clima contagia a todos; o crescimento vertical assume proporções relevantes, de forma que a semelhança com as cidades norte-americanas seja realçada: em São Paulo, a construção não é apenas vertical, mas é também efetuada sobre a antiga cidade; conforme a feliz expressão de Benedito Lima de Toledo, 'São Paulo é um palimpsesto. (BACELLI, 1982, p. 23).

Data de 1930 a publicação do Plano de Avenidas, e cabe aqui inserirmos o eixo em estudo nesse plano, que é "Sem dúvida o mais célebre dos planos urbanísticos elaborados para São Paulo na primeira metade do século XX [...]"

(SOMEKH & CAMPOS, 2002, p. 56). O Plano importa para a pesquisa na medida em que decretou o fim do transporte sobre trilhos baseado nas linhas de bondes elétricos que, como uma continuidade linear dos bondes da Rua Augusta, foi o meio de transporte base para lançamento e desenvolvimento inicial dos bairros jardim.

Estabelece-se assim o modelo sobre rodas, com destaque para o papel que o automóvel passará a desempenhar no crescimento da cidade.

O ponto de partida ao Plano de Avenidas é o Perímetro de Irradiação, um sistema de avenidas radial em torno do Centro Histórico. As vias radiais partiriam do Perímetro de Irradiação, e destacam-se entre elas na ligação sudoeste, aqui em estudo, a Avenida Brigadeiro Luiz Antônio (continuação da Avenida Anhangabaú, iniciada por Pires do Rio, atual Avenida Nove de Julho) a abertura da Avenida Itororó (atual 23 de Maio) e o alargamento da Rua da Consolação, prolongando-a pela Avenida Rebouças. As perimetrais formam-se internamente pelas Avenidas Paulista e Angélica e externamente pelas marginais do Rio Tietê, anteriormente traçadas.

Duas das radiais que conectam o Centro ao quadrante sudoeste, no entanto, estabelecem uma conexão mais extensa ao cruzar o perímetro de irradiação, ligando Norte e Sul da cidade através da atual Avenida Prestes Maia. São elas as atuais Avenidas Nove de Julho e 23 de Maio que formam o sistema Y previsto no Plano.

O eixo em estudo aparentemente consta no Plano de Avenidas, como um eixo com obras viárias previstas. É notável que as radiais sejam de essencial importância para o prosseguimento das centralidades rumo ao Rio Pinheiros.

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Para Maia, o crescimento é um aspecto essencial da realidade paulistana, a ser organizado e articulado, e não um problema a ser contido; a própria estrutura radial salienta a possibilidade de expansão permanente. [...] No entanto não bastavam intervenções viárias; estas, embora formassem o cerne das proposições de Prestes Maia, deveriam ser combinadas a uma política de renovação urbana dirigida explicitamente no sentido de eliminar os bolsões de pobreza adjacentes ao centro, os 'rincões da cidade'. (SOMEKH &

CAMPOS, 2002, p. 64 e 65).

O plano trata também da descentralização da cidade, tema em voga à época, por conta da lotação da área central. Prestes Maia disfarça a possibilidade de degradação do centro em função do perímetro, no entanto não a evita, e claramente o Plano de Avenidas leva ao abandono do Centro. Conforme descreve Campos (2002, p. 411 e 412):

De fato, não há uma verdadeira 'descentralização' na proposta de Prestes Maia. Pelo contrário: o perímetro, ampliando a área central, reforça a centralidade existente e evita o recurso de subcentros ou cidades-satélite como saída para descongestionar o 'triângulo'. Ao mesmo tempo, permite que o 'centro novo', intimamente integrado ao novo circuito, ganhe importância igual ou superior ao 'centro velho', formando com este um duplo polo de atenção, unificado pela solução perimetral´.

O desenho do perímetro privilegia o 'centro novo', tratado como 'zona principal de expansão'. [...]. Decretava-se o abandono do 'triângulo' pelo poder público, inaugurando o processo de deslocamento do centro comercial de prestígio em São Paulo que perdura até hoje.

O prefeito Fabio Prado (1934-1938) adianta algumas obras do plano "[...]

enfatizando a melhoria dos acessos viários no vetor Sudoeste, onde se situam os bairros-jardim da City (novo viaduto do Chá, avenidas Rebouças e Nove de Julho)."

(SOMEKH & CAMPOS, 2002, p. 68).

No entanto é a concretização do Perímetro de Irradiação no início da década de 1940, na primeira gestão de Prestes Maia como prefeito, nomeado pelo Estado Novo (1938-1945) fator determinante para a expansão do Centro, que demarca a importância do Plano de Avenidas nas transformações urbanas que se seguiriam.

Bacelli (1982, p. 56) destaca a atuação da Companhia City em relação à Avenida Nove de Julho colocando que:

A questão da abertura da Av. 9 de Julho transcende as transformações sofridas apenas no Jardim América, conforme por nós observado, pois implica na abertura de uma via que se estende do Vale do Anhangabaú até a Praça do Vaticano, no Jardim Europa.

Esta via já havia sido previamente concebida pela própria Companhia que, concomitantemente ao Jardim América, loteava suas propriedades no referido Vale. [...]

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A concretização da transação entre a Companhia City e a Prefeitura do Município de São Paulo dá-se em 14 de outubro de 1942, quando da assinatura do contrato de venda e compra dos lotes necessários à execução da obra, firmado pelas partes acima mencionadas. Em fevereiro de 1943 o movimento grosso de terra é executado.

O autor também coloca que a Companhia City tem papel fundamental na criação de infra-estrutura urbana, celebrando contratos tanto com o poder público, quanto com empresas privadas fornecedoras de bens e serviços:

A questão da retificação do rio Pinheiros exige grande empenho econômico por parte da Companhia para a sua realização. A canalização do rio Tietê em 1928 foi também objeto de negociações com a Prefeitura.

A City participa também da abertura de vias públicas. Tal é o caso da Avenida Anhangabaú, atual 9 de Julho, bem como o prolongamento da mesma, quando alcança os terrenos do Jardim América. São dispostos 10.844m², a preços inferiores ao normalmente cobrado, logrando no entanto auferir vantagens tais como: abertura de ruas úteis à Companhia; garantia de direitos reais sobre terrenos cuja posse vinha sendo contestada; melhoramentos urbanos, entre outras. (BACELLI, 1982, p. 36 e 37).

O interesse da Companhia City em realizar obras de infra-estrutura, para além das interferências no Jardim América em relação à Avenida Nove de Julho, aparentemente também se revela do outro lado do Rio Pinheiros, em relação à sua retificação, com o lançamento do Jardim Guedala em 1950, na sequencia do eixo em estudo imediatamente após o Pinheiros.

Rolnik (1997, p. 131) destaca que os bairros residenciais exclusivos (podemos citar como exemplo o Jardim América) tinham como propaganda a existência de infra-estrutura, o que obviamente valorizava o imóvel a venda. A autora alerta, no entanto, que os critérios para a chegada da infra-estrutura "[...] nem sempre visavam ao atendimento dos setores da cidade onde se instalavam a maior quantidade de usuários."

O eixo em estudo caracterizado pelo transporte por bondes até início do século XX, quando da implantação do Plano de Avenidas sofre, portanto, as consequências dessa opção rodoviarista.

É nesse contexto de desenvolvimento do quadrante sudoeste nas proximidades da futura Avenida Faria Lima que se inaugura o shopping Iguatemi, em 1966, tendo por consequência certa degradação da Rua Augusta explicitada por Pissardo (2013).

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A inauguração é feita com grande alarde, e tratando-se do primeiro shopping center da cidade, encontramos nos jornais da época do lançamento até mesmo uma curiosa propaganda, que explica o que é um shopping center - praticamente um manual de instruções para esclarecer à população como este novo equipamento deveria ser usado. É de fundamental importância para a implantação e viabilidade do empreendimento o modelo de transporte individual sobre rodas, estabelecido desde o Plano de Avenidas.

O Shopping Iguatemi inaugura um novo modo de consumo na cidade, esclarecido por Hepner (2010, p. 190 e 191):

Naquele período, o próprio conceito de 'shopping center' era algo praticamente desconhecido no país, e mesmo as galerias comerciais do Centro de São Paulo ainda eram bastante recentes (algumas das mais famosas haviam sido inauguradas poucos anos antes, como a Galeria Metrópole, de 1960, e a Galeria Nova Barão, de 1962). [...]

Cabe atentar que a grande ruptura em termos comerciais entre o Shopping Center Iguatemi e as galerias do Centro da cidade é a sua relação com o conceito de 'mall' suburbano norte-americano, implantado em pontos periféricos da cidade e destinado a ser facilmente acessível através do uso do automóvel, ampliando enormemente o 'raio de atendimento' do empreendimento. Naquela época, o local era visto como uma localização quase 'periférica' em relação à centralidade exercida pelas lojas do Centro e dos Jardins, apesar de estar localizado junto aos bairros nobres da região.

A Rua Iguatemi à frente do shopping Iguatemi já existia, no entanto, não atendia ao porte do empreendimento. Para resolver esse problema, dois anos após a inauguração do shopping Iguatemi, é aprovado um projeto de lei (7.105/68) para o alargamento da Rua Iguatemi, que passaria a ter 40 metros de largura, e iria da Av.

Pedroso de Moraes à Avenida dos Bandeirantes. Após muitas desapropriações, acabou sendo executado apenas o trecho entre o Largo da Batata e a Avenida Nove de Julho, justamente aquele que conectava o público alvo do shopping (morador dos bairros-jardim) ao empreendimento (HEPNER, 2010, p. 191). Reconhecemos essa como a primeira fase da construção da Avenida Faria Lima.

Rolnik (1997) explica do ponto de vista da legislação o desenvolvimento rumo sudoeste. Destacaremos aqui a fala da autora em relação à Lei de Uso e Ocupação da Cidade de 1972 na determinação dos parâmetros construtivos no setor sudoeste, em relação ao que se propõe para o restante da cidade.

Noventa por cento da área incluída nas zonas mais permissivas do ponto de vista do potencial de edificabilidade, assim como as mais restritivas – as exclusivas Z1 – concentram-se no vetor sudoeste.

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Nessas zonas, a lei de zoneamento proposta correspondeu quase literalmente ao tipo e forma de ocupação que estava sendo praticada. Portanto, ao declarar que só ali – onde já estavam concentrados os terrenos mais valorizados – poder-se-iam praticar os coeficientes mais altos e os usos mais diversificados, a lei se transformou em indexador, reiterando o status quo de distribuição de riqueza imobiliária da cidade. (ROLNIK, 1997, p. 201).

Tal trecho já inaugurado da Avenida Faria Lima inseria-se nas margens dos loteamentos da Cia. City, mas também em trechos mais permissivos em relação ao adensamento, como o caso do shopping Iguatemi. Esses trechos cresceram com bastante intensidade e "A área passou a desempenhar funções centrais em relação à metrópole." (BARONE, 1995, p. 86).

Figura 6. Propaganda: o que é um Shopping Center? Interessante notar que para facilitar assimilação do shopping Iguatemi, o anúncio vende para o consumidor a ideia do shopping como um local de "Ruas e avenidas cobertas". Afinal, este era o referencial comercial que o potencial frequentador deste shopping tinha, já que até então tinha o hábito de comprar na

Rua Augusta.

Fonte: O Estado de São Paulo, 31 de janeiro de 1965, p. 13.

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Figura 7. Inauguração do Shopping Center Iguatemi, como um "acontecimento rico de significações". De fato, o é, pois inaugurou m São Paulo um novo modo de consumo e,

juntamente com a cultura rodoviária, um novo modo de relacionar-se com a rua.

Fonte: O Estado de São Paulo, 27 de novembro de 1966, p. 11.

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Apesar de não se referir diretamente ao Shopping Iguatemi, mas à presença de modo geral de shoppings na cidade de São Paulo, Frúgoli Júnior (2000, p. 38) os aponta como agentes de fragmentação:

Numa metrópole cujo processo de expansão dotou os espaços de grande complexidade, a fragmentação dessa centralidade acentuou- se ainda mais a partir do surgimento de shoppings centers, espalhados em diversas regiões, que passaram a se caracterizar como importantes espaços de consumo, lazer e sociabilidade de crescentes segmentos de população, inicialmente ligados às classes média e alta, e posteriormente também a vários segmentos das classes populares.

Villaça (2001, p. 304) compara os shoppings centers aos subcentros das cidades, afirmando que os subcentros levariam anos para construir o que shopping faz de modo praticamente instantâneo, e isso gera impactos nas áreas urbanas.

Além disso, todas as decisões são tomadas pelo empreendedor (localização do shopping, horários de funcionamento, mix de lojas) e o autor coloca isso como o domínio do capital imobiliário sobre o mercantil.

A instantaneidade – mais do que a dimensão – dos empreendimentos imobiliários característicos dessa nova era de alta concentração de capital imobiliário [...] é que está provocando uma revolução nas áreas nobres de nossas cidades e em nosso urbanismo. (VILLAÇA, 2001, p. 307).

É relevante que um anúncio pouco menos de um ano antes do lançamento do Shopping Iguatemi traga indícios de valorização dos terrenos no entorno. À época de sua inauguração, por mais que, como visto, a centralidade caminhasse no sentido Rio Pinheiros, a ocupação não era tão intensa. É razoável levantar a possibilidade de que um dos principais fatores de desenvolvimento e ocupação intensiva do trecho final do eixo tenha de fato sido o Shopping Iguatemi.

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Figura 8. Valorização dos terrenos, antes da inauguração do Iguatemi.

Fonte: O Estado de São Paulo, 20 de junho de 1965, p. 11.

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Quarto momento de inflexão: da Faria Lima à região da Berrini e Marginal Pinheiros

O prolongamento da Avenida Faria Lima para além da Avenida Nove de Julho, no traçado como conhecemos hoje, veio apenas na década de 1990, com a aprovação da Operação Urbana Faria Lima, que consideramos símbolo do quarto momento de inflexão do deslocamento de centralidades, tendo em vista o entendimento do eixo da Rua Augusta inserido escala da cidade. É a partir dessa segunda fase de construção da avenida que se desdobram as novas ocupações, inicialmente na região da Berrini e na sequência na região da Marginal Pinheiros.

Hepner (2010, p. 109 a 116) realiza relevante pesquisa sobre a ocupação da Marginal Pinheiros, identificando a ocupação da Berrini como o momento pioneiro de sua ocupação. O autor sintetiza o deslocamento das centralidades a partir da década de 1940:

Entre as décadas de 1940 e 1970 a empresa Cia. Light, responsável pela gestão dos recursos hídricos de São Paulo, realizou seguidas obras de retificação do Rio Pinheiros, drenando as áreas inundáveis existentes em ambas as margens. [...] No mesmo período, a prefeitura de São Paulo havia executado uma série de obras ampliando a infra-estrutura viária desta região, incluindo a Av. Brig.

Faria Lima, inaugurada em 1968; a Av. Luís Carlos Berrini, aberta no início dos anos 1970; e a Marginal Pinheiros, cuja construção deu-se em fase ao longo desta década. (HEPNER, 2010, p. 109).

O autor se reporta à pesquisa de Mariana Fix2 ao estabelecer períodos de ocupação na região da Berrini e Marginal Pinheiros. Interessa para a presente pesquisa a descrição que o autor faz do período entre os anos de 1994 e 2000 como aquele "[...] caracterizado pela produção 'eufórica' de novos empreendimentos de grande porte [...]" (HEPNER, 2010, p. 110).

Cercada de manifestações e polêmicas acerca do enorme potencial que se permitiu construir a fim de viabilizar obras de infraestrutura a serem realizadas (acima do indicado pela Lei de Zoneamento), a Operação Urbana Faria Lima considerava extensas demolições, inclusive para a implantação da própria Avenida Faria Lima. Até hoje vemos o efeito da OU Faria Lima na transformação da paisagem não apenas do eixo da Rua Augusta, mas em todo o seu perímetro.

      

2 FIX, Mariana. Parceiros da exclusão – duas histórias da construção de uma "nova cidade" em São Paulo: Faria Lima e Águas Espraiadas. São Paulo: Boitempo editorial, 2001.

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Figura 9. Operação Urbana Faria Lima, perímetros originais. Em laranja, as áreas diretamente beneficiadas. Em amarelo, as áreas indiretamente beneficiadas, entre elas a

Avenida Cidade Jardim, no centro da Operação Urbana. Norte aproximado, sem escala identificada.

Fonte: HEPNER, 2010, p. 272, com demarcação em vermelho da autora.

Caracterizada a expansão rumo sudoeste, Villaça (2001) indaga: porque a aristocracia seguiu ocupando esse quadrante da cidade, culminando na várzea do rio Pinheiros, local sem atrativos? Para o autor, a explicação está em um entendimento mais amplo da própria cidade:

A razão para isso está na teia de inter-relações espaciais que se desenvolve [...], acentuando cada vez mais uma 'amarração' entre os diversos bairros (os da burguesia, no caso) e outros elementos vitais definidores dos deslocamentos espaciais, especialmente os locais de compras, serviços e empregos, como centros principais e os subcentros ([...] avenida Paulista, avenida Faria Lima, marginal do rio pinheiros), e todos os locais de emprego, comércio e serviços [...]

que definirão os deslocamentos espaciais dessas classes.

Abandonar a área de maior segregação significa ficar longe 'de tudo', ficar 'fora de mão'. Abandonar a direção radial significa piorar a acessibilidade. (VILLAÇA, 2001, p. 202 e 203).

Villaça (2001) também esclarece que a concentração de setores de alta renda é mais vantajosa em termos financeiros, seja ao poder público, seja ao mercado. Na imagem a seguir, à esquerda temos o modelo de São Paulo e à direita um modelo

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hipotético. Entende-se por essa figura a atratividade da Operação Urbana Faria Lima: "[...] a atratividade não está efetivamente na Operação em si, e sim na área sobre a qual a Operação rege." (HEPNER, 2010, p. 272). Nossa interpretação é a de que a Operação Urbana Faria Lima representa a continuação do desenvolvimento já iniciado dentro do setor sudoeste da cidade, há mais de um século.

Figura 10. Alternativas de segregação urbana. O diagrama à esquerda refere-se ao modelo paulistano, com uma direção preponderante de crescimento urbano. À direita, modelo

hipotético, no qual diversos centros urbanos distribuem-se no território.

Fonte: VILLAÇA, 2001, p. 340.

Rolnik (1997, p. 186 e 187) sintetiza de modo claro a expansão da cidade rumo ao Sudoeste, do final do século XIX à contemporaneidade:

No final do século XIX, o Centro estava sendo abandonado pelas elites, e foi reinvestido pela função comercial; na segunda década do século, loteamentos residenciais exclusivos foram abertos, estabelecendo frentes de expansão para os bairros burgueses – os Jardins da City Improvements Co. Quando nos anos 30, a capacidade de rendimento do primeiro cinturão oeste (Centro Novo/

Higienópolis) chegava no limite, foi reinvestida pelo uso vertical dos apartamentos. E a abertura da avenida Nove de Julho, parte do Plano de Avenidas de Prestes Maia, cuja implantação iniciou-se nos anos 30, começou a sentar bases para a imigração das atividades terciárias do Centro, na direção sudoeste. Com isso a avenida Paulista, símbolo da riqueza gerada na Primeira República, com seus palácios de novos e velhos ricos, seria implodida para abrigar as torres de bancos, grandes corporações e antenas de comunicação a partir dos anos 60, sem nunca abalar seu prestígio. Assim, a valorização sobe as colinas e desce para as baixadas em ondas de ressignificação, invariavelmente acompanhadas pela prioridade dos investimentos públicos da cidade. Na rubrica investimentos no orçamento municipal de São Paulo de 1993 e 1994, sob a gestão do prefeito Paulo Maluf, 85% foram aplicados nesse vetor (sudoeste),

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concentrados sobretudo em obras viárias geradoras de revalorizações no interior de áreas já bastante valorizadas – caso do túnel do Ibirapuera, o prolongamento da avenida Faria Lima e sua ligação com a frente de expansão dos edifícios de escritórios, na marginal do rio Pinheiros.

Como vimos por meio de diversos autores, as elites paulatinamente se deslocam rumo ao Sudoeste, e os investimentos públicos e privados acompanham tal deslocamento. Identificamos quatro momentos de inflexão, conduzidos pela lógica econômica da produção do mercado imobiliário, que para além de sua representatividade no desenvolvimento do quadrante sudoeste, foram de importância para a consolidação específica da ocupação do eixo da Rua Augusta:

- primeiro momento de inflexão: deslocamento do Centro Velho ao Centro Novo, tendo por símbolo a transposição do Vale do Anhangabaú, através do Viaduto do Chá, viabilizando a ocupação do trecho inicial do eixo da Augusta;

- segundo momento de inflexão: deslocamento da região central para a Avenida Paulista;

- terceiro momento de inflexão: deslocamento da região da Paulista para a Avenida Faria Lima, tendo por símbolos o planejamento e construção dos bairros- jardim, e a decorrente instalação do shopping Iguatemi;

- quarto momento de inflexão: deslocamento da região da Faria Lima para a região da Berrini e posteriormente Marginal Pinheiros, tendo por símbolo a aprovação da Operação Urbana Faria Lima.

O mapa de 1930, o primeiro levantamento cadastral da cidade de São Paulo, é emblemático na síntese do presente capítulo, pois nele é possível observar a região central consolidada em traçado e ocupação, os bairros-jardim com traçado básico lançado, bem como a Avenida Cidade Jardim já definida, inclusive para além Rio Pinheiros. A ocupação ainda não é integral – particularmente no trecho da Avenida Cidade Jardim ainda é bastante rarefeita - no entanto, estão lançadas as bases que a viabilizarão.

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Figura 11. Mapa Sara Brasil, 1930. Em vermelho, eixo em estudo. Demarcação por ACFM.

Observa-se ocupação densa no trecho próximo ao centro, e cada vez mais rarefeita no sentido Rio Pinheiros.

Fonte: Acervo FAU-USP.

É a partir do entendimento do desenvolvimento da cidade no quadrante sudoeste, apresentado nesse capítulo, que iremos nos debruçar sobre o eixo da Rua Augusta. O consideraremos uma unidade possível de leitura, analisando-o do ponto de vista histórico através de marcos específicos de seu território, bem como do ponto de vista contemporâneo, buscando uma leitura das transformações recentes que tem ocorrido neste valorizado eixo da cidade.

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Eixo Rua Augusta – Avenida Cidade Jardim e a escala local

Figura 12. Vista aérea, a partir da Avenida Europa, em direção à Marginal Pinheiros. A data da foto não consta na fonte consultada.

Fonte: Acervo Cia. City.

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2.1 Aspectos metodológicos

Tendo em mente o entendimento do eixo Augusta – Cidade Jardim como uma unidade possível de ser identificada e analisada, no Capítulo 1 o contextualizamos na história da própria cidade, como parte do quadrante sudoeste, baseando-nos em diversos autores que já estudaram a história da cidade sob o viés do desenvolvimento deste setor da cidade, em detrimento de outros setores.

No Capítulo 2 iremos nos debruçar sobre o eixo de estudo em si, tendo em vista a consolidação de seu próprio território, e transformações recentes que nele tem ocorrido. Para tanto, torna-se necessário esclarecer alguns aspectos metodológicos que levaram à organização desse capítulo.

Entenderemos o eixo da Rua Augusta sob dois pontos de vista: do ponto de vista histórico e do ponto de vista atual. O eixo será compreendido como unidade territorial possível de estudo em si mesma, no entanto, sua grande extensão tornou imperativa a necessidade de organizá-lo em setores, tanto para compreender historicamente sua consolidação, como para identificar as morfologias que hoje existem.

Na caracterização desses setores, por terem se formado em períodos tão distantes no tempo – mais de um século – muitas vezes os critérios aplicados na caracterização de um setor, não são passíveis de serem aplicados em outro.

A divisão em setores indicada abaixo em croquis recai sobre a identificação e diferenciação dos fatores abaixo combinados:

- volumetria,

- morfologia das quadras, - ocupação dos lotes, - usos atuais,

- momento histórico de consolidação do local.

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Figura 13. Croquis com setores identificados, incluindo volumetria, morfologia das quadras e ocupação dos lotes.

Fonte: Croquis ACFM.

Referências

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