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3 CONTEXTO ATUAL

3.3 Aspectos legais dos REEE’s

A legislação ambiental brasileira pode ser considerada em diversos aspectos uma das mais avançadas do mundo. A Política Nacional de Meio Ambiente, estabelecida em 1981, já criava instrumentos para o planejamento, a gestão e a fiscalização ambientais. Em 1998 foi sancionada a Lei de Crimes Ambientais, que prevê a responsabilização de pessoas físicas e jurídicas por infrações ambientais. Essa lei uniformizou o formato das punições, além de ter incorporado a extinção de pena frente à comprovação de recuperação do dano ambiental. Ela prevê multas de até R$ 50 milhões para crimes ambientais, o que dá a medida da prioridade que o poder público tem dedicado a reduzir os impactos ambientais. Entretanto, apesar de muitos avanços, os REEE em particular só eram contemplados por legislação específica no aspecto particular do gerenciamento pós-uso de pilhas e baterias - tratada na resolução 257 do CONAMA, de 1999 (posteriormente substituída pela resolução 401, de 2008).

É nesse contexto que se insere a aprovação, em 2010, da Política Nacional de Resíduos Sólidos (lei 12.305). Ela integra a Política Nacional do Meio Ambiente e articula-se com as diretrizes nacionais para o saneamento básico e com a Política Federal de Saneamento Básico, nos termos da Lei no 11.445, de 5 de janeiro de 2007, com a Lei no 11.107, de 6 de abril de 2005, e com a Política Nacional de Educação Ambiental, regulada pela Lei no 9.795, de 27 de abril de 1999.

Tabela 8 - Histórico dos aspectos legais

Data Legislação Do que trata

12-Fev-98 Lei n° 9.605 Dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente, e dá outras providências.

02-Ago-10 Lei n° 12.305/10 Institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos; altera a Lei no 9.605 e dá outras providências.

23-Dez-10 Decreto No.

7.404/10

Regulamenta a Lei no 12.305, cria o Comitê Interministerial da Política Nacional de Resíduos Sólidos e o Comitê Orientador para a Implantação dos Sistemas de Logística Reversa, e dá outras providências.

04-Abr-11 Portaria No. 113/11 Aprova Regimento Interno para o Comitê Orientador para Implantação de Sistemas de Logística Reversa. Fonte: Análise Inventta

Além de estabelecer medidas como a erradicação dos lixões a céu aberto, a fiscalização de aterros sanitários e o incentivo à reciclagem de resíduos, a PNRS traz ainda diversos avanços. Ela cria novos instrumentos que reconhecem a potencial toxicidade de determinados tipos de resíduo, além de estabelecer a responsabilidade compartilhada entre indústria, comércio, usuários e poder público. Em dezembro de 2010, a PNRS foi regulamentada pelo

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decreto nº 7.404. Entre os diversos pontos tratados no decreto, alguns se destacam para os fins do presente estudo:

 A gestão dos resíduos sólidos deve buscar, nesta ordem, a não-geração, redução, reutilização, reciclagem, tratamento de resíduos e disposição final ambientalmente adequada (art. 35).

 Responsabilidade compartilhada, implementada de forma individualizada e encadeada,

entre fabricantes, importadores, distribuidores, comerciantes, consumidores e titulares de serviços públicos (Cap. 1, art. 5).

 O sistema de logística reversa de REEE deverá ser estruturado e mantido pelos fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes (seção 2, art. 18º). Deve também estabelecer metas progressivas, intermediárias e finais para a realização da logística reversa na proporção dos produtos colocados no mercado interno (§ 2º, art. 18).

 Promoção de estudos para viabilizar a desoneração tributária de produtos recicláveis e

reutilizáveis (art.4).

 Obrigação dos consumidores em disponibilizar adequadamente seus resíduos sólidos para coleta e devolução, sempre que houver sistema de coleta seletiva municipal ou sistema de logística reversa (art. 6).

 Estabelece a elaboração do Plano Nacional de Resíduos Sólidos com vigência

indeterminada, horizonte de vinte anos e atualizações a cada quatro anos. O Plano será elaborado pela União, sob a coordenação do MMA (art. 46).

Figura 18 - Status da legislação estadual

Devido, entre outros fatores, à sua longa tramitação, quando da aprovação da PNRS no Congresso Nacional diversos estados e municípios já haviam desenvolvido legislação e mecanismos próprios voltados ao gerenciamento de resíduos sólidos (Figura 18). A PNRS constitucionalmente sobrepõe-se a esses dispositivos, prevendo a suspensão automática e imediata das legislações estaduais e municipais no momento da entrada em vigor da norma federal. Parte-se do princípio de que o genérico compete à União e o detalhamento ao poder estadual ou local, mas que estes só podem ser mais restritivos do que a União, nunca mais brandos ou tênues ao agir. (FELDMANN in YOSHIDA, 2012). Eventuais conflitos durante a necessária adaptação da PNRS aos diferentes dispositivos locais e estaduais já existentes serão irrelevantes frente aos benefícios de uma política estruturada e abrangente.

Com a PNRS, torna-se responsabilidade obrigatória dos municípios e do Distrito Federal a gestão integrada dos resíduos sólidos urbanos em seus próprios territórios. Como mecanismo indutor, a PNRS erige os planos de resíduos sólidos como condição para os estados, DF e os municípios terem acesso a recursos da União. Priorizam-se soluções consorciadas intermunicipais para a gestão dos resíduos sólidos, incluindo a elaboração e implementação de plano intermunicipal ou de planos microrregionais de resíduos sólidos. Reflexo da intenção da PNRS na inclusão social e valoração econômica da atividade dos catadores, são também priorizados os municípios que implantarem a coleta seletiva com a participação de cooperativas ou outras formas de associação de catadores de materiais reutilizáveis e recicláveis formadas por pessoas físicas de baixa renda.

Aos estados é atribuída a promoção da integração de gestão dos resíduos sólidos nas regiões metropolitanas, aglomerações urbanas e microrregiões, bem como o controle e fiscalização das atividades dos geradores sujeitas a licenciamento ambiental pelo órgão estadual competente. Também se atribui aos estados o papel de apoiar iniciativas consorciadas ou compartilhadas entre diferentes municípios (YOSHIDA, 2012). Do ponto de vista econômico, a União, os Estados, o Distrito Federal e os municípios, no âmbito de suas competências, poderão instituir normas com o objetivo de conceder incentivos fiscais, financeiros ou creditícios.

A PNRS toma como instrumentos os acordos setoriais assim como os termos de compromisso e os regulamentos. Coloca como diretrizes um modelo oposto ao de comando- controle, valorizando a cooperação, a interação e o reconhecimento. Além de manter o princípio do poluidor-pagador, já consagrado no direito ambiental, a PNRS introduz o conceito do protetor-recebedor - prevendo a possibilidade de compensação financeira para aquele que promover a preservação do meio ambiente.

Até a PNRS, o modelo tecnológico adotado para quase todo o resíduo (exceto no caso de resíduos decorrentes de serviço de saúde) era o aterramento sanitário de resíduos, sem qualquer tratamento. Com a lei, somente rejeitos - materiais cuja possibilidade de reaproveitamento foram esgotadas - podem ser aterrados. A PNRS não veda a utilização de incineração (fora dos casos em que ela é obrigatória), mas estabelece condições e exigências de tratamento e monitoramento de emissões.

Mesmo com a aprovação e iminente implementação da PNRS, os REEE ainda carecem de definição mais clara em alguns pontos delicados. Um desses pontos é sua classificação. Diferentes maneiras de enquadrar os materiais (na forma de produtos, resíduos ou rejeitos; e

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se considerados perigosos ou inertes) vão ocasionar diferentes obrigações de segurança ambiental e laboral - incluindo a exigência de licenciamento dos pontos de recebimento, a fiscalização sobre seu transporte, o uso de equipamentos de proteção, a eventual remuneração por insalubridade e outras. Além disso, o regime de tributação sobre a circulação e o tratamento dos REEE, além de refletir o interesse do poder público em incentivar ou coibir determinadas práticas, também varia conforme a classificação dos materiais. A titularidade dos materiais também é um fator importante: para garantir amparo jurídico da logística reversa, pode ser necessário o preenchimento de um termo ou declaração de doação. A coleta, logística, reciclagem e disposição final dos REEE terão um custo, uma complexidade e uma viabilidade diferenciadas em decorrência do entendimento jurídico e de decisões tomadas nesse contexto.