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2. TEORIA GERAL DA PREPARAÇÃO DO DESPORTISTA

2.1. SISTEMA DE PREPARAÇÃO DESPORTIVA

2.1.3. SISTEMA DE FATORES COMPLEMENTARES

2.1.3.1 ASPECTOS NUTRICIONAIS

Entre outros aspectos, a questão nutricional é bastante considerada no treinamento de ginastas, principalmente por estar relacionada à manutenção de baixo peso corporal, uma pressão constante na vida desportiva de uma ginasta.

Um importante aspecto para o desempenho na GA é a força relativa, ou seja, a força relativa ao peso corporal58. Quanto mais a ginasta aumenta seu peso, relativamente ela fica mais fraca, pois está realizando o mesmo movimento com o mesmo condicionamento de antes, porém mais pesada. As ginastas precisam ser fortes e leves, características de ginastas do mundo todo, como já foi abordado anteriormente..

Existe uma bibliografia internacional vasta sobre o aspecto nutricional de ginastas, desde pesquisas com valores calóricos diários ingeridos pelas ginastas, relações com gasto energético, quantidade necessária de determinados nutrientes, até distúrbios alimentares, bastante comuns em mulheres atletas. Em termos nacionais, pesquisas com ginastas brasileiras, principalmente da seleção nacional, são bastante restritas. Uma das poucas pesquisas realizadas com ginastas brasileiras, foi desenvolvida nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo com 46 ginastas do sexo feminino, de 11 a 14 anos, de clubes representativos no cenário nacional (RIBEIRO; SOARES, 2002). As autoras verificaram que:

⇒ o consumo energético está abaixo dos preconizados para adolescentes atletas (1423Kcal para as paulistas e 1521kcal para as fluminenses);

⇒ o consumo de cálcio está 45% abaixo das recomendações nutricionais; ⇒ o consumo de carboidratos está menor do que o esperado.

Esta baixa ingestão de carboidratos associada ao reduzido consumo energético, poderá contribuir para uma redução nos estoques de glicogênio muscular, resultando em estresse adicional ao organismo e prejuízos tanto nos treinamentos como em competições (RIBEIRO; SOARES, 2000, p. 188).

Em relação à falta de determinados nutrientes na dieta das ginastas, Constantini et al (2000) também relata em estudo realizado com ginastas e atletas de outras modalidades, separados por gênero, no qual atletas (homens e mulheres) demonstraram em seus exames uma deficiência de ferro, que pode ser ou por uma perda excessiva de ferro ou por uma dieta inadequada.

Outra pesquisa (DEUTZ et al, 2000), realizada com ginastas de alto rendimento dos EUA e algumas participantes de Jogos Olímpicos de Atlanta (1996), aborda a questão do desequilíbrio energético ocasionado, principalmente, por restrições ou dietas inadequadas, o que pode gerar: diminuição do gasto calórico em descanso, aumento do tecido adiposo, disfunções no ciclo menstrual, aumento de lesões e diminuição da densidade óssea. Em comparação com corredores de média e longa distância, as ginastas apresentaram o maior desequilíbrio energético, entre gasto e ingestão calórica.

É interessante ressaltar que, independente da modalidade, aqueles que tiveram maior média de déficit calórico durante o dia apresentaram maior percentual de gordura, o que justamente as ginastas não desejam pela característica da modalidade.

Berry e Howe (2000) estudaram sobre distúrbios alimentares em ginastas. Eles ressaltam que atletas de modalidades que valorizam o aspecto estético, como ginástica, patinação artística e bailarinas demonstram maior insatisfação em relação a seus corpos, tendo médias altas em testes de EDI (Eating Disorder Inventory), o que indica um diagnóstico de distúrbios alimentares, o que não acontece com freqüência em outro tipo de modalidade.

Outro estudo com ginastas femininas colegiais (Petrie, 1993), destacado por Kerr et al (2006), apresenta dados de que 50% das ginastas estudadas gostariam de ser mais leves e 61% delas apresentam indicações de desordem alimentar segundo médias de testes (Bulimia Test-Revised).

Em outro estudo (KERR; DACYSHYN, 2000), apontado por Kerr et al (2006), abordando também ginastas de elite já aposentadas, muitas relataram uma constante preocupação com o peso e imagem corporal em suas carreiras.

Algumas relataram que durante suas carreiras, eram sujeitas a pesagens diárias, teste mensal de tecido adiposo, exposição de seus pesos e punições dos técnicos caso estivessem acima do peso. Estas ginastas disseram que a ênfase no peso era um constante estresse enquanto estavam envolvidas no esporte e que muitas continuam na “luta” para o controle de peso59. (p.29).

Na pesquisa desenvolvida por KERR et al (2006), com 92 ginastas canadenses atuantes e aposentadas de nível estadual e nacional, 62 pais de ginastas de nível competitivo, 28 técnicos (homens e mulheres) e 20 árbitros mulheres, mostrou que:

⇒ 92% dos pais entrevistados não imaginavam a possibilidade de distúrbio alimentar em suas filhas;

⇒ 81% acreditam que os técnicos orientam de forma apropriada

⇒ 15% disseram que os técnicos já haviam comentado sobre a necessidade de perda de peso das ginastas

⇒ 16% disseram que os técnicos já haviam comentado negativamente sobre corpos das ginastas.

⇒ 20% dos árbitros estudados disseram já ter visto técnicos encorajando suas ginastas a técnicas não saudáveis para controle de peso.

⇒ 54% dos técnicos disseram que são eles próprios que determinam se a ginasta precisa ou não perder peso, por meio da aparência delas.

Especificamente na pesquisa com os técnicos, existiu uma diferença grande entre as práticas usadas para controle de peso pelo grupo estudado e as práticas que eles disseram ser usadas por outros técnicos. Nenhum dos técnicos disse pesar suas ginastas regularmente, mas 82% disseram que outros técnicos fazem isso. Somente um deles disse avaliar quantidade de tecido adiposo, mas 75% disseram que outros técnico o fazem.

Sundgot-Borgen (1994), citado na revisão de literatura de Kerr el al (2006), enfatiza a questão da adequada orientação nutricional mostrando dados de sua pesquisa, na qual 67% das ginastas estudadas apresentavam desordem alimentar (baseado em entrevistas e avaliações clínicas). Destas ginastas, somente 10% tiveram algum tipo de orientação sobre perda de peso. De outro lado, 75% das atletas que faziam dietas adequadas e não desenvolveram distúrbios alimentares tinham recebido orientações sobre o assunto.

Além disso, Ribeiro e Soares (2000) sugerem:

[...] o planejamento de ações conjuntas para reforçar os conhecimentos em nutrição de técnicos, de pais, de responsáveis e principalmente das atletas, visando uma melhora na conduta alimentar, a fim de garantir que a nutrição não seja um fator limitante, no rendimento e na saúde destas adolescentes (p.189).

E muitas vezes as desordens alimentares estão relacionadas a problemas psicológicos, necessitando de um tratamento adequado, de profissionais da psicologia, que também fazem parte dos profissionais que podem complementar o treinamento das ginastas, como será descrito a seguir.