CAPÍTULO 6. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
6.1. Aspectos Petrográficos e Microestruturais
Diante da análise dos aspectos petrográficos e microestruturais, torna-se inequívoca a afirmação que as rochas da suíte Alto Maranhão, apresentam predomínio de feições ígneas a transicionais, em detrimento de feições puramente deformacionais. Nesse aspecto, microestruturas clássicas atribuídas ao regime ígneo foram prontamente verificadas na quase totalidade das amostras, dentre elas, citam-se: plagioclásios de granulação grossa, euédricos à subédricos, em alguns casos alinhados e zoneamento concêntrico normal. A despeito do predomínio de microestruturas ígneas, nota-se também, em baixa proporção, o mecanismo de deformação denominado cataclase, marcado por fraturas discretas, sobretudo no plagioclásio, onde em muitas situações, são compatíveis com a rotação desses grãos, possivelmente na transição liquidus - subsolidus. De maneira geral, as microestruturas verificadas principalmente no quartzo e plagioclásio indicam condições mais amenas de deformação, com predomínio de mecanismos de recuperação, marcados por extinção ondulante e subgrãos. Indícios de recristalização dinâmica se fazem presentes, de maneira bem incipiente no plagioclásio, por meio de migração de borda lenta (bulging), verificando-se ainda, isoladamente, o início do desenvolvimento de estrutura núcleo-manto. Com efeito, feições de deformação que remetem a grau mais elevado, com o início da geração de estruturas núcleo- manto em plagioclásios, se faz possível mesmo em condições relativamente amenas de deformação (e.g. Obee & White, 1985). De maneira ainda mais restrita, se observou também que o grau de desorientação de subgrãos de plagioclásio é elevado o suficiente para praticamente se delimitar novo grão, tal como o mecanismo conhecido por rotação de subgrãos (SGR).
A hipótese de mescla magmática foi claramente verificada tanto em afloramento, como por análise petrográfica, onde se observaram, nos enclaves, cristais de plagioclásio com granulação incompatível àquela apresentada pelos grãos da matriz, sendo, portanto, interpretados como xenocristais de plagioclásio, herdados da rocha encaixante. Além do mais, as feições verificadas nos afloramentos das estações Ponte Funda e Ponte Caída, atestam de maneira inequívoca para tal hipótese, entre elas ressaltam- se a presença de dutos lobulares por onde fluiu o magma mais máfico, bem como a existência de aglomerados de plagioclásio (crystal mush) presentes na porção máfica, indicando que durante a intrusão do magma mais máfico na câmara tonalítica, os agregados que ali se encontravam presentes, não estariam totalmente solidificados, originando uma típica mistura física de fases – mingling.
Nesse sentido, o aspecto arredondado de alguns cristais de plagioclásio, embora não apresente textura poiquilítica, seria compatível com feições de corrosão, originadas durante o processo de mescla magmática. Outra fase mineral ígnea, frequentemente observada com aspectos arredondados, porém por vezes poiquilítica, se trata da hornblenda, que nas rochas encaixantes ocorre com granulação grossa. Por fim, cabe ressaltar ainda nesse sentido, que as composições de anortita dos plagioclásios presentes nas rochas hospedeiras bem como nos enclaves encontram-se, de forma geral, em relativo equilíbrio, com ligeiros valores acentuados de andesina para os enclaves, corroborando a etapa de homogeneização composicional.
A presença do corpo diorítico de fina granulação, contínuo e de composição similar aos enclaves, presente nas estações Ponte Caída e Retorno, sugere a presença de dutos por onde fluiu o magma máfico e a partir dos quais derivaram-se os enclaves dioríticos. Esses dutos foram também observados na pedreira Barro Branco, localizada nas proximidades da pedreira Convap e estação do Retorno, levando a postulação da hipótese de associação dos enclaves dioríticos e os corpos dioríticos de maiores dimensões e continuidade. Assim, os dutos magmáticos, funcionariam como alimentadores e geradores dos enclaves dioríticos. A figura 2.5 ilustra bem o processo. Essa interpretação corrobora a ideia dos mesmos representarem diques sin-magmáticos, como proposto por Seixas et al. (2013) e é plenamente compatível com vários trabalhos disponíveis na literatura, como Wiebe & Collins (1998), Paterson et al. (2004), Barbarin (2004).
A análise da orientação preferencial de forma, realizada tanto no plagioclásio quanto no quartzo, tomou por base a lineação X(L) definida pelos grãos de plagioclásio. Nesse aspecto, a orientação de tal lineação varia conforme os domínios de influência dos lineamentos regionais que limitam a suíte Alto Maranhão: lineamentos Congonhas-Itaverava e Jeceaba-Bom Sucesso (ver capítulo 4). Ao se analisar os histogramas de distribuição de tamanho dos grãos, percebe-se, de forma geral, que há uma diminuição da granulação, da estação menos deformada para aquela com mais fortes indícios de deformação, segundo o ordenamento estabelecido com base em macroestruturas (ver capítulo 4). A análise de forma nos grãos de plagioclásio revelou, além de marcado padrão de orientação preferencial de forma, a diminuição progressiva de cristais euédricos com o aumento no grau de deformação, uma vez que na estação “com maior grau de deformação” tem-se grãos dominantemente anédricos (Figs. 4.43 d, e). No entanto, faz-se necessário destacar que tal relação não foi verificada da estação RV-a para a RV-b, uma vez que esta apresenta grãos de plagioclásio mais euédricos em relação àquela. Os grãos de quartzo, por sua vez, embora anédricos, tendem a exibir eixos maiores orientados na mesma direção exibida pelos grãos
Contribuições às Ciências da Terra – Série M, vol. 78, 169p.,2019
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plagioclásio X(L), sugerindo que também foi influenciado pelo mesmo campo de tensões responsável pelo alinhamento do plagioclásio, isto é, durante as fases liquidus a subsolidus. No entanto, há que se notar, que grande parcela do quartzo foi cristalizada tardiamente, como observado no preenchimento de fraturas do próprio plagioclásio e inclusões na hornblenda.