2.1 A abordagem de Arnheim (2005)
2.1.3 Aspectos representativos
A representação, assim como a percepção, também acontece a partir das características
formais e espaciais mais marcantes de um objeto. Esse julgamento é feito pelo autor que
determina que elementos da configuração serão representados. Ele é influenciado pelo
objeto físico, pelo meio de luz que transmite a informação e por suas próprias condições
mentais.
Arnheim considera a representação tridimensional, uma cópia do objeto real. Já a
representação pictórica bidimensional é uma tradução deste e baseia-se na imagem do
objeto real (conceito visual), concebida através de suas características estruturais essenciais.
Quando o esqueleto estrutural de um objeto tem pouca relação com a estrutura do conceito
visual, pode criar falsas associações.
Arnheim ressalta diversos aspectos representativos que auxiliam o observador no
reconhecimento do objeto, bem como na percepção de suas particularidades e das relações
entre os elementos pictóricos. Alguns desses aspectos, como sobreposição, linhas,
profundidade e cor, são apresentados a seguir.
Sobreposição
A representação do todo de um objeto, por vezes sofre interrupção de partes dele próprio.
Nesse caso, a sobreposição dessas partes pode dar a ideia de ordenação de suas unidades
constituintes. A sobreposição também pode ser percebida com a utilização de
transparência. Para indicar a correta hierarquia das formas competidoras, é importante que
a área de transparência do elemento que estiver na frente seja mais clara que a outra. A
Figura 2. 6 indica duas situações de transparência. Em a há uma barra branca cruzando
uma barra preta, onde a área de transparência é indicada por um cinza claro, indicando que
aquela está por sobre esta. Em b a percepção é contrária. Como a área da transparência é
Figura 2. 6: Exemplo de sobreposição com transparência
Fonte: adaptado de experiências feitas por Oyama e Morinaga (ARNHEIM, 2005, p. 245)
Linhas e ambiguidade
A representação pictórica se dá, principalmente, pelo uso de linhas. Estas podem ser
representadas como objetos e percebidas como unidades. As linhas podem ser vistas desse
modo, na imagem gerada em um exame de Angiografia cerebral (Figura 2. 7).
Figura 2. 7: Exemplo de linha-objeto
Fonte: http://noticias.sapo.pt/magazine/985260.html
Quando as linhas são utilizadas em conjunto, paralelas e próximas umas das outras,
atinge-se um efeito hachurado, que possibilita a representação de sombras, bem como a
diferenciação de superfícies, como mostra o mapa de laser em um modelo 3D da cabeça
humana (Figura 2. 8). Nesses casos, as linhas são percebidas como um todo, como uma
superfície sombreada ou de textura diferenciada.
Figura 2. 8: Exemplo de linhas hachuradas (registro do modelo virtual 3D e mapa de laser)
Fonte: http://groups.csail.mit.edu/vision/medical-vision/surgery/surgical_navigation.html#models
Se a linha formar uma figura fechada, configura-se em contorno, delimitando o que
está dentro e o que está fora da linha traçada, ou o que está no primeiro plano e o que é
fundo.
Quando duas figuras possuem um contorno em comum, percebe-se certo incômodo
visual, pois se tem a impressão que as figuras competem pela supremacia. “O contorno
comum é perceptivamente ambíguo porque a dinâmica que determina a identidade visual
das formas, é reversa” (ARNHEIM, 2005, p. 216). Isto é, quando se atribui o contorno a uma
das formas, ela prevalece. Mas ao atribuir o contorno à segunda forma, esta é que
prevalecerá em relação à primeira. Um exemplo bastante utilizado é o do cálice
contrapondo-se a dois rostos de perfil (Figura 2. 9). Quando se vê o cálice, não se reconhece
o contorno dos rostos, o inverso também acontece. No entanto, é impossível que as duas
versões sejam notadas ao mesmo tempo, sendo convertida em fundo a forma não
percebida.
Figura 2. 9: Exemplo de figura-fundo
Fonte: http://analisequantica.blogspot.com/2010/05/mercado-quantico-x-gestalt-logica-do.html
Arnheim diz que quando as partes possuem texturas diferentes, a situação
figura-fundo pode ser reforçada. A imagem de ultrassonografia (Figura 2. 10a) demonstra que a
área texturizada é percebida como figura sobre um fundo escuro. Ou invertida, como
mostra a Figura 2. 10b, em que a parte com textura parece uma área contínua com um
orifício (mancha escura).
Figura 2. 10: Figura com textura (imagens de ultrassonografia)
Fonte: (a) http://www.fetalmed.net/o-que-e-ultrassonografia-morfologica.html (b) http://theadvance.info/index.php?key=Ultrassonografia
Percebe-se que nos dois casos demonstrados acima, a forma texturizada prevalece
como figura, enquanto a parte lisa, é percebida como fundo. Pode-se afirmar, portanto, que
a diferença de texturas entre os elementos de um arranjo pictórico contribui para a
percepção da sobreposição dos elementos. A hierarquia entre os elementos em uma
representação também pode ser evidenciada com a simulação de profundidade, segundo
Arnheim, através de gradientes, conforme segue.
Profundidade
De acordo com Arnheim, quanto mais nítido e regular for o gradiente, mais claro será o
efeito de profundidade. Por exemplo, quando se altera o tamanho de uma forma,
obedecendo-se a uma razão constante, o observador percebe um aumento de
à percepção de profundidade.
Figura 2. 11: Exemplo de profundidade por gradiente de tamanho Fonte: http://www.labgeminis.com/plantilla.php?id_sub_seccion=333
A distância entre os elementos determina como será percebida a profundidade. “Em
conjuntos globais bem como em objetos isolados, os gradientes constantes de claridade,
como gradientes constantes de tamanho oferecem um aumento ou decréscimo contínuo de
profundidade. As transições súbitas de claridade ajudam a produzir saltos de distância.”
(ARNHEIM, 2005, p. 302).
O gradiente de cor também proporciona a percepção de profundidade. Quando
uma superfície é iluminada, significa que ela está voltada a uma fonte de luz, enquanto
superfícies escuras significam o afastamento da luz. A Figura 2. 12 mostra imagens de uma
ecocardiografia tridimensional em que o gradiente de cor (brilho) dá a noção de
proximidade e afastamento em relação ao dispositivo de captação da imagem,
demonstrando a profundidade das figuras.
Figura 2. 12: Exemplo de gradiente de cor (exame de ecocardiografia tridimensional) Fonte: http://www.incor.usp.br/spdweb/projetos/viseco3d.htm