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Aspectos socioeconômicos das Regiões com plantios de AN

4 O MERCADO DA ACÁCIA NEGRA: SUAS CARACTERÍSTICAS E OS

4.3 Aspectos socioeconômicos das Regiões com plantios de AN

A acacicultura se tornou, ao longo dos tempos, uma importante atividade econômica para muitas famílias, e dependendo da região do estado do RS é a principal fonte de renda dos colonos. Atualmente, esta espécie florestal é largamente empregada em plantios comerciais na região da Metropolitana, Encosta da Serra Geral, Colonial e Vale do Jacuí, nas proximidades dos grandes centros consumidores de madeira e casca e em direção ao porto de Rio Grande (FIGURA 2).

Figura 2 – Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura

Fonte: IBGE

A Acácia-negra comumente é cultivada por pequenos produtores em sistema agrossilvopastoril. Na fase inicial, os acacicultores fazem plantio de milho, melancia, mandioca e outras culturas. Posteriormente, quando o dossel da floresta já está

fechado, a área é aproveitada para o pastoreio. Esse sistema beneficia atualmente cerca de 40 mil famílias na região Sul do Brasil, onde existem cerca de 150 mil hectares plantados (RIO GRANDE DO SUL, 2002).

Quando analisamos os dados para o RS fornecidos pelo IBGE notamos que a Microrregião Montenegro4 se destaca das demais regiões do estado quando o assunto é a importância dos plantios florestais na composição da renda dos produtores rurais. Como afirmado anteriormente a acácia-negra esteve e ainda está ligada ao setor coureiro calçadista, pois de acordo com a Associação das Indústrias Brasileiras de Calçados (ABICALÇADOS, 2013), o estado do RS é maior produtor de calçados do país, sendo responsável por cerca de 44% das exportações do setor. Isto fez com que os municípios no entorno dos polos produtores de tanino, Montenegro e Estância Velha, sejam os que mais se destacam na produção desta espécie. Existem ainda outros fatores importantes que justificam estudar esta Microrregião como: é a região que explora há mais tempo a atividade florestal da acácia-negra no estado; é a região que concentra o maior número de pequenos produtores da espécie e é a região em que a produção florestal representa, em vários municípios, a maior fonte de renda rural. Porém, alguns outros municípios de fora da microrregião serão considerados neste estudo.

Na figura 3 vemos que a produção florestal tem uma importância significativa na formação da renda das famílias da microrregião Montenegro e esta importância vem crescendo nos últimos anos. Ao compararmos o valor da produção agrícola e o valor da produção florestal, notamos que a produção agrícola chegou a ser três vezes maior no ano de 2001 do que a produção florestal, já no ano de 2005 o valor das produções foi praticamente igual.

4 A Microrregião de Montenegro é composta por 21 municípios: Alto Feliz, Barão, Bom Princípio,

Brochier, Capela de Santana, Feliz, Harmonia, Linha Nova, Maratá, Montenegro, Pareci Novo, Poço das Antas, Portão, Salvador do Sul, São José do Hortêncio, São José do Sul, São Pedro da Serra, São Sebastião do Caí, São Vendelino, Tupandi e Vale Real.

Figura 3 – Série do valor (mil reais) de produção agrícola e valor de produção florestal para a Microrregião Montenegro.

Fonte: elaborado pelo autor a partir de dados do IBGE/SIDRA

Em 2011 à produção agrícola foi 1,7 vezes maior que a produção florestal, em relação a 2001 esta diferença quase caiu pela metade. Porém, o dado mais importante desta análise é o crescimento contínuo do valor da produção ao longo dos anos, se compararmos o período entre os anos 2001 até 2011 veremos um aumento de mais de cinco vezes, pois no ano de 2001 o valor da produção florestal foi de R$ 10.165.000,00 e no ano de 2011 foi de R$ 56.301.000,00. Vale considerar que este aumento não está diretamente ligado ao aumento dos preços, como veremos a seguir.

Quando focamos a análise nos municípios da microrregião de Montenegro que mais se destacam, como Poço das Antas, notamos que a renda proveniente do setor florestal apresenta uma importância ainda maior que o valor gerado pela produção agrícola. Nos anos de 2009 e 2011, por exemplo, a produção florestal foi 5,25 vezes e 3,4 vezes maior que a produção agrícola respectivamente (Figura 4).

- 20.000 40.000 60.000 80.000 100.000 120.000 19 94 1995 1996 1997 9819 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 0720 2008 2009 2010 2011

Figura 4 – Série do valor (Mil reais) de produção agrícola e valor de produção florestal para o município de Poço das Antas

Fonte: elaborado pelo autor a partir de dados do IBGE/SIDRA

Somente esta análise de dados secundários já permite fazer algumas inferências sobre o município de Anta Gorda e de seus vizinhos. Podemos então concluir que a localização deste município e de seus vizinhos não é propícia para a produção de culturas agrícolas, o que é ratificado quando analisamos somente a produção agrícola e notamos que os maiores destaques neste município são a mandioca, o milho, a cana-de-açúcar e o feijão, sendo que a commodity mais produzida no RS, a soja, tem uma produção insignificante e foi produzida no ano de 2011 em apenas dois municípios que compõem a microrregião Montenegro. Isto é confirmado nas palavras do produtor A.M. do município de Brochier: “fora daqui

meus parentes plantam soja e milho, mas tudo a maquina, aqui é tudo na mão, um tempo atrás foi plantado soja, mas enjoamos, muito trabalho. Aqui é muito morro e muita pedra”.

Outro exemplo de atividade ligada a pequenos produtores rurais é a produção de leite, esta atividade gerou aproximadamente 29 milhões de reais em 2011 e não se configurou como a principal fonte de renda da Microrregião Montenegro. Diferentemente de municípios próximos à Microrregião como Estrela e Lajeado, que compõem a maior bacia leiteira do estado.

Notamos também nos dois gráficos anteriores (figuras 3 e 4) que o valor da produção florestal teve um aumento significativo a partir do ano 2000, isto se deve a

0 1000 2000 3000 4000 5000 6000 7000

dois fatores: o aumento da demanda em virtude da concorrência entre as duas grandes empresas e do aumento da influência delas neste ambiente; e a taxa de câmbio favorável neste período. Foi no ano de 1999 que a Empresa B começou a exportar cavaco para o Japão e passou a concorrer diretamente pela compra de MPF com a Empresa A, que já vinha exportando desde o ano de 1995.

Outro dado importante, e atesta a relevância do setor florestal para esta Microrregião, é o fato de que a maioria dos plantios florestais são controlados por pequenos produtores, de acordo com o IBGE a Microrregião de Montenegro apresenta 1998 propriedades rurais com plantios florestais de espécies exóticas, destes, 1673 tem área inferior a 20 ha, ou seja 83,9% (Tabela 1).

Tabela 1 – Número total de propriedades rurais e de propriedades com plantios florestais de espécies exóticas e relação entre o número de propriedades

Grupo de

áreas (ha) Número de propriedades rurais Número de propriedades com silvicultura Relação das propriedades com silvicultura por área (%) Propriedades com silvicultura em relação ao total (%) 0 a < 10 6866 1060 15,4 53,1 10 a < 20 2.932 616 21,0 30,8 20 a < 50 1.183 276 23,3 13,8 50 a < 100 133 31 23,3 1,6 >100 106 15 14,2 0,8 Total 11.220 1.998 17,8 100,0

Fonte: elaborado pelo autor a partir de dados do IBGE/SIDRA

Como descrito anteriormente, esta espécie florestal pode ser utilizada para diversos usos, porém, os mercados mais evidentes e que possibilitam um mapeamento completo são os mercados da casca, do carvão e da madeira para cavaco. Desta forma, as análises mais precisas deste estudo trataram destes submercados, mas será ainda considerado durante todo o trabalho o mercado da lenha para a energia, que apensar de ser um mercado muito grande se sombreia com a produção de lenha de eucalipto, tornando a análise imprecisa. Cabe destacar que além destes produtos já referidos, a acácia-negra ainda pode ser utilizada como matéria prima florestal (MPF) na indústria de chapas e painéis e na produção de celulose. Cada um destes produtos oriundos da acácia-negra poderia ser separado em mercados próprios, mas como objetivo deste trabalho é compreender o mercado

da acácia-negra iremos considerar estes mercados como subcampos de um mercado maior, o da acácia-negra.