2.2 Nova Sociologia Econômica
2.2.1 Teoria dos campos
Com a finalidade de indicar uma direção à pesquisa de um modo geral, Bourdieu propôs, inicialmente, como um método ou uma unidade de análise, a noção de campo. O autor entendia que a forma como vinham sendo realizados os trabalhos científicos recusavam a alternativa da interpretação interna e da explicação externa (BOURDIEU, 1989).
Ao desenvolver o conceito de campo, Bourdieu o fez por discordar da ideia de que as sociedades avançadas eram formadas por um cosmo unificado, sendo que o autor as via como entidades diferenciadas, parcialmente totalizadas, compostas por um conjunto de campos que, uma vez afastados uns dos outros, não se tornam por isso mais autoregulados, cada um com os seus dominantes e dominados (BOURDIEU; WACQUANT, 1992).
Dentro dessa noção, Bourdieu (2005a) afirma que o mundo social se estrutura em campos dotados de regras próprias de estruturação e funcionando com relativa autonomia, porém interdependentes. Estes campos possuem diferentes estruturas, estas influenciadas devido à forma hierarquizada e à localização dos agentes sociais em seu interior. Este posicionamento hierarquizado dos agentes sociais se dá a partir da distribuição desigual das diferentes formas de capital.
Assim, por entender o mercado como campo econômico estruturado onde muitos agentes disputam diferentes tipos capitais, se utilizará, neste trabalho, a abordagem proposta por Bourdieu.
Para o autor, o campo econômico é estruturado pelos agentes (no caso deste estudo, as empresas, os produtores florestais, os sindicatos, o Estado, etc.), pelo
volume e a estrutura do capital específico que possuem e pelo estado das forças que exercidas sobre o conjunto das empresas de um setor ou ramo. A força ligada a um agente depende dos distintos recursos que possui, estes podem ser entendidos como fatores diferenciais de sucesso e, portanto responsáveis por lhe assegurar alguma vantagem frente à concorrência, ou seja, mais precisamente do volume e da estrutura do capital que possui (BOURDIEU, 2005a).
O autor entende este capital nas diferentes formas: i) capital financeiro, atual ou potencial, é o domínio direto ou indireto de recursos financeiros que são a condição principal da acumulação e da conservação de todas as outras espécies de capital; ii) capital cultural (não entendido como “capital humano”) podendo especificar-se como outros tipos de capitais: capital tecnológico - é o portfólio de recursos científicos (potencial de pesquisa) ou técnicos diferenciais (procedimentos, atitudes, rotinas e competências únicas e coerentes, capazes de diminuir a despesa em mão de obra ou em capital, ou de aumentar o rendimento) susceptíveis de serem implementados na concepção e na fabricação dos produtos; capital jurídico e capital organizacional, incluindo o capital de informação e conhecimento sobre o campo; iii) capital comercial ou equipe de venda, deriva do controle de redes de distribuição (armazenagem e transporte) e de serviços de marketing e pós-venda; iv) capital simbólico, reside no controle de recursos simbólicos baseados sobre o conhecimento e o reconhecimento, como a imagem da marca, a fidelidade à marca, etc. este capital pode ser visto como poder que funciona como uma forma de crédito, ele supõe a confiança ou a crença dos que lhe estão submetidos porque estão dispostos a atribuir crédito; v) capital social2, é o conjunto dos recursos mobilizados através de uma rede mais ou menos extensa e de relações mobilizáveis que procura uma vantagem competitiva que assegurem rendimentos mais elevados dos investimentos (BOURDIEU, 2005b).
Entretanto, o posicionamento dos agentes sociais não é estático, mas sim dinâmico, dado que a interação entre eles no campo se configura pela disputa constante por um melhor posicionamento (BOURDIEU, 2001). Ainda, ele entende
2 Existem outras noções de capital social. Para Putnam (1993, pg. 167), capital social são
características da organização social como confiança, normas e redes, que melhoram a eficiência das sociedades, facilitando as ações coordenadas. Para Coleman (1988, pg. 98) capita social é uma variedade de entidades com dois elementos em comum: todas elas consistem de alguns aspectos das estruturas sociais, e certamente facilitam as ações dos atores dentro da estrutura. Como outras formas de capital, o capital social é produtivo, possibilitando a realização de certos fins que na sua ausência não seriam possíveis.
campo como um espaço em que ocorrem inúmeras relações, estas podem ser: entre os indivíduos; entre grupos e estruturas sociais. Para o autor, campo é um espaço dinâmico e com uma dinâmica que obedece suas leis, influenciadas sempre pelas disputas existentes em seu interior, sendo que, invariavelmente, o interesse em ser bem-sucedido nas relações estabelecidas entre os seus componentes é o esperado. Segundo Raud (2007), o campo é um subsistema social, ou um espaço estruturado de posições, onde os diferentes agentes que ocupam as diversas posições lutam, tendo em vista a apropriação do capital específico ao campo e/ou a redefinição desse capital. Como o capital está distribuído de maneira desigual no seio do campo, existem dominantes e dominados. Em termos grosseiros, o campo é o local em que as coisas acontecem em sociedade.
“Cada campo, ao se produzir, produz uma forma de interesse que, do ponto de vista de outro campo, pode parecer desinteressante (ou absurdo, falta de realismo, loucura, etc.)” (BOURDIEU, 1996). A noção a-histórica de interesse de muitos economistas é criticada por Bourdieu, lembra Swedberg (2003), outro ponto destacado, e que também recebe criticas, é o fato da economia generalizar a outras esferas sociais o interesse econômico.
Neil Fligstein (2001), em sua contribuição ao estudo de mercados, afirma que eles se estabilizam por meio do balanço de poder entre empresas, comunidades locais, trabalhadores e governo em um dado campo, por meio da formação de direitos de propriedade, estruturas de governança, concepções de controle e regras de troca.
Para Bourdieu (2005a), esta sua teoria de campos apresenta uma vantagem para a análise em relação a outras teorias sociológicas, especialmente as convencionais, uma vez que oferece uma visão de como as estruturas locais são criadas, sustentadas e transformadas. A criação ou transformação das instituições3 é resultado da influência mútua entre atores disputando em campos. Do ponto de vista do autor, disputas de forças envolvem a capacidade de algumas lideranças organizarem os campos, designarem as histórias que dão união ao grupo; resumidamente, estes agentes estabelecem as condições de sua dominação.
3 As instituições compreendem regras formais, limitações informais e os mecanismos responsáveis
pela eficácia desses dois tipos de normas. Resumidamente, constituem o arcabouço imposto pelo ser humano e o seu relacionamento com os outros (NORTH, 2006).
O campo de forças é também um campo de lutas destinadas a conservar o
status quo ou a transformar o campo de forças, um campo de ação socialmente
construído onde se afrontam agentes dotados de recursos diferentes (BOURDIEU, 2005). A manutenção ou transformação de um campo está ligada diretamente à posição que os agentes ocupam e à distribuição do capital dentro do campo. Muitas das ações e das estratégias dos agentes são também limitadas pela sua posição na estrutura do campo.
No campo econômico, segundo o autor, é deixada uma parte da liberdade para jogo, e ela é provavelmente maior do que em outros campos, devido ao grau particularmente elevado em que, para além mesmo da teoria econômica, ela é utilizada, sobretudo como instrumento de legitimação. Os meios e os fins da ação, portanto, as estratégias, são explicitados notadamente sob a forma denominada por Bourdieu de “teorias leigas” da ação estratégica (management), expressamente produzidas com vistas a auxiliar os agentes e, em particular, os dirigentes, nas suas decisões, e explicitamente ensinadas nas escolas onde se formam estes dirigentes (BOURDIEU, 2005a). Como vimos, entende-se a noção de campo como um espaço de lutas, de subversões e um espaço em que dominantes e dominados, de acordo com forças diferentes e segundo as regras constitutivas desse espaço, disputam a posse de lucros específicos (ARAÚJO, 2009).
Todas estas características da teoria de campos de Bourdieu a habilitam para o estudo proposto, pois entende-se o mercado como um campo de disputas, da mesma forma que Fligstein (2001). Mas para estudarmos a estrutura de um determinado campo devemos conhecer de que forma os agentes se portam dentro deste campo, por isso é que se discutirá, na sequência, o papel do Estado e do
habitus como reguladores/estruturantes do ambiente.