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5.2 Representações sociais e normas sociais: Uma proposta de integração

5.2.1 Aspeto temporal: De formais a informais e vice-versa

Como já foi dito, os estágios da mudança social normativa, ou seja, a mudança que é estimulada por leis (Castro & Mouro, 2011; Castro, 2012) são indicativos dos diferentes momentos por que atravessam os novos objetos sociais quando surgem no debate público e se tornam objeto de novas leis que regulam o espaço público. Portanto, podemos observar a existência de representações sociais com características diferentes para cada um dos momentos das mudanças normativas. As mudanças sociais são frequentemente desencadeadas pela emergência de um problema questão que estimula o debate social (Castro & Mouro, 2011; Castro, 2012). As sociedades modernas lidam

com os problemas que emergem do debate social através da sua institucionalização, o que implica a criação de organizações estatais ou não-governamentais relacionadas ao tema, leis, regulamentos, e afins. Mas estas mudanças formais só alteram os comportamentos de forma abrangente quando são generalizadas através dos diferentes contextos de ação social (Castro & Mouro, 2011; Castro, 2012). O estágio de estabilização seria alcançado quando a mudança normativa é alcançada nos diferentes contextos da sociedade (Castro, 2012). Representações com diferentes características podem emergir em cada uma destas fases da mudança social normativa. Neste trabalho, explorarei especificadamente representações que surgem em dois momentos: aquelas que acompanham as leis, na fase de Institucionalização, e aquelas que surgem durante a fase de Generalização.

Nestas duas fases, as representações sociais mantém relações específicas com a prática social (Harré, 1998). Aquelas representações que podem existir independentemente da prática social a que se referem (ex.: regras de conduta ou guias de instrução, ou leis sobre o que deve ser avançado) são classificadas como representações transcendentes (Harré, 1998). As representações transcendentes incluem situações em que se segue uma regra, pois os guias ou restrições às ações são exteriores ao comportamento (Castro & Batel, 2008). “Following a rule is typified by the sort of thing one does when there is a written instruction; one reads the instruction and then does what it says” (Harré, 2002, p. 116, itálicos adicionados). As representações transcendentes são portanto independentes dos comportamentos, uma vez que existem enquanto ideal, ou regra para a consecução de ações que podem, até mesmo, nunca chegar a se concretizar.

Já as representações que não podem ser alienáveis do comportamento social a que se referem são chamadas de representações imanentes. É o que Harré (2002) chama “acting in accordance with a rule” (p. 115), pois não se conhece exatamente a regra que guia um determinado comportamento até o executarmos. “Acting according to a rule is typified by the sort of thing one does when driving cars, playing musical instruments and so on, correctly, that is in accord with some usually publicly acknowledged standard” (Harré, 2002, p. 116). Portanto, para Harré (1998, 2002) as representações imanentes só fazem sentido a partir de ações concretas, enquanto as representações transcendentes podem conter elementos mais abstratos. Neste sentido, considera-se que as representações que circulam no primeiro momento da institucionalização das normas

generalização destas mudanças, gradualmente se tornariam imanentes (ver Castro & Batel, 2008).

Além das relações com as práticas, as representações circulantes nestes dois momentos pertencem a universos de conhecimento distintos. Como vimos no Capítulo 2, Moscovici (1976) propõe a existência de dois universos, um reificado – onde regras e padrões são concebidos de maneira mais formal, abstrata e conceptual – e um universo consensual – onde o conhecimento é concretamente vivido pelas pessoas no seu dia-a- dia. Portanto os dois tipos de representação circulantes nas fases de institucionalização e de generalização pertenceriam a diferentes universos: o primeiro a um universo reificado e o segundo a um universo consensual.

Neste sentido, quando as novas ideias são propostas enquanto leis e regulamentações ao grande público, elas deixam o universo reificado para gradualmente entrar no consensual, onde dão origem a representações transcendentes. Num segundo momento, as mudanças propostas pelas novas leis vão sendo cimentadas no tecido social, que acomoda as novas ideias por elas propostas no seu universo consensual. No universo consensual, estas ideias dão origem, com o passar do tempo, a representações imanentes, dentro das quais normas informais são especialmente ativas. Claro que com o passar do tempo, estas normas informais podem também mudar e estimular o surgimento de novas normas formais, num movimento reverso do tipo bottom-up (Jensen & Wagoner, 2009).

Portanto, tipos diferentes de representações sociais podem ser associados a momentos específicos da mudança social normativa. Um primeiro tipo de representação circularia dentro de um universo reificado, entre especialistas e através de canais formais de disseminação (Batel & Castro, 2009; Moscovici, 1961). Através de instituições formais, tais como associações científicas e departamentos de universidades, as sociedades ocidentais modernas supõem que o conhecimento que circula dentro deste universo é ‘superior’ àquele que circula entre os ‘homens da rua’ (Batel & Castro, 2009). Ao nível da sua conceção, as normas formais fazem parte de um universo reificado, bastante mais distantes e abstratas para o cidadão que as normas informais (Fernández-Dols, 2012), parte do universo consensual. No caso das leis, é através destas normas formais que o Estado assume o papel de regulação do comportamento dos membros de uma comunidade, desempenhado no passado pelas famílias, vizinhos ou pela igreja (Posner, 2002).

Quando a mudança social está em vias de Generalização, este conhecimento passaria então a circular entre o público leigo através de canais de disseminação, como por exemplo os media (Bauer & Gaskell, 1999, 2008). Passa assim a integrar também o universo consensual, informal, onde as normas que regulam os comportamentos são informais, emergentes de rotinas ou comportamentos (Harré, 1998). Um exemplo clássico de representações circulantes no universo consensual, são as representações sociais da loucura que Jodelet (1989) encontrou entre os residentes de Ainay-le- Château. Embora os residentes desta comunidade psiquiátrica demonstrassem bons conhecimentos sobre a maneira correta de tratar os ‘lunáticos’ residentes na comunidade (normas formais originadas no universo reificado), foi apenas a partir da observação direta das suas práticas de segregação quotidianas que Jodelet (1989) pode identificar o paradoxo entre os seus comportamentos e as normas formais que orientam o seu discurso sobre esta mesma prática.

Mas nem todas as mudanças sociais têm origem no universo reificado. As mudanças do tipo bottom-up têm origem no universo consensual, e podem alterar as normas formais para versões que sejam mais adequadas a um determinado período na história (Castro & Batel, 2008; Fernández-Dols, 2012; Jensen & Wagoner, 2009). Os exemplos destas mudanças sociais que começam por alterar os hábitos e normas informais para alterar as leis num segundo momento incluem o casamento gay, o desaparecimento do sistema de dote, entre outros. Desta forma, podemos observar que as mudanças que têm origem no universo consensual operam inicialmente através de modificações das normas informais. Posteriormente, estas mudanças são formalizadas através de normas formais ou leis que validam estas mudanças ao nível institucional (Castro, 2012). Este tipo de mudanças social, iniciada no universo consensual, demonstra a importância da dinâmica entre os grupos sociais que compõem a estrutura social tanto para a confirmação quanto para a subversão da ordem social (Harré, 2002): “people are the effective agents who are creating the social world, creating social structures in accordance with the rules and conventions that have come to them historically, and, for the most part, are immanent in social practices” (p. 119).

Portanto como vimos, a mudança social pode percorrer os dois sentidos entre os universos reificado e consensual (Jensen & Wagoner, 2009). Nesta tese serão investigadas especificamente as mudanças sociais do tipo top-down, onde representações com características transcendentes, envolvendo normas formais, e

representações com características imanentes, contendo normas informais, e que circulam num universo reificado. Dois diferentes tipos de representação podem portanto ser observados no curso da mudança social. Mas a mudança social não acontece unicamente em função da passagem do tempo. A qualidade da relação dos grupos onde as representações circulam pode também ser determinante para acelerar ou dificultar a mudança social. Passamos então a analisar como é que a forma como se relacionam os diferentes grupos envolvidos nestas mudanças contribui (ou não) para que elas se concretizem.

5.2.2 Aspeto consensual: Normas nas representações hegemónicas, polémicas e