• Nenhum resultado encontrado

MEMÓRIA: BASES CONCEPTUAIS E METODOLÓGICA

1.2. Contributos da psicologia

1.2.2. Aspetos funcionais da memória

Num segundo momento, ao contrário dos modelos estruturais, surge o enfoque teórico nos aspetos funcionais da memória. Entre estas aproximações destacam-se o Modelo dos Níveis de Processamento de Fergus Craik e Robert Lockhart e o Modelo da Memória Operativa de Baddeley e Hitch, que surgiram em 1972 e 1974, respetivamente (in Andrade et al., 2004).

Craik e Lockhart (1975), propõem um modelo mais ambicioso que sugere que níveis mais profundos (mais elaborados) de processamento de informações produzem uma retenção mais eficiente do que níveis de processamento mais superficiais.. Para estes autores a memória não compreenderia um número específico de estruturas separadas, como até então apresentadas, mas um número infinito de “Níveis de Tratamento” (Levels of Processing). Ou seja, o armazenamento das informações captadas seria disposto ao longo

de uma dimensão contínua, em função da profundidade da codificação, isto é, quanto mais superficial a codificação, mais rapidamente a informação poderia ser esquecida e quanto mais profundo o nível de tratamento utilizado, mais alta a probabilidade de que o item possa ser recuperado (Tulving & Craik, 2000). Acreditam que a capacidade de recordar está relacionada com a profundidade com que processamos a informação. Quanto mais profundo é o processamento mais tempo a informação permanece na nossa memória. A profundidade do processamento de informações é interpretada em termos de significado: iniciam-se pelas características físicas dos estímulos (nível mais superficial), passam pelos componentes verbais e acústicos, chegando ao nível semântico (nível mais profundo) (Tulving & Craik, 2000). À medida que passa pelos diferentes níveis vai estabelecendo mais e mais ligações com outros elementos da memória. Esta teoria enfoca que os processos da atenção e perceção são determinantes para que a informação fique armazenada na memória a longo termo.

O modelo dos níveis de processamento desenvolve conceitos já presentes nos Modelos de Armazenamento, particularmente no que se refere à explicação da passagem de informação na memória de curto prazo para a memória de longo prazo.

Nos anos setenta Endel Tulving (1972), propõe a distinção entre Memória Semântica e Memória Episódica baseado na hipótese de que poderiam existir sistemas diferenciados para organizar e armazenar a informação, de acordo com a existência ou não de um referencial de tempo. Sendo que a Memória Semântica diz respeito ao conhecimento geral que possuímos sobre o mundo que nos rodeia, incluindo o significado das palavras e dos conceitos, ou seja, capacita o indivíduo a adquirir conhecimento factual do mundo, o conhecimento impessoal de factos relevantes e representa o armazenamento deste conhecimento geral relacionado com o significado das palavras e dos conceitos. Por outro lado a Memória Episódica refere-se à recordação de experiências pessoais, enriquecidas por detalhes contextuais, ou seja, refere-se ao armazenamento de acontecimentos pessoais ocorridos num lugar e num tempo particulares (Tulving, 1972). Mais tarde, nos finais dos anos oitenta Tulving vem referenciar a existência da Memória Procedimental como uma terceira categoria do seu Modelo de Memória. Enquanto a Memória Episódica e a Memória Semântica vão focalizar a informação factual, a Memória Procedimental envolve o sujeito no processo de aprendizagem de determinado facto ou no de aprender conexões entre estímulos e respostas. Entre alguns exemplos que se podem incluir na memória procedimental estão o andar de bicicleta ou ligar o carro e colocá-lo na marcha atrás. Tulving (1989) supõe que além de existirem muitas semelhanças básicas entre a

recordação e o reconhecimento, os fatores contextuais também são importantes e o que é armazenado na memória representa uma combinação de informações originárias do material a ser lembrado e do contexto. Isso significa que a memória depende tanto da informação dentro do traço de memória advindo do processo de aprendizagem, quanto da informação disponível no meio ambiente. O autor mostrou que em algumas situações a informação ensaiada frequentemente não era mais recordada que uma informação não ensaiada. O Modelo de Tulving foca a dependência da memória tanto da natureza do traço da memória quanto das informações do meio ambiente. Apesar dos muitos seguidores das suas propostas é o próprio autor que, mais tarde, vem afirmar que não é óbvio que memória semântica e episódica sejam dois sistemas distintos. (Tulving, 1989).

Em paralelo aos trabalhos de Tulving também Alan Baddeley e Graham Hitch, no inicio da década de setenta, trazem novas propostas com a ampliação do conceito de memória a curto prazo, desenvolvendo o conceito de Memória Operativa. Segundo os autores esta memória é capaz de manter ativadas diferentes informações pelo tempo necessário para a execução de uma tarefa complexa; é considerada um sistema complexo, que cumpre funções de controlo do processamento e do armazenamento de informações, durante a realização de atividades cognitivas como a aprendizagem, a compreensão e o raciocínio (Baddeley & Hitch, 1974; 1994). Estes autores (1994) propuseram que a memória de curto-prazo não constitui apenas uma instância de armazenagem temporária de informação, mas sim uma memória de trabalho. Toda e qualquer tarefa cognitiva envolve o processamento de informação proveniente do ambiente ou da própria memória do indivíduo e o lugar, onde esse processamento ocorre, é, exatamente, a Memória de trabalho, como reformulação da Memória Operativa. A memória de curto-prazo passou, assim, a ser concebida não apenas como um armazenador temporário de informação, mas como um sistema para manter e operar com informações, durante a execução de tarefas cognitivas como, por exemplo, compreensão da fala, aprendizagem e raciocínio: uma memória de trabalho.

Em meados dos anos noventa Baddeley juntamente com outros psicólogos cognitivos e baseados nos conhecimentos anteriores propõe uma perspetiva alternativa relacionada com a memória, cujo aspeto-chave é o conceito de “Memória de Trabalho”, definido como parte da Memória de Curto Prazo (MCP). Sem a substituir mas fazendo parte integrante dela, abrange também a Memória de Longo Prazo (MLP) (Sternberg, 2000). No fim dos anos noventa Baddeley reapreciou as suas pesquisas dando-lhe mais

enfâse e colocando a tónica na Memória de Trabalho, sugerindo um modelo interativo entre estes conceitos ( MCP e MLP). Esta nova perspetiva é aceite e utilizada até hoje. Nela, a memória é considerada um sistema tão complexo que se decompõe em outros sistemas, cada um com seus aspetos singulares, mas não totalmente independentes, estando em constante interação. Podemos dizer que uma grande parte daquilo que hoje compreendemos da memória de trabalho deve-se ao trabalho pioneiro de Baddeley.

Contudo, outras pesquisas vieram contribuir para o aprofundamento do conhecimento sobre os aspetos funcionais da memória. George Mandler (1980), por exemplo, veio defender novos conceitos. Para este autor a memória de reconhecimento pode envolver dois processos distintos: familiaridade e a identificação. A familiaridade é determinada pela quantidade de organização entra item, o que por sua vez depende do grau de integração dos elementos sensoriais e percetuais do estímulo. Se o nível de familiaridade do estímulo for alto, o sujeito decide rapidamente que reconhece o estímulo; se o nível de familiaridade for baixo, é tomada uma decisão rápida de que o estímulo não é um item a ser lembrado. Já o mecanismo de identificação, que envolve um processo de recuperação, é utilizado se o nível de familiaridade for intermediário, de forma que uma decisão correta não possa ser feita baseada simplesmente na familiaridade do estímulo. Segundo o autor a identificação pela recuperação vai utilizar a memória de longo prazo para recuperar as informações contextuais relevantes sobre o estímulo. Por exemplo, para recuperar a informação se uma pessoa usava calças ou macacão, pode-se utilizar a informação contextual de que a roupa tinha somente uma cor, era azul, identificando assim macacão como a informação correta, ao invés de calça e blusa. Essencialmente, nesse modelo, a memória de trabalho não é tanto uma componente separada mas parte de um conhecimento declarativo, permanente ou temporário, que está num estado ativo. Para o autor, os processos de codificação resultam na colocação de informação na memória de trabalho e os processos de desempenho traduzem os comandos que estão na memória de trabalho em comportamento. A informação pode ser armazenada ou recuperada a partir da memória declarativa por meio de vários métodos. Quando as regras ou produções da memória de produção são equivalentes aos métodos da memória de trabalho, eles são aplicados ou executados. Mas a memória de produção também pode ser aplicada a si própria por processos de aplicação, ou seja, novas produções podem ser aprendidas ao examinar as produções existentes. O ajuste destas produções é espelhado nas alterações comportamentais que resultam dos efeitos do treino, em que, mesmo que se esteja

adquirindo pouco conhecimento novo, aumenta cada vez mais a velocidade do desempenho de uma tarefa.

Como esse modelo se apropria da teoria de rede semântica, os conceitos são armazenados em vários nós no interior da rede. Esses nós podem estar ativos ou inativos em um dado momento. Um nó ativo é o que está de certo modo, ligado. Um nó pode ser ativado diretamente por estímulos externos (por exemplo, sensações) ou por estímulos internos (por exemplo, recordações ou processos de pensamento), ou pode ser ativado indiretamente, pela atividade de um ou mais nós vizinhos. É neste sentido que mais tarde Valerie Reyna e Charles Brainerd (Reyna e Brainerd, 1998), propõem uma teoria que ficou conhecida como Modelo do Traço Difuso, que concebe a memória como dois sistemas interdependentes e em paralelo: a memória literal e a memória da essência (Reyna e Brainerd, 1998). Defendem estes autores que a memória não é unitária, ou seja, representações literais e da essência da mesma experiência, são codificadas em paralelo e armazenadas em separado A memória literal representa os detalhes superficiais e específicos da experiência. Já a memória da essência representa o sentido, os padrões e significados da experiência vivenciada. Os sujeitos, de um modo geral, preferem resolver problemas trabalhando com a essência, ou seja, o significado das informações, antes de executar computações ou operações lógico matemáticas baseadas em informações específicas e detalhadas. De acordo com esta teoria o intuitivo - o não deliberado - é a base do raciocínio (Reyna & Brainerd, 1998). Sobre esta teoria retomaremos mais tarde com a explanação sobre as falsas memórias.

Muitos outros estudiosos contribuíram também com importantes considerações. Contudo, e de forma a não tornarmos esta abordagem demasiado exaustiva, iremos abordar, para além das principais considerações teóricas já explanadas anteriormente, a explicação da memória através da sua função esquecimento.